. AMADOR, Bueno. BELAS-ARTES. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 16 out. 1908, p.4. - Egba

AMADOR, Bueno. BELAS-ARTES. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 16 out. 1908, p.4.

De Egba

O Salão de 1908 - Escola Nacional de Belas Artes - Ultimando as nossas impressões sobre o salão deste ano, temos a registrar o agrado e o aplauso que inspiram as “Flores frescas” de Weingartner, o melhor trabalho seu; as telas de D. Regina Veiga, que bem aproveita as lições do mestre; os “Abios” de A. Petit; a “Mesa da cozinha”, de D. Maria Luiza Pompeu de Camargo; as telas de Eugenio Latour, exceção feita da “Soror materna”, ideia soberba, mas pobremente executada, com alguns descuidos de perspectiva; os trabalhos do pintor Helsby, um chileno muito original; a tela “De volta” de Augusto Luiz de Freitas, tocada com muita propriedade; as aguarelas de D. Anna [Anna Cunha Vasco] e D. Maria Cunha Vasco, executadas com largueza de tons e segurança de coloridos; “Meditando”, de D. Carlota Laboriau, suave e delicada; “Mimosa”, estudo razoável de Coelho de Magalhães; um “perfil” aceitável, de Dona Beatriz Pompeu de Camargo e a tela “Maternidade”, de Elyseu Visconti, para nós o melhor trabalho seu em exposição. O artista apresenta grande número de cartões definitivos para a concepção do pano de boca do Theatro Municial. Esses cartões mostram a segurança pessoal do artista e o profundo conhecimento que possui da difícil arte, mas todo esse acervo de primores, se são dignos de apreciação parcelados como se acham, revelando exuberante saber e técnica completa, não exaltam o valor conceptivo do pano do teatro, que peca pela falta de espírito de síntese, que é o maior ideal em matéria de decoração. Assim como em literatura só se despreza o que é redundante e prolixo, em artes plásticas, mormente em arte decorativa, procura-se sintetizar o mais possível o assunto; daí os símbolos antigos de que as mitologias dão os mais soberbos exemplos. A preocupação de colocar retratos, ou antes, cabeças de indivíduos conhecidos, mortos e vivos, na tela, escravizou de algum modo o pincel e a concepção do trabalho, pois as figuras assim feitas, copiadas naturalmente de estampas e fotografias e naturalmente obrigadas à mesma posição dos originais, quebram completamente o belo efeito dessa marcha ascendente que vai em espiral.

O autor distribui em avulso um momento explicativo do seu trabalho, mostrando assim vasto conhecimento do assunto que se propôs a pintar, e ao mesmo tempo a falta de condensação simbólica de todos os elementos da cultura ali representados. O trabalho é primoroso como execução e pena é que o assunto escolhido fosse tão emaranhado, a lembrar a sensaboria de um Cesar Cantú que nos obrigassem a ler em uma noite só.

A ausência, porém, do espírito sintético, em coisa alguma desmerece o trabalho do operoso artista e de relance, o efeito é empolgante e impressionador.

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Bueno Amador


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

AMADOR, Bueno. BELAS-ARTES. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 16 out. 1908, p.4.

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