. A. V. SALÃO DE 1905. AMANHÃ E DEPOIS. A Noticia, Rio de Janeiro, 30-31 ago. 1905, p. 3. - Egba

A. V. SALÃO DE 1905. AMANHÃ E DEPOIS. A Noticia, Rio de Janeiro, 30-31 ago. 1905, p. 3.

De Egba

O dia de amanhã é, por imitação francesa, chamado do - Vernissage, isto é, a véspera da abertura do Salão anual, que, no Rio de Janeiro, segundo a letra da lei, se denomina Exposição Geral de Belas Artes, certame a que concorrem os artistas, expondo seus trabalhos do ano.

Na segunda-feira, no Instituto Nacional de Música, o público desfrutou a deliciosa e fecunda conferência de Medeiros e Albuquerque, e, depois de amanhã assistirá, no edifício da Escola Nacional de Belas Artes, a inauguração solene da Duodécima Exposição geral de Belas Artes.

Toda vez que trato, nestas colunas, do nosso Salão anual, não deixo de assinalar que essas exposições datam da reforma do ensino oficial de Belas Artes com a obrigatoriedade legal de dia fixo, que é o 1º de setembro. Essa mesma legislação federal estabeleceu vários prêmios, e entre estes o de Viagem, que consiste no pensionato, por conta do Estado, durante dois anos, nos grandes centros de cultura artística.

No salão de 1904 coube o prêmio de viagem ao arquiteto Aluizio Carlos de Almeida Stahlembrecher, que, atualmente na Europa, dá as melhores provas de aplicação e aproveitamento.

Não passará de rápido apanhado o que poderei anunciar da próxima exposição, somente ligeiras indicações, uma espécie de antecipada reportagem. O catálogo depois facilitará e corrigirá qualquer lacuna involuntária.

Impressionará bem a seção de Pintura, sempre mais abundante do que qualquer outra, mas este ano mais seleta relativamente às das exposições anteriores. O Júri recusou não pequeno número de quadros.

A Arquitetura está representada pelos desenhos originais do Sr. Victor Dubugras, professor da especialidade na Escola Politécnica de S. Paulo. Três são os projetos: Palácio Municipal para Santos, Palácio legislativo de Montevidéu, e Edifício para a Faculdade de Medicina da Bahia.

Não sei se todos os meus leitores pensarão como eu a respeito desse arquiteto: - lamento que a sua competência ainda não tenha sido aproveitada para projetar algum edifício viável no Rio de Janeiro... Adquiriu um estilo seu na interpretação das linhas das grandes arquiteturas históricas, locando e dispondo singularmente os elementos decorativos. Dos seus projetos expostos, o do Palácio Municipal de Santos se destaca pela originalidade na disposição das massas e adaptação de formas.

Na seção de Gravura em medalhas e pedras preciosas se acharão, como sempre, as magníficas composições do professor Augusto Girardet. Com alguns baixos relevos, passados já ao bronze e outros delicadíssimos produtos, o artista expõe a coleção dos gessos para as medalhas dos presidentes da República, a respeito das quais me ocupei especialmente no folhetim anterior.

Em Artes Aplicadas concorrem: a Sra. Joanna Brandt, com alguns trabalhos em porcelana; o amador Sr. Benedicto Machado, com a sua Jarra Tiradentes; e o Liceu de Artes e Ofícios de S. Paulo, com originais produtos de marcenaria artística.

Nesta seção há também trabalhos em couro, de uma senhora, cujo nome não me ocorre neste momento.

Os exemplares de marcenaria artística, enviados pelo Liceu de Artes e Ofícios da cidade de S. Paulo, certificam a louvável, apropriada e melhor orientação pedagógica que deve ter um estabelecimento exclusivamente destinado ao ensino profissional. São já conhecidos os trabalhos em bronze e ferro das oficinas desse Liceu; faltava-me conhecer os de madeira. Os trastes expostos, de formas excepcionais, com esculturas diversas, foram manufaturados: uns em cabiúna, outros em imbuia e um em pau-marfim.

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Remeteram quadros os Srs.: Henrique Bernardelli, Elisêo Visconti, João Baptista da Costa, Modesto Brocos, P. Weingartner, Eugenio Latour, Raphael Frederico, Treidler, Araripe Macedo, Fiuza, Dall-Ara, Severino Cruz, De Servi, Luiz de Freitas, Lucilio de Albuquerque, Malagutti, Rodolpho [Rodolpho Chambelland] e Carlos Chambelland, Bevilacqua, Carlos de Azevedo, Benjamin Constante, Theodoro Braga, Augusto Petit, Fernandez [Antonio Fernandez Gomez], e outros, além de algumas senhoras.

No gênero retrato, Henrique Bernardelli, o mestre, apresenta três maravilhas: os retratos do Sr. Machado de Assis, do Dr. Ubaldino do Amaral e do D. José Carlos Rodrigues. E do Sr. Elisêo Visconti vieram de Paris, onde figuraram no Salon, duas telas magistrais; uma delas, o retrato da escultora Nicolina Vaz de Assis, será um dos mais belos documentos de arte do próximo Salão. O Sr. Visconti é um artista insigne.

O Sr. João Baptista da Costa preparou diversos quadros. O notável pintor da natureza brasileira expõe, entre outras paisagens, a de um trecho de Poços de Caldas [Imagem]. Diante desse quadro o contemplador se transporta ao ambiente. O artista, escolhendo o sítio onde corre um rio atravessado por uma ponte de tipo primitivo e grosseiro, teve em vista, é de presumir, não só representar o lugar puramente silvestre, senão também dar uma nota genuína do viver de localidades rurais do interior de alguns dos nossos Estados. Não há uma paisagem do Sr. João Baptista que não seja legitimamente brasileira.

No gênero de paisagem brasileira ainda há trabalhos a citar como os do Sr. Araripe Macedo, membro do Júri, do Sr. Modesto Brocos, que também expõe um bom retrato do Sr. Luiz de Freitas e da Sra. Eulalia do Nascimento Silva.

Em aquarelas são dignas de menção as vistas pintadas pelo Sr. Treidler e pelas suas duas ilustres e operosas discípulas as Exmas. Sras. Cunha Vasco [Anna da Cunha Vasco e Maria da Cunha Vasco].

As marinhas do Sr. Dall'Ara merecerão provavelmente demorada contemplação. A propósito não deixarei de notar os esforços de um jovem amador, que pela primeira vez aparece expondo quadros de marinhas; quero me referir ao Sr. Mario Navarro da Costa.

Devo indicar as cabeças pintadas pelos Srs. Lucilio de Albuquerque, Malagutti, Fiuza e de Servi. O Sr. Timotheo da Costa desenhou um grande carvão - o retrato de poeta muito conhecido entre os novos.

Em frutas há indicar um quadro de bananas do Sr. Severino Cruz. E como trabalho de habilidade e aptidão observei dois quadrinhos em fumaça do Sr. Americo Lopes, muito bem feitinhos. Na especialidade de restituição arqueológica clássica o Sr. professor Pedro Weingartner remeteu belo quadro.

Entre os assíduos expositores não é possível esquecer o estimável Sr. Raphael Frederico.

São sempre dignos de louvor todos os artistas que concorrem a esses certames, cada um deve mandar o seu quinhão do esforço. Toda a animação é pouca em um meio artístico em formação, como é o nosso.

O Sr. Augusto Petit enviou, além de quadros seus, trabalhos de alguns discípulos. A Sra. Sarah Del-Vecchio figura com um retrato de seu pai o Dr. Adolpho Del-Vecchio.

Do Sr. Augusto Petit mencionarei A Faceira e o Silêncio. O primeiro é quadro de nu, em tamanho natural. Trata-se de um belo modelo, pintado com esmero; e o segundo da representação do velho bêbedo da Fábula, no momento em que é despertado para cantar, conforme a passagem descrita por Virgílio, passagem que, em tradução francesa, o artista consigna na moldura do quadro.

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É de justiça falar com particularidade de alguns dos novos, que efetivamente, no Salão de 1905, sobressaíram.

O Sr. Eugenio Latour, pensionista do Estado, atualmente na Europa, abrilhantará a exposição com copiosa documentação de seu aproveitamento e dos progressos obtidos. É extensa a lista de suas produções. Cultivou o processo a óleo e aquarela.

O seu quadro de gênero, a representar uma cena de bebedeira no interior de uma casa de proletário europeu, é composição de valor. Figurou na última exposição de Roma.

A cena se dá, às vezes, na Europa, no dia do pagamento. O operário bebe a fartar e entra em casa fora de si. Aí continua a se embriagar. A bebedeira toca ao seu auge; surge então toda a sorte de desordens e nada fica inteiro.

O artista pintou o momento que sucede ao desespero do bêbedo. Vê-se o operário com a cabeça sobre a mesa, com a feição transtornada, vidros quebrados pelo chão, um desalinho completo, e do outro lado a família em desgosto profundo.

É o registro das dolorosas consequências de vício fatal. Parece-me mesmo que o quadro se intitula assim: O vício fatal.

O talentoso aluno da escola, o Sr. Bevilacqua, conjuntamente com o retrato de seu pai, mandou para o Salão um quadro de restituição histórica - Salomé. Mostrou muito talento na interpretação da personalidade histórica que motivou obras primas de grandes mestres da pintura francesa e italiana. Escolheu um assunto melindroso não só por essa razão como por exigir sérios estudos da respectiva arqueologia artística. Não é obra sem defeitos, mas tem qualidades que prognosticam futuro brilhante ao jovem artista.

Os dois irmão Chambelland me encantaram desta vez; são duas aptidões incontestavelmente artísticas; quer o Rodolpho, o mais velho, quer o Carlos, o mais moço, ambos naturais desta cidade, alunos da nossa escola, infatigáveis, aplicados, lutadores, resolveram trabalhar este ano como nunca o fizeram.

Rodolpho Chambelland, que no salão passado, mereceu a medalha de prata, compôs um quadro de fantasia de inspiração mitológica - As bacantes em festa. O jovem artista venceu dificuldades de arranjo para o movimento alegre do cordão de figuras que seguem pelo caminho a fora, esbatendo-se a fatura progressivamente, à medida que os vultos se afastam das do primeiro plano.

Um júri concedeu ao jovem artista, no salão de 1904, elevado prêmio; não será para admirar que ele venha a receber, agora, maior recompensa, porque também maiores foram os esforços e superior o resultado.

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Agradável surpresa terá o público com o aparecimento, no salão, do conhecido caricaturista Raul. Do artista serão expostas muitas e divertidas composições, e no meio delas algumas fantasias alegóricas e inspiradas.

Os desenhos de Raul Pederneiras darão a nota alegre da Exposição.

A. V.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

A. V. SALÃO DE 1905. AMANHÃ E DEPOIS. A Noticia, Rio de Janeiro, 30-31 ago. 1905, p. 3.

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