. A. V. SALÃO DE 1904. O PRÊMIO DE VIAGEM. A Noticia, Rio de Janeiro, 14-15 set. 1904, p. 3. - Egba

A. V. SALÃO DE 1904. O PRÊMIO DE VIAGEM. A Noticia, Rio de Janeiro, 14-15 set. 1904, p. 3.

De Egba

Quando nestas colunas na véspera da atual Exposição Geral de Belas Artes, dei notícia dos trabalhos expostos, disse apenas quanto aos desenhos apresentados pelo Sr. Aluisio Carlos de Almeida Itahlembrecher [sic], arquiteto titulado pela Escola, que seriam eles submetidos a um Júri, o qual se pronunciaria como fosse de justiça.

As folhas já publicaram a decisão de Júri que, por unanimidade de votos, concedeu ao expositor o Prêmio de viagem.

E O Paiz, assim se exprimiu em relação ao premiado: - “O nome do Sr. Aluisio Carlos de Almeida Stahlembrecher, arquiteto titulado pela nossa Escola de Belas Artes, foi aclamado como [sic] o presente Prêmio de viagem. O projeto do Asilo Bom Pastor, é de fato um dos melhores trabalhos expostos no Salão. Foi a afirmação calma, segura, ponderada desse grande talento, que, pela opinião dos críticos e aplausos dos visitantes, estava naturalmente destinado a tão necessária recompensa”.

E aduziu ainda mais a mesma folha, no final da notícia, o seguinte: “Na época atual de renovação urbana, quando os poderes públicos transformam e alargam as ruas e procuram embelezar a cidade, é sobremodo significativa a decisão dada pelos júris da exposição, presididos pelo diretor da escola, professor Rodolpho Bernardelli, premiando com a viagem à Europa um digno representante da moderna geração de arquitetos educados e titulados pela nossa Escola.”

Há 11 anos consecutivos que se realizam, conforme o estatuído em lei, as exposições gerais de Belas Artes. Depois deste longo período é a primeira vez que o prêmio de viagem (o do Salão) coube ao arquiteto. Tem sido concedido a pintores e a um escultor. Mas, agora, como acentuou o noticiarista d'O Paiz, isto é, numa época de grande movimento de construções arquitetônicas, e aformoseamento, foi muito significativa, repito, e oportuna a conduta do júri da Exposição.

Todos viram e aplaudiram o apreço que o Sr. Dr. Lauro Muller, ministro da Viação e Obras Públicas, vota [sic] a Escola Nacional de Belas Artes: reuniu o Júri das Fachadas no edifício da Escola, onde também mandou expor os respectivos desenhos e distribuiu, solenemente, […] prêmios conferidos aos concorrentes.

Nas obras da avenida Central não cessa S. Ex. de dar demonstrações de produtivo interesse que toma pela Arte especialmente pela Arquitetura civil e decorativa.

Outro ministro, o do Interior, o Sr. Dr. J. J. Seabra, tem dado impulso a muitas construções arquitetônicas do seu ministério. A obra, considerada da Santa Engrácia, e destinada a princípio para uma Maternidade, S. Ex. mandou concluir e ali agasalhou sociedades de letras, que, até então, funcionavam, ora neste, ora naquele prédio, sem pouso certo e permanente; ordenou obras complementares no Hospício Nacional de Alienados e novo frontispício para Escola Politécnica.

O ilustre ministro não se esquecerá também de um edifício, digno para a Escola Nacional de Belas Artes, que permanece em prédio acanhadíssimo e impróprio para as suas aulas e ateliês.

O mesmo movimento de obras úteis se observa em outros ministérios e na Prefeitura do Distrito Federal. É o governo de renovação e trabalho o atual da República. Ao operariado brasileiro não faltam lugares para o desenvolvimento de sua atividade. Mais oportuna ocasião, do que a presente, ainda não houve, portanto, para prêmio de viagem a um arquiteto....

* * *

O Sr. Aluisio Carlos de Almeida Stahlembrecher, laureado com o Prêmio de Viagem, nasceu na cidade do Rio de Janeiro. Foi aluno da Escola Militar, onde completou o curso preparatório. Reformou-se no posto de 2º tenente de artilharia. O seu primeiro intento, depois da reforma, foi se matricular na Escola Politécnica, prosseguir nos estudos matemáticos, iniciados na Escola Militar e obter o título de engenheiro civil. Mas, ao mesmo tempo lhe aparecia em sonhos a Arquitetura Civil como uma arte de encantar...

Não hesitou mais; matriculou-se na Escola Nacional de Belas Artes, obteve as melhores notas de aprovação em todas as matérias do curso geral e nas que constituem os três anos de curso especial e prático de Arquitetura Civil.

Na vida prática e profissional não lhe sorriram logo os favores da sorte. Em nosso meio, em que muita gente confunde o engenheiro com o arquiteto, ou este com qualquer desenhador trivial de prospectos banais ou baratos, o nosso jovem arquiteto tem lutado e muito... Mas de sua boca não se ouvem palavras de ressentimento e a modéstia realça cada vez mais o seu mérito.

Encomendam-lhe, afinal, um projeto para determinado asilo, e adstrito a um estilo também determinado. E o fez conscienciosamente. Apresentou-o ao juízo de todos os seus mestres, e o expôs no Salão.

É um projeto ponderado. Nos pormenores se revela a probidade geométrica do autor e o quanto se distingue ele como meticuloso e seguro nos cálculos. Ninguém deve ignorar que, para um plano arquitetônico, o profissional procede a estudos sérios. Não há a atender somente à parte artística. A parte científica exige não pequena soma de conhecimentos, que ficam assinalados na severidade dos traços, os quais não permitem demasia de pitoresco, nem bonitezas e subterfúgios de ornamentações escusadas ou paisagistas de ambiente, mais apropriada para outra ordem de trabalhos de Arte.

O cuidado e rigor com que riscou as linhas da fachada, cortes e plantas, põem em evidência o projetado sistema construtivo em todas as suas particularidades, inclusive as decorativas, perfeitamente desenhadas. Impuseram-lhe um estilo - o ogival ou pontudo; obedeceu, mas modernizou em algumas formas e com a introdução de materiais novos.

Munido da pensão do Estado seguirá, em breve, para a Europa, o jovem arquiteto brasileiro. Pena é que o prêmio não possa exceder de dois anos.

Mas depois que adquira os ensinamentos necessários na velha Europa, pela contemplação do que se tem feito em todas as épocas históricas até hoje, nas principais cidades, não regresse imediatamente o nosso compatriota ao Brasil; procure ir também aos Estados Unidos da América do Norte. Ali se demore; conheça de perto, aprenda, o que de audacioso, inventivo, confortável e original se tem construído nas cidades importantes da grande Confederação Norte-Americana. É isso que, principalmente, precisa ver o arquiteto brasileiro, já que difícil se torna uma estadia, aliás, tão útil, nos centros de população dos domínios ingleses, na Índia e Austrália.

A. V.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

A. V. SALÃO DE 1904. O PRÊMIO DE VIAGEM. A Noticia, Rio de Janeiro, 14-15 set. 1904, p. 3.

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