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A. C. BELAS-ARTES. Ligeira impressão colhida ontem na XXXIII Exposição Geral. O Jornal, Rio de Janeiro, 14 ago. 1926, p. 3.

De Egba

Edição feita às 14h56min de 17 de Outubro de 2010 por Egba (Discussão | contribs)
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Sem preocupação dogmática de fazer crítica, de que resultam muitas vezes opiniões nascidas do afeto ou geradas do ódio, continuamos, displicentes, o nosso passeio de ontem, em torno das obras catalogadas no salão de Belas Artes.

Os nossos pintores ali comparecem, como dissemos de relance, pintando vários gêneros e motivos. Não se vêm somente paisagens, como há pouco acontecia, quebrada esta nota apenas pelos estudos de inspiração clássica, com que a velha mentalidade da Escola empanturrava os rapazes, influindo sobre o espírito dos artistas feitos e ainda não libertos das tendências erradas trazidas do curso acadêmico.

Não que neguemos valor às telas já feitas e inspiradas nessa velha e respeitável inspiração; ou que, com a referência feita ao gênero paisagem, mostremos desamor por essa difícil pintura. Absolutamente, não. Pela paisagem sentimos todo o entusiasmo de quem as possuindo, lindíssimas, lamenta apenas não saber pintar para reproduzi-las.

Mas é que a paisagem só tem sido tentada, com raras exceções, na pintura brasileira, com pouca felicidade. E é evidente que essa orientação resultava de um falso conceito que hoje não prevalece, mas que predominou por algum tempo, julgando a paisagem motivo decorativo, parte componente de tela, fundo de quadro, em suma. A paisagem tem, entretanto, como a figura humana, a sua vibração e vida íntima. Sente-se a paisagem com a mesma palpitação, a mesma elevação espiritual da figura; Para ser perfeita, a paisagem precisa ter uma alma e esta só se depara quando, por exemplo, a paisagem nos evoca alguma coisa que conhecemos, que amamos, que sentimos e compreendemos, mesmo sem tê-la visto.

Na paisagem brasileira esta feição especial encontra-se maravilhosamente tratada, como ninguém antes ou depois dele tratou, por Antonio Parreiras. Baptista da Costa, que foi também fortíssimo paisagista, não se igualou a Parreiras, pelo impressionismo europeu que revelou na maioria dos seus quadros. Grande como era, maior teria ainda sido se houvesse nascido em França e pintado a Normandia, as planícies adustas da Crau, a encosta amena dos Alpes, na Côte d'Azur. Parreiras, não. Pintou com cores e com sentimento a paisagem brasileira, deixando bons quadros, como expressão exata e perfeita, da nossa terra e da nossa luz.

Mas voltemos ao salão deste ano, que tão boa impressão vai deixando.

Vejamos os expositores que se nos afigura mais fortes.

Seja o Sr. Minhard Jacoby [sic]. Este grande pintor apresenta trabalhos de rigorosa técnica e perfeição. O seu colorido continua a revelar a mesma clareza dos seus quadros já conhecidos. Perfeição de processos pictóricos absoluta coloca esse artista no primeiro plano dos nossos pintores de figura. O Sr. Meinhard Jacoby expõe quatro telas, todas muito felizes, culminando as suas qualidades na de n. 204. “Branco em branco”, retrato de senhorita.

Reportemo-nos, agora, aos envios do Sr. [Augusto Bracet]. São quatro quadros, predominando na qualidade e no número, o retrato. O Sr. Bracet apresenta com muita felicidade o Sr. Armando Braga, trabalhando no "atelier", dando impressão de movimento, naturalidade, à figura, tanto na cabeça, como nos detalhes, que a interessam.

O Sr. Bracet está se firmando um forte retratista, opinião que nos fornecem os seus envios e outros trabalhos recentes.

Paremos agora junto dos bonitos quadros, de técnica difícil, enviados pelo Sr. Annibal Mattos. São três marinhas e uma casa velha, todas tratadas com segurança, conhecimento de planos, jogo feliz de luzes. Esse artista é do grupo que mais aproveitamento revela, por isso que se distancia infinitamente dos seus envios anteriores.

Helios Selhinger [sic] traz ao salão o concurso de uma das suas interessantes composições. É um quadro de proporções regulares, intitulado “Pedro Malazarte”, onde se vê famoso personagem, tocando frauta [sic] rude, enquanto em roda a bicharada da fauna brasileira ouve-o contrita, na perspectiva de acontecimento, que só o observador não atenta. O quadro tem colorido, a feição pessoal do autor e não é possível escurecer, pelo envio, o merecimento do seu autor.

Vejamos, finalmente, um dos mais recentes premiados com a viagem à Europa. É o Sr. J. B. Paula Fonseca. Apresenta dois quadros, ambos muito seguros, com as qualidades de paisagista que vem revelando desde o curso, recebidas de Baptista da Costa. O Sr. Paula Fonseca acentua qualidades que se vão definindo em sua técnica, pintando com muita segurança. Dos dois quadros expostos o mais forte é “Mercado de Veneza”, onde há perspectiva, ciência exata dos planos, colorido bem combinado e, sobretudo, movimento nas figurinhas de mercadores que emprestam vida à tela.

É um belo e forte trabalho, com o qual julgamos oportuno encerrar as notas de hoje. - A. C.


Imagens

"Retrato", de Eyseu Visconti

"Mãe", de Pedro Bruno

"Armando Braga", de Augusto Bracet


Digitalização de Mirian Nogueira Seraphim

Transcrição de Vinícius Moraes de Aguiar

A. C. BELAS-ARTES. Ligeira impressão colhida ontem na XXXIII Exposição Geral. O Jornal, Rio de Janeiro, 14 ago. 1926, p. 3.

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