. AMADOR, Bueno. BELAS-ARTES. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 set. 1908, p.4. - Egba

AMADOR, Bueno. BELAS-ARTES. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 set. 1908, p.4.

De Egba

Escola Nacional de Belas Artes. O Salão de 1908. - Angelo Agostini, o caricaturista, o polemista que encaneceu na lide jornalística e tem o seu nome ligado a um quarto de século de nossa vida política e social, expõe este ano uma tela de costumes, os Engraxates, bem trabalhada e alegremente disposta.

Modesto Brocos apresenta três trabalhos frios, que não parecem da lavra do ex-professor de modelo vivo da Escola. O retrato do Sr. Olavo Bilac é de ingrata fatura e colorido fantasiado, a sua Vista do Bico do Papagaio é uma paisagem seca, sente-se falta de ar e de luz. Tais telas revelam que o artista não as pintou bem disposto ou com muita vontade, pois quem conhece M. Brocos sabe que ele é capaz de coisa melhor do que as telas atualmente expostas.

Luis Christophe apresenta dois trechos de agradável efeito, principalmente o Luar em Copacabana, de tonalidades impressionantes, colorido simpático, mostrando em certo quê de poesia nos seus trabalhos.

Alberto Delfino [sic], artista já premiado, que deu em tempos idos, melhor cópia de seu valor, ultimamente tem revelado um abandono completo, um desânimo contristador. Seus quadros, Retrato do Albertinho (pastel) e Antiga chácara do Fortunato (sic) são infelizes desde os títulos até a execução: o retrato então, fica muito aquém dos estudiolus [sic] colegiais que as professoras públicas nos impingem anualmente. É detestável esse trabalho e o autor não deveria levar o seu desânimo ao ponto de exibi-lo em público.

Outro, que prometia muito, que foi premiado, que apresentou, há tempos, trabalhos apreciáveis, que foi discípulo de Barbasan e está dando tristes provas de abandono, é o artista Fernandez Gomez. Os seus quadros, feitos em Santos, são monótonos e desgraciosamente pesados, as figuras sem vida, lembram marionetes. Algum desenho, algumas vedardes do céu, e mais nada.

Marques Guimarães expões duas telas: Flores, muito leve, de aspecto agradável e de uma singeleza encantadora; o Retrato de D. Pedro II apresenta todos os defeitos dos retratos copiados da fotografia, é tudo mecânico, sem vida, em uma tela incomensuravelmente enorme.

Germano Neves apresenta um auto-retrato sofrível, com alguns toques infelizes, cinco estudos de paisagens com boas qualidade, e uma marinha (estudo) de feição delicada: mais algum esforço, bastante observação e o artista ficará completo.

Carlos Oswald, que é um dos novos que mais prometem, dá-nos um auto-retrato que é um soberbo trabalho, de gosto artístico completo, segurança de desenho, técnica sua, estilo seu. Não conhecemos o original, mas a execução perfeita desse trabalho dá ao autor os foros de ótimo artista. Uma excentricidade, porém, é a Paisagem brasileira do mesmo autor: está longe de ser brasileira, como qualquer um de nós da Alpha Contauri, é uma pintura-literária como bem designaram uma vez esse gênero confuso, esbatido, inexpressível. Mil vezes preferível o seu auto-retrato, um primor no gênero.

Três telas de E. Tournés, aparecem no salão. O autor é membro do Júri do Salon de Paris, e isto bastará para recomendar seus trabalhos. Femme à la toilette, Frileuse, la Jarretiére, todas em um sistema lambido que lembra, à distância, a pintura esmaltada. O assunto das três telas é quase o mesmo, uma mulher em um canto do seu quarto, em meia luz, em trajes frescos; são apreciáveis, mas o membro do Júri de Paris devia nos mostrar coisa melhor do que esses quadrinhos de assunto repetido, pois no ano passado tivemos uma edição quase igual do mesmo autor.

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Bueno Amador


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

AMADOR, Bueno. BELAS-ARTES. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 15 set. 1908, p.4.

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