Gonzaga Duque: O “Salão” de 1904

contribuição de Arthur Valle

Luiz Gonzaga Duque Estrada, um dos mais famosos críticos de arte da 1ª República, escreveu para as páginas da revista Kósmos, da qual foi um dos principais colaboradores, uma série de quatro resenhas versando sobre as Exposições Gerais de Belas Artes realizadas entre 1904 e 1907. Dezoito anos depois da morte de seu autor, esses textos foram reunidos e reeditados na coletânea Contemporâneos - Pintores e esculptores (Rio de Janeiro: Typ. Benedicto de Souza, 1929, pp.101-168). É essa versão que procuramos transcrever no que se segue, mantendo a sua grafia, bem como as indicações da paginação original. Texto disponível no site: http://www.dezenovevinte.net/

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Salão de 1904

E’ difficil fazer-se uma classificação dos trabalhos do actual Salão, e a não ser por uma demasiada boa vontade ou um snobismo perdoável, por inoffensivo, talvez escorrido em moldes galantes de um viver menos rude que o costumario, poder-se-ia dividir os expositores em grupos d'escolas e determinar-lhes, com visos do acerto, as tendências estheticas.

Mas, se as notas, porventura justas, de um rabiscador do chronicas, habitualmente desageitadas e pretenciosas, obtiverem attenção de alguem e da sua emissão se derivar conceito, direi que, nesta exposição como nos anteriores Salões, só encontro pintores de figuras e paizagistas, porque na maneira do interpretar os assumptos e do os fixar a egualdade é quasi completa, com desconto das habilldades.

D’ahi, pois, um limitado modo de vêr, que se restringe ao mérito pessoal de cada expositor, e que se irá desdobrando na ordem estabelecida pelo registro das impressões.

Começarei pelo professor Amoêdo. O escriptor illustre das “Notas de Arte” do Jornal do Commercio, o Sr. Carlos dos Santos, já notou que esse artista, de um tempo a esta parte, preoccupa-se mais com o processo material de pintar que com os themas de pintura. E’ uma obser- [102] vação exacta. Mas, por se lhe conhecer esse foro, não se lhe deve carregar na censura, porquanto o rebuscamento do grande artista, que é dos que mais honram a nossa pobre Arte, tem um alcance de alta valia deante da rapida perecibilidade ou transformação dos materiaes modernos. A nossa pinacotheca conserva quadros que, contando poucos annos de existência, mudaram de cor, entre esses alguns do professor Amoêdo, os quaes, se não perderam de todo o seu brilhante colorido, soffreram consideraveis modificações nos tons.

Com esse notado rebuscar tera o illustre mestre acertado? Não o sabemos, nem elle próprio o affirmará. Verdade é que a pintura a ovo, que ora nos apresenta, essa captivante, essa bellissima Captiva que nos surpreende e nos immobilisa em contemplação, parece assegurar um vantajoso substitutivo do oleo. A volupia da epiderme, a nuança quasi impercetivel dos tons da sombra para a luz, a delicadeza da coloração quente d'esse corpo moço de mestiça, que ali temos, desnudado da cabeça á cinta, e que a posicão frouxa do descanço assentado mais difficulta a verdade do modelado, o artista venceu admiravelmente por um processso que illude, que reproduz de modo incomparavel.

A maciez dos seios turgidos, tão fina, tão nítida que desafia o tacto, a anatomia dos ommbros, o flácido peso do ventre e a perfeição da cabeça em que reluzem toques claros de sol, sendo marcas dos pincéis do mestre, parecem ganhar por essa tinta uma vida mais intensa, a que o brilho dos vermelhos do fundo e do panno do regaço realçam com o vigor dos celebres vermelhos flamengos.

Tal processo, feito por quem sabe, é incontestavelmente magnifico, mas, quanto á sua durabilidade, só o tempo a poderá provar. O que é exacto é que a procura do processo nos offereceu a opportunidade de admirar uma obra inestimável, cuja diminuta dimensão mais de- [103] licada, mais deliciosa, mais bella torna a figura pela perfeição do acabamento, desde os valores, o desenho anatomico da fórma, a verdade da côr, até a expressão da cabeça, onde ha um quer que seja de indifferença e orgulho, de passividade e ousadia.

Mas, não se limitou o professor Amoêdo a pintura a ovo, rebuscou a restauração da eucatística, por seus dous processos - a pincel e a ferro. A esses dous modos expõe a Oração, que é do primeiro e uma cabeça-retrato, do segundo.

A Oração é um busto de rapariga elegante em contraste com a claridade de uma vidraça a que se encosta.

Não tem a posição commum das rogadoras, é uma original postura que se coaduna com o titulo pela expressão do rosto.

Opposto á claridade da janela, todo o seu busto está numa penumbra em que se estabelece a finura dos tons macios, em verde brando, de suas vestes á moda.

A cabeça, que se lhe inclina á esquerda, sobre os mãos enclavinhadas ao de leve, lindas mãos aristocratas que algo recordam a Marcha Religiosa de Edmundo Harancourt - a cabeça tem uma dulcíssima expressão do prece, de religião elegante e aliviadora, em que o balbucio da Ave Rainha se exhala duma bocca perfumada a Tsén-Tsen... E’ de luz, como uma caricia ou um soccorro que lhe chega, apenas um beijo sobre o contorno oval da face, sobre a palpita narina esquerda e no semi-círculo da trunfa dos cabellos, contornando-a, como um halo, em revés.

Esse processo, porém, se nos apresenta muito secco. Não possue o avelludamento do pastel nem a tonalidade pastosa da pintura á ovo. Os vermelhos, sobretudo, ganham com elle uma resistência áspera de argila ressequida, como se nota na cabeca-retrato. Na Oração, seja pelo [104] recurso do meio tom e pela ausência de vermelhos francos, seja pelo recurso dos pinceis, essa dureza não se accusa tão insistente.

O oleo, e também o ovo, dão resultados mais seguros, reproduzem melhor a realidade. Do mais, o óleo é um processo que atingiu a máxima vulgarisacão, é o material commum, que se maneja desde as primeiras pinceladas.

E é por isso que os cinco retratos apresentados pelo professor H. Bernardelli não fazem o amador vacillar, impressionam-o logo ao relançe dos olhos. O do pianista Arthur Napoleão e o do pintor Modesto Brocos, apezar de não me ser possível garantir a exacta, semelhança com os originaes, tem todas as qualidades das obras completas.

O primeiro, sobre a excellencia da pintura, é um rico trabalho, audacioso pela massa negra, formada pelo piano e pela roupa do retratado, donde se destaca a cabeça viva, extraordinariamente animada do velho magico do teclado.

A expressão do seu olhar deve ser aquella, porque toda a realidade vive naquella pupilla do seu característico perfil.

E o mesmo pode ser dito de todos os outros, desses maravilhosos transportes do real para a tela, que são a prova do soberano dominio da palheta em que as tintas se transmudam um sangue, em epiderme em ossamenta, em alma, com que o artista recompoe na imagem o que vê e o que quer.

Não obstante consederal-o um mestre, e prezal-o com toda a admiração que o seu talento me desperta, não posso calar a extranheza que me alfinetou de sentir o bello retrato de Mme. O. L, fora do ambiente, como se o accessorio paizagenado, que o cerca, não lhe tivesse servido de local.

Na paisagem e mesmo, diremos, nesta exposição, a par dos dous mestres da pintura brasileira, quem mais atrahe os olhos do visitante e lhe põe exclamativas enco- [105] miasticas no cérebro é João Baptista, já conceituado pintor da nossa natureza, com seus oito trabalhos e, especialmente, com o seu grande quadro - Fim de Jornada.

A caracterização da nossa paizagem, a que elle nos acostumou e que seus pinceis dia a dia vão conseguindo fixar da maneira mais impressionante, esse inconfundível, por ser hybrido, sentimento de força e de melancolia que resumbra da natureza, por elle interpretada e ao de mais o brio, a luminosidade de suas tintas fundem-se nesse quadro, e delle fazem uma bella obra de verdade e de arte. E'-lhe assumpto a primeira hora do crepusculo vésper, momento em que o dia começa a se diluir, brandamente, na aguatinta violeta da noite para o negrume ciciante das deshoras. Do céo, do azul esmorecido, caem os últimos lampejos do sol, que illuminam, obliquamente, em rasgões d’estertores, arvores, acclives verdejantes de terreno, afastados fofos de capoeira, algadoamentos nublosos do horizonte que, á luz d'envez, se tingem de roseo quente e lilás intenso. Jorrando em transversal, d’alto para baixo, a escambante luz deixa em tenue penumbra roxa o extenso primeiro plano do quadro, onde rasga o verde da rama rasteira o filão chato e largo da estrada. E lentamente, com o fixado movimento tardo das fadigas, passa a carreta chiante dos bois, a que o allívio do peso faz apenas ringir no esboroar dos socalcos e nos solavancos dos pedregulhos. O candieiro, de varapau no hombro, vae norteando as duas juntas ruminantes, e o carreiro, moido dos estafas, descança no lastro da carrada, que venceu d’um salto e onde se pojou sobre o rebordo, do qual lhe pendem as pernas quasi nuas, cruzadas, em abandono caracteristico.

Sobre o sulco das rodas, vem descendo a gente do trabalho, a velha negra, de samburá ás costas e, ao seu lado, a netinha mulata que começa a lhe ajudar na lavoura, a filha, o genro, toda a família que luta pelo [106] sustento arrancando á terra o precioso á vida... E no fim da estrada a porteira fechou-se. O dia é findo. Do telhado, que emerge das frondes dum recanto, evola-se o fumo subtil da lareira, o descanco chegou e já ao fundo, para além dos marcos da morada, o capueirão florente de quaresmas e ipês se densa em mysterios de quebradas, aromatizando com o suor acre de suas resinas e o transudo aphrodisiaco de suas folhagens toda a varzea em silencio...

Essa magnifica paizagem tem o poder emocionante da hora e prende o olhar de quem a nota, fixando-se-lhe na camara optica, e lhe dando o interesse da natureza por um descer de tarde, sob a incomparavel poesia dos campos que a alma recebe com um largo, um immenso hausto de consolo e pureza.

Sobre este mérito ella reproduz bem approximadamente o caracter da paizagem fluminense - a roça - que não é o bravio sertão nem a matta virgem, mas um meio termo entre o villarejo e a floresta, intermédio á cultura de uma civilização meã e á rusticidade fecunda da natureza livre, onde o homem é o que ali está representado naquellas figurinhas, gente simples de trabalho, produzindo a lavoira como as arvores do pomar produzem os fructos e como essas, quasi idanticas a ellas, vivendo da Terra, amando-a, tomando-lhe a côr, e bem notadamente tambem os aspectos, e sendo, em verdade, seu producto, tão legitimo como os seus vegetaes

Esta conseguida qualidade, já notável, de reter na tela a feição da nossa pittoresca paisagem (a do Rio, São Paulo e Minas) está constatada em todos os demais quadros de João Baptista reunidos na exposição de hoje, e dentre elles destaco o de n. 19 (Copacabana) e de n. 15 (Manguinhos) que são bellos.

[107] Como sempre, a paisagem está largamente representada e tem, no actual saão, o primeiro logar pela qualidade.

O conceituado Sr. Benno Treidler expõe uma Manhã de Sol, que não faz esquecer as suas aquarellas, ao contrario, augmenta-lhes o mérito porque, nesse indicado quadro, o perito manejador das manchas perdeu a precisão dos valores.

O Sr. Jorge de Mendonça, um novo, alcançou uma das menções honrosas com a sua Pedra de Mirante, realmente digna disso pelo vigor da pincelada e pela observação da cor. Com uma boa impressão intitulada Pela tarde apresenta-se o Sr. Augusto [Luiz] de Freitas , e o Sr. Evencio Nunes nos offerece aos olhos uma bem desenhada paizagem de n. 76 porém mal attendida, como pintura, no primeiro plano e uma Lavadeira que, pelas dimensões do regador deve ter dilatada freguesia e rijo pulso para a luta romana, não obstante o cuidado que o probo artista dispensou á figura e á alguns detalhes do quadro, que me parece demasiado minucioso. Essas observações, porém, não desmerecem seus dotes de artista consciencioso e bom colorita.

Do Sr. Dall’Ara vi uma apparatosa brigada de côres, em parada, com pretensão a paizagem; o que contrasta com a sobriedade da palheta do Sr. Luiz Ribeiro, que é um attento trabalhador. O Sr. Araújo Fróes teria conseguido um bom quadro com o Caminho da Egreja, se não fosse amaneirado, e o Sr. Eduardo Bevilacqua, que esta se fazendo um forte artista, tambem impressionaria melhor se não ennegrecesse tanto as suas paizagens.

Entre os expositores apparecem o Sr. Honorio Esteves com um interessante estudo da Estrada de Jurujuba , e um considerável grupo de senhoras ou senhoritas.

As senhoras... (Como eu implico com esta palavra, neste particular! É fofa, tola, convencional. Tem alguma cousa de pieguice e muito de ranço da burguezia aristo- [108] cratisada. Porque não dizer mulheres, que é uma palavra dignificadora?...) As senhoras - vá lá repetirei - que se cxhibem na paizagem e outros assumptos a óleo, devem ter desvanecido seus mestres, porque, sinceramente, merecem elogios.

A Sra. Eulalia do Nascimento (disicipula do A. Parreiras) tem um recommendavel estudo de interior de egreja, em que a perspectiva perspetiva foi vencida com grande habilidade, attenta, como deve ser, a monotonia desse interior todo branco, sem uma violência de cor; e se não fosse um exquisito, desengonçado ou esparramado genuflexório que um máo instante lhe fez collocar ao centro da nave, teria obtido um magnifico estudo. Ainda assim é bom. Compensam essa pequena infelicidade seus quadros - A Ponte, Na roça e a paizagem de n. 75 que são muito bem estudados.

A Sra. Irene Ribeiro (disicipula de R. Amoêdo) trocando a paiangern pelas fructas e pelas figuras, expõe um agradável retrato do Mme. L. L. e a Sra. Nina Santoro (discípula de M. Brocos e R. Amoêdo) também um bom retrato. Da Sra. Angelina de Figueiredo (professor A. Parreiras) ha um attendido estudo com o titulo Nossa Casa, e, com dous trabalhos, apresenta-so a Sra. Marietta de Figueiredo (professor A. Parreiras) sendo um delles, o Portão de nossa casa, cuidadosamente estudado, mas infelizmente prejudicado pelo desazo de uma tinta neutra, creio que sombra de Cassel, que alforra o primeiro plano, á esquerda, tornando-o desagradável e falso.

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Eliseu Visconti, que é um dos mestres da nossa pintura, por falta de tempo ou pela molestia que o levou á Europa, concorre com poucos trabalhos e de restricta im- [109] portancia. Em pintura a óleo apenas dous estudos de cabeças feitos com a delicadeza de sempre e com aquella frescura de ambiente a que nos acostumou nos seus ar-livres.

O Sr. Teixeira da Rocha expõe duas paisagens, a de n. 202 - payzagem com figuras (Villa. Isabel) e a do n. 201, paizayem com cabras - segundo a singular denominação do catalogo. Prefiro a primeira pela luz, pelo ar e pela côr. A segunda é um tanto compacta, como pintura, posto que bem desenhada. Na maneira d'esse artista encontro excesso de detalhes que, não raro, lhe dá aos quadros um quer que seja de pontilhamento, de mouchisme, como dizia o infeliz symbolista Aurier. As suas paizagens, essas que estão no Salão, e outras que elle tem exposto, apresentam-se muito cortadas, muito crystalizadas - direi - se o termo pode ser bem apprehendido na sua accepção. O que nelle mais se recommenda em primeiro logar é a côr, pelo que respeita à pintura, e depois a fidelidade detalhista pelo que toca ao desenho.

Essas duas qualidades melhor são aproveitadas nos seus quadros de genero, como esse de n. 199 (interior com figuras) - (sic) cuja composição é bem feita, o que nem sempre se nota nos nossos pintores de costumes. O grupo do quatro figuras, de que se compõe o quadro - uma moça mãe tendo ao regaço o filhinho novo, e rodeada de dois adolescentes - é arranjado com habilidade, consegue interessar pela expressão de curiosidade que inculca, porquanto se forma para escogitar, atravez uma larga vidraça, qualquer scena que se passa fóra. Com esses quadros o Sr. Rocha expõe também um painel ou, como explica o catalogo - paneau decorativo - sob o titulo Inspirado, em que ha felicidade d'expressão. E’ um busto de menino em perfil, que ergue a dextra armada do um pincel para fixar uma imagem na téla. O conjuncto pela côr, e pelo accessorio, é agradável, corresponde ao intento do trabalho.

[110] O professor Modesto Brocos, em pintura a óleo, só expõe um quadro intitulado Scena Domestica, pintado com o saber que todos lhe reconhecem, mas despido de interesse esthetico. Pode ser que lhe não faltem admiradores, e até enthusiastas!... eu, por mim, é que lhe não baterei as palmas nem aos que o copiarem, pois, sobre achar fria, desageitada e banal essa Scena Domestica, não comprehendo o deleite que á esthesia de um artista poderá dar semelhante collocação de figuras, a que falta visivelmente naturalidade, e falha a composição do assumpto.

Essa maneira foi usada por Almeida Júnior, que havia perdido as excellentes qualidades technicas da estréa para se transformar num pintor pastoso, amaneirado e duro. Obteve, porém, suecesso e não pequeno. Chegou a fazer discípulos. Mas, considerada a nossa incultura esthetica e essa intermittente pretensão de fundamentar uma arte nacional com a pintura de costumes, o exemplo poderia ser acolhido, e attenuado pelo apuro educativo dos novos artistas.

Agora quem lhe segue a traça, sem se preoccupar com a correição do principal defeito, é o professor Brocos e na Scena Domestica tem mais uma infeliz tentativa, como já teve nos Filhos de Cham, não obstante seus reconhecidos meritos de pintor e desenhista.

Também com um quadro de genero evidencia-se no Salão o Sr. Rodolpho Chambelland. Esse não é professor nem é ainda um artista livre dos conselhos do mestres, mas a sua Noite de espectaculo possue composição e, sobre ser um esforço technico de effeito a duas luzes artificiaes, tem o encanto do assumpto eurythmico. Descontadas algumas pequeninas precipitações de neophito, entre as quaes o exagero illuminado das portas ao fundo do quadro e o enluaramento da luz eléctrica que lhe escapou em parte, são tantas as suas boas qualidades que bem merece a importancia obtida.

[111] O seu desenho se vae accusando d’uma firme elegancia, sobretudo no que respeita á composição, da-nos nítidas e movimentados figuras que a palhêta completa. Ha nesse quadro effetos muito bem reproduzidos, como o da lanterna do coupé sobre as costas do cocheiro e nas ancas dos cavallos, e em tudo um capricho, um asseio de pincel que o recommcndam para o futuro, posto que, desde já, se lhe possa predizer uma certa tendência para o chic, como esse assumpto indica e como ainda se observa no bom retrato a pastel exposto sob o n. 48.

O Sr. Lucilio de Albuquerque, que ha de ser outro artista de amanhã, expõe dous pasteis e dous quadros a oleo, sendo um desses um bonito retrato de senhora, tratado com largueza no busto e louvável minúcia na cabeça.

O Sr. João Macedo (prêmio de viagem, 1900) entre algumas paizagens observadas com cuidado, expõe uma Porangaba, inspirada em Juvenal Galeno, cujos versos estão transcriptos no catalogo.

E’ um fundo do paizagem e no centro do quadro, deitada sobre a relva, uma cabocla de face pendida ao chão, em attitude acabrunhada.

Ha alguns annos que os nossos pintores não se lembram dos caboclos, vicio implantado pelo indianismo da Gonçalves Dias e Alencar.

Escriptores d'outra geração, que se occuparam do bellas artes, nomeadamente Aluizio de Azevedo e Urbano Duarte, fizeram-lhe troça; e já me não recordo quem foi quo disse ou escreveu que o caboclo, em pintura, era como o sabiá na poesia, sujava o assumpto.

Não serei dos mais adversos ao caboclo como assumpto pinturesco, não o considero menos esthetico que o caipira; ao contrario, por sua nudez póde ser boa academia, desde que não falte talento ao artista para saber collocal-o no quadro. Mas, o que devemos exigir, é que o caboclo seja realmente caboclo e não se pareça com os selvagens dos romances acionaes, que aprenderam rhetorica em artinha de padre- [112] mesire. Ora, todos os pintores que tem tomado por thema esse bicho humano, que é o caboclo, não se dão ao trabalho de o reproduzir talqualmente elle é; fazem-no de cera da terra ou de barro cosido, argamassam-no consoante suas próprias habilidades de artista e seus recursos imaginativos. E dahi uma caboclada pelintra, rebolante ou escanifrada, que nos desafia a ponta dos botins.

O Sr. Macedo incidiu no mesmo typo, cahiu no mesmo erro, e nem siquer nos fala á alma pela melancolia do quadro como o velho Sr. Medeiros com a Iracema, que o pinacotheco conserva. Se o Sr. Macedo é moço cordato, e bem intencionado, pedimos-lhe o obséquio de se deixar de caboclos, machos ou femeas, porque da sua arte, Sr. Macedo, esperamos cousa mais meritoria.

Raramente os que produzem muito são os que melhor trabalham, e é o caso do Sr. J. Fernandes Machado (premio de viagem, 1901). O Sr. Machado apresenta uma grande quantidade de quadros, sendo um delles de grandes palmos - Christo curando um paralytico.

A pintura do Sr. Machado me parece apressada, falha de emoção e por demais commum. Da numerosa obra exposta apenas destacarei a Primavera (Bois de Vincennes) e o de numero 120 (Repouso e Estudo) que nos deixam alguma impressão.

E’ de lamentar-se que, este anno, dous originaes artistas como são Heitor Malagutti o Helios Seelinger estejam tão mal representados! A Malagutti faltou a resignação de se subtrahir ao certamen artistico, ao Seelinger uma boa amizade que o aconselhasse.

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AQUARELLAS — A’ parte os professores H. Bernardelli, Brocos e Treidler, que expõem trabalhos já conhecidos na ultima exposição dos Aquarellistas, notei duas finíssimas aquarellas de Elyseu Visconti, Leitura e Paizagem.

[113] A primeira é um delicado estudo de cabeças adolescentes que attendem a um livro, a segunda uma boa manhã de sol entre nevoas, feita com o asseio de colorido e a funda emoção que caracteriza esse grande, forte, original artista.

As senhoritas Cunha Vasco (Anna e Maria) não perderam a opportunidade de exhibirem seus conscienciosos trabalhos do paizagistas, onde as recommendaveis qualidades do professor Treidler vão sendo, progressivamente, assimiladas por duas naturezas dotadas d'alto instincto esthetico. E não lhes teço elogios por urbanidade ou deferencia ás prerogativas do sexo, pois não conheço taes prerogativas em lettradas tiradas, litteratas e artistas, além da minha razão se oppor a todo o transe aos salamaleks da cortezia quando o dever me reclama a opinião.

O Sr. Luiz de Freitas é também expositor de aquarellas, e são de suas mãos trabalhadoras o Jogo da Marra e o Escrivão Publico que nada perderiam se tivessem mais um pouco de vigor.

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ESCULPTURA – E’ pobre, é pauperrima, mais que isso - é desalentadora a esculptura no Salão deste anno.

O professor R. Bernardelli apresenta num pequenino bronze o retrato do Dr. G., de que nada se pode dizer, attendendo-se a extraordinaria techníca do artista que é inexcedivel nesse genero, e á nenhuma qualidade de composição do trabalho.

O Sr. Amadeu Zani (de São Paulo) expõe dous pequenos bustos, retratos do Dr. Prudente do Moraes e do Senador M. B., e um baixo relevo cm bronze, todos tratados cuidadosamente.

[114] E Correia Lima, o emocionante esculptor de Mater Dolorosa, o vigoroso artista do Velho Pagé, do Prisioneiro e do Caim, tres pequenos e admiráveis bronzes, apenas nos apresenta um gesso sobre o titulo - Menino - que só poderia recommendar o nome de um principiante.

E’ desalentadora a esculplura, neste Salão!

Setembro de 1904.

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