. AMADOR, Bueno. BELAS-ARTES. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1 set. 1912, p.6. - Egba

AMADOR, Bueno. BELAS-ARTES. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1 set. 1912, p.6.

De Egba

O salão de 1912 - A lei de imitação que se alastra poderosamente em todos os campos da atividade, introduziu o sistema do “vernissage” um dia antes da inauguração oficial das exposições de belas artes.

Ontem realizou-se a cerimônia do “vernissage” preparatório da abertura da exposição geral do corrente ano.

A hora em que entramos, passadas as grandes, as largas, as nuas galerias do casarão que esconde nos porões as riquezas da pinacoteca nacional e expõe somente as coisas em gesso sujo que atropelam meia dúzia de nichos encontramos uns quatro ou cinco varredores que limpavam a escada que dá acesso ao salão da exposição, no segundo pavimento.

Aí, entre guirlandas e festões de folhas de mangueira, embora chovesse como na rua, em alguns pontos, a concorrência era grande: vimos ali pintores, escultores, músicos, poetas, prosadores, amadores, medalhões e curiosos, aqui e ali, encarapitado em uma escada encontrava-se um expositor a dar a última de mão ao verniz de seu quadro, havia ainda a lufa-lufa da organização geral, o artista Mario Navarro da Costa andava de um lado para outro com uma palagana [sic] é uma brocha, a fornecer verniz a alguns colegas esquecidos, esgotando assim a sua provisão.

O conjunto da exposição revelou melhor escolha por parte do júri e mais força em matéria de pintura. Quadros há que, embora mereçam referências elogiosas, não têm o inédito para surpreender o visitante; são os que já figuraram em exposições singulares ou em agremiações especiais.

Há muito que ver este ano: o salão apresenta-se cheio, expurgado felizmente da “quitanda” que a condescendência dos júris anteriores fazia entrar, enchendo as paredes de jabuticabas, bananas e grumixamas; há muito que ver e muito que elogiar a escultura apresenta-se mais forte; a escultura dá um fraco contingente e a parte mais numerosa é a pintura, numerosíssima, até.

Dos antigos, dos já consagrados alguns se apresentam com direito a justos louvores outros nem por isso [...] Dos novos, das promessas, dos que explodem agora para a vida da arte, alguns há que mostram o empenho vivo do progresso e da conquista [...] do prêmio de viagem, e esse empenho é em grande parte justificado pelas provas de esforço e de tenacidade como revelam os quadros de Bordon, de Bruno [Pedro Bruno], de Navarro da Costa e de Caplonch.

Outros há dos novos que apresentam o progresso de que nos falava espirituosamente o finado Paula Ney: - o progresso da cauda do cavalo, que é sempre para baixo...

Entre os entendidos e os amadores passavam senhoras e senhoritas, dando uma nota […] naquele ambiente pejado de quadros de gesso e de sobretudos.

O professor Visconti multiplicava-se a dar as últimas ordens de organização, lastimando que se exibisse um quadro, um quadrinho, em um canto, uma tela desmedidamente lambida com uma figura roliça, polida e mais envernizada do que um cromo de carregação...

A impressão geral era de agrado. E agradou. A exposição atual é melhor do que as desses seis anos mais chegados. Saímos depois de hora e meia, de vistoria e cavaqueação, passamos de novo pelas galerias nuas e desertas, tropeçamos na falange de gessos atropelos, em uma delas, cumprimentamos o porteiro e tiramos respeitosamente o chapéu ao esboço em bronze do monumento de Pedro I que afinal apareceu à entrada, com toda a sua nobreza de execução e como um símbolo talvez para os artistas de coragem nesta terra de apatia. O bronze de Rochet ali está agora a dizer que nessas coisas de arte, tudo se resume no grito do nosso primeiro imperador: “Independência ou morte”.

Fora do palácio de vazio e de silencio chovia a potes, mas a frieza do dia não influiu na […] do “vernissage”.

Há muito que dizer e que contar sobre a exposição. Isso irá por partes com vagar.

Hoje realiza-se a inauguração oficial com a assistência das autoridades e de amanhã em diante o público poderá apreciar conosco o que nos deram alguns artistas no período decorrido de trezentos e sessenta e cinco dias.

Bueno Amador.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

AMADOR, Bueno. BELAS-ARTES. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 1 set. 1912, p.6.

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