. ALVES, Gonçalo. Notas do "Salon" - Angelina Agostini. A Noite, Rio de Janeiro, 6 set. 1912, p.1. - Egba

ALVES, Gonçalo. Notas do "Salon" - Angelina Agostini. A Noite, Rio de Janeiro, 6 set. 1912, p.1.

De Egba

A jovem artista com cujo nome inicio uma série de “impressões pessoais” sobre o atual "salon" acaba de firmar de modo decisivo o seu notável progresso na arte de pintar. Outra coisa não esperavam do seu talento aqueles que haviam admirado no "salon" transacto duas pequenas cabeças de criança, interessantes estudos em nada inferiores aos trabalhos atualmente expostos.

A Sra. Angelina Agostini apresenta apenas três trabalhos. O simples fato de serem "três" indica uma evidente superioridade de bom senso sobre a maior parte dos expositores.

Os trabalhos da Sra. Angelina são todos retratos, apesar do mais fraco deles, "Don Pablo" (7) trazer nas dobras do veludo quinhentista o disfarce que lhe empresta a primeira vista uns ares de quadro de gênero.

No retrato de "Mme. L. B." (5) a pompa do colorido e a largueza do desenho são até certo ponto absolutamente imprevistos numa artista de tão tenra idade, apesar do inconfundível talento de que dá mostras.

Ali, naquele formoso modelo, o pincel não teve titubeios, nem andou a cata do desenho desviado. Como pintura, é de muito bom quilate. Vede o colorido justo daquela carnação, e a elegância daquele toucado de cores iriadas [sic]. Esse retrato, do modo por que está executado, põe numa bagagem de algumas milhas a obra de fancaria dos medalhões enferrujados como Aurelio de Figueiredo e Modesto Brocos.

O outro retrato feminino, "Hortência" (6) é igualmente muito apreciável dentro da luz quente que o envolve. Para encontrar uma harmonia nas condições de luz em que a artista pôs o seu modelo, as dificuldades a remover não foram de pouca monta.

O terceiro retrato "Don Pablo" reduzido pelo inteligente "deguisement" à condição de fidalgote de Castela, é ao meu ver inferior aos retratos femininos, anteriormente citados.

O desenho daquele personagem está em vários pontos estropiado. Notai a mão direita daquele espadachim. Os dedos estão por demais grandes.

O modelado da cabeça deixa, igualmente muito a desejar. É uma coisa buscada, massacrada, feita naquela pátina de chocolate tão grata ao Sr. Henrique Bernardelli, digno mestre da artista. Entretanto, o modo por que a artista vestiu a sua personagem, mantém o seu equilíbrio dentro do quadro.

A roupa está bem tocada, com vivacidade, com sentimento.

A Sra. Angelina Agostini fez-se merecedora dos mais francos elogios pelo seu progressivo aproveitamento técnico.

Parece chegado o momento da artista emancipar-se do suserano influxo do seu mestre, para que a sua arte atinja à independência de que é merecedora.

GONÇALO ALVES.


Imagem

A senhorita Angelina Agostini


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

ALVES, Gonçalo. Notas do "Salon" - Angelina Agostini. A Noite, Rio de Janeiro, 6 set. 1912, p.1.

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