O resgate da memória sócio-cultural de Campos dos Goytacazes pela iconografia do alemão Guilherme Bolckau

Mônica Scarpat Zandonadi[1], Almerinda da Silva Lopes[2], Leonardo da Silva Vasconcelos[3]

ZANDONADI, Mônica Scarpat; LOPES, Almerinda da Silva; VASCONCELOS, Leonardo da Silva. O resgate da memória sócio-cultural de Campos dos Goytacazes pela iconografia do alemão Guilherme Bolckau. 19&20, Rio de Janeiro, v. IV, n.2, abr. 2009. Disponível em: <http://www.dezenovevinte.net/artistas/foto_campos.htm>.

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A fotografia é uma forma de manifestação artística que, após seu surgimento oficial em 1839, na França, revolucionou todo o Mundo com suas fantásticas imagens, revelando aspectos da paisagem natural e humana nunca vistos e sonhados antes. Neste artigo pretende-se discutir a produção iconográfica do alemão Guilherme Bolckau, enfocando a memória sócio-cultural de Campos dos Goytacazes - Rio de Janeiro, onde o fotógrafo passou a maior parte de sua vida no período compreendido entre 1870 e 1886.

O Município de Campos dos Goytacazes, situa-se ao norte do Estado do Rio de Janeiro. Foi elevado a cidade em 28 de março de 1835, mas sua história pode ser contada desde meados do século XVI, quando Dom João III doou a Pero Gois da Silveira a capitania de São Tomé, cujo nome posteriormente passou a Paraíba do Sul.

Quando a capitania foi concedida ao donatário era habitada por grupos indígenas da etnia goitacá que viviam em aldeias lacustres. Em 1627, por ordem da Coroa Portuguesa, a Capitania de São Tomé foi dividida em glebas, doadas a sete capitães portugueses, efetivando a ocupação e o convívio dos portugueses com os índios goitacá, não havendo de início uma ocupação do território indígena.

Em 1650 foi implantado o primeiro engenho em solo campista e o Visconde d'Asseca funda a vila de São Salvador dos Campos dos Goytacazes em 1677, dominando a região por quase um século. Neste período, ocorre grande expansão pecuária e, em 1750 dá-se à queda dos Assecas. A partir daí a expansão da cana-de-açúcar, possível pela divisão dos grandes latifúndios.

A introdução do primeiro engenho a vapor na região, em 1830, trouxe grande transformação no processo de produção de açúcar. O aparecimento da ferrovia, em 1837, com a inauguração do trecho Campos-Goitacazes; e posteriormente em direção ao trecho Norte-Sul, facilitou a circulação, transformando o município em centro ferroviário da região.

O processo de urbanização da cidade se dá em 1877 quando são implantados os engenhos centrais - as usinas. Em 1890 constam registros de que o território do município já tinha tal desenvolvimento que atingiu praticamente às fronteiras atuais e a partir desta época, o comando da vida cultural da região passa dos solares rurais para o núcleo urbano.

No livro de Hervé Salgado Filho, intitulado Na Taba dos Goytacazes (RODRIGUES, 1988) consta que

Campos foi visitada quatro vezes pelo Imperador D. Pedro II. A primeira visita ocorreu em 1847, quando os campistas prepararam para o jovem imperador, então com 22 anos, grandes festas e manifestações de estima e amor. Mas a grande curiosidade desta viagem era o canal Campos-Macaé, recém inaugurado. É de se aceitar mesmo que conhecer este canal, aberto pelo braço escravo, tivesse sido o objetivo maior dessa viagem a Campos. O imperador fez mais três viagens a Campos, em 1875, 1878 e 1883, essa última para a inauguração da energia elétrica. Campos foi a primeira cidade da América do Sul a possuir energia elétrica, inaugura em 23 de junho de 1883. A projeção da cidade de Campos no império era algo de impressionante. (1988, p. 103).

Percebemos que as três últimas datas de visita do Imperador, 1875, 1878 e 1883 são datas em que o fotógrafo, Guilherme Bolckau já estava presente e atuando na cidade de Campos, e é de se estranhar que não tenha fotografado o Imperador considerando que não encontramos nenhuma imagem produzida por ele referente às visitas. Acreditamos que essas fotos provavelmente devam ter sido feitas, mas infelizmente se perderam ou apareçam mesmo como anônimas, por falta de identificação do autor.

No século XIX estiveram na cidade de Campos dos Goytacazes fotógrafos itinerantes como Victor Frond; João Phillipe de Freitas, o alemão Revert Henrique Klumb e Guilherme Bolckau, que se instala na cidade por volta de 1871.

Longe da facilidade proporcionada muito depois pelo rádio, cinema e principalmente televisão, o único veículo de comunicação de massa que possibilita a confirmação da existência de algum fato ocorrido há mais de um século é a imprensa. No Monitor Campista, que é o terceiro órgão, em atividade, e, portanto, um dos mais antigos da imprensa brasileira, fundado em 1834, encontramos importantes exemplos de anúncios de estabelecimentos fotográficos.

Acreditamos que a vinda de Guilherme Bolckau a Campos dos Goytacazes tenha se dado devido à condecoração que recebeu na Exposição Municipal de 1871, dando-lhe uma injeção de ânimo, fazendo com que ele se deslocasse do Rio de Janeiro para a região. Entretanto, só conseguimos encontrar em Campos, o primeiro anúncio de Bolckau da sua “Photographia Alleman” em 14 de março de 1878, no jornal Monitor Campista [Figura 1]. O anúncio aparece apenas naquela data, sem ser precedido de nenhuma notícia sobre o início da atuação de Guilherme Bolckau. Como menciona aquela propaganda, o endereço do estúdio permaneceria sempre o : Rua Formosa n° 14.

Bolckau atuou longo período em Campos, tendo feito fotos durante pelo menos 20 anos. Em 1878 ele passou uma temporada no Rio para aperfeiçoar-se e adquirir bens para melhorar o seu atelier, regressando a Campos ainda mais especializado, coisa que era de extrema importância naquela época devido à concorrência.

O processo fotográfico utilizado por Bolckau era o colódio úmido em negativo de vidro, de sensibilização lenta[4], respondendo assim às exigências econômicas, representando a passagem de um mercado restrito a um mercado de massa, como afirma Roullé em L`empire de la fotographie, tornando-se o processo fotográfico mais amplamente empregado em todo o mundo até a década de 1870.

Assim, como a cidade do Rio de Janeiro teve em Marc Ferrez o seu documentarista, Campos teve em Guilherme Bolckau, o fotógrafo que mais registrou a cidade na segunda metade do século XIX.

Embora se saiba que Guilherme Bolckau foi profissional muito atuante e com enorme produção de retratos e vistas de Campos, pouco se guardou dessa produção.

A Biblioteca Municipal Nilo Peçanha conta em seu acervo com um álbum de fotografias de Campos realizadas em 1879. Na capa do álbum consta, em letras douradas, a dedicatória:

AMIZADE LEMBRANÇA

offerecido

A meu Irmão, o Dr. Julio Ottoni

15 De Julho De 1879

O álbum pertenceu à coleção de José Francisco de Carvalho (Carvalhinho) e foi doado à biblioteca após sua morte. Em nenhuma das fotografias que compõem o álbum existe assinatura ou qualquer outra forma de identificação que assegure a autoria, porém, o corte arredondado nos cantos de algumas delas e o ponto de vista semelhante a outras imagens, indica que foram realizadas, seguramente, por Guilherme Bolckau. Como evidência pode-se acrescentar também que, inúmeras vezes, o próprio Carvalhinho afirmava, em vida, possuir “um álbum de fotografias de Campos realizadas por Guilherme Bolckau”.[5]

Existem também imagens de Bolckau na coleção Thereza Christina Maria, pertencente à Biblioteca Nacional, algumas vistas e monumentos arquitetônicos da cidade de Campos dos Goytacazes. Existem também outras vistas de Campos de autoria de Bolckau no acervo da Biblioteca do Museu Histórico Nacional.

A iconografia de Bolckau

Fazemos aqui, uma análise das imagens levantadas por nós. Essas fotografias são hoje importantes documentos que permitem conhecer um pouco da história da cidade - que desapareceu em nome do “progresso” - restando-nos apenas as imagens iconográficas de Bolckau para mostrar-nos características e estilos arquitetônicos da cidade do fim do século XIX.

Sabemos que o fazer fotográfico, pode ocupar-se de muitas funções, como informar, representar, surpreender, fazer, significar, dar sentido. O fotógrafo, também espectador e apreciador, se revelará através dos aspectos e pontos de vista que mais o sensibilizaram e, é nesse sentido que o fotógrafo estudado, Guilherme Bolckau, nos apresenta sua iconografia. Cada tomada de ângulo, cada pose, cada vestimenta e atributo simbólico eram pensados com elegância e profissionalismo.

Segundo Roland Barthes, através da fotografia se desvela uma rede de essências materiais, que envolvem o estudo físico, químico e óptico e essências regionais, que dependem da Estética, da História e da Sociologia.(BARTHES,1992).

A fotografia para Barthes passou a ser objeto de seu próprio interesse a partir do filtro de cultura intrinsecamente presente. Passou a ser um traço cultural. E é neste sentido que faremos nossas análises das iconografias de Bolckau, mostrando o progresso da Cidade, a classe abastada local e a sua suntuosa arquitetura colonial, barroca e neoclássica.

A imagem fotográfica também traz de volta a discussão sobre a verdade e a ilusão da verdade, objeto de toda a reflexão filosófica. Segundo Nestor Canclini “o trabalho fotográfico se move no campo da verossimilhança. Não é possível captar o essencial da realidade à primeira vista, o real é uma rede de relações”, pois para o autor, “conhecer implica também imaginar, inventar, abrir o presente ao pressentido”.(CANCLINI,1998).

É nesse mesmo sentido que Carlos A. Lemos em Ambientação Ilusória nos revela que “os fotógrafos viram duas oportunidades: a fotografia documental dedicada à paisagem, às cidades, aos trabalhos no campo, às cenas urbanas, enfim, dedicada à realidade e, nisso, não estavam excluídos certos retratos em que a veracidade de representação era exigência prioritária e, em segundo lugar, ao contrário, temos a chamada foto ‘artística’, onde entrava a imaginação, levada por uma ‘licença criativa’(MOURA,1983). O que podemos encontrar nas vistas e monumentos da cidade de Campos registradas por Bolckau, foi a veracidade como ponto fundamental, visto que algumas dessas fotografias eram encomendadas por empresas públicas e privadas para registrar o progresso da cidade de Campos. Já nos retratos de família, a pose, a vestimenta e os cenários ocupavam papel fundamental para o sucesso das fotografias. Tudo girava em torno de um ambiente ilusório para enriquecimento da foto. Assim,

a arte fotográfica apresenta duas facetas, a satisfazer dois interesses opostos: quando a veracidade interessava, havia o aval da máquina imparcial, a garantia da ciência na obtenção do registro verdadeiro; quando aos clientes fosse bom algum ‘retoque’, alguma eliminação de rugas da face ou ‘clareamento’ de alguma tez, o hábil fotógrafo, com o seu imaginoso auxiliar pintor, tratavam de ajudá-los no intento. Assim, inicialmente, a ampliação fotográfica passou a permitir os retoques, aliás, moda que está de volta nos dias atuais, justificando entre vários ‘ismos’, o neo-realismo. Nesse caso, a fotografia seria um meio e não um produto final. (LEMOS,1983: 55).

É evidente que não podemos deixar de lado, o gosto pessoal do fotógrafo, a escolha da iluminação, do enquadramento, do contraste, do ponto de vista, dentre outros. E para isso, Bolckau tinha muito talento, visto as qualidades e os atributos plásticos de sua iconografia.

Dentre as diversas funções e usos da fotografia, podemos dizer que ela pertence também ao campo dos signos e símbolos. As imagens fotográficas nos remetem a dois níveis de realidade que trazem elementos interpretativos: o meramente denotativo da realidade e o da intencionalidade expressiva do fotógrafo.

A realidade social carrega de significados as imagens fotográficas, mesmo quando ela não se constitui motivo direto de representação. Fazer um passeio pelas fotografias de Guilherme Bolckau é mergulhar no seu universo cultural, marcado pela poesia, sutileza, sensibilidade e história de uma época.

Começaremos nosso passeio com os retratos de família pertencentes à coleção de Leonardo da Silva Vasconcelos, trata-se de um conjunto de fotos produzidas no período de 1877 a 1889.

Os Retratos de Família

O retrato de Francisco José da Silva e Carolina Silveira [Figura 2], é uma foto de estúdio, reproduzindo num ambiente interno, um cenário ilusório, com móveis rebuscadíssimos e, muito bem torneados, criando um mundo de fantasia e riqueza conforme a condição ou aspiração do retratado. A composição, forma diagonais entre as cabeças, as mãos e os pés do esposo com os da esposa, que estão elegantemente posados. Toda essa elegância não advém somente da pose, mas também de suas ricas vestimentas, da delicadeza dos gestos e olhares e da riqueza dos atributos simbólicos.

A iluminação é utilizada com grande maestria pelo fotógrafo, acentuando e valorizando a cena. O retrato está muito bem iluminado, com alto contraste entre as roupas e o pano de fundo, criando um ambiente interno que nos causa a impressão de uma iluminação natural.

O senhor Francisco José da Silva aparece sentado à esquerda com a esposa em pé, vindo a afirmar as relações sociais e culturais da época, trazendo a imagem da família patriarcal e a submissão da esposa.

O retrato de Carolina Silveira ainda muito jovem [Figura 3], foi captado c. 1877. Trata-se de um retrato oval, tipo carte-de-visite, tirado só do busto para cima, tendo o desejo de mostrar apenas a fisionomia da retratada e perpetuar sua beleza. Podemos observar a elegância no trançado e adornos de seus cabelos, assim como seus brincos e laçarote que enfeita seu pescoço. Também a pose em três-quartos e o olhar sereno direcionado para o lado esquerdo vêm afirmar a beleza da jovem senhora.

Era comum no século XIX, o cliente escolher a montagem de sua foto em formato retangular ou oval, esta era uma das características deste gênero de retrato de pequenas dimensões. O ovalado neste retrato nos remete a uma questão sígnica relacionada ao ciclo da vida, onde, o retrato congela a figura no tempo e espaço, fixando e perpetuando a imagem desta jovem senhora por várias gerações.

A foto de um anônimo [Figura 4] foi feita em estúdio, onde podemos observar o caráter refinado do cenário, para vir a afirmar mais uma vez o anseio ou a posição social do retratado. Nele podemos notar uma cadeira e a mesa finamente torneadas sobre a qual está uma rebuscada escultura de um cavalo, afirmando o caráter pomposo, rico, ilusório e posado da cena.

O retratado encontra-se centralizado na fotografia, de pé, com o braço direito pousado sobre o encosto da cadeira, sendo a pose mais característica no ambiente do atelier, como afirma Aracy do Amaral (MOURA, 1993). O olhar parece longínquo e a expressão facial bastante natural, está com postura ereta e um dos braços aparece estirado ao longo do corpo. Apresenta a farta cabeleira bem penteada, e seus trajes estão perfeitamente ajustados e abotoados, com acessórios requintados, como a gravata borboleta, o cinto de fivela sofisticada e os elegantes sapatos, formando um conjunto harmônico. A iluminação aqui é bastante natural e de baixo contraste, deixando quase imperceptíveis alguns detalhes da cena.

As Vistas e Monumentos Históricos

Na foto denominada Rua Direita (atual 13 de Maio) em Campos dos Goytacazes [Figura 5], datada de 1879, podemos observar uma perspectiva acentuada pelo casario, tendo como ponto de fuga a Igreja de São Francisco, ao fundo. Trata-se de uma foto documental registrando a ampliação e pavimentação da rua. Observamos em primeiro plano entulhos, ferramentas que estão sendo utilizadas na obra, carroças com animais, marcos de madeira enfim, um verdadeiro caos típico das pavimentações urbanas.

Paralelo a isto podemos observar no lado esquerdo da foto algumas pessoas sentadas, provavelmente moradores observando as reformas e, mais adiante, algumas pessoas em pé, que poderiam ser pedestres ou até mesmo os trabalhadores da obra.

Em primeiro plano, à direita, temos uma vista parcial da Igreja Nossa Senhora do Carmo, em estilo barroco. O casario é colonial, em sua maioria com dois pavimentos, telhado de duas água, e janelas retangulares, aparecendo ao fundo a Igreja de São Francisco também barroca.

Pela localização da rua podemos afirmar que a foto foi registrada por volta das 10:30 da manhã, já que o sol estaria nascendo do lado esquerdo da imagem, e também em razão ao alto contraste provocado no chão pelas sombras fortes das residências. O céu é claro e límpido, sem nuvens, e nos dá a sensação de um dia muito quente e ensolarado, próprio dos dias quentes do verão de Campos.

Aqui, o enquadramento foi usado com maestria, de forma a exagerar a perspectiva, dando à rua dimensões bem maiores que as reais, onde a largura da mesma, em primeiro plano, torna-se maior que as construções e até mesmo maior que sua extensão. As residências tornam-se quase que pano de fundo diante das dimensões assumidas pela rua Direita e suas reformas, vindo a afirmar a eficiência dos recursos fotográficos.

As fotos da Figura 6 e da Figura 7 são vistas da Praça São Salvador e da Igreja Matriz de Campos. Vemos a Praça sem nenhum tratamento paisagístico, com as palmeiras imperiais recém-plantadas, informação esta que fomos buscar em registros e depoimentos como o da historiadora Silvia Paes e do professor José Ricardo Viana, uma vez que a imagem não nos revela que se trata de palmeiras imperiais.

A igreja matriz em estilo barroco, concluída em 1725, aparece imponente diante das construções que parecem fazer-lhe reverência. Poucas dessas construções permanecem no local atualmente, considerando que deram mais tarde, lugar a prédios e estabelecimentos comerciais. No lugar da Igreja Matriz foi erguida a Catedral de São Salvador, entre os anos de 1928-1935, em dimensões bem maiores e em outro estilo. A praça permanece com as mesmas dimensões, mas recebeu vários tratamentos urbanísticos, embora as palmeiras imperiais que ali foram plantadas, tenham sido derrubadas, mediante protestos da população no início do século XX.

O que causa estranheza na foto da Figura 6 é a ausência humana na principal praça da cidade em dia tão ensolarado, salvo a presença de dois senhores na foto da Figura 7, que parecem estar conversando tranqüilamente. Desperta-nos ainda curiosidade uma “imagem” desfocada que aparece em primeiro plano, bem defronte à igreja matriz, indicando uma possível imagem de uma pessoa montada a cavalo e que estaria em movimento, já que os recursos fotográficos daquela época não permitiam o registro de figuras em movimento.

Em ambas, as fotos o fotógrafo parece estar posicionado no canto inferior direito, aliás, o que podemos observar em quase todas as fotos de vistas feitas por Bolckau - causando a impressão de que foram registradas simultaneamente e com certeza do mesmo ponto de vista. Diferenciam-se apenas pela aproximação da objetiva, o que diminui ou aumenta o ângulo de visão. Neste caso, proporcionou, um maior contraste, com a aproximação da objetiva. O céu, mesmo chapado, também aparece em destaque em algumas fotos de Bolckau, por vezes tomando quase que a metade da imagem. Em outras ele quase que o elimina, cortando-o pouco acima do casario.

A imagem da Figura 8 é uma vista parcial do hospital da Beneficência Portuguesa, tomadas a partir da bacia da Lagoa do Furtado, onde se localiza hoje o mercado municipal, no centro da cidade de Campos.

O fotógrafo se posiciona à esquerda para registrar essa imagem, o título da foto nos remete ao Hospital. No entanto, Bolckau registra em primeiro plano, e com maior contraste, os troncos de madeira e toda a “movimentação” dos trabalhadores à beira da lagoa, para a construção do canal Campos-Macaé, como se quisesse nos mostrar o que estaria por vir detrás de toda essa aparente calma, pois o canal possui extensão de 103 Km, tendo iniciado suas obras em 1844 e seu término deu-se somente em 1872, às custas da mão-de-obra escrava.

Na Figura 9, temos o Hospital da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência, que passou a ser o quartel militar no início do século XX, e uma parcela da lateral e da torre da Igreja de São Francisco em estilo barroco. Observamos ainda um lampião de uma construção provavelmente em estilo colonial prestes a ser demolida para dar lugar à abertura ou alargamento de uma rua ao lado do hospital, como veremos na foto posterior.

Bolckau registrou essa foto a partir de uma maior aproximação do hospital, em comparação à foto posterior, cortando o edifício no canto superior direito e o topo da torre da Igreja em toda a lateral e o canto superior esquerdo está obstruído pelo próprio hospital. A posição do fotógrafo valoriza a composição, que neste registro possui perspectiva com ponto de fuga à esquerda, fora do campo de visão, formando diagonais que fazem com que o observador passeie o olhar lentamente por toda a construção. Também a escadaria forma outro ponto de fuga dentro da porta que se encontra aberta, convidando o espectador a adentrar a construção e fazer um passeio recorrendo à sua imaginação.

Já a foto do Hospital de São Francisco da Penitência no término de sua construção [Figura 10] foi tomado de um ponto de vista que instiga e “perturba” a visão do observador, devido ao ponto de fuga estar localizado à frente do observador. A tomada de ângulo convida o espectador a se afastar da construção e contemplar a imponência do prédio. Mesmo a vista frontal do edifício com a porta aberta como na foto anterior, o observador, aqui, é convidado a descer as escadarias e admirar a edificação, até mesmo porque o próprio fotógrafo encontra-se num plano inferior à porta para registrar essa imagem.

Um detalhe importante é que esta é a única foto que localizamos com a assinatura de Bolckau inserida, em caracteres manuscritos, no canto inferior esquerdo.

As fotos da Figura 11 e da Figura 12 foram encomendadas por empresas privadas para registrar a construção das estradas de ferro da região. Esse gênero de imagem era, freqüentemente, encomendada pelos governantes aos fotógrafos, como forma de registro do progresso material enfatizando os avanços técnicos com finalidade promocional de divulgação do progresso da região.

Ao término deste artigo, concluímos que itineraram à cidade de Campos vários fotógrafos procedentes da capital do Império o Rio de Janeiro, e que, Guilherme Bolckau foi o fotógrafo que mais registrou a cidade de Campos na segunda metade do século XIX.

A sua iconografia é um registro fundamental para a cidade de Campos, uma vez que esta se descaracterizou em nome do progresso. Assim, suas vistas arquitetônicas e paisagens, proporcionam aos cidadãos contemporâneos, um retorno ao passado através de tão “vivas” imagens.

Os retratos de família tornam-se um relicário, trazendo-nos recordações de parentes, amigos, amores, e cenários de nossas vidas.

Quando se pesquisa sobre a fotografia de um determinado lugar em uma determinada época, resgata-se também sua história social e cultural. Estudar os retratos de família, as vistas e monumentos históricos, é, adentrar na história de Campos dos Goytacazes, pois as imagens nos permitem confrontar o passado e o presente comparando sua arquitetura e memória de seus antepassados.

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[1] Artista Plástica da Arte, Mestre Cultura Regional. Università di Torino. E-mail: mscarpat@hotmail.com

[2] Artista Plástica, PhD em Comunicação e Semiótica. Universidade de Paris,.E-mail: aslopes@npd.ufes.br

[3] Prof. Cefet-Campos dos Goytacazes - RJ email: leosilva@cefetcampos.br

[4] Descoberto por Frederick Scott Archer ( 1823-1857) no ano de 1851, que consistia em uma solução de nitrato de celulose em partes iguais de éter e álcool, transparente e viscosa, utilizada como veículo para a suspensão dos sais de prata sensíveis a luz, formando uma camada adesiv asobre negativos de vidro e papéis fotográficos, permitindo a obtenção e um negativo de qualidade mais nítido do que o calótipo, igualmente reprodutível  e tão  preciso e detalhado quanto a imagem do daguerreótipo.

[5] Depoimento prestado pelo próprio Carvalhinho a Leonardo da Silva Vasconcellos em 1981.