. A. S. EXPOSIÇÃO DE BELAS ARTES. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 4 set. 1904, p. 2. - Egba

A. S. EXPOSIÇÃO DE BELAS ARTES. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 4 set. 1904, p. 2.

De Egba

Não é das mais copiosas a exposição inaugurada anteontem num dos salões da Escola de Belas-Artes. Pareceu nos inferior às dos anos anteriores pela quantidade; e em qualidade, avolumam-se as produções de principiantes e de amadores.

Está claro que, num meio de vida artística incipiente, como a nossa, não poderia o ilustre diretor da escola exercer uma censura exigente, recusando a colaboração dos que fazem as primeiras armas.

Felizmente o concurso de H. Bernardelli, Amoedo, J. Baptista, Brocos e outros mestres lá estão para afirmar bem alto os créditos da nossa pintura.

Os retratos de H. Bernardelli são verdadeiros primores de arte: o de Arthur Napoleão é assombroso de expressão e de execução; contemplando-o, ao lado do piano, tem-se vontade de parafrasear Miguel Angelo, bradando: - toca! Os de dr. Alberto Faria, mme. Oliveira Lima, Modesto Brocos, são igualmente admiráveis.

J. Baptista, hoje o paisagista brasileiro por excelência, expõe formosas telas, entre as quais uma grande paisagem - Fim de jornada - um vasto bosque de um verde e de uma luz autenticamente tropicais, cortado por uma estrada por onde desce um carro de bois, tudo - céu, árvores, carro e figuras - pintado magistralmente. As demais paisagens de Baptista são outros tantos títulos do eminente artista ao qualificativo que lhe demos acima.

Brocos, o nosso fiel e conciso pintor de costumes, apresenta uma Cena doméstica das que justamente tem feito a sua reputação no gênero: observação exata, execução primorosa e, sobretudo, essa cor local que só ele sabe dar a esses aperçus da vida popular.

Amoedo não expõe trabalho algum a óleo, mas somente pintura a ovo e cera. São pelo primeiro processo pintados os quadros Cativa; excelente de execução, a Oração, que pode não ser muito verdadeiro, mas é magistralmente feito.

Dos novos o maior expositor é J. F. Machado, mas não se pode dizer que seja o mais feliz. A sua grande tela - Cristo curando um paralítico, não nos agradou de forma alguma. A cena peca, não só pela concepção como pela execução. Aquele Cristo sem majestade, de cabelos empastados e amarelos, com uma mancha vermelha no bigode, como se estivesse a deitar sangue do nariz. As demais figuras e o cenário não são mais felizes.

Carta civilizada (?) é também um trabalho que não podemos elogiar. Na Tentação de Santo Antônio a figura do santo e as das duas mulheres, uma deitada e outra sentada de costas, são bem feitas. O seu talento se afirma com vantagem em algumas paisagens e na Cabeça de um velho pedinte.

Helius Seelinger expõe muitas telas de que não gostamos absolutamente. Em todas aparece a mesma mulher, sob diferentes nomes, sempre com a mesma boca funda, com a mesma pele suja e no meio de borrões que intentam reproduzir objetos e estofos sarapintados. Fora disto um auto-retrato muito favorecido e um retrato de rapaz, por acabar e com um detestável fundo dourado (!).

Dentre os novos, o mais digno de louvor é Chamberland [Rodolpho Chambelland], que, entre outras boas coisas, apresenta dois magníficos retratos a pastel (ns. 47 e 48). A sua cena noturna - Noite de espetáculo tem belos efeitos de sombra e luz artificial, sendo muito bem apanhadas a atitude e a expressão das figuras.

E Bevilacqua, além de boas paisagens, tem um retrato excelente.

D. D. Angelina [Angelina de Figueiredo] e Marietta de Figueiredo sobressaem com algumas paisagens, que são, talvez, mais que boas promessas. Nossa casa e Portão de nossa casa, Estudo (n. 7) e Estudo (n. 135); denotam uma poderosa intuição da luz, da cor e da perspectiva.

A Pedra do Mirante de Jorge Mendonça, tem um belo verde e um fundo brumoso bem feitos.

D. Eulalia do Nascimento apresenta um Interior de igreja e um Estudo do interior muito promissores.

A Paisagem, do Sr. Teixeira da Rocha, (n. 202) é um trabalho feito com observação e boa técnica.

São numerosas as aquarelas, firmando-as as senhoritas Anna [Anna Cunha Vasco] e Maria Cunha Vasco, Treidler, Visconti, Leonidia [?], H. Bernardelli e outros.

As senhoritas Cunha Vasco revelam grandes progressos e expõem trabalhos encantadores.

As de Treidler nos pareceram destituídas de delicadeza de toque, tão empastadas que, mesmo à distância, não produzem o efeito desejado.

As do Sr. Visconti parecem estar por acabar, tão vagos são o seu colorido e os seus contornos.

Não cremos que nenhuma das aquarelas expostas na Escola se possa medir com algumas do Sr. Arthur Ferreira.

Não nos sobra espaço para enumerar os demais trabalhos expostos, a maior parte dos quais são tentativas mais ou menos felizes, mas longe de ainda se afirmar individualidades artísticas.

Não podemos, porém, deixar de mencionar um bom Retrato de d. Nina Santoro, e Porangaba, cena inspirada numa lenda narrada e bem interpretada por J. Macedo.

De outra ocasião falaremos das seções de arquitetura, escultura, gravura e pedras preciosas.

A. S.


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Andrea Garcia Dias da Cruz

A. S. EXPOSIÇÃO DE BELAS ARTES. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 4 set. 1904, p. 2.

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