. A. V. SALÃO DE 1903. A VÉSPERA. A Noticia, Rio de Janeiro, 31 ago.-1 set. 1903, p. 3. - Egba

A. V. SALÃO DE 1903. A VÉSPERA. A Noticia, Rio de Janeiro, 31 ago.-1 set. 1903, p. 3.

De Egba

Realizar-se-á, amanhã, ao meio-dia, no edifício da Escola Nacional de Belas-Artes, a inauguração da décima Exposição geral de trabalhos anuais de artistas, com a presença do Sr. presidente da republico, seus ministros, do Dr. prefeito do Distrito Federal, membros do corpo diplomático e representantes de todas as classes sociais.

Amanhã, dia assinalando na legislação brasileira de Belas-Artes, completará o Salão do Rio de Janeiro a sua primeira década.

Esses certames artísticos, semelhantes aos de Paris, não se faziam com regularidade antes da reforma de 1890. A lei republicana os tornou obrigatórios, fixando a abertura no dia 1º de setembro de cada ano, e criou prêmios entre eles o chamado de Viagem, com o qual, o laureado obtém o pensionato de dois anos nos grandes centros de cultura artística. Preciso recordar essas disposições sempre que me ocupo do Salão, por quanto nem todos as conhecem.

O conselho superior de Belas-Artes, a quem incumbe superintender anualmente as Exposições Gerais de Belas-Artes, adotou a praxe parisiense do vernissage, a que chamo a véspera, é o dia dos últimos toques de verniz e dos remates. Foi hoje o nosso vernissage ou antes a nossa Véspera, que é modesta,limita-se a visitas de expositores, amigos particulares e representantes da imprensa. Amanhã, então, será a abertura, o dia solene e festivo da Exposição Geral.

Ao Salão de 1903 deixaram de concorrer alguns dos nossos artistas de nomeada, o que é deveras lamentável. Mas, em compensação, não menos ilustres, quais os irmãos Bernardelli [Rodolpho Bernardelli e Henrique Bernardelli], Amoedo, Visconti, J. Baptista, M. Brocos, Raphael Frederico, e outros, compareceram dando o exemplo aos novos e mostrando quanta confiança e fé tem no futuro da Arte no Brasil. Eis a razão pela qual, nestas ocasiões, direi sempre: são dignos de louvor todo aquele ou toda aquela que concorre com um quinhão de esforço e trabalho para as Exposições. Orgulho-me, como brasileiro, em afirmar, sem o mínimo receio de provas em contrário, que não precisamos mais fazer encomendas na Europa: temos artistas capazes, nacionais ou estrangeiros domiciliados no país. Aqui sabe-se esculpir, gravar e pintar, podendo também garantir - há arquitetos.

O Salão, além dos trabalhos anuais de artistas, tem como anexo uma exposição de obras de arte, objetos curiosos e velharias artísticas, ultimamente adquiridos pelo governo para o museu da Escola. Muitos desses objetos oferecem interesse histórico. De alguns me ocuparei oportunamente.

Estará igualmente às vistas do visitante uma bela e rica coleção de medalhas oferecida pelo Sr. Luiz de Rezende. Assim outros amadores seguissem este exemplo!...

* * *

Na seção de Escultura sobressai o busto em bronze do Dr. Brissay. Obra de Rodolpho Bernardelli, basta isso para se formar a ideia do que seja. Que se poderá dizer mais do que se tem dito, a respeito de tudo quanto produz o talento e o cinzel do eminente estatuário? Compareceu para animar aos novos. Acompanharam ao mestre, seus discípulos: Corrêa Lima e D. Julieta França, pensionista do Estado. Ambos expõem estátuas em gesso. A daquele representa um pescador adolescente e desta representa o Amor, na figura de um menino alado.

Na seção de Gravura de medalhas e pedras preciosas, o professor Augusto Girardet expõe belas produções: as medalhas a Floriano Peixoto e a da Exposição de lâmpadas de álcool.

Consta da exposição do competentíssimo artista, obra sua, lindíssima, - um camafeu, em ágata rio-grandense, a reproduzir a Galatéa, de Raphael.

O clou da Exposição Geral é o modelo em gesso da fachada do projetado edifício para a Escola Nacional de Belas-Artes, na praça da Glória. O Sr. Joaquim Fontes Soares, ornamentista do atelier Bernardelli, autor desse relevo, interpretou, com perícia e cuidado, o risco magnífico de Morales de Los Rios. Deste modo facilmente se poderá compreender o que se pretende executar no terreno: duas necessidades palpitantes serão satisfeitas. A nossa Escola ira funcionar em edifício digno dela, em sítio apropriado; e completar-se-á o aformoseamento daquela praça, onde já existem dois monumentos.

* * *

A seção de Pintura é a mais concorrida como sempre: fato não exclusivo ao nosso salão;  em Paris, ou em qualquer centro de arte, o mesmo fenômeno se tem observado.

O público contemplará, entre quadros a óleo, de artistas nacionais, alguns outros, enviados de Paris, pelos Srs. Auguste Matisse e R. Carré, pintores franceses da escola impressionista.

No Salão figuram numerosas aguarelas; entre estas muitas já estiveram na última exposição da especialidade. Não citarei as dos provectos artistas; falta-me espaço: chamarei somente particular atenção par os 22 quadros das irmãs Cunha Vasco [Anna da Cunha Vasco e Maria da Cunha Vasco], que se distinguem e progridem admiravelmente.

A exposição se ressente da falta de quadros históricos, propriamente ditos. De história pátria então não vi nenhum; salvo se ficou tão escondido que me foi impossível descobri-lo. Nos salões anteriores, Henrique Bernardelli, com a maestria que lhe é peculiar, nos deliciou com o seu Goazaga [sic], o seu Lisboa (o aleijadinho) e finalmente com o seu José Mauricio, do qual A Noticia tratou em folhetim especial. Não sei porque, até hoje, esses quadros não foram adquiridos pelo governo para as nossa Galeria Públicas de Belas-Artes... Talvez por isso, muitos artistas fujam de composições deste gênero...

Nos excelentes trabalhos expostos por Henrique Bernardelli, admirei a Via Crucis, composição sacra, em que predomina a figura da Virgem a acompanhar a Cruz nos Passos dolorosos do Calvário. Como manifestar-me diante de produções picturais de Henrique Bernardelli, quer se trate deste ou daquele gênero, quer se trate deste ou daquele processo! Falar da composição elevada e bem compreendida, da sinceridade artística, das cores, do temperamento excepcional, da observação, da sabedoria na técnica, são já lugares comuns no tratar-se de obras do mestre sempre o mesmo na culminância.

De Elisêo Visconti, o artista encantador, há muitos quadros, em diferentes gêneros e processos. Recordo-me de um retrato a têmpera e da paisagem do Morro de Santo Antônio.

Duas grandes novidades apresenta este pintor: - objetos de cerâmica decorados, e desenhos do ex-libris e do emblema para a Biblioteca nacional. Nestes desenhos (no gênero encomendados pela primeira vez) o Sr. Visconti procurou originalidade, dando o cunho exclusivamente nacional aos elementos constitutivos do ex-libris e do emblema.

E a sua cerâmica? Depois de Manso, o malogrado artista dos tempos coloniais, só agora vemos, em público, a tentativa de Visconti, para quem, neste momento, me faço todo aplausos e, cheio de entusiasmo, peço encarecidamente que não faltem auxílios e coadjuvações ao ilustre pintor. Fez louça nacional, com material nosso, e fabricada no Brasil, nas oficinas do Dr. Ludolf, em Jerônimo de Mesquita. O Sr. Visconti, nas ornamentações, estilizou plantas indígenas e aclimadas do nosso país, inspirando-se também em forma e tema decorativos dos nossos aborígenes.

Este assunto é tão interessante, que exige particularizá-lo em folhetim especial.

Na seção de pintura preciso citar, entre os quadros do professor Rodolfo Amoedo, os retratos: de Mlle... de uma delicadeza admirável de técnica, e o do pintor Souza Lobo. Ao visitante não faltarão brilhantes aguarelas, do Sr. Amoedo, para contemplar com real prazer.

Do Sr. Modesto Brocos, o distinto e conhecido pintor, sobressaem dois painéis a cola, suas paisagens a óleo e as suas águas-fortes. Destas, é magistral o retrato de D. Pedro II.

Das paisagens do Salão, merece lugar de honra aquela de Bom Jardim, do Sr. João Baptista da Costa, onde se vê um homem a pescar em um rio irrepreensivelmente pintado. Poucas paisagens tem aparecido que se possam colocar em paralelo com esta do Sr. João Baptista. Há muito tempo não senti tão bem ao contemplar um quadro! ... E quanto me agrada o sítio escolhido, onde, na margem do rio, destaca-se, num grupo de arvores, - uma gameleira, as flores de quaresma e uma umbaúba... A umbaúba, a formosa árvore das nossas capoeiras das nossas matas, que entretanto não existe infelizmente um só exemplar nos nossos jardins e parques públicos em que se observam, alias, escusadas repetições de outras plantas pouco decorativas.

Do Sr. Raphael Frederico, há um quadro a que denomina de retrato. Trata-se da representação talvez de um agricultor a gozar de um parreiral. Das telas do Sr. Raphael Frederico coloco esta no primeiro plano.

O pensionista E. Latour mandou, de Paris, duas paisagens; uma tem qualidades.

Lucílio de Albuquerque expõe os retratos do Dr. Diego Chalréo e do escultor Corrêa Lima.

O Sr. Helios Seelinger no seu quadro Bohemia' aproveitou, com graça, para as figuras da composição, alguns representantes da nova geração literária e artística.

Entre os novos, que pela primeira vez aparecem, o Sr. Eduardo Bevilacqua foi uma grande revelação no seu quadro Daphnis e Cloé. Aluno da Escola e discípulo de Henrique Bernardelli, é caso para felicitar ao mestre por tal resultado.

Faltava-me falar dos Srs. J. Fiuza e João Macedo, ex-pensionistas do estado. O público certificar-se-á dos notáveis progressos e do talento desses artistas, diante dos seus quadros expostos.

Dos velhos pintores seria injustiça esquecer Angelo Agostini. De um tempo a esta parte ele se apresenta sempre pronto nas fileiras com os moços. Já o disse eu no ano passado e repito.

O Sr. Augusto Petit, conhecido e antigo retratista, enviou retratos, quais os dos Srs. Esberard, Cavalier e o do meu amigo Xavier Pinheiro, de muita semelhança. Expõe o mesmo pintor dois quadros sugestivos de bustos de mulheres seminuas e algumas telas de frutas.

Não concluirei esta rápida noticia sem mencionar que, entre os expositores de 1903, figuram também os Srs. Carlos Reis, Mendonça [Jorge de Mendonça], Dall’Ara, Ribeiro [?], J. Barros, Felippo, Fróes [Manoel Ribeiro de Araújo Fróes], Napolitano, de Agostini e outros. E as Sras. Clélia Nunes, ex-aluna da Escola, Helena Viveiros, Mee e Del-Vecchio.

O visitante experimentará agradável impressão. - A. V. 


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

A. V. SALÃO DE 1903. A VÉSPERA. A Noticia, Rio de Janeiro, 31 ago.-1 set. 1903, p. 3.

Ferramentas pessoais
sites relacionados