. ALVES, Gonçalo. Notas do “Salon” - Baptista da Costa. A Noite, Rio de Janeiro, 25 set. 1912, p. 1. - Egba

ALVES, Gonçalo. Notas do “Salon” - Baptista da Costa. A Noite, Rio de Janeiro, 25 set. 1912, p. 1.

De Egba

Baptista da Costa é o primeiro paisagista nacional. Primeiro na ordem cronológica, porque antes dele, nenhum grande artista brasileiro sentiu e amou com tanta emoção a natureza; primeiro, porque ninguém o excede na flagrante verdade com que interpreta as suavíssimas gamas do verde tropical.

Enquanto Amoedo, o mestre admirável, reflete nos seus quadros o espírito da arte francesa e Visconti evoca a alma dos seus modelos como naquele maravilhoso retrato de Gonzaga Duque, Baptista da Costa detém a sua palheta na bucólica contemplação da natureza. A paisagem, elevada à categoria de “quadro” isso é, como um interesse artístico individual e intenso, nunca fora praticada pelas figuras mais representativas da arte nacional.

A Baptista da Costa cabe indubitavelmente a glória de ter compreendido o encanto desse gênero de pintura, criando pelo seu prestigio e pela sua dedicação uma escola interpretativa de arte nacional, merecedora do brilhante futuro que lhe está preparado. Para atingir ao maravilhoso conhecimento das cores predominantes da paisagem brasileira, das suas múltiplas e variadas nuanças, das delicadas e sutis combinações cromáticas a que elas se expõem modeladas pela luz voluptuosa das encantadoras manhãs de maio, ou iluminadas de chofre pelo sol coruscante de dezembro, Baptista da Costa venceu gradativamente uma soma formidável de obstáculos, mercê de sua obstinada perseverança.

A sua arte evoluiu, como evoluiu a sua técnica. Certos aspectos demasiadamente monótonos e uniformes de que os seus quadros se revestiam, foram insensivelmente transformados, pela delicada e habilidosa fixação da luz ambiente.

Baptista da Costa possui acentuadas preferencias por determinados efeitos de luz. O quadro 22 “Saudoso recanto” está modelado na “hora” em que o verde adquire o aveludado característico da vegetação tropical. Devem ser quatro horas da tarde, porque a luz é morna, e a natureza espera tranquilamente o crepúsculo. Reparai no luminoso e sincero brilho das margens do rio em primeiro plano. As cores estão fundidas, casadas umas às outras, e entretanto, maravilhosamente justas.

Sente-se o rio abrir tranquilamente o caminho através do suave acidente do terreno, e a paisagem fugir ao fundo desdobrada em sucessivos planos decrescentes.

Um outro efeito de luz é surpreendido no quadro 23 “Manhã de verão”, igualmente maravilhoso de interpretação.

Baptista da Costa sabe aproveitar com muita inteligência essa nota pitoresca da paisagem. O quadro 26, “Dia de luz” é um interessante corte com excelente perspectiva.

Neste pequeno quadro também é muito notável a procura da luz, feito com uma habilidade que faz lembrar Harpignes, aquele admirável Harpignes que brincou com o sol, e subjugou as nuvens e o céu.

Baptista da Costa compreendeu, interpretou, e venceu a paisagem brasileira. Outros artistas virão um dia completar o caráter regional que a arte brasileira está longe de possuir, tentando o estudo dos costumes nacionais brilhantemente encelados pelo malogrado Almeida Junior.

GONÇALO ALVES.


Imagem

Baptista da Costa


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

ALVES, Gonçalo. Notas do “Salon” - Baptista da Costa. A Noite, Rio de Janeiro, 25 set. 1912, p. 1.

Ferramentas pessoais
sites relacionados