. AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 10 set. 1906, p.2. - Egba

AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 10 set. 1906, p.2.

De Egba

Ex-professor de modelo vivo da Escola Nacional de Belas Artes, Modesto Brocos, tinha por dever expor ao público trabalhos de mais alto valor dos que ora expõe. A sua farta bagagem de artista nos autoriza a dizer assim, porque as suas telas expostas, salvo a Mater Dolorosa, já antiga, desagradam muito em todos os pontos.

O artista escolheu para assunto de sua marinha a clássica praia de Icaraí, com a competente pedra de Itapuca e belezas adjacentes.

Era de esperar que, aproveitando um assunto explorado e gasto, como esse da pitoresca praia, o artista procurasse efeitos mais soberbos e desse um cunho novo; mas tal não aparece na sua tela sem vida, sem ar, com o jogo da água completamente duro, sem impressões suaves, sem toques reais.

O seu Retrato é também frio, sem vida, descurado, denotando que o autor não se dedicou, como devia; a prova de seu abandono na recente exposição está na água-forte, retrato do Dr. Seabra, que fica longe, mesmo muito longe dos desenhos das suas celebres e artísticas águas-fortes, que com tanta perícia tem cultivado.

Não se moleste ao artista com estas franquezas; mas força é convir que os seus trabalhos este ano retrogradaram, evidenciando que houve descuido, ou abandono de sua parte.

Mater dolorosa aí está para mostrar o valor do artista; a diferença aí, notável; a tela vê-se que já está com a marca do tempo, o que indica não ter sido quadro feito recentemente, e daí talvez o cuidado, a fatura perfeita, a expressão sincera daquela fisionomia angustiada. Nessa o autor empregou todos os seus dotes e oxalá que fizesse o mesmo nos demais trabalhos.

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De Columbano Bordallo Pinheiro há no salão duas pequenas telas, já nossas conhecidas, da galeria Rembrandt. São duas pequenas cabeças de estudo, larga e magistralmente manchadas, naquele estilo especial que caracteriza prontamente a obra de Columbano.

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Discípula de Aman Jean, D. Diana Dampt, née Diana Cid, expõe este ano duas telas.

Nelas descarta-se completamente do estilo do mestre, e o seu quadro As duas irmãs mostram [sic] grandes progressos adquiridos na pintura. A preocupação, porém, de originalidade, leva a autora às vezes mais longe do que a própria esquisitice de seu mestre, detestável no retrato. Não conhecemos maior extravagância do que a sua tela O banho, onde em fundo dourado, liso de caiação, uma dama com um lençol duro a valer ladeia outra dama nua, com os braços em cruz, de forma tal, que chega a confundir os cotovelos com os próprios seios, dando a impressão má que todos sentem na contemplação desse trabalho.

Liberte-se a autora desses pequenos senões, procure ser verdadeira no pincel, deixe o mestre de lado, e dirá depois se andamos mal avisados.

Bueno Amador.

A exposição foi ontem muito visitada, continuando aberta todos os dias, das 10 às 3 horas da tarde.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

AMADOR, Bueno. BELAS ARTES. O SALÃO DE 1906. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 10 set. 1906, p.2.

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