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A. V. SALÃO DE 1904. A VÉSPERA. A Noticia, Rio de Janeiro, 31 ago.-1 set. 1904, p. 3.

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De conformidade com o que estatue a legislação brasileira de Belas Artes, realizar-se-á amanhã, ao meio-dia, no edifício da Escola Nacional de Belas Artes, a solenidade da abertura da 11ª Exposição Nacional de trabalhos anuais dos artistas. À festa da Arte é de esperar compareçam os Srs. Presidente da República e seus ministros, membros do corpo diplomático e Congresso Nacional, autoridades civis e militares e representantes das demais classes sociais.
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As exposições anuais tornaram-se obrigatórias depois da lei de 1890, que fixou o dia e criou prêmios, entre eles o de ''Viagem'', com o qual o artista laureado obtém uma pensão do Estado para aperfeiçoar os estudos nos grandes centros estrangeiros de cultura artística.
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Há quatro anos me cabe a incumbência de dar notícias nestas colunas a respeito dos trabalhos que motivam a civilizadora festa, e jamais deixo - como acabei de o fazer - de recordar estas disposições de lei que dignificam a administração superior do país, e convém sejam bem vulgarizadas.
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Ao ''vernissage'', ou aos últimos retoques e arrumações da ''Véspera'', compareceram, hoje, expositores, seus amigos, algumas senhoras e jornalistas. Faziam as honras da casa o Diretor da Escola e o Dr. Diogo Chalréo, o qual, como secretário, concorre sempre com valioso contingente de esforços e dedicação para o bom andamento das exposições.
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A ideia de exposições de arte no Rio de Janeiro vem de 1829. Para conseguir que a primeira se fizesse, sofreu acerbas amofinações e desgostos João Baptista Debret, o notável pintor, membro da famosa colônia de artistas franceses, fundadores do ensino oficial de Belas Artes no Brasil.
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Na ''Guanabara'', revista que outrora se publicava nesta cidade, escreveu o eminente Porto alegre, depois barão de Santo Angelo, uma resenha crítica da exposição de 1849; aproveitou, então, no seu escrito, rememorar a série de desagradáveis ocorrências que tão justamente magoariam o ilustre Debret.
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Reformada a extinta Academia das Belas Artes, nomearam para diretor, Henrique José da Silva, com o que, escreveu Porto Alegre, “os professores franceses se ressentiram de um tão injusto proceder: havia na colônia três homens de um mérito superior: Mr. Debret, pintor histórico, discípulo de David, Mr. Taunay, pintor de batalhas e paisagens, e Mr. Grandjean, arquiteto, discípulo de Percier e Fontaine. Mr. Taunay era membro do Instituto  Real de França, e os seus dois colegas em breve o seriam se tivessem ficado na Europa.
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“Estes três varões, continua Porto-Alegre, que possuíam bens de fortuna, e que eram homens de reputação firmada, foram desprezados pelo governo de então, para a direção da Academia que vieram fundar, e preteridos por Henrique, cujo talento lhes era muito inferior. Mr. Taunay retirou-se; Debret ficou para desenhar e escrever a sua viagem, e Mr. Grandjean por ter gasto o que tinha em uma propriedade, que a todo o custo não pôde vender como lhe convinha. Quando em 1827 nos matriculamos na Academia das Belas Artes já aquela casa era um caos incompreensível de desordem e de ódios recíprocos.
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“À plácida constância de Mr. Debret, à importância que lhe granjearam seus talentos e suas virtudes se deve alguma coisa do seu progresso.”
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“Henrique não podendo ferir os mestres, feria o ensino, entravava o seu andamento: fortemente protegido, levou aquele estabelecimento de rastros até o ano de 1829, no fim do qual Mr. Debret nos mandou em seu nome, pedir ao Exmo. Sr. senador José Clemente Pereira (era ministro) a permissão de fazer uma exposição pública dos trabalhos de sua aula.
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“O diretor Henrique fez tudo o que estava a seu alcance para embaraçar este ato do governo, mas baldadas foram todas as suas tentativas. A Mr. Debret se uniu Mr. Grandjean e com as obras dos dois e de seus discípulos se fez a 1ª exposição pública da Academia das Belas Artes, a qual concorreram várias pessoas.”
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No ano seguinte, segundo se lê no mesmo escrito de Porto-Alegre, alcançaram do Conselheiro de Estado Maia o mesmo favor e o respectivo catálogo fora impresso à custa de Debret.
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Relembrar tais serviços, no dia de hoje, é um preito devido à memória do grande pintor que iniciou as exposições artísticas no Rio de Janeiro.
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O catálogo da exposição de 1904 contém 259 números. Há trabalhos de professores provectos, artistas consagrados, de novos e esperançosos filhos da nossa Escola.
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Na pintura culmina o mestre. O público ainda não se fartou, nem se fartará de admirar as incomparáveis pinturas do adorável [[Henrique Bernardelli]]. Retratos expõe ele desta vez que são obras-primas de composição e técnica.
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[[Rodolpho Amoedo]], outro professor da Escola, e membro do júri, abrilhantou a sala com a ´´Cativa´´ e a ''[http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=Imagem:Kosmos_1904_ra.jpg Oração]''.
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De [[Elisêo Visconti]], atualmente no estrangeiro, impressiona a ''Cabeça de estudo'': contemplem essa sentida produção do grande artista.
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A ''Cena domestica'', de [[Modesto Brocos]], é um quadro que se destaca: é o interior de modesta habitação rural. Esse professor, que também é membro do júri, pinta sempre com sinceridade interessantes cenas da vida brasileira.
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Reapareceu, com aplausos, no salão deste ano, o pintor [[Teixeira da Rocha]], cuja ausência era lamentada por todos os admiradores do seu talento. O distinto professor da Escola Normal do Distrito Federal, enviou duas paisagens: a da Vila Isabel, assim como o painel decorativo - ''O Inspirado'', que são duas notas da Exposição.
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O Sr. [[Raphael Frederico]], na sua especialidade já conhecida e aplaudida, expõe: uma boa aquarela - ''Aos cajus'' e a tela - ''Alto''.
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Do Sr. [[Fernandes Machado]], recentemente chegado da Europa, para onde seguiu em 1902, em virtude do “prêmio Viagem”, obtido no Salão do ano anterior, estão expostos entre outros trabalhos uma grande tela - O ''Cristo curando o paralítico''.
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[[Luis de Freitas]] nos mandou da Itália, produções de mérito.
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Do talentoso artista [[João Macedo]], não deixarei de chamar a atenção para ''A Poranga'' [sic], quadro, cujo assunto cearense foi inspirado no poema de Juvenal Galeno.
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Entre os paisagistas culmina [[João Baptista da Costa]], o pintor da natureza brasileira. São contemplados, sempre com prazer, os seus quadros desse gênero. Dos expostos mencionarei: - a ''Paisagem da Copacabana'', a ''Caça de passarinhos'' e o ''[http://www.dezenovevinte.net/egba/index.php?title=Imagem:Kosmos_1904_bc1.jpg Fim da jornada]''.
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De ano a ano progride admiravelmente, no mesmo gênero, o Sr. [[Jorge de Mendonça]], a regular pelo seu quadro: ''Pedra do Mirante''.
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Não esquecerei de citar uma paisagem do Sr. [[Fiuza]], pelas singularidades representadas: é um caminho criado de pedras fincadas à guiza de menhirs. É paisagem do estrangeiro: ''Do Tirol''.
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Entre outros paisagistas expuseram: o Sr. [[Dall’Ara]] e o jovem e esperançoso [[Carlos Oswaldo]], atualmente em Florença, filho do maestro Oswaldo, diretor do Instituto Nacional de Música.
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Não é possível deixar de falar de [[Lucilio de Albuquerque]], aluno laureado da Escola; não desmentem, o conceito em que é tido, os trabalhos que expõe.
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Seguem-se [[Seelinger]], [[Malagutti]], Franca [[José Monteiro França]], [[Bevilacqua]], Chambelland <nowiki>[</nowiki>[[Rodolpho Chambelland]]<nowiki>]</nowiki> e [[Evencio Nunes]], [[Delpino]], [[Bolato]], [[Xavier]], Virgilio <nowiki>[</nowiki>[[Virgilio Lopes Rodrigues]]<nowiki>]</nowiki> e [[Araujo Fróes]], professor no Colégio Militar.
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Entre as aquarelas são dignas de nota, sempre nas exposições, as do Sr. [[Benno Treidler]] e de suas discípulas as Sras. Cunha Vasco (D. Anna <nowiki>[</nowiki>[[Anna da Cunha Vasco]]<nowiki>]</nowiki> e D. Maria <nowiki>[</nowiki>[[Maria da Cunha Vasco]]<nowiki>]</nowiki>).
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[[Angelo Agostini]] e [[Isnley Pacheco]] [sic], dando o exemplo necessário aos moços, não deixaram de enviar quadros para a Exposição.
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O laborioso Sr. [[Augusto Petit]], antigo retratista, remeteu um retrato e dois quadros de frutas.
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Muitas senhoras e outros artistas expõem trabalhos que provam aptidão e louváveis esforços. É de esperar que não desanimem; voltem para o ano com maiores resultado de aplicação e progresso.
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Tenho me limitado a breves indicações; nem outra coisa poderei fazer em tão curto espaço de tempo. O lorgar também não comporta desenvolvimentos críticos.
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Entre as esculturas expostas sobressai a maravilhosa do busto em bronze do Dr. Gross, obra de [[Rodolpho Bernardelli]]. Do seu discípulo o ilustre [[Correia Lima]] há um gesso ''Menino''. O Sr. [[A. Zani]], também discípulo de R. Bernardelli, domiciliado em S. Paulo, enviou para a Exposição dois bustos: um de Prudente de Moraes e outro do senador Moraes e Barros. Do mesmo escultor o público verá um baixo-relevo de bronze - ''Sagrada Familia''.
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São sempre interessantes as exposições do Sr. [[Augusto Girardet]], professor de gravura de medalhas e pedras preciosas.
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Será única expositora em ''Artes aplicadas à indústria'' a Sra. [[Julieta Wencelius]].
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Abundante e profusa é a exposição de trabalhos de arquitetura: só o Sr. [[R. Barbá]] [sic] apresentou 16 desenhos que documentam a sua competência de artista. Os desenhos do arquiteto Sr. R. Barbá foram feitos na Europa e por alguns foi premiado. Bem vindo o distinto profissional; no Brasil, país novo, encontrará vasto campo para a sua atividade.
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O Sr. [[Aluizio Carlos de Almeida Stahlembrecher]], natural do Rio de Janeiro, e arquiteto pela Escola, se distingue no ''Salão'' por um projeto para o Asilo Bom Pastor.
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Os desenhos do jovem arquiteto brasileiro, que deixou bom nome na Escola, onde obteve as melhores notas de aprovação, vão ser submetidos a um júri, que se pronunciará como for de justiça.
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Aguardemos esse julgamento.
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'''Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar'''
'''Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar'''
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[[A. V. SALÃO DE 1904. A VÉSPERA. A Noticia, Rio de Janeiro, 31 ago.-1 set. 1904, p. 3.]]
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A. V. SALÃO DE 1904. A VÉSPERA. [[A Noticia]], Rio de Janeiro, 31 ago.-1 set. [[1904]], p. 3.

Revisão atual

De conformidade com o que estatue a legislação brasileira de Belas Artes, realizar-se-á amanhã, ao meio-dia, no edifício da Escola Nacional de Belas Artes, a solenidade da abertura da 11ª Exposição Nacional de trabalhos anuais dos artistas. À festa da Arte é de esperar compareçam os Srs. Presidente da República e seus ministros, membros do corpo diplomático e Congresso Nacional, autoridades civis e militares e representantes das demais classes sociais.

As exposições anuais tornaram-se obrigatórias depois da lei de 1890, que fixou o dia e criou prêmios, entre eles o de Viagem, com o qual o artista laureado obtém uma pensão do Estado para aperfeiçoar os estudos nos grandes centros estrangeiros de cultura artística.

Há quatro anos me cabe a incumbência de dar notícias nestas colunas a respeito dos trabalhos que motivam a civilizadora festa, e jamais deixo - como acabei de o fazer - de recordar estas disposições de lei que dignificam a administração superior do país, e convém sejam bem vulgarizadas.

Ao vernissage, ou aos últimos retoques e arrumações da Véspera, compareceram, hoje, expositores, seus amigos, algumas senhoras e jornalistas. Faziam as honras da casa o Diretor da Escola e o Dr. Diogo Chalréo, o qual, como secretário, concorre sempre com valioso contingente de esforços e dedicação para o bom andamento das exposições.

* * *

A ideia de exposições de arte no Rio de Janeiro vem de 1829. Para conseguir que a primeira se fizesse, sofreu acerbas amofinações e desgostos João Baptista Debret, o notável pintor, membro da famosa colônia de artistas franceses, fundadores do ensino oficial de Belas Artes no Brasil.

Na Guanabara, revista que outrora se publicava nesta cidade, escreveu o eminente Porto alegre, depois barão de Santo Angelo, uma resenha crítica da exposição de 1849; aproveitou, então, no seu escrito, rememorar a série de desagradáveis ocorrências que tão justamente magoariam o ilustre Debret.

Reformada a extinta Academia das Belas Artes, nomearam para diretor, Henrique José da Silva, com o que, escreveu Porto Alegre, “os professores franceses se ressentiram de um tão injusto proceder: havia na colônia três homens de um mérito superior: Mr. Debret, pintor histórico, discípulo de David, Mr. Taunay, pintor de batalhas e paisagens, e Mr. Grandjean, arquiteto, discípulo de Percier e Fontaine. Mr. Taunay era membro do Instituto Real de França, e os seus dois colegas em breve o seriam se tivessem ficado na Europa.

“Estes três varões, continua Porto-Alegre, que possuíam bens de fortuna, e que eram homens de reputação firmada, foram desprezados pelo governo de então, para a direção da Academia que vieram fundar, e preteridos por Henrique, cujo talento lhes era muito inferior. Mr. Taunay retirou-se; Debret ficou para desenhar e escrever a sua viagem, e Mr. Grandjean por ter gasto o que tinha em uma propriedade, que a todo o custo não pôde vender como lhe convinha. Quando em 1827 nos matriculamos na Academia das Belas Artes já aquela casa era um caos incompreensível de desordem e de ódios recíprocos.

“À plácida constância de Mr. Debret, à importância que lhe granjearam seus talentos e suas virtudes se deve alguma coisa do seu progresso.” “Henrique não podendo ferir os mestres, feria o ensino, entravava o seu andamento: fortemente protegido, levou aquele estabelecimento de rastros até o ano de 1829, no fim do qual Mr. Debret nos mandou em seu nome, pedir ao Exmo. Sr. senador José Clemente Pereira (era ministro) a permissão de fazer uma exposição pública dos trabalhos de sua aula.

“O diretor Henrique fez tudo o que estava a seu alcance para embaraçar este ato do governo, mas baldadas foram todas as suas tentativas. A Mr. Debret se uniu Mr. Grandjean e com as obras dos dois e de seus discípulos se fez a 1ª exposição pública da Academia das Belas Artes, a qual concorreram várias pessoas.”

No ano seguinte, segundo se lê no mesmo escrito de Porto-Alegre, alcançaram do Conselheiro de Estado Maia o mesmo favor e o respectivo catálogo fora impresso à custa de Debret.

Relembrar tais serviços, no dia de hoje, é um preito devido à memória do grande pintor que iniciou as exposições artísticas no Rio de Janeiro.

O catálogo da exposição de 1904 contém 259 números. Há trabalhos de professores provectos, artistas consagrados, de novos e esperançosos filhos da nossa Escola.

Na pintura culmina o mestre. O público ainda não se fartou, nem se fartará de admirar as incomparáveis pinturas do adorável Henrique Bernardelli. Retratos expõe ele desta vez que são obras-primas de composição e técnica.

Rodolpho Amoedo, outro professor da Escola, e membro do júri, abrilhantou a sala com a ´´Cativa´´ e a Oração.

De Elisêo Visconti, atualmente no estrangeiro, impressiona a Cabeça de estudo: contemplem essa sentida produção do grande artista.

A Cena domestica, de Modesto Brocos, é um quadro que se destaca: é o interior de modesta habitação rural. Esse professor, que também é membro do júri, pinta sempre com sinceridade interessantes cenas da vida brasileira.

Reapareceu, com aplausos, no salão deste ano, o pintor Teixeira da Rocha, cuja ausência era lamentada por todos os admiradores do seu talento. O distinto professor da Escola Normal do Distrito Federal, enviou duas paisagens: a da Vila Isabel, assim como o painel decorativo - O Inspirado, que são duas notas da Exposição.

O Sr. Raphael Frederico, na sua especialidade já conhecida e aplaudida, expõe: uma boa aquarela - Aos cajus e a tela - Alto.

Do Sr. Fernandes Machado, recentemente chegado da Europa, para onde seguiu em 1902, em virtude do “prêmio Viagem”, obtido no Salão do ano anterior, estão expostos entre outros trabalhos uma grande tela - O Cristo curando o paralítico.

Luis de Freitas nos mandou da Itália, produções de mérito.

Do talentoso artista João Macedo, não deixarei de chamar a atenção para A Poranga [sic], quadro, cujo assunto cearense foi inspirado no poema de Juvenal Galeno.

Entre os paisagistas culmina João Baptista da Costa, o pintor da natureza brasileira. São contemplados, sempre com prazer, os seus quadros desse gênero. Dos expostos mencionarei: - a Paisagem da Copacabana, a Caça de passarinhos e o Fim da jornada.

De ano a ano progride admiravelmente, no mesmo gênero, o Sr. Jorge de Mendonça, a regular pelo seu quadro: Pedra do Mirante.

Não esquecerei de citar uma paisagem do Sr. Fiuza, pelas singularidades representadas: é um caminho criado de pedras fincadas à guiza de menhirs. É paisagem do estrangeiro: Do Tirol.

Entre outros paisagistas expuseram: o Sr. Dall’Ara e o jovem e esperançoso Carlos Oswaldo, atualmente em Florença, filho do maestro Oswaldo, diretor do Instituto Nacional de Música.

Não é possível deixar de falar de Lucilio de Albuquerque, aluno laureado da Escola; não desmentem, o conceito em que é tido, os trabalhos que expõe.

Seguem-se Seelinger, Malagutti, Franca José Monteiro França, Bevilacqua, Chambelland [Rodolpho Chambelland] e Evencio Nunes, Delpino, Bolato, Xavier, Virgilio [Virgilio Lopes Rodrigues] e Araujo Fróes, professor no Colégio Militar.

Entre as aquarelas são dignas de nota, sempre nas exposições, as do Sr. Benno Treidler e de suas discípulas as Sras. Cunha Vasco (D. Anna [Anna da Cunha Vasco] e D. Maria [Maria da Cunha Vasco]).

Angelo Agostini e Isnley Pacheco [sic], dando o exemplo necessário aos moços, não deixaram de enviar quadros para a Exposição.

O laborioso Sr. Augusto Petit, antigo retratista, remeteu um retrato e dois quadros de frutas.

Muitas senhoras e outros artistas expõem trabalhos que provam aptidão e louváveis esforços. É de esperar que não desanimem; voltem para o ano com maiores resultado de aplicação e progresso.

Tenho me limitado a breves indicações; nem outra coisa poderei fazer em tão curto espaço de tempo. O lorgar também não comporta desenvolvimentos críticos.

* * *

Entre as esculturas expostas sobressai a maravilhosa do busto em bronze do Dr. Gross, obra de Rodolpho Bernardelli. Do seu discípulo o ilustre Correia Lima há um gesso Menino. O Sr. A. Zani, também discípulo de R. Bernardelli, domiciliado em S. Paulo, enviou para a Exposição dois bustos: um de Prudente de Moraes e outro do senador Moraes e Barros. Do mesmo escultor o público verá um baixo-relevo de bronze - Sagrada Familia.

São sempre interessantes as exposições do Sr. Augusto Girardet, professor de gravura de medalhas e pedras preciosas.

Será única expositora em Artes aplicadas à indústria a Sra. Julieta Wencelius.

Abundante e profusa é a exposição de trabalhos de arquitetura: só o Sr. R. Barbá [sic] apresentou 16 desenhos que documentam a sua competência de artista. Os desenhos do arquiteto Sr. R. Barbá foram feitos na Europa e por alguns foi premiado. Bem vindo o distinto profissional; no Brasil, país novo, encontrará vasto campo para a sua atividade.

O Sr. Aluizio Carlos de Almeida Stahlembrecher, natural do Rio de Janeiro, e arquiteto pela Escola, se distingue no Salão por um projeto para o Asilo Bom Pastor.

Os desenhos do jovem arquiteto brasileiro, que deixou bom nome na Escola, onde obteve as melhores notas de aprovação, vão ser submetidos a um júri, que se pronunciará como for de justiça.

Aguardemos esse julgamento.

A. V.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

A. V. SALÃO DE 1904. A VÉSPERA. A Noticia, Rio de Janeiro, 31 ago.-1 set. 1904, p. 3.

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