. ALVES, Gonçalo. Notas do “Salon” - Modesto Brocos e Aurelio Figueiredo. A Noite, Rio de Janeiro, 18 set. 1912, p. 1. - Egba

ALVES, Gonçalo. Notas do “Salon” - Modesto Brocos e Aurelio Figueiredo. A Noite, Rio de Janeiro, 18 set. 1912, p. 1.

De Egba

Houve uma época em que o Sr. Modesto Brocos se devotou incondicionalmente aos quadros de costumes populares, e deu para pintar casas de taipas e desvãos de senzalas.

Esse gênero de pintura obedecia ao habilidoso plano de fazer vibrar a nota sentimentalmente piegas do nosso povo, educado na escola romântica de Gonçalves Dias e José de Alencar.

O certo é que o Sr. Modesto Brocos fabricou um sem número de caboclos mais ou menos desengonçados, e só deixou de fabricá-los quando o público compreendendo afinal o patriótico embuste fechou os olhos ao esforçado pintor.

O Sr. Modesto Brocos precisava de novos motivos picturais, e apelou resolutamente para a mitologia grega.

Compôs um quadro modestamente intitulado "As hamadríades e a civilização". O sucesso esteve absolutamente na altura do transcendente assunto.

Mas como "o uso do cachimbo fez a boca torta" as hamadríades eram legítimos caboclos, e a "civilização" nada mais do que uma formidável e complicada maxambomba transportada para o seio da floresta virgem por algum guindaste que o autor teve o paciente cuidado de ocultar, para maior tortura do observador.

Com esse sensacional e imaginoso trabalho fez o Sr. Modesto Brocos a sua estreia no gênero da pintura anedótica para o qual, seja dito de passagem, possui o inspirado pintor uma irresistível vocação.

Não foi portanto surpresa para ninguém, e muito menos para quem escreve estas linhas, o novo quadro ora exposto no "Salon".

O quadro do Sr. Modesto Brocos (53) não é uma paisagem banal com meia dúzia de árvores e um pedaço de tranquilo rio; é um formidável "cosmorama" apanhado do morro de Santa Teresa, executado com aquela perspectiva estrábica que eu injustamente considerava exclusivo apanágio dos grandes quadros históricos do mimoso poeta Sr. Aurelio de Figueiredo.

O "cosmorama" do Sr. Modesto Brocos além do erro palmar de perspectiva, não possui tampouco nenhuma qualidade apreciável de fatura. É uma coisa lambida, acanhada, feita com a preocupação mesquinha do acabamento. As figurinhas dispersas naquele enviesado terraço estão realmente deformadas. Falta-lhes matéria plástica, falta-lhes tecido humano. O colorido é simplesmente lastimável. Todos os planos são tocados do mesmo modo com uma indiferente e incompreensível frieza.

O autor do "cosmorama" apresenta mais três trabalhos (54, 55 e 56) todos convenientemente errados, benza-os Deus! O seu estilo, é, como se vê, admiravelmente informe e harmônico.

Até faz lembrar o estilo do Sr. Aurelio de Figueiredo, autor de dois retratos (16, 17) sem cor, sem vida, sem modelado, interpretados com um colorido convencionalmente falso e antipático.

GONÇALO ALVES


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

ALVES, Gonçalo. Notas do “Salon” - Modesto Brocos e Aurelio Figueiredo. A Noite, Rio de Janeiro, 18 set. 1912, p. 1.

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