J. CARLOS (José Carlos de Brito e Cunha)

(Rio de Janeiro, RJ, 1884 - idem, 1950)

A Caricatura e J. Carlos, por Cláudio Moura

Apesar do empenho que a comunidade do desenho de ilustração tem tido para encaixotar a caricatura no âmbito do cômico, o certo é que este gênero é menos desenho de humor do que uma arte de caracterizar. Na caricatura, há a capacidade de apreender o sentido oculto da alma e da natureza do modelo, sentido este que não se restringe ao ser humano, mas que abrange as coisas e os fatos. Pode-se caracterizar para elevar um estado de espírito ou uma particularidade pessoal, e mesmo o caráter físico e moral de determinada figura, bem como uma charge psicológica social, como momentos de efervescência de uma sociedade ou fases de otimismo, contrição e pessimismo, como naqueles períodos que antecedem as guerras, onde a figura humana tem um papel ao qual só se concede uma posição secundária para compor o fato caricaturado [Figura 1]. O que aqui chamamos de charge - uma separação quase que exclusiva dos brasileiros das modalidades charge, caricatura e cartum - acabou por vulgarizar o termo francófano, carga, para designar os desenhos nos quais se representam personalidades públicas.

Em respeito aos períodos sociais destacados por uma carga relevante, o caricaturista exprime e reflete as principais reações dos dias, caricaturiza o evento utilizando figuras, às vezes simbólicas ou iconográficas, recriadas através da caracterização de algo ou alguém que se mantém alegoricamente reconhecível: é o caso de figuras representativas de nações como o norte-americano Tio Sam, criado por Thomas Nast [Figura 2], da figura de John Bull, que surgiu pela visão de um assistente da Rainha Ana chamado de John Arbuthnot [Figura 3], do ingênuo Zé Povinho, em Portugal, e do alemão que quis ser o trabalhador pesado Michael. No Brasil, depois das tentativas de Raul e K. Lixto de criarem um símbolo nacional, foi a partir dos Urupês de Monteiro Lobato que passamos a nos ver representados, e por muito tempo, pela figura de Jeca Tatu, vinda de uma apóstrofe de Rui Barbosa, caricaturado por J. Carlos [Figura 4].

J. Carlos desenhou durante o primeiro e segundo quartel do séc XX, contribuindo para imprensa do Rio de Janeiro e São Paulo em publicações como Careta, O Malho, Para Todos, entre outras. Seu desenho era livre do sfumato dos tempos da litografia, bulindo com dinamismo. Uma rapidez e limpidez de traço que risca do cabelo à ponta do pé, serpenteando o contorno que dizia tudo, e tudo caracterizava. Dotado de refinamento, ao mesmo tempo que ia para o grotesco tinha bom humor, e, quando necessário, um toque profundo [Figura 5 e Figura 6].

Trabalhando a maior parte da sua vida na Careta, J. Carlos a tornou a crônica mais exata da realidade política do seu tempo. Muitas das figuras da época, em particular o Barão do Rio Branco, o Marechal Hermes, Nilo Peçanha, Epitácio Pessoa, estão mais vivos e verdadeiros nas charges que o artista lhes dedicou do que em qualquer biografia escrita por historiadores. J. Carlos focalizou os tipos com o máximo de precisão fisionômica, criando interpretações psicológicas que resultaram mais verdadeiras do que a mais ambiciosa fotografia.

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