. AMADOR, Bueno. BELAS-ARTES. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 set. 1912, p.5. - Egba

AMADOR, Bueno. BELAS-ARTES. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 set. 1912, p.5.

De Egba

O SALÃO DE 1912. - Inegável é que o Salão apresenta um pouco mais de vigor do que nos anos anteriores. Sente-se ali que houve trabalho, tenacidade, entusiasmo até, pois há quadros que não representam as clássicas manchas e os ultra clássicos estudos que nunca deviam sair dos “ateliers”; trabalhos ali figuram indicando que houve porfia, pertinácia e principalmente o justo desejo de progredir, principalmente da parte dos novos.

Pena é que a imaginação não apareça; os assuntos, afora a parte do naturalismo, são de trivial pobreza, que já está clássica em matéria de artes plásticas. O recurso é sempre a rotineira monotonia da repetição de casos históricos ou mitológicos, já soterrados pela frequência como as Salomés e quejandos assuntos a que a falta de imaginação ou a preguiça conceptiva dos artistas recorre nos momentos de pressa, somente pelo desejo de produzir alguma coisa, seja o que for. Há também na atual exposição a parte não desconhecida, quadros já vistos e revistos em várias exposições parciais; essas telas, na maioria apreciáveis e dignas de referencias incondicionalmente elogiosas, não deveriam figurar em uma exposição de trabalhos novos. Como se explica o Salão de 1912 com quadros e esculturas já expostas em 1903, por exemplo?

Sente-se nisso o desejo da comissão e de alguns artistas de encher os vazios do salão e encher bem, porque se tais quadros são já conhecidos dos entendedores, a maioria do público poderá apreciá-los agora e fazer melhor juízo de muitos dos autores que fora desses trabalhos anteriores, não expõem coisa nova que se veja.

Dos novos falaremos com vagar e com mais ponderação, pois tratamos com os coroados de amanhã. Sente-se que muitos deles estão prejudicados pela pretendida crítica elogiosa e barateadora que os leva logo a culminância da perfeição de modo a encher de vento muitos e muitos que já se julgam senhores da palheta e do escopro, quando, entretanto, ainda têm de voltar ao desenho, ao desenho primeiro ao a b c da arte plástica, que é o mais característico sinal de probidade do artista consciencioso, segundo a frase célebre de Ingrés [sic]. Há entre os novos algumas revelações seguras que, certo, com o estudo frequente, alcançarão o fim desejado, e podemos citar entre eles, sem receio de contestação, J. Bordon, com as suas paisagens muito sentidas e vividas; Navarro da Costa, que se especializa com segurança no gênero ingrato da marinha; J. Bruno [sic], com seu estilo já caracterizado na originalidade das composições; Sylvia Meyer, que tem dado provas de estudo consciencioso e seguro; Fanzeres, com algumas revelações luminosas da sua palheta original; Caplonch, um tanto audaz mas persistente e bem intencionado dando com felicidade a segurança dos tons e Arnaldo de Carvalho, sóbrio e seguro, mostrando as vitórias que alcança à custa do talento e de dedicação.

Analisaremos em resenhas simples os trabalhos atualmente expostos, certos de que as nossas referências mais ditadas pela observação de longo tempo do que pela competência, serão lidas antes como notas de exposição ou de descrição com o impressionismo pessoal sem pretensões.

Bueno Amador.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

AMADOR, Bueno. BELAS-ARTES. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 set. 1912, p.5.

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