. AMADOR, Bueno. BELAS-ARTES. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 set. 1911, p.4. - Egba

AMADOR, Bueno. BELAS-ARTES. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 set. 1911, p.4.

De Egba

O SALÃO DE 1911. - A denominação clássica de salão parece-nos imprópria este ano, caberia melhor o título de salinha ou saleta, diante da exiguidade e do pequeno número de expositores de merecimento que ali se apresentam.

Sente-se uma desolação e um abandono por todo aquele ambiente silencioso e frio: imensas e altíssimas paredes mostram na barra uma fila modesta de telas, as esculturas quase desaparecem naquele recinto cheio de vazio; quando se entra, ao vencer o último degrau da escada, ao passar o terraço onde definham seis ou oito palmeiras encafuadas em latas e tinas carunchosas, parece que se vai penetrar em um sítio histórico, vetusto de coisas fanadas... Uma tristeza imensa em todo o casarão inacabado...

Por que cargas d’água os governos deste país não tomam a sério as coisas de arte? Se as autoridades cuidassem deveras da cultura moral e intelectual desta terra, certo não deixaria à matroca a exposição geral de belas artes, que é sempre organizada com grandes sacrifícios das comissões nomeadas que têm de armar o salão quase sempre à sua custa, pois de fonte oficial só há a imposição da abertura do certame sem mais nada...

Os artistas, ainda esperançados, procuram levar avante a empresa, sacrificando-se muitas vezes sem resultado algum. O elemento oficial comparece grave e solene, corre as salas (quando há mais de uma...) para rápido aqui, salta rápido para outro ponto e depois safa-se grave e solene como entrou, sem mais um movimento de iniciativa... E os trabalhos de arte lá ficam, à espera que um esporádico Mecenas amador dê o exemplo que as autoridades não deram.

O resultado entristecedor é o ablativo quase completo dos nossos artistas consagrados; não de vê quase um trabalho dos artistas de verdade, salvo o de um ou outro que se acha preso à vida diária da docência da escola. Apreciar se [sic] ali uma tela de Visconti, outra de João Baptista, uma escultura de Corrêa Lima, alguns quadros promissores dos novos, uma ou outra composição aceitável de amador, e está visto o salão.

É sensível a ausência da maioria dos nossos pintores: desânimo? indiferença? desilusão?... ninguém sabe. Melhor aspecto e mais efeito produziu a exposição do Centro Artístico Juventas recentemente organizada: se não apresentou obras-primas no gênero, deu belas provas de dedicação e trabalho animador; ali um dos novos, que é Galdino Bicho, apresentou-se melhor do que no salão.

Dos trabalhos expostos destacam-se logo as soberbas paisagens de João Baptista da Costa, que dia a dia mais se eleva no gênero dificílimo da paisagem brasileira, de cujo verde característico poucos, bem poucos, alcançaram o segredo. João Baptista apresenta mais uma vez um punhado de vitórias, dando primores vivos de nossa natureza privilegiada: não é somente a flagrante fidelidade aliada à verdade da cor e da graciosa perspectiva, o que caracteriza a maneira do apreciado pintor; seus trabalhos possuem todos um encanto poético um ambiente inspirador, a sublime tranquilidade das águas espelhentas emolduradas pela vegetação farta e pródiga; encantam e prendem, seduzem e enlevam essas preciosas telas do artista patrício; o seu estilo e o seu sentimento refletem-se nos trabalhos de seus discípulos, que no salão se apresentam com visíveis provas de aproveitamento e, - para que negar? - com palpáveis provas da colaboração de mestre, que em todas as telas dos seus alunos mostra passagens seguras do seu pincel a esconder com a sua maneira e o seu estilo os naturais defeitos dos que começam agora a aparecer. O mesmo acontece com um belo busto executado por uma discípula de Correia Lima; sentem-se à grande distância a mão e o estilo do mestre escultor, que certamente deu alma e vida a esse pedaço de bronze que da discípula tem apenas o nome gravado à margem... Com isso não queremos atirar os discípulos dos mestres ao demérito: pretendemos ants [sic] mostrar que para eles ainda muito falta e pequenas provas que apresentam não poderão servir de medida de adiantamento enquanto a mão vacilante for guiada ou substituída pela mão segura dos seus mestres. Na exposição há muitos trabalhos assim.

Continuaremos as nossas impressões que embora desautorizadas, não deixarão o cunho de sinceridade que as preside: estas e outras muitas verdades, que serão ditas, não poderão molestar, porque visam o benefício próprio dos que se iniciam sob a direção dos nossos melhores artistas.

Bueno Amador.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

AMADOR, Bueno. BELAS-ARTES. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 4 set. 1911, p.4.

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