Henrique
Bernardelli: Carta a Eliseu Visconti,1898
contribuição de Camila Dazzi
No decorrer da década de
1890, Henrique Bernardelli, professor de pintura na Escola Nacional de Belas
Artes, envia uma série de cartas a Visconti, que então se encontrava estudando
em Paris. A carta que aqui transcrevemos é particularmente interessante, pois
nos permite saber a opinião de Henrique Bernardelli sobre alguns envios de
Visconti, “sem ser oficialmente”, ou seja, enquanto professor e pareceristas da
ENBA.
As cartas foram transcritas pela Prof. Ana Cavalcanti
(EBA/UFRJ) a partir de originais que se encontravam em posse da família
Visconti. Os documentos atualmente
pertencem ao Arquivo do Museu Nacional de Belas Artes/RJ, mas a transcrição que
aqui colocamos foi feita a partir daquela realizada pela Prof. Ana. Por não
estarmos lidando diretamente com os originais, optamos por seguir a grafia já
adotada, sem nos isentarmos da possibilidade de erros. Reproduzimos aqui, a
partir de um xerox do original, os desenhos que Henrique Bernardelli insere na
carta, procurando respeitar ao máximo as suas localizações na mesma.
* * *
Rio, 19 de outubro de 1898
Estimado Visconti,
Não sei quantos dias tenho começado a escrever-te e, por uma ou outra coisa não poder concluir a carta, e passados alguns dias recomeçar outra: vamos a ver se esta posso leva-la até o fim. Não são poucas as coisas que desejo falar-te. Em primeiro lugar porém, vamos falar de teus últimos envios e a impressão sincera que atuaram em mim, então lá vai, a tua palheta tem adquirindo mais robustez, é harmoniosa nas diversas entonações que felizmente sempre variam, não é pois o que (fim da pág.1) mais me preocupa nos teus quadros, es pintor pelo sentimento da cor, não es tão fácil na forma, sobretudo no gosto da escolha da atitude, e ainda (...) teus quadros.
Tudo isso é apenas questão de gosto e educação, sem que prossiga, já parece-me ler em teu espírito as reflexões que vais formando por estas minhas observações. que entenderá ele por atitude? Não por certo poses acadêmicas; não, tratando-se de um quadro em que esteja em jogo um sentimento, não é mister preocupar-se com atitudes. A coisa a alcançar é o sentimento.
Porém, quando nos propomos juntar sem motivos outro que belas formas, é
preciso salientar com vantagem essas formas (fim da pág.2) , pois que o assunto é
apenas um pretexto para pintar um modelo. O talento pois neste caso esta em
saber dar ao seu modelo a melhor posição que as suas formas tenham vantagem.
Ora nas tuas quatro mulheres que sucessivamente fostes mandando, são todas de
belo colorido e bem ambientadas. A primeira, como um estudo, nada direi, belo
tronco de costas sem pernas, das três tomo a melhor que é ao meu entender a que mandastes o ano atrasado ou
passado me
parece.
Tem pedaços extremamente bem estudados, uma entonação muito suave, bela
mesmo, e a cabeça muito bonita, mas ...esta como as outras não estica as pernas
com medo de que não caibam no quadro (fim da pág.3), estas
duas
últimas, uma lhe dobraste totalmente as pernas que parece decepa-las[1]
repito, em outra ocasião que não fosse para pintar um belo nu não havia razão
de crítica, o colorido é sempre novo de entonação e belo; a última, esta então
não só não caberia na
tela
se
esticasse igualmente as pernas, mas a cabeça também é qual por quereres te-la dobrada (e imagino o pobre modelo
), parece até não articular bem, eu se fosse
crítico te faria uma pergunta bem humorística, porque você coloca as tuas
modelos tão sem jeito para dormir, esta ainda
dorme num sofá que não se pode esticar, mas a outra deixou a cama lá no
fundo para vir dormir no chão;
não vais
dar o cavaco com estas minhas graças, felizmente agora posso te dizer o que me
parece sem ser oficialmente (fim da pág. 4).
O que de um lado, se perdestes esses cobres, ganhaste a tua independência
e é agora que vai verdadeiramente lutar
e fazer-te a vida, que tu possas agüentar lá o mais possível, e se queres
que eu te de um conselho de amigo, escolhe o sacrifício de fazer quadros de
comércio para serem vendidos aqui do que aqui vires, não te iludas, isto aqui é
o mesmo de sempre em todo caso se não puder deixar de cá vir, vem com um bom
número de quadros que os possa vender para poderes voltar.
Eu, bem sabes porque estou aqui, para mandar a ti e outros à Europa, sacrificando-me, porem confesso que não posso mais, a coragem vai me faltando e vejo que terei que abandonar o Fofo[2] nessa tremenda (...). Mas creio que ele também não poderá resistir por mais tempo. (fim da pág.5) Até agora ele tem acariciado a esperança de mudança de Escola, mas outra vez já não se fala mais. O que corre em vez é que com o novo governo se suspenderá a Escola. – Fosse verdade, como ficaria eu contente dar-me-ia mais coragem de deixar de uma vez estas paragens, a velhice aqui me assunta morrer como um cão sem dono como o Muler, Motta, chaves Pinheiro e outros que nem de leve se lembra a memória. O Chaves, graças ao Rodolpho, ele tem uma estátua de bronze numa praça, o Gustavo que o Vasques queria que o rodolpho fizesse, ele pós a do seu mestre.
Falemos porém ainda uma palavra sobre a vossa exposição, que para nós deve constituir o mais notável acontecimento do ano.
Pelo catálogo que te enviei poderás ver o número, que não foi pouco. Este ano tudo correu mais regularmente (...) muito (fim da pág.6) arranjado e disposto do melhor aspecto. Tu tiveste um compartimento especial. Houve porem a lamentar o incidente que ia custando o vitral ia caindo pobre carpinteiro que (...) armação. Caiu machucando-se bastante fez um 7 na Batalha do Havaí; felizmente não grande e fácil de restaurar ambos os ferimentos.
Lamentei muito.
A inauguração foi bastante concorrida e o público tem ido mais que os outros anos, é persistir que ele se acostumará.
O Almeida Junior mandou uma grande tela[3] muito grande mesmo para o assunto que era. Com muitas boas intenções sobretudo o novo modo de encarar a coloração, abandonando o preto do “Caipira Nagaceancdo” , o motivo é retirado dos paulistas que partiam em bando para as novas descobertas e capturação dos pobres índios. Ele imaginou pois (fim da pág.7) uma partida desses aventureiros que na margem do Tiete recebem a benção das canoas e equipagens que vai partir. O tempo é coberto de neblina, o que envolve o quadro num tom caliginoso. O sol porém, conquanto consiga projetar umas fortes sombras não chega a colorir o imenso tom branco do gesso. Nas canoas, uns recebem a benção do padre que (...) praia rodeado de (...) e outros que vem dar (...) adeus a parentes e amigos; outros estão dando a última demão aos preparativos.
O quadro é feito com grande e sincera honestidade e os progressos que o Almeida fez nesse trabalho fazem esquecer o discípulo querido do panorama representado a entrada Legal (que felizmente se esta nesse momento demolindo)[4]
Toda essa sena porem é de uma frieza glacial, ninguém se move, a própria natureza nada tem de interessante, e nem mesmo pode fazer adivinhar os próprios sentimentos da matéria e talvez deste grande lençol branco. A cena passa-se provavelmente em 1600. nasa porém mostra. Dir-se-ia hoje estranhando (fim da pág.8) que apenas havia uma figura trajando com um costume parecendo com aqueles dos antigos capitães mor. Tudo porém como digo, a estrada nova que Almeida mostrou mereceu unânimes aplausos da comissão que (...) no voto deu-lhe a 1o medalha, da minha parte teria (...) o prêmio de honra, mas temendo que fracassasse decidimos dar a grande medalha, o que te prejudicou, pois que a primeira medalha viria a ti se ele tivesse tido o prêmio de honra. Como sabes, o prêmio de honra é só conferido por votação de todos os artistas já premiados.
Não houveram segundas medalhas, algumas terceiras e menos menções; eles
nunca vem para mim mas (...) com grande rigor pois que (...) a primeira
recompensa é preciso que marque a boa direção . Madruaga mandou diversos
quadros, cada qual diferente em fatura, sentimento e mérito (fim da pág.9),
realmente não sei o que pensar vendo uma boa paisagem, outra má; retratos muito
inferiores aos que ele a dois anos mandou, quadros betuminosos, e quadros sem
betume. Alguns enfim parecendo que os quadros nunca conheceram o mesmo criador.
Não há dúvida, é uma grande qualidade
mais vale a quem Deus ajuda, que cedo
Madruga.
Mas para terminar dar-te-ei uma boa notícia com um conselho de alta política. A notícia é que vendestes um dos teus Nús por dois contos, a um tal D. João Martins da Silva, o qual comprou seis telas na exposição. É pessoa original e riquíssima, pois por um processo que ganhou lá no (...) mil e tantos contos. O teu irmão que recebeu os ditos cobres te dará com os cobres pormenores do nosso novo mecenas. O conselho pois é o seguinte que escrevas ao D. João Martins da Silva, Praia de Botafogo n0 178, Rio de Janeiro, duas palavrinhas pouco isto te custara e no caso em que te achas (fim da pág. 10) podes ter um ... admirador.
Falando de outra coisa, antes que me esqueça, vou pedir-te que vais ao fundidor para ver o que há a propósito do Monumento a Caxias, e o que houver escreve-me (...) porque não sei que pensar não recebemos notícia alguma. Como se tenciona breve inaugurar esta estátua estou inquieto em saber alguma coisa .
Não sei se te correspondes com o Félix[5], em todo caso, pelas noticias que aqui tenho dele o pessoal vai bem; e aqui na exposição ele foi o que mais quadros vendeu, três quadrinhos feitos lá no México muito bonitinhos.
Pois meu caro Visconti savoia (fim da pág. 11)
[1] Podemos identificar o
esboço como sendo o da tela Sonho
Místico. Sobre essa obra consultar o artigo: SERAPHIM, Mirian N. A
catalogaçao das pinturas de Eliseu Visconti. Texto publicado nos Anais
das Segundas Jornadas de Historia del Arte: Arte y crisis en Iberoamérica.
Santiago do Chile: RIL, 2004, p. 103-111; e atualizado em abril de 2006 - texto
disponível no presente site.
[2] Apelido de Rodolpho Bernardelli.
[3] Partida da Monção, de Almeida Junior
[4] Entrada da Esquadra Naval - quadro exposto em 1896. fonte: O Paiz, 19 de outubro de 1896.
[5] Felix Bernardelli