. A. C. BELAS ARTES. A INAUGURAÇÃO DO SALÃO OFICIAL DE 1926. O Jornal, Rio de Janeiro, 13 ago. 1926, p. 3. - Egba

A. C. BELAS ARTES. A INAUGURAÇÃO DO SALÃO OFICIAL DE 1926. O Jornal, Rio de Janeiro, 13 ago. 1926, p. 3.

De Egba

Impressão da cerimônia e um golpe de vista sobre os trabalhos expostos

Como prevíramos, o salão da Escola de Belas Artes, este ano, reúne um copioso número de trabalhos, onde não merece apenas elogio a quantidade, mas há a destacar a qualidade, que revela, em vários dos nossos artistas, uma sensível aplicação e progresso visível, confrontados com esforços comprovados de salões anteriores.

Pode dizer-se com segurança que depois do grande mostruário organizado por Baptista da Costa para a celebração do centenário, só agora apresentamos um salão onde os valores são tão pronunciados e as tendências picturais se definem tão bem.

Depois de uma demorada visita à Exposição tem-se a impressão da harmonia que os conjugados esforços apresentam, tomando-se, logo, visível a sensível melhora, a aplicação cuidada de vários artistas, que expõem valores novos ou insistem nos gêneros já tratados, levando, porém, sensíveis vantagens apreciáveis sobre os anteriores.

Esta impressão, que mais a vagar detalharemos, era geral, notava-se em todas as fisionomias capazes de sentir e transmitir uma emoção da arte. Os salões encheram-se de convidados, e família e cavalheiros davam uma viva nota de movimento às galerias, enquanto professores, expositores, alunos da Escola formavam grupos, trocando opiniões, comentários, enchendo de rumor os recantos.

O interesse que se notava em pintura, era igual ao que a seção de escultura despertava, o mesmo podendo afirmar-se das valiosas seções de arquitetura, gravuras e medalhas, e artes aplicadas. Só nesta última não foi grande o número de objetos, compensava o lapso a beleza dos grandes trabalhos ali reunidos pelo notável professor Augusto Herborth, que a expõe, três painéis de "Composição decorativa, constando de alfabeto, vocabulário, desenhos e aplicações decorativas, inspiradas na decoração dos índios brasileiros do baixo Amazonas”, e pela senhora Joanna Pawlowna Grentener que, entre outros, expõe o “Livro do Centenário da Câmara dos Deputados”, escultura e gravura em couro.

O conjunto de trabalhos expostos no salão agrada ao mais exigente temperamento e assinala uma honesta porfia, luta interessada na obtenção da melhora, do progresso gradual, sem o que não é possível assinalar nenhuma conquista em qualquer terreno mental. O salão deste ano dá a impressão exata de que foi organizado com amor, por quantos tomaram a responsabilidade de promovê-lo ou a ele concorrer.

Foi esta a impressão perfeita e honesta que nos ficou desse soberbo mostruário de arte nacional.

UMA RÁPIDA IMPRESSÃO DE JOSÉ MARIANNO

Em meio ao número considerável de artistas, críticos de arte, jornalistas que se acotovelavam, discutiam, analisavam, encontramos o Dr. José Mariano.

Diretor novo, cheio de responsabilidades pelo seu passado cultural, pelas suas conhecidas opiniões sobre coisas de arte e artistas do nosso país, com pontos de vista seus, divulgados através da forte atuação que tem exercido em nosso meio, a sua palavra pareceu-nos valiosa e levou-nos a interrogá-lo:

- Como lhe parece o salão, doutor Marianno?

- Tenho no Salão atual a melhor das impressões. Há entusiasmo, há vibração, em todas essas telas claras, cheias de luz. Os pintores brasileiros estão no bom caminho, e estou certo de que, no ano próximo, o Salão será ainda mais forte.

Qual a melhor obra do Salão?

A que mais me impressiona, é o retrato que Visconti trouxe ao Salão. É uma maravilha de técnica, um poema de harmonia. É um dos três grandes retratos do mestre insigne da pintura brasileira, sendo os dois outros, o de Gonzaga Duque e o da escultora D. Nicolina do Couto, que eu ofereci à Escola.

Considero excepcionalmente valiosa a colaboração do ilustre prof. Dr. August Herborth, cujos trabalhos de composição decorativa inspirados nos desenhos e inscrições dos nossos índios, marcam o início de uma nova era na arte brasileira.

Mais de espaço direi a minha impressão sobre o valor das pesquisas do ilustre professor que com nova capacidade apreendeu o vocabulário artístico dos nossos selvagens, compondo com eles elementos originais de decoração aplicada à cerâmica, à confecção de estofos, de ladrilhos, etc.

A CERIMÔNIA INAUGURAL

Com 45 minutos de atraso, chegou ao edifício da Escola, o major Barbosa Gonçalves, ajudante de ordens do presidente da República, que vinha representar s. ex.

Recebido à porta principal do edifício pelo Dr. José Marianno, pela comissão diretora composta dos professores Lucilio de Albuquerque, J. O. Corrêa Lima, Benno Freider [sic] e outros professores, foi o Sr. Barbosa Gonçalves conduzido ao gabinete do diretor, de onde, após breve descanso, o conduziram ao salão de escultura.

Aí começou o desfile inaugural de junto de um busto do Sr. Arthur Bernardes, sendo percorridas todas as salas, apressadamente, pela comitiva, a que já aderira o ajudante de ordens do ministro da Justiça, que também não pudera comparecer.

Em pouco estava percorrida a vista toda a vasta galeria, retirando-se os elementos oficiais, sempre saudados pela música posta no “hall” do edifício, ao mesmo tempo que os convidados, longe do formalismo oficial começavam a ver e a esmerilhar os valores ali reunidos.

Nos comentários então ouvidos, era comum um ou outro lembrar que, na Inglaterra o próprio rei, desde a praxe estabelecida pela rainha Vitória, faz questão de inaugurar o salão anual de Belas Artes, praxe implantada, também, na França, pelo Diretório, continuada pelo Império, seguida pelos Bourbons, universalizados na República.

RÁPIDA VISITA A ALGUNS TRABALHOS EXPOSTOS

É difícil um breve esforço do que está reunido ali.

Há, por exemplo, dentre os mestres consagrados, três telas do Sr. Visconti, cada uma num gênero diferente e todas igualmente fortes. Fazer confrontos, medir, retocar, calcular coisinhas nos quadros do senhor Visconti é bizantinismo sem utilidade porque esse grande mestre dá a impressão de que, à proporção que envelhece, se torna mais perfeito, mais luminoso, mais claro. Entretanto, para satisfazer a preocupação de confronto dos que só assim sabem ver, diríamos que “Piedade”, catalogada com o n. 308 é um dos melhores trabalhos da poderosa pintura brasileira. Para não sair das Medalhas de Honra, citamos outro pintor que a tenha conquistado. Seja o senhor Lucilio de Albuquerque.

Este artista é outro caso singular. Em vez de involuir, melhora sensivelmente, aperfeiçoa-se, torna-se um grande pintor, luminoso, perfeito ao desenho, o que sempre foi, seguro no colorido. “Fim de pescaria” e “No alto da montanha” são as duas composições que expõe, ambas muito bem trabalhadas, sendo de notar a primeira, onde há um pescador tratado com estudado carinho.

As cores, os reflexos, sombras, planos vão muito bem na tela e o seu quadro ressuma uma força de inspiração íntima, que traduz o artista preocupado com a ideia, com a inspiração, que é a nota dominante dos seus envios anteriores.

Façamos, porém, transição para as pequenas medalhas de ouro.

Vejamos D. Georgina de Albuquerque, a grande artista, consagrada em nosso país e no estrangeiro, pelo sentimento da sua arte clara e vibrante, onde se sente o sol dos trópicos, o sol da nossa terra a iluminar as cenas encantadoras que pinta.

D. Georgina apresenta um limpo nu. “Mal-me-quer”, onde a carne é bonita e sem transparências e onde há repouso, equilíbrio, naturalidade de expressão e de vida. O seu quadro “Dia de verão” é outra delicadeza de tela e se a autora me permitisse escolher, entre os dois, eu ficaria com este, apesar de sentir que a autora ilustre preferiria o outro.

D. Georgina ainda pinta animais e, como em todas as suas tentativas, exercita-se com pleno êxito. O seu quadro 111, intitulado “Alto na encruzilhada”, tem cor local e movimento e assegura a continuidade de grandes trabalhos, mais tarde.

Vejamos outro.

Seja o Sr. Pedro Bruno, que expõe sensivelmente melhorado, revelando um aproveitamento notável. Os seus envios são lindos quadros em que manifesta apreciável tendência para decorações, pintando com correção, com graça, com ideia. Dentre as cinco telas que expõe, “Mãe” e “Sol de outono” agradam-nos, sobremodo, não esquecendo o “Cristo ao mar”, lindo motivo em que as qualidades de decorador majestoso se acentuam.

Ainda uma pequena medalha de ouro, o Sr. Timotheo da Costa (João). Dos seus quatro trabalhos, há uma amostra muito forte, de grande perfeição. “No atelier”, quase igualada pelo “Estudo de tronco”, outro trabalho, também, que agrada aos exigentes.

A sua cabeça de “Adolescente” é boa, notando-se, porém, que o corpo, o planejamento, são apressados, não corresponderam aos demais. Esta restrição em nada diminui a magnífica impressão do conjunto, principalmente das duas telas a que nos referimos.

Ainda um último, extra-catálogo, que apresenta um dos trabalhos mais bonitos, mais luminosos, mais claros e acatados, da Exposição. É o Sr. Carlos Chambelland.

Este artista se apresenta com uma tela de grandes dimensões e grandes belezas [Imagem] e parece que maldosamente feita para que o júri, na distribuição da cobiçada medalha, tenha, este ano, as maiores dificuldades em resolver a quem a mesma caberá.

Pelo menos, foi isto que sentimos, depois de ver, pacientemente, os quatro artistas aqui grupados, examinando-lhes, detidamente, os envios.

A. C.


Imagens

Um aspecto de cerimônia do descerramento do busto do Sr. Arthur Bernardes, inaugural do 'Salon', e trabalhos de concorrentes ao prêmio de viagem: "Primavera em flor", de Armando Vianna; "Retrato do professor Henrique Bernardelli", de Sarah Villela Figueiredo; "Pintor Roberto Rodrigues", de Candido Portinari; "Retrato do sr. Corbiniano Villaça", de Manoel Constantino, e "A Carta", de Manoel Santiago


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

A. C. BELAS ARTES. A INAUGURAÇÃO DO SALÃO OFICIAL DE 1926. O Jornal, Rio de Janeiro, 13 ago. 1926, p. 3.

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