Gonzaga Duque: O “Salão” de 1907

contribuição de Arthur Valle

Luiz Gonzaga Duque Estrada, um dos mais famosos críticos de arte da 1ª República, escreveu para as páginas da revista Kósmos, da qual foi um dos principais colaboradores, uma série de quatro resenhas versando sobre as Exposições Gerais de Belas Artes realizadas entre 1904 e 1907. Dezoito anos depois da morte de seu autor, esses textos foram reunidos e reeditados na coletânea Contemporâneos - Pintores e esculptores (Rio de Janeiro: Typ. Benedicto de Souza, 1929, pp.101-168); é essa versão que procuramos transcrever no que se segue, mantendo a sua grafia, bem como as indicações da paginação original. Texto disponível no site: http://www.dezenovevinte.net/

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Salão de 1907

Quando comprei o meu bilhete d’entrada no saguão da Escola Nacional de Bellas Artes senti um fastio, pareceu-me desnecessario subir para vêr coisas que me não sacudiriam os nervos nem me comoveriam. Por fim er­gui os hombros: Vamos lá!

E fui, vagarosamente, galgando os dois lanços da es­cadaria, enquanto, de mim para mim, pedia a Deus que me desse boa dose de paciência. A decepção, porem, não foi a que eu esperava; com fraqueza, contava encontrar coisa differente...

Logo, á entrada, esbarro com uma enorme marinha do Sr. Mario Navarro da Costa. E’ um dos novos da nos­sa pintura; conheço-o, admiro o seu fogoso talento e con­fio muito no seu futuro, se estudar. Esse quadro, pelo as­sumpto o pelas dimensões, já é prova da sua audacia, qua­lidade que só não presta quando, quem a tem, falha em intelligencia e amor á profissão. De resto, a audacia fica sempre bem num moço. Sem ella nada se faz de novo, nada se consegue de original.

O assumpto escolhido pelo moço-artista é um trans­atlantico inglez em descarga, um desses carreiros, pesa­dos cascos de aço que fazem a travessia da Grã-Bretanha no Rio de Janeiro trazendo formidaveis toneladas de far- [148] dos. A hora escolhida foi a da manhã, mas uma dessas manhas pallidas em que a lua parece branca.

Esse effeito está bem aprehendido, quer na tonali­dade do ambiente, quer na das aguas. O movimento de saveiros e lanchas em torno do enorme crustáceo de ferro, a luz que os illumina, as sombras que projectam, indicam observação.

No primeiro plano passa um barco com estivadores, que se suppõe em rumo para o cargueiro.

Contrapondo-se ás qualidades boas, que acima indi­quei, devo dizer que encontro na planimetria o defeito do abaixamento da linha do horizonte, que estreita o espaço, quando elle, attendendo-se ao tom dos longes, principal­mente do plano intermediário, parece ser, na realidade, maior.

O barco, que enche a parte inferior do quadro, falhou algum tanto em valores, donde a flagante confusão dos planos da sua collocação e do navio; sendo que esse tambem se me afigura desenhado um pouco a la diable  na sua parte da ré. Não tenho, com estes ligeiros reparos, a in­tenção de reduzir o merito de um trabalho em que se per­cebe o enthusiasmo de uma grande, de uma verdadeira vocação artistica; faço-os com a sinceridade de que julgo ter sempre dado sobejas provas.

E, por isso, tambem direi ao talentoso rnarinhista, que promette por seu senthimento esthetico preencher o vasio deixado pelo pranteado Castagnetto e, talvez, ser notabi­lidade nesse genero, que não é de feliz resultado emprehender trabalhos tão largos e de tal tamanho em quanto a mão do desenhista não tiver a pratica necessária para os grandes agrupamentos.

A reduccão das  proporções facilita muito o cuidado do acabamento, donde a correição, os retoques, o equili­brio da factura, que concorrem para a estima do conjuncto. Os grandes quadros, ao contrario, exigindo segu- [149] rança absoluta do feitura, levam os menos práticos ás “ficelles” de  larguezas que só servem para illudir, por instantes, a vizão dos incautos.

O quadrinho n. 131, que nos apresenta com a indi­cativa de Estudo, é uma prova da sua applicaçao ao genero escolhido e no qual o espero ver reputado.

Na mesma parede em que esta a grande tela do ta­lentoso Sr. Mario Costa, encontro um auto retrato, em ta­manho natural, da Sra. Adelia Marques Saldanha.

A’ parte a dureza da sua maneira, o trabalho recmmenda-se pelo desenho e cuidados de palheta.

A Sra. Adelia Saldanha é discípula do Sr. Augusto Petit, felizmente numa epocha bem differente da que celebrizou o nome desse pintor, e como discipula imita o mestre nas suas bellas e mas qualidades.

Assim, a dura maneira de pintar que, ao depois, lam­bida a blaireau e envernizada a valer, dá aos quadros o aspecto de placas de porcellana; a preferencia do classico claro-escuro ao modelado, uniforme intensidade do todo, o infeliz uso de escuros terrosos para accusar sombras, como se nota no contorno desse seio direito do auto-retrato, são defeitos do mestre, dos quaes a talentosa artista, parece, dificilmente se libertará.

E é para se lamentar, porque a Sra. Adelia é uma artista e... felicissima por possuir tão formoso mo­delo. E desde que fallei no Sr. Augusto Petit, é justo ci­tar o bom retrato que elle apresenta nesta exposição.

Ha algum tempo a esta parte o Sr. Petit, que com certeza não irá á minha missa (caso o Senhor Deus resolva que, de nós dois, seja eu o primeiro a esticar as canellas), esta se fazendo outro muito diverso daquelle Sr. Augus­to Petit dos commendadores fiambres de ordens terceiras de varios santos.

Em 1905, creio, o retratista dos irmãos provedores, apresentou um nú e mais uma cabeça de asceta que me [150] beliscaram admiração. Palavra d’honra, que me fizeram pasmado. Não que o merito de ambos, o de um lado e o mystico de outro, fossem obras de embasbacar a Posteridade,,. Isso, não! Mas, senhoras, entre o pintor daquelles quadros e o dos commendadores de banquete em consistórios, havia notavel differença.

Os trinta ou quarent’annos de constante exercicio do Sr. Petit lhe serviram para alguma coisa. Olhem que eu conheço pintores que, quanto mais trabalham, mais de­sandam.

Agora, neste Salão que começou com a barulhada do jury (bom augurio, não ha duvida!) o Sr. Petit embasbaca-nos, pelo menos a mim, que nunca lhe fiz fosquinhas, nem tenho o remorso de o ter chamado - o nosso Bonnat.

Esse retrato do Sr. barão Homem de Mello é uma tela que merece francos elogios. E precisamente  no primeiro dia em que alli me achava, precisamente no mo­mento em que notava a firmeza desse desenho, o cuidado em tratar a cabeça, a felicidade das suas minucias, o Sr. barão Homem de Mello surgiu no salão. Tive, portanto, a opportunidade de comparar retrato e retratado... em fóco da minha visão. Não ha duvida, as cabeças eram as mes­mas, as mesmissimas expressões. Apenas um senão: para não destruir o effeito do olhar as grossas lentes, de operado de cataratas, que o Sr. barão usa nos seus óculos, eguaes as que eu uso, (seja consignado isso, para o meu busto que o Sr. Rodolpho Bernardelli ha de fazer, se até lá houver logar no Passeio Publico), fôram substituidas por vidros finos nos óculos do retrato. Pouco vale o re­paro.

Quanto á cabeça, o Sr. Petit ali tem todo o relevo do desenho, accusando bem a anatomia, minudeando as caracteristicas da velhice. E epiderme, espessura de cabellos, vida physionomica, constituem um conjuncto de attendido trabalho que honra o artista.

[151] Como o Sr. Augusto Petit está vendo, é um elogio sin­cero, talvez dos mais sinceros que haja recebido.

Ao demais, essa parle do Salão parece favorecido pelo acaso. Ali está a maioria dos bons trabalhos.

E’ ali que vejo as duas magnificas paizagens do Sr. Roberto Mendes, o nosso paizagista ruskiniano, o poeta da alma das couzas, sem melindrar o meu illustre amigo, o grande poeta Alberto de Oliveira. Por causa das duvidas, retiro o substantivo - poeta - substituindo-o por - pin­tor. Pintor da alma das cousas, não é muito bem achado; mas, por isso mesmo, ha quem tenha apanhado enxurra­das de elogios do Sr. Elysio de Carvalho...

Dos dois quadros expostos pelo Sr. R. Mendes, não se sabe qual o preferível. O d’A brisa (crepusculo vesper­tino, quinta da Boa-Vista) é immensamente empolgante a fulguração do seu ocaso, o sereno harmonico combinado de luz e sombras dos seus planos, o arrepio do lago que faz imaginar passagens de nymphas invisiveis, toda a suavissima poesia que tressuda essa natureza em scismares, todo o encanto que della vem e nos embala a contemplativa e doce alma como berceuse ao luar, fazem desse quadro uma preciosa obra de arte, tão valiosa pelo seu expressivismo quanto pela sua factura, em que não ha exageros, dissonancias, ambages de côres, pois que tudo ali tem a sua estylisação, a sua propriedade, o seu acerto.

Doutro lado temos esse magnifico Estudo de manguei­ras (133 do catalogo), dum verde prodigioso, o verde caracteristicamcnte nosso, que embaraça e cança os paizagistas não familiarisados com a nossa vegetação e, tan­tas vezes, escapa ou compromette aos nossos próprios ar­tistas.

E não é só a côr que destaca triumphalmente esse Estudo, é tambem mui frisantemente o caracter das ar­vores, a sua forma, o seu habitat, que constituem a pre- [152] occupação do estheta Ruskin, e que os nossos paizagis­tas, em maioria, na sua intencionalidade de aspectos, des­prezam ou perdem.

O Sr. Roberto Mendes com os dois trabalhos expostos vem affirmar o que eu já disse delle, em artigo aqui pu­blicado em Junho deste anno, isto é, que entre os nossos paizagis­tas contemporaneos, o seu destaque se impõe pelo saber com que pinta e pela alma com que interpreta.

Já se lhe sente o relevo de um mestre, pouco falta para que a sua individualidade domine soberana na paizagem brasileira.

Ainda é nesta parte do Salão que vemos o Sr. Lucilio de Albuquerque, actual pensionista da Escola na Europa. O Sr. Lucilio, cujo talento conquistou grande numero de admiradores, entre os quaes tenho rorgulho de me incluir, não poude enviar trabalhos que nos indicassem o seu aproveitamento, alias inesperado porque ha pouco tempo que elle iniciou os seus estudos em Paris.

O seu inacabado quadro chamado Dante (canto V do Inferno) tem largamente do quanto elle daqui levou, o que foi o bastante para conquitar, com brilho, o seu logar de pensionista. A composição accusa o que elle ainda nos poderá dar, para satisfazer o alto conceito em que todos o temos. Assim é justo que esperemos, mesmo porque, o seu Agnus Dei, que acompanha o esboçado quadro já referido, não corresponde á espectativa dos seus admiradores.

Bem pintado, não ha duvida, bem desenhado também, mas mediocre de impressão por inadaptabiliidade da fi­gura ao assumpto, que é de feitio decorativo e exigentemente mystico.

Se nao fosse o titulo, se não fosse a composição ten­dente a moldes de pura fantasia, eu me limitaria a elogial-o.

[153] De Paris, onde está, o Sr. Belmiro d'Almeida enviou dois quadrinhos, dalguns millimetros. O que tem por ti­tulo Innocencia é, como os sabe fazer o auctor da Dame a la rose, uma joiasinha de graça, de observação e trabalho.

Representa um petiz, em fraldas, e prende pela per­feição do seu acabamento. O outro, paisagem de Theresopolis, deixa-me na duvida se o meu velho amigo Belmiro fel-o do alto de uma aeronave Santos Dumont, nas proxi­midades da Torre Eifel...

Quem ali tem umas magnificas impressões do paizagens é o Sr. Freitas (Augusto Luiz). No passe-par-tout em que figuram sete impressões, destaco a de n. 80, uma ensolarada ruasita de estreito casario, e a de n. 280, exten­sa estrada de provincia, batida de sol. Essa indicação não importa em menor merito das cinco restantes; todas são muito bem pintadas, como grandemente é interessante a sua rua de aldeia, que foi collocada no segundo biombo do Salão.S

E com o mesmo interesse contemplo o estudo do in­terior (205) do Sr. Carlos Sussekind, que indica um bom artista a chegar.

Não devo esquecer o Sr. João Macedo com Um solo interrompido e a Officina de pobre, ambos reveladores da sua dedicação ao trabalho e também o velho, o legendário Angelo Agostini que, apesar dos annos e das molestias, não entregou a sua palhêta á prateleira da dispensa e ao caruncho da indifferenca. O inolvidável desenhista da Revista Illustrada, cujo lápis teve o vigor e o gume duma penna demolidora de pamphletista, envia uma composi­ção Criança arrebatada pela aguia, muitíssimo aproveitá­vel em illustração de "Contos da Carochinha".

Ao vêr este quadro, diante do qual parara ternamente uma linda senhora que parece trazer seis mezes do casa­mento, tive saudade dos meus oito annos, talqualmente o dulcissimo Casimiro das “Primaveras”, não por causa das [154] azas ligeiras das borboletas azues, mas, sim, por causa dum distractiivo school’s book que me deliciava com uma canhestra gravura semelhante, exactamente semelhante a esse quadro do inesquecivel fundador do Mosquito e figurista das scenas do Zé Caipora.

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Devo-lhe, portanto, este momento de suave recorda­ção, pelo qual me confesso agradecido.

Penetro o segundo compartimento do Salão. Rejubilo. Encontro mestre João Baptista da Costa com as suas brilhantes, as suas bellas paizagens, que são pedaços destacados da nossa formosa terra.

Nada menos de seis telas, quatro de Juiz do Fóra, duas do Rio de Janeiro. Não estão todas reunidas na mesma parede nem na mesma divisão. Mas, como ali é que se acham as maiores, aproveitar-me-ei dessas para falar daquellas.

Campo em Flor e Depois da Chuva são pinturas que nunca mais a gente as esquece.

Naquelle é o campo florido, um largo trecho do paizagem, arvores, longes em que ha lombadas de serras, duas figurinhas vivas no primeiro plano; ness'outro, tam­bém vasto, a chuva abriu regatos, lavou os verdes da pas­tagem, reviveu as frondes... e pela estrada por onde cor­rem claras aguas, vão o rebanho de ovelhas tangido pelo pastor vagaroso.

E não contente com nos offerecer o goso do contem­plar esses dois trabalhos, prende-nos com o Caminho da Floresta, casa de pobre, interior de floresta, paizagem de Juiz de Fóra, que nos encantam... e a mim, particular­mente, me acabrunha por me sentir impossibilitado de ser um dos felizes possuidores desses lindos quadros. Ah!... [155] mestre Baptista parece ter um coração de ferro! É insen­sivel ás minhas lamurias, surdo as minhas supplicas, indifferente a minha pobreza que me reduz a contigencia de amador... platonico.

Maldita pobreza! Verdade é que só me lembro della nestas occasiões... de todos os dias... Mas, agora, pala­vra! que a sinto. Se me sobrassem bilhetes da Conversão nos bolsos, esse Cataplum! de Barbasan Lagueruela (ca­ramba!) me não escaparia nem a força de muques.

E’ extraordinario e admirável o Sr, Barbasan Lagueruela!

Cataplum!... sabem os senhores que seja?

E’ uma ruasita de aldeia, em Itália, creio. Muito lixo, muita gallinha e muitos gallos... O dia está lindo, um glorioso dia, glorious day, no dizer dos inglezes e do smart Sr. V. de Paiz; o sol vae quente, brune o céo, metalisa raras folhagens de raros arbustos, lasca em vibrações a pedra e a caliça do casario reuno, acaçapado e caturra. Uma petiza, que já floreja em moçoila, vem com uma caçarola caminho de casa; mas, como é traquinas ou des­cuidada, não attende por onde pisa, e, num dado momento cataplum... bate de ventas na esterqueira da ruasita. E esperneia, escabuja, berra, desesperada com a queda e mais damnada com a perda das papas, o que lhe ha de custar, conjecturamos, uma roda viva de valentes petele­cos se não for de rudes tabicadas. E os irmãosinhos, que a seguiam, sem saberem o que fazer, ficam pasmados a “ver a scena”, em quanto, gallinhas, gallos e frangótes alarmados com o berreiro, se escamujam por todos os can­tos, em cacarejos desesperados.

Ahi têm, como me foi possível traduzir, o que é o Cataplum do Sr. Barbasan Lagueruela, um quadrinho que pouco mais passa de um palmo.

Isso, quanto ao assumpto; quanto á pintura, é de sa­ber-se que o admirável Sr. Barbasan Lagueruela possue [156] uma palhêta maravilhosa e maneja os pincéis que pare­cem finíssimos como um alfinete de almofada, com a pe­rícia de um Boldini, ou do famoso Meissonier, tendo como elles, para vantagem da completação da sua obra, um desenho correctissimo. E, por menor que seja o de­talhe, elle o representa completo. A cabecinha de um dos petizes, que é menor que a unha de um pollegar de recem-nascido, esta tratada com tal minúcia que nem lhe faltam pestanas!

Não prejudica, porém, a impressão do brilhante quadrinho o excesso de minudencia, porque, sobre o asseio das tintas, ha precisão absoluta dos tons.

Na mesma parede, em que foi posto esse admirável trabalho, encontra-se um Canto de atelier da Sra. Irene de Andrade, que é encantador pela simplicidade e obser­vação. A figura de menina que está sentada no chão so­bre um panno esverdeado, lembra a maneira asseiada do pintar do seu illustre professor, o Sr. Rodolpho Amoêdo. A sua cabeçita morena de cabellos pretos, cortados a nanivita, a expressão dos seus olhinhos, o seu vestido de li­nho branco, as perninhas nuas em piugas pretas, os borseguins de couro amarello, tudo isto tem o tóque certo, o valor proprio de quem está seguro do seu métier. E posto seja esse o que mais me agradasse dos seus quadros, é jus­to que se lhe note as mesmas qualidades no Convalescente, mais forte em composição, e na sua Rêverie, muito forçada no colorido.

Ali tambem está uma bem tratada natureza morta, Bom­bons e licor, da Sra. Beatriz de Camargo, o um Attendant le retour da Sra. Marie Louise Bernardiéres, representan­do uma senhora que, a luz de uma lâmpada de largo abat-jour de seda verde, interrompe a leitura dum livro e volta o rosto a observar, sem duvida, a pendula ou attender a algum rumor que annuncia a approximacão d’alguem.

Delicado assumpto pelo muito que a phisionomia pó­de expressar, e tratado pelo artista com algum desemba- [157] raço; mas, á parte as qualidades pinturescas que lhe en­contro, sou de opinião que a cabeça da figura deveria participar dos reflexos da seda verde do abut jour, como ti­veram as vestes do busto.

Mas adiante achasse um retrato de menina, n. 149, ex­posta pelo Sr. G. Neves, artista portuguez aqui residente.

E’ um bom trabalho, demonstrando conhecimento da sua arte e pintado numa grande harmonia de tres tons, o amarello brando do enorme chapéo de aba levantada, o roseo attenuado do rosto, e o escuro da pelle que cobre os hombros da menina, harmonisando esse, em fuga para o claro, com os cabellos louros.

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Uma numerosa família, que chega nesse momento, intercepta-me a apreciação dos quadros. Nada menos que duas alentadas senhoras, três gordas mocinhas e qua­tro meninas, que me parecem annuncios da Emulsão Scott, se postam na minha frente. Resigno-me. Tomo logar numa cadeira e começo, pacientemente, a rabiscar notas, a guiza dos criticos patrícios que se dão ares de autoridades deante do publico.

Vamos ás notas.

Menge - diz o catalogo entre parenthesis; A. do Alvim, etc., etc. Revela-se artista consciencioso, sabendo guiar sua mão no desenho e jogando bem com o colorido.

O seu Novato, genero tableautin, é interessante pela composição, que ladêa a verosimilhança. Um rapazola en­dinheirado, herança do pae barão ou d’algum tio celibata­rio estourados ha pouco tempo, entra na vida alegre da jeunesse dorée por um dia de carnaval. Em caminho encontra uma pierrete dengosa, cocéga-se-lhe o instincto, e vae elle frecha a saracoleante, dá-lhe caça, negacêam-se, reencontram-se, trocam palavras... Está tudo perdido. D’ahi para o gabinete reservado dum restaurante on parle français a distancia é curta. Entram. E' de suppor que [158] isso se passe em Paris porque o bom arranjo daquelle interior não está nos moldes cá da terra. Quando o Sr. Menge pintou o seu Novato ainda não tínhamos inaugu­rado o pavilhão mourisco, de Botafogo. Uma vez lá dentro, que não fizeram os dois? Mas, isso não é da minha conta. O que sei é o que estou vendo. Comeram e beberam, be­beram mais do que comeram, assim nos dizem as garrafas vasias de champagne... e o resultado foi aquillo, o me­nino adormeceu sobre a toalha, e a pierrete mais pratica nossas cousas alegres de elegante esbodegação, e mais se­quiosa que o seu amorzinho, veiu fazer bonito em pose, retirando o loup de velludo negro e levantando brindes... a quem?... sem duvida ao creado do hotel...

E’ um conto a Arsene Houssaye. Chama-se isso pin­tura anedoctica, se o meu sapiente collega Dr. Araujo Vianna, critico, archeologista, e docente da Escola, não julgar errado.

A pierrete é uma figurinha muito bem tratada no seu largo vestuario branco, com botões negros na bojarca. De resto, todo o quadro indica cuidado, o que lhe dá valor.

 Mas o Sr. Menge não se limita a explorar a pintura anedoctica, apresenta-nos um excellente Velho Garibaldino, vigorosamente feito e uma linda Ave, Maria!  cheia de graça na sua delicada figura.

Georgina de Albuquerque - E’ uma artista, mesmo direi uma grande artista que devemos esperar. A sua pin­tura inculca-se ainda vacillante na maneira, mas afas­tada das esquerdices e timidez dos principiantes.

O Supremo Amor tem qualidades de pincel, que a recommendam entre os expositores. Assim vejo na frescu­ra do corpinho da creança, do rosto da jovem mãe e no modelado do busto. Prefiro-lhe, no emtanto, a Italiana, um estudo de mulher do povo pintado com firmeza, obser­vado com cuidado.

[159] No seu typo vulgar, sem belleza, ha o quer que seja flagrante, que a faz viver, que nos recorda tel-a visto onde quer que fosse.

E’-lhe o rosto descarnado, o queixo duro, o olhar bran­do. Tem cabellos pretos, apartados no centro sobre as temporas, e inclina a cabeça a um quarto de perfil.

Sobre o busto forte e osseo, vestido em tecido pobre de um cinzento vagamente azulado, cruzou um lenço amarello, e traz as mãos sobrepostas ao ventre.

Ahi esta a figura. E’ commum mas é bem feita, é real, vive. Fazer viver em Arte é uma victoria. E ainda que seja em um simples busto, desde que esteja vivo, a obra se nos communicará, falará da sua expressão: dôr, ale­grias, indiferença,..

As puerilidades, essas, mesmo bonitas, se nos não en­fadam ou irritam, deixam-nos frios.

Carlos Chambelland - Já em dois Salões elogiei este novo artista, que pertence á nova geração.

O seu talento vae conquistando de anno a anno o logar que ha de ter, e será no primeiro plano entre os que mais se recommendarem.

São dois os trabalhos quo ora expõe. O que, neste mo­mento, tenho em frente, é um soberbo retrato do amabilissimo e talentoso Dr. José Mariano Filho - um dos mo­ços mais distinctos, pela cultura mental, na época que já não é a minha nem muito menos de todos os respeitaveis membros d’Academia Brasileira de Lettras, o Sr. Dr. Ma­rio de Alencar inclusive.

Só a maneira por quo o Sr. Chambelland modelou a cabeça do retratado recommendal-o-ia como uma das pouquissimas melhores obras da presente exposição.

Ali ha trabalhos de mestre que estão muito abaixo da execução deste retrato.

[160] Contraria-me, porém, a escolha que o artista fez do local, de fundo gris, a roupa azul vestida pelo retratado e a aproximação de uma mesa com forro verde, porque esses accessorios influiram na cor do rosto, que o Dr. Marianno Filho tem clara, de um leve roseo cheio do frescor da mociddade, e agora vejo amorenada e sem calor.

Isso não tira o valor artistico do quadro, bem o sei; modifica, porém, em parte, a semelhança. Entretanto, a cabeça vive, o olhar é verdadeiro, os pormenores são absolutamente reaes.

No final de jogo o seu trabalho é maior, por causa da composição, mas a sua habilidade de pintor não supplanta esse retrato.

Considerado pelo lado da difficuldade, que o agrupamento desperta, o final de jogo é uma obra de folego; por ella se poderá aquilatar do talento e gráo de saber do seu aucor. Mas, como assumpto pinturesco, está a lembrar livro de moral, talvez seja um ponto de esthetica positivista.

Luiz Christofe - Começarei por uma barretada; este Sr. é uma revelação para mim.

Não conheciamos nem o sabiamos aqui.

Charmes (forêt de Fontainebleau) e Debarquement de la sardine são trabalhos de mestre,

O Sr. Christofe inclina-se, nesses dois quadros, para os assumptos serenos, em que se extrema a poesia dos simples, da alma popular.

A sua pintura é solida, exacta, consciente, o seu desenho correcto, guardando na severidade da cópia uma flexibilidade elegante.

Não sei qual prefira desses dois quadros, se a poesia hybernal  da  floresta de  Fontainebleau, com as arvores desnudadas, os leprosos troncos duros, a folhagem fofa e avermelhada do solo; se a calma desse mar de Concar- [161] neau, em cujo caes molhado desembarca a multidão maritima sob um céo farrusco de chuvas cahidas.

Ambos  excellentes.

Oscar Pereira da Silva - Depois que se domiciliou em S. Paulo o Sr. Oscar poucas vezes nos tem feito admirar as suas obras. Temol-o desta vez com um canto de casinha.

A pintura do Sr. Oscar tem um defeito, o da frieza; não obstante isso, que lhe vem directamente do tempera­mento, o seu desenho é meticuloso, a cópia sempre attendida, a pintura bem feita. E essas qualidades estão todos neste grande quadro, onde uma velha mulher do typo commum das nossas caseiras, assentada em frente ao roceiro fogão de tijolos, esperta o fogo do lenha para activar a fervura da panella. Os detalhas, quer os que constituem utensilios de cosinha, quer os que são roupas, lenha, cin­zas, foram rigorosamente estudados e formam um conjuncto admiravel.

Alberto Delphino - Ha muito tempo que o Sr. Delphino, o pintor do Tropeiro que é um bom quadro do cos­tumes nacionaes, nos não dá provas da sua applicação.

Aqui o temos com três quadros, duas pequeninas paizagens, sumidas no meio dos muitos quadros expostos, e um de tamanho menos susceptivel a ser esquecido. Sau­dosa Marilia é o seu titulo.

Não sei porque saudosa nem porque Marilia. E’ um meio busto de mulher, pouco mais dos hombros sobre um fundo de paizagem cheia de sol. A cabeça tratada bem, tem caracteristicos patricios, mas não é bonita nem ex­prime o sentimento que se espera com o titulo,

Eugenio Latour - Um novo e bom artista, que está actualmente em Roma.

Barcos de pesca em Veneza, ricamente colorido, lar­gamente illuminado; effeito de sol que o é realmente; [162] com um boião de flores em fundo de campo, e Electra, taes são os seus quadros.

Gosto immensamente da Electra, que me lembra a lithographia do fallecido e extraordinario Felicien Rops – buveuse d’absynthe.

Electra é uma rapariga das ruas, consumida pelos ví­cios. O seu franzino busto, mal vestido num réles tecido negro, indica a ruína daquella saúde; esguicha das clavicula, que mal se escondem nas roupas, um pescocinho frouxo, amarellento, que suspende a cabecita douda, de faces vivificados a carmim e besuntadas de pó de arroz. Mas, essa cabecita viva resume toda essa alma infeliz, re­presenta a desgraça desse corpo em que a luxuria metteu os dentes peçonhentos num desespero. E no ardor, no ati­lamento de seus olhosinhos garços, no conjuncto do ex­pressão de seu rostosinho em cuja pequenina bocca o car­mim põe renovamento de desejos, lê-se o drama que Electra vem representando, em successivos actos desbraga­dos, entre bebedeiras e fome, batida peles uivos da las­civia, pelo lodoso declive da miseria até chegar á porta do Hospital.

Ella, porém, já não sabe por onde rola e se despenha; deixou esfrangalhada pelos encontrões do deboche a consciencia do seu destino. Vae, porque deve ir; vae, porque tem de ir, e como a fome a esporeia, e como o vicio a empurra, sae a envenenar os incautos attrahindo-os pela singularidade dos seus modos, pelo escandalo do seu petulante chapéo vermelho que lhe fica sobre a cabecita de frisada cabelleira castanha como uma aureola de sangue e fogo, numa explosão de crime.

E no meio dessa esforçada producção de Arte, producção não pequena e que, bem ou mal, tende á conquista de um nome, as caricaturas de Raul, sendo um dos successos da exposição (porque até a S. Exc., o Presidente da Republica attrahiram e alegráram), são também, pos- [163] toquê involuntariamente, uma leve ironia ás tentativas dos concurrentes. Ellas, as caricaturas do Raul, expontaneas no seu delineio, irresistiveis no seu comico, provocantes por suas legendas, alli estão como a força eterna d’alegria triumphando do conflicto febril das pretenções.

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Terceiro tabique:

Um Crepusculo do Sr. Puga Garcia, feito com grande sentimento. Em outro logar vi do mesmo senhor uma fantasia (pastel) que me despertou attenção pelo regular trabalho da cabeça feminina, que, não sei porque razão, a não ser que fosse pintada de cór se denomina fantasia.

Se é este o motivo, o Crepusculo também é fantasia, porque a figura nua, do mulher, que ali está, trae, em tudo, a falta de modelo.

O assumpto me não satisfaz. Pelo abuso que o nú tem tido, quasi todas as posições, ainda mesmo as menos estheticas e não raro as menos decentes, foram explora­das. Disso resulta o estafamento dos assumptos. Para que um desses quadros se salve pelo motivo é preciso que o nú seja admiravelmente tratado.

O que encontro nos quadros do Sr. Puga é a poesia dessa fantazia da paizagem, o mysterio que a envolve na sua profunda tonalidade violeta, sob um resto de lua quente. E quem possue esse sentimento de exprimir é um artista.

A sua promissora estréa, que lhe deve ter confortado a alma e animado suas esperanças, deixam prever o que elle nos dará mais tarde.

Como sempre vejo no Sr. Carlos Oswald um artista do grandes recursos, e trabalhador incansavel. O retrato de seu pae é um bom quadro e não deixa de attrahir sym- [164] pathicamente o retrato de M. B., que está assim com ares de pretendente á secretario de legação, ensaiando, para uso proprio, (graças a Deus!) uma scena de Hamlet.

A cabeça de estudo, essa, destaca-se dentre as de­mais, pela originalidade da sua feitura.

Quem ali sobresáe, tambem, e de modo considerável, é a Sra. Regina Veiga, discipula do professor Amoêdo, com dois retratos. O de n. 192, é de uma senhorita em leve fazenda amarello gaio, chapéo de palha da Italia com laço branco na cabecinba de cabellos pretos, sombrinha branca em cujo castão descança a dextra e uma bôa do pennas brancas que se desprende do seu hombro esquer­do e se vae encurvar sobre uma cadeira em que ha do­bras de gorgorão branco.

Harmoniosamente fresco e alegre esse conjuncto de mocidade e tons claros.

O segundo retratinho (ambos são em metro de téla), o de n. 193, é também de uma elegante senhorita de cabellos negros, em vestido branco, bôa branca, destacando-graciosamente, sobre a moldura, a ponta de sapatinho do couro amarello.

Como o anterior é alegre e claro e em ambos a carna­ção rosea das retratadas, o frescor de suas mocidades, o asseio dos tons, a elegancia do desenho, concorrem para lhes dar urna fulguração primaveral.

A Sra. Luiza Belart, outra discipula do professor Amoêdo, expõe uma feliz fantasia, busto de senhora em bôa branca e tecidos brancos, e um estudo de torso de mu­lher, infelizmente muito mal escolhido. Outra sra. disci­pula do professor Baptista da Costa, que ali figura com um bom quadrinho, Canto de Jardim, é dona Rachel Boher. A vegetação está bem tocada, nos seus tons lumi­nosos, nota-se desembaraço na sua pincelada e o desenho sáe-lhe regular.

[165] Com uma cabeça de india estréa nesta exposição o Sr. Dr. Barbosa Rodrigues, director do Jardim Botanico e amador de bellas artes. Eximo-mo de dizer algo a res­peito por se tratar do Índios... desde que andei por um aldeiamento do selvicolas e lhes conheci certos habitos tomei-lhes gana... nem pintados os quero ver!...

O Sr. professor Bernadelli, (Henrique) que, segundo informe do velho Sr. Guanabarino, foi introductor da ca­ra rapada na roda v'lan do Rio de Janeiro, dá-nos da ma­estria dos seus violentos pinceis uma boa copia do retratos. Se são ou não parecidos nada poderei adiantar, que não conheço pessoalmente os srs. retratados. E’ de crer que estejam parecidissimos. Bem pintados, isso sim, é o que posso dizer, tão bem pintados estão que os de ns. 28 e 29, Dr. J. B. O. e visconde do T. de C. até trazem as mãos pintadas do sujo!... O visconde não contente com isso e com o figurão de suas innumeras condecorações, ar­rancou as pennas de alguma bôa, provavelmente dos re­tratos das discipulas do professor Amoêdo (que todos são ricos desse aquecedor) para fingir luvas.

No mais, todos nós sabemos que o Sr. professor H. Bernardelli é um mestre na pintura.

E quem está talhado para ser um grande artista é o seu discípulo, o Sr. Arthur Thimotheo da Costa, que de dia a dia nos demonstra o seu ardente talento e sua larga habilidade de compositor.

Antes d’aleluia (pintado a tinta matte, por processo egual áquelle com que o Sr. Bernardelli pintou as deco­rações da Beneficiencia Portugueza, e que, por ahi foi chamado encalca) é uma tela movimentada, de muitos agrupamentos e infelizmente não terminada. O que esta feito, porém basta para nos dizer do valor desse moço artista, extremamente sympathico por sua audácia e grandemente habil.

Em quanto eu contemplava esse quadro, enthusiasmado com o seu auctor, um sujeito insinuante se me appro- [166] xima e mui amavel entreteve conversação commigo, ape­zar de minha aversão a palestras com estranhos.

Elle - E’ o primeiro acto ou se quizer a primeira scena...

Eu - Não o comprehendo, senhor. De que trata?

Elle - Do quadro que o senhor contempla.

Eu tambem o admiro,  esta bem feito.

Eu - Mas, porque me fala em primeiro acto?

Elle - Porque, realmente, o é.

Eu - Como?

Elle - O senhor vê aquella rapariguita que ali está encostada ao muro... Repare-a. Repare, depois, naquelle velho barbaça; depois naquelle sujeito que finge escolher mangerições ou arrudas... para beliscar a pequena...

Eu - O sr. inverte as cousas... Não é esse o pensa­mento do artista.

Elle - Perdão. Queira ter a bondade de me acompa­nhar. Aquele malandrim seduziu a rapariga. Sim, sedu­ziu-a, e por causa desse desafôro veiu o segundo acto, que é aquelle que ali está (apontou para o final de jogo do Sr. Chambelland). Foi um sarilho. O pae o o irmão mais ve­lho da rapariga e os amigos do seductor, com o próprio seductor á frente, encontraram-se numa hospedaria de má nota e foi aquillo que o senhor está vendo: cacetadas, rasteiras, facadas... Depois, o final, é aquelle. (Apontou-me o Epílogo do Sr. Manna.) E' aquelle, o terceiro acto. O velho, coitado, quiz defender a honra da pequena e mandaram-no para o Necroterio.

- Eu (boquiaberto) ... Mas... o senhor é extraordi­nário!!...

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[167] SALÃO DE ESCULPTURA

Ainda desta vez a esculptura nos não emociona com uma obra original, sahida dos moldes corriqueiros dos ornamentos de salêtas burguezas.

No emtanto, o Sr. Corrêa Lima rompeu um pouco com a frieza das cousas parecidas umas com as outras, envi­ando uma estatuêta (motivo de nú) de Iracema. E’ uma graciosa figurinha, esculpida com a conscienciosidade que caracterisa o inspirado auctor da Mater Dolorosa, que tem talento para trabalho mais empolgante.

Deante dessa pequena e acabada obra, que apenas faz recordar o modesto mas talentoso esculptor do Pagé, Caim, Prisioneiro, devemos lamentar que o ex-Prefeito, Dr. Pe­reira Passos, o reformador desta capital, não se lembrasse de o aproveitar para ornamentar os nossos jardins publicos, quando se adquiria na Europa obras do arte para esse fim. Provavelmente o actual Prefeito não o esquecera e assim a falta será remediada por honra nossa.

E’ justo que se dê aos esculptores nacionaes o consolo de, ao menos, não nos deixarem unicamente gessos en­tregues á incúria dalguns estabelecimentos officiaes.

A Sra. Nicolina Vaz, sempre laboriosa, apresenta quatro trabalhos. A sua maneira delicada d’esculpir, em que ha certa feminilidade e, por isso, elegancia e rapidez, faz-se recommendavel no busto de gravina, na Meditação e Oração, tres gessos que participaram da sua alma de ar­tista para a sua intensidade expressivista. Em outro ge­nero, mas sem perder a marca da origem, é a Cabeça risonha, uma cabecita de bambina alegre, e é o pequeno bronze Segredo, genero de cabecinhas, interessantemen­te composto, de um cupido que segreda a uma rapariga [168] cousas que a fazem concentrar o olhar num prazeroso es­forço de attenção.

Ainda temos o Sr. Honorio da Cunha e Mello (que nome cumprido!) com um busto em gesso Juventude, mo­delado com interesse e facilidade, e o Sr. Moreira Júnior que apresenta uma estatuêta - Pensativo - em que se inculca um artista de grande futuro, pela expressão, sen­timento, e execução do seu gesso.

Dois artistas estrangeiros ali estão, o Sr. José Ferrer, de Buenos Aires, com um pequeno bronze, retrato do Sr. P. G. de delicada minudencia e muito bem acabado, ape­sar da infeliz idéa de fazer a figura em meio corpo, isto é, até os joelhos; e o Sr. Marc Robert, de Franca, com um busto em bronze do pintor Antonio Parreiras, trabalho largo e cheio de vigorosa expressão.

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Da longa enumeração feita, a que escaparam, é d'esperar, alguns nomes, uns por necessidades de deixar os seus portadores na doce illusão de habilidosos, outros por inadvertência do chronista e ainda outros porque ficaram muito aquém do mediocre... dessa enumeração, vinha eu dizendo, deprehende-se duas revelações: postoquê desprovidas de grandes arrojos, as artes plasticas desenvol­vem-se com certo interesse publico. O salão deste anno é, em numero, pelo menos, superior aos de annos passados, e se cotejarmos o valor das obras deste com as daquelles verificaremos que, á parte alguns mestres, o actual supplanta os procedentes.

A outra está no grande numero do pintoras que alli se exhibio, e algumas com real merecimento.

A nossa arte de amanhã será uma das conquistas do feminismo?

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