Jornal do Commercio: Críticas a Batalha do Avahy quando da sua primeira exposição em 1877

organização de Hugo Xavier Garilha

GUARILHA, Hugo Xavier (org.). Jornal do Commercio: Críticas a Batalha do Avahy quando da sua primeira exposição em 1877. 19&20, Rio de Janeiro, v. XI, n. 2, jul.-dez. 2016. Disponível em: <http://www.dezenovevinte.net/artigos_imprensa/jornal_commercio.htm>.

* * *

O quadro da Batalha de Avahy foi pintado por Pedro Américo em Florença, onde aconteceu a sua primeira exposição pública. A crítica europeia, sobretudo a italiana, acolheu a obra com entusiasmo, e os ecos dessa apreciação foram publicados nos periódicos brasileiros. Isto aumentou a expectativa do público carioca, além de contribuir para a decepção de alguns críticos, como fizeram questão de afirmar. Por outro lado, a publicação desses artigos colocara o quadro e seu autor acima do juízo dos brasileiros. De fato, no dia 2 de setembro de 1877, quase um mês antes da exposição, o Jornal do Commercio transcreve o discurso do Deputado Fernando Osório, que reuniu trechos de artigos, cartas e documentos que louvavam Pedro Américo no exterior: “A grande reputação de Pedro Américo, senhores, reputação de que, como vimos, nos dá tão unanime e lisongeiro testemunho a imprensa italiana, não se acha encerrada nos limites da privilegiada península; fóra dela, e podemos dizer por toda a Europa, nós a achamos grande, brilhante, e venerada como no berço dos mais ilustres pintores. | Com efeito, desde Nápoles até S. Petersburgo, desde Madrid até Viena, toda a imprensa tem sido unânime em reconhecer na última criação do nosso compatriota uma obra extraordinária, e digna dos maiores gênios da pintura. | Importantíssimos órgãos vão mais longe: comparando Pedro Américo com os mais reputados pintores modernissimos, como Morelli, Kaulbach, Yvon e Horacio Vernet, atribuem-lhe qualidades verdadeiramente superiores; o que de certo deve lisongear o patriotismo de quem quer que sinta algum orgulho em ser filho desta nobre terra. (2 set. 1877, p. 3 e 4.).

O desejo mais imediato de Fernando Osório é efetivar a compra da batalha pelo governo. Entretanto, os argumentos do deputado não ultrapassam os limites do patriotismo, como se a referência não fosse o quadro, mas os comentários que elevaram o nome do Brasil. Fernando Osório muda o foco das atenções, passa da obra para a crítica europeia, muito mais autorizada que a brasileira. Não há nenhuma ingenuidade nisso.

Naquele momento, a Batalha de Avahy carregava um forte significado político. O tema se confundiu com a obra, de modo que apreciá-la significava extasiar-se frente a uma glória das armas nacionais, um ato de patriotismo. Sendo aceita como obra de mérito na Europa, nada restava aos brasileiros senão acolher o quadro e aceitá-lo como manifestação do gênio pátrio, equiparado ao dos grandes artistas do mundo.

No dia 28 de setembro, o Imperador retorna de sua viagem e, como parte das festividades, inaugura a exposição da Batalha de Avahy  em um galpão erguido especialmente para abrigar a tela. No dia seguinte, o articulista Nullius publica a primeira crítica na Gazeta de Notícias. Infelizmente o exemplar deste jormal que faz parte da coleção da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro está deteriorado, e não conseguimos encontrar uma outra cópia em nenhuma das instituições pesquisadas. Entretanto, podemos dizer algumas palavras sobre este artigo: a julgar pelos textos do mesmo pseudônimo publicados em seguida, seu parecer sobre a obra é negativo. Pela rapidez com que se manifestou, mostra um desejo de opinar o quanto antes.

Esse segundo ponto toma-se ainda mais evidente quando observamos o seguinte trecho da Revista Illustrada: - Já viu a Batalha de Avahy?... | Eis como se saúdam desde ontem todos os amigos que se encontram. | E a uma resposta afirmativa segue-se imediatamente esta outra interrogação: | - E então?... | E agora é que são elas. | Os entendidos não se querem comprometer; os não entendidos... esperam pelos primeiros, e uns e otros escapolem-se murmurando: | - Assim, à primeira vista...”

A crônica da Revista Illustrada segue refletindo sobre a desorientação do público frente à enorme tela. Felipe, pelo folhetim do Jornal do Commercio, responde a Nullius: “É tão facil não sympathisar com o autor e morrer de amores pelo quadro!” (5 out. 1877, p.3.). Pedro Américo tinha muitos desafetos entre seus críticos, e, se por um lado esses textos se tornam severos, por outro vão colocar em pauta o mérito do quadro e abrir a discussão para o juízo do merecimento da obra e do artista.

O presente levantamento reúne a transcrição dos textos publicados no Jornal do Commercio, no ano de 1877, sobre a tela Batalha do Avahy quando da sua primeira exposição ao público.

*

I-

Publicado em: Jornal do Commercio, 4 de abril de 1877, pag.1.

Título: Folhetim do Jornal do Commercio LIII - Ver, ouvir e Contar

Autor: não consta

FOLHETIM DO JORNAL DO COMMERCIO LIII

VER, OUVIR E CONTAR

Pariz, 7 de Março de 1877

[...]

Não quero concluir estes rabiscos sobre litteratura e bellas-artes sem dizer alguma cousa do quadro do Sr. Pedro americo sobre a Batalha de Avahy. O quadro acha-se exposto actualmente, depois de visitado pelo monarcha brasileiro, na ex-bibliotheca do convento da Annunziata em Florença. A imprensa local tem-lhe tecido grandes louvores. Eu, apezar do rifão <<A pintura e a peleja de longe se veja>>, acho-me tão longe que não me atrevo a dar parecer sobre essa vasta obra artistica, fiando-me nos elogios que tem tido por parte dos artistas florentinos. O Sr. Pedro Americo obteve com esta obra fôro de fidalguia artistica na patria dos Medicis[1], e o seu retrato lá foi para a galeria dos Uffizi entre os dos pintores notaveis.

Não sei se o autor da Batalha de Avahy tenciona mandar o seu quadro para a exposição annual de Pariz (no proximo mez de maio) ou á exposição internacional de 1878. Este é o unico meio que tem para deixar o publico ajuizar do verdadeiro valor da sua obra. Em Pariz, existem criticos de bellas-artes que possuem renome europeo, e o suffragio de taes apreciadores é que póde distribuir verdadeiros encomios ou dar uteis conselhos.

Aqui espero a Batalha de Avahy.

II-

Publicado em: Jornal do Commercio, 2 de setembro de 1877, pags. 3 e 4.

Título: O Sr. Fernando Osório (transcrição de um discurso na câmara dos deputados).

Autor: Fernando Osório

O Sr. Fernando Osório: - Sr. presidente, cumpro com um rigoroso dever agradecendo a esta augusta camara a urgencia que me concedeu, em sessão de ante-hontem, para fundamentar hoje o requerimento de que ella já tem conhecimento; e sem mais preambulo entro em materia.

No dia 19 de agosto de 1872 o governo imperial, desejando immortalisar os feitos dos nossos compatriotas na guerra do Paraguay, contratou com o pintor brazileiro Dr. Pedro Americo a pintura de um quadro.

O Dr. Pedro Americo partio para a Italia, e dahi, depois de longos e aturados trabalhos, voltou á sua pátria, coberto de immarcesciveis louros conquistados na Europa civilizada, trazendo o seu quadro, que pretende expôr á consideração publica, nesta capital, em breves dias.

Como, porém, entendo, Sr. presidente, que é de toda a conveniencia para o paiz, não deixar que fique na obscuridade tudo quanto de grande e de importante se désse em louvor da obra do insigne pintor; como também entendo que os nobres deputados que me ouvem devem ser bastante patriotas para dispensar alguns momentos de attenção na hora em que se trata de render a devida homenagem ao talento de um artista excelso, que honra a patria em que nasceu. (apoiados). Venho sujeitar ao juízo e alto apreço da camara as opiniões sensatas que se manifestárão já a respeito do quadro da Batalha do Avahy.

Apresentarei, em primeiro lugar, senhores:

Um tópico do parecer da Academia Real de Bellas-Artes de Florença, sobre o quadro da Batalha de Avahy.

<< Academia Real das Bellas-Artes de Florença.- Florença, 14 de fevereiro de 1877.

<< Os professores desta congregação academica (secção de pintura historica), depois de haverem cada um de per si examinado o quadro da Batalha de Avahy, pintado pelo Sr. Dr. Pedro Américo, professor de esthetica, historia e archeologia da Imperial Academia das Bellas-Artes do Rio de Janeiro, reunirão-se no salão da presidencia, no dia 12 do corrente mez, com o fim de manifestarem a propria opinião sobre o merito artistico daquela obra.

<< E os professores, aberta a discussão a proposito, e ponderada a natureza da questão, acharão-se concordes em formular a seguinte declaração:

<< O quadro submettido a exame revela um engenho e uma fantasia não communs, os quaes mais especialmente se manifestão no caracter bem entendido da composição e na evidencia do facto, representado em todas as suas particularidades com plena e terrivel verdade; sendo, além disto, merecedores de não escasso louvor os principaes episodios que se desenvolvem no primeiro plano do painel, onde resalta o talento, que possue o artista, de infundir o movimento e a vida até nas menores circumstancias da propria concepção esthetica. >>

O Sr. Pinto de Campos[2]: - Com effeito, não póde ser mais honrosoo ao artista brazileiro!

O Sr. Fernando Osório (lendo):

<< (Assignado) Emilio de Fabris.

<< O secretario (Assignado) Felice Francolini[3]. - Pela legalisação da firma do Sr. Emilio de Fabris, presidente da Academia das Bellas-Artes de Florença. - Florença, 7 de Março de 1877. >>

O prefeito, assignado: De Rolland[4].

Visto pela legalisação da firma do prefeito De Rolland. - Do ministerio do reino. - Roma, 13 de Abril de 1877. Por ordem do ministro, assignado: E. Noghere.

Ministério dos negócios estrangeiros. - Visto pela legalisação da firma supra. Roma, 13 de Abril de 1877. - O encarregado, assignado: A. de Nobili.

Reconheço verdadeira a assignatura do Sr. Nobili, do ministério dos negócios estrangeiros deste reino. - Roma, 13 de Abril de 1877. - Barão de Javary[5].

___________

Sr. presidente, este documento está sellado e carimbado, segundo a legislação das diversas repartições, etc., por que passou, e os professores que votárão unanimes este parecer são os seguintes, dos quaes alguns são membros da nossa academia e condecorados pelo governo brazileiro:

1. - Emilio de Fabris, presidente da academia, director da escola de bellas-artes, autor da frontaria de Nossa Senhora das Flôres (cathedral de Florença).

2. - Estefano Ussi[6], pintor de historia, commendador da corôa de Italia e da Rosa do Brazil. (Recebeu em Florença a visita de S. M. o Imperador.)

3. - Antonio Ciseri[7], ex-director da escola e presidente da academia de Florença. Condecorado com a commenda da Rosa. (Recebeu a visita imperial.)

4. - Giuseppe Belluci[8], pintor de historia, official da corôa de Italia, etc. etc.

5. - Miguel Cortigiani[9], pintor de historia, commendador da corôa de Italia, etc.

6. - Amos Cassioli[10], pintor de historia, ex-director da academia de Siena.

7. - Cesar Mussini[11], commendador de varias ordens, ex-presidente da academia de S. Petersburgo e decano dos artistas Toscanos.

8. - Annibal Gatti[12], pintor de historia, official da corôa de Italia e cavalleiro de diversas ordens.

9. - Nicolo Barabino[13], pintor de historia, cavalleiro de diversas ordens, etc. etc.

Quasi todos estes professores, verdadeiras summidades artisticas, têm pintado batalhas.

Eis aqui a confirmação do juizo da academia florentina pelo actual director da academia de Lucca, e primeiro pintor de batalhas da Italia:

<< Academia real das bellas-artes de Lucca. - Lucca, 24 de Fevereiro de 1877.

- Egregio Sr. professor Americo. - Os meus collegas da academia florentina estiverão, no meu conceito, abaixo do justo no juizo que exprimirão ácerca da sua obra insigne.

<< Eu creio em consciencia não enganar-me dizendo assim, porque avalio por experiencia propria quanto não deve ter-lhe custado imaginar e levar ao cabo uma obra de tamanha importancia, e sinto que as minhas occupações não me permittissem ir a Florença afim de tomar parte naquelle parecer, que para o senhor foi um verdadeiro triumpho.

<< A scena que o senhor soube representar com tão terrivel evidencia offerecia incalculaveis difficuldades; o senhor, porém, sahio tão triumphante de todas ellas, como os heróes daquella memoravel jornada.

<< Aceite, pois, os meus sinceros encomios, e creia-os de coração, que são dictados por quem teve a honra de illustrar as principaes batalhas do renascimento italiano. Sou, etc. - Luigi Norfini[14], director da real academia de Lucca. >>

O juizo do profesor Giuseppe Gherardi[15] (decano dos pintores italianos, octogenario, condecorado com diversas ordens, etc. etc.) sobre o parecer da Academia.

<<Florença, 24 de Abril de 1877.

<< Carissimo Sr. commendador.

<<O senhor já conhece a minha opinião sobre o seu bello quadro - a Batalha do Avahy, - opinião que não differe em nada do parecer da academia florentina, quer relativamente ao merito, quer ás difficuldades que encontrou para realizar aquella obra preciosa e admiravel. >>

O Sr. Martim Francisco[16]: - É pena não haver bastante dinheiro noss cofres para remunerar ao pintor devidamente.

O Sr. Fernando Osorio: - Se não ha dinheiro neste momento, confio que em breve o haja.

O Sr. Pinto de Campos: - A questão não é só de dinheiro, é de gloria.

O Sr. Fernando Osorio: - Sim; a questão não é só de dinheiro, é de gloria. (Muitos apoiados; muito bem.)

Eis aqui a carta do Sr. Peruzzi[17]:

Carta do Sr. Peruzzi, syndico de Florença, ex-ministro da instrucção publica na Italia, ao Duque de São Donatti[18], syndico de Napolis.

Florença, 10 de Maio de 1877.

<< Honrado senhor e collega.

<<...... É-me agradavel apresentar-lhe um distincto artista que honra o Brazil e que entre nós grangeou o applauso universal por aquella sua obra, que despertou a attenção e admiração de todos. >>

Carta do Sr. Giorgio Campani,[19] inspector geral das galerias e museus de Florença, secretario da academia della Crusca, official da Rosa, etc., etc.

<< Ao Sr. professor Dr. Pedro Americo.

<< Florença, 15 de Junho de 1877.

<< Meu caro amigo e illustre mestre.

...................................................................................................................................................

<< .............. Continúa-se a fallar muito do seu quadro nos circulos florentinos. Os Allemães particularmente procurão-me para saber como poderião ver o seu bello trabalho, sem saberem que elle e o seu autor já estão bem longe daqui. >>

O Sr. Pinto de Campos: - Estamos anciosos por ver essa maravilha da arte.

Carta do Barão de Santo Angelo[20] a respeito do artista

<< Amigo e Sr. - Para ahi volta o nosso amigo Americo, laureado e glorificado como nunca foi Brazileiro algum na Italia, e em toda a Europa do Norte.

<< As imprensas da Italia, Allemanha, França, Russia e Hespanha o acclamárão o mestre moderno e o productor da maior pagina deste seculo artistico, etc. >>

Topico de um officio do actual Sr. ministro do imperio no Brazil[21], ao Dr. Pedro Americo, em 17 de Junho de 1877. Rio de Janeiro.

<< ... Quanto ao mais que V. S. pondera, opportunamente, quando V. S. chegar, conversaremos a respeito, cabendo-me agora sómente a grande satisfação de felicita-lo, em nome do paiz, pelo brilhante triumpho por V. S. alcançado com a factura e exhibição publica, na Europa, de sua importante obra artistica, cujo merecimento tive aqui occasião de verificar pelas noticas dos jornaes, transcriptas da imprensa européa. >>

Trecho de um officio do Barão de Javary, plenipotenciario brazileiro na Italia, ao Barão de Santo Angelo.

<< Communique que ao receber o incluso despacho proporcionou-se-me asado ensejo para officiar ao governo imperial ácerca do particular apreço com que o distincto Brazileiro Dr. Pedro Americo foi acolhido neste paiz, e bem assim do merecido louvor com que as pessoas mais competentes têm ajuizado da sua grandiosa producção artista[22]. >>

Topico de uma carta dirigido a Pedro Americo pelo Visconde de Araguaya[23], ministro brazileiro junto á Santa-Sé.

<< Roma, 13 de Janeiro de 1877.

<< ...... Pelo meu amigo o Exm. Sr. Barão de Javary e pelo Sr. Guimarães tive noticia da justa apreciação que a imprensa fez do reconhecido merito de V. S. Exulto quando vejo assim exaltado um compatriota e amigo, que tanto se esforça para honrar o nosso paiz. Deus lhe dê coragem para prosseguir em seus nobres trabalhos. >>

Carta do Sr. conselheiro Lopes Netto[24] ao Sr. Barão de Pendedo[25].

Florença, 7 de Abril de 1877.

<< Exm. Sr. barão.

<< ... O quadro da Batalha do Avahy, exposto ultimamente nesta cidade, obteve geraes e merecidos applausos, que têm repercutido na imprensa de toda a Europa. Os artistas nacionaes e estrangeiros que o examinárão fazem justiça ao grande talento do autor e qualificárão o seu trabalho como um dos melhores dos tempos modernos, etc. >>

O Imperador do Brazil, admirando o quadro de Pedro Americo não pôde deixar de exclamar:

<< - Bravo! quanto estudo, quanto trabalho! Pedro Americo, tem um talento extraordinario! >>

E o Sr. Dr. Souza Fontes[26], medico que acompanha o Imperador na Europa, chegando a Florença, escreveu:

<< Afinal vi o trabalho de um pintor brazileiro que rivalisa com a batalha de Constantino, de Raphael[27]. >>

Sr. presidente, lerei agora o juizo da imprensa Italiana:

Juizo da imprensa italiana a respeito de Pedro Americo e da Batalha de Avahy, que prova o conceito em que é tido no paiz das bellas-artes o referido pintor.

No primeiro d’entre oito folhetins publicados no Monitore dei Teatri de Milão, lamentando as convicções materialisticas modernas, tendentes a condemnar os principios que illuminárão os grandes artistas do Renascimento, o autor exclama:

<< A arte moderna os condemna?

<< Não. Ainda ha quem os siga, quem attinja a sua perfeição sublime; ainda ha quem procure fazer renascer a arte em seus principios, idealmente pura e bella como nos tempos passados. Um novo apostolo apresentou-se na arena dos combates terriveis, para derribar com o seu indomavel engenho os idolos da convenção e os preconceitos do realismo. Este homem, que pela grandeza do seu genio, pela multiplicidade das suas obras, e pela esplendida carreira da sua vida está hoje attrahindo a attenção de toda a Europa e os universaes encomios de quantos amão e aprecião o bello; este artista, que soube levar a arte a uma tão sublime altura, é o Sr. Pedro Americo. (Vide o Monitore dei Teatri di Milano, de 5 de Janeiro e seguintes.)

<<A Batalha de Avahy, diz a Arte, de Roma, em seu artigo de fundo de 16 de Março, a Batalha de Ivahy[28] dotou o mundo artistico de uma obra insigne, que a bem poucos é concedida a gloria de realizar, ao mesmo tempo que á constellação dos grandes artistas mais um nome glorioso veio ajuntar-se. >>

<< Do que temos dito, diz o orgão official da academia de Urbino de 10 de Março, e no que concordão os nossos mais reputados mestres, parece-me poder concluir que a obra de Pedro Americo corresponde dignamente ao encargo de que se incumbio o artista e ás justas exigencias do bello; e de certo não poderá grangear-lhe menos que uma fama immorredoura, assim como um premio condigno, e daquelles que só são reservados ás obras destinadas a assignalarem uma pégada gloriosa no caminho da arte. >>

<< Depois do unanime juizo da imprensa, diz a Italia Artistica em outro enthusiastico artigo de fundo, fôra superfluo qualquer louvor para gloria daquelle potente engenho. De todo o coração nós nos congratulamos com o Dr. Pedro Americo pelo seu triumpho nesta nossa terra, que elle escolheu para realizar a sua grande creação. E dignem-se de acolher os eleitos estas expressões do nosso amor á arte e do nosso profundo respeito por tudo quanto é verdadeira elevação e verdadeira grandeza. >>

<< Póssa o exemplo de Pedro Americo, diz outro periodico, servir de incentivo aos cultores da nobre arte da pintura, para que abandonem os quadrinhos de genero que hoje em dia invadem as nossas galerias, e escolhão assumptos mais grandiosos para terem occasião de elevar a alma á perfeição do bello artistico. >> (Firenze Artistica de 7 de Março).

<< Fôra quasi impossivel fazer a descripção dessa vastissima tela, diz a Revista Italiana de 18 de Setembro ultimo, a qual, em vez de quadro, poder-se-hia chamar um verdadeiro poema. Sem nenhuma confusão nem incerteza, o espectador pôde abraçar nesse quadro um espaço vastissimo e milhares de combatentes. Os principaes grupos são admiravelmente dispostos. O colorido estupendo e a luz permittem ver tudo gyrar em torno das figuras e das massas, ao passo que todas aquellas figuras marciaes parecem estar se movendo, combatendo realmenteme[29], tal é o corpo e o relevo que têm, tanta vida e alma ha nellas.

<< Os effeitos de fumo, os episodios da guerra, os cavallos, os peões, os mortos, os feridos, tudo é obra de um pincel mestre e creador. Se, porém, aquelle gigantesco complexo sorprende e fascina, não maravilha menos a escrupulosa fieldade, o correcto desenho, a verdade minuciosa dos mais pequenos accessorios e instrumentos bellicos, quando, desprendendo-se o olhar do imponente espectaculo geral, começão a attrahir a attenção as peregrinas partes que o compõem. >>

Srs. deputados, a opinião expressa nos jornaes politicos é igualmente franca e lisongeira, e tanto mais de admirar, quanto Pedro Americo é na Italia um estrangeiro, de paiz que não goza do menor credito em materia de bellas-artes, accrescendo que expoz-se ao juizo dos orgulhosos Toscanos, os quaes, por terem dado ao mundo os maiores homens do Renascimento, estão persuadidos que cada um delles é um Miguel Angelo[30], e custão muito a admittir que lhes seja superior um estrangeiro.

<< Á primeira vista, diz a Nazione, concluindo o segundo dos seus longos artigos sobre o trabalho de Pedro Americo, o espectador não póde abranger todas as scenas varias e complexas daquella batalha e sente a necessidade de deter-se ora em um ponto, ora em outro, vendo succederem-se os diversos momentos da acção, coordenados de tal maneira, que não lhes falta a unidade, principalmente nos pontos mais distantes do primeiro plano. Á direita a confusão da batalha, a esquerda o enthusiasmo dos vencedores, aqui os combatentes enfurecidos, alli os vencidos em desordem, taes são os episodios dessa composição historica, verdadeiramente bella e de uma evidencia extraordinaria.

<< Entrando na sala, o visitador sente estancar-se-lhe a imaginação diante daquella immensa tela, na qual, como em vastissimo amphitheatro, offerece-se á contemplação o espectaculo de uma batalha campal.

<< O caracter bem comprehendido da composição geral, o movimento e a vida que a animão, até nas menores particularidades, despertão, sem que se queira, um vivo sentimento de admiração. >>

<< A Batalha do Avahy, diz o Sr. Julio Piccini[31], critico do primeiro jornal da Italia, esse potentissimo quadro, foi desenhado e colorido em Florença, e admirado por um povo que se póde ter em conta dos mais cultos e eleitos da terra, e que nasce com o exquisito sentimento do bello em todas as artes. (Vide Vita de um grande artista, pag. 21) >>

No juizo da imprensa italiana não houve, pois, influencia estranha á que resulta do esplendor das grandes obras.

Em um artigo do dia 2 de Março, depois de analysar rapidamente a grandiosa téla, o Corriere, outro diario politico, assim conclue:

<< Diante desta vasta composição, pintada com tanta potencia de imaginação, com tanta força de desenho, e com tamanho ardor de colorido, confessemos francamente que, emquanto as bellas-artes vão cahindo na Italia n’uma tão irremediavel e triste decadencia, os estrangeiros que aqui vêm admirar os nossos grandes antepassados caminhão a passos espantosos para a perfeição. >>

<< É que o artista, diz o Paise, jornal de Siena, de 31 de Março, não teve sómente a intenção de representar exclusivamente a batalha, porém exornando-a de tantos factos especiaes, uma guerra inteira com todas as suas consequencias de jubilo e dôr, de espanto e coragem, de miserias e afflicções. >>

<< Trata-se de uma obra de merito extraordinario, diz o Corriére de 16 de Março, a proposito da batalha de Avahy: de um trabalho de extraordinaria potencia de engenho, de grande talento na composição, no desenho e no colorido. >>

<< Só um artista americano, diz a Opinione Nazionale de 8 de Março, nascido e educado sob um céo meridional, só este douto artista, que nós tivemos a honra de hospedar, podia conceber, crear uma tão sublime tragedia.

<< Não nos estenderemos mais sobre a execução da maravilhosa téla do Dr. Americo, sobre a verdade dos caracteres e dos costumes, sobre a fidelidade da execução; diremos sómente que a essa grandiosa producção o autor consagrou toda a sua inspirada mente de artista; que a grande riqueza da sua palheta diffundio-se nos esplendores do colorido, emquanto a profundeza do seu genio deixou de si largo testemunho no escrupuloso estudo dos diversos typos, caracteres e expressões. Representando em toda a sua terrivel verdade e belleza um dos factos mais gloriosos da grande nação brazileira, essa atrevida composição é tão sublime, tão admiravel, que de certo tornará immortal o seu autor, e deverá encher de orgulho o paiz que servio-lhe de berço e o inspirou. >>

<< A Batalha de Avahy, conclue a Opinião, permanecerá como uma cara memoria legada ás futuras gerações brazileiras, as quaes no readmira-la sentirão em si um nobre orgulho, lisongeadas de terem tido a Pedro Americo por concidadão. >>

Sr. presidente, um dos melhores periodicos artisticos da Italia, o Figaro, fallando das peregrinas qualidades, do talento de Pedro Americo, observa que << além dos seus dotes naturaes, influio muito nessas qualidades a educação do artista; tanto, diz o Figaro, que não se poderia recommendar demasiado ás academias de bellas-artes a instrucção como a verdadeira disciplina de quem segue a carreira das artes.

<< Pedro Americo, homem que teve por dote natural um robusto engenho, uma prompta e férvida fantasia, reune a todos estes dons ingenitos a fortuna de uma intelligencia educada em fortes e severos estudos. É um homem que concilia em si o douto e o pintor, dualidade que se identificão completamente nelle, quando se trata de crear uma obra como a Batalha de Avahy. Nesta, com effeito, admira-se Pedro Americo como pintor e como poeta, como imaginador e como observador.

<< Reduzindo uma batalha a uma epopéa, aquella esplendida téla levará, cheio de seducções e encantos, o facto das margens do Avahy ás gerações futuras. >> (Vide o Figaro de 15 de Março. >>

Em um opusculo escripto pelo professor Beeccher Ussi[32], physiologista, a respeito do grandioso trabalho do nosso compatriota, assim se exprime o notavel adversario dos materialistas.

<< Lendo a Divina Comedia, admirando as obras de Praxitelles[33], de Phidias[34], de Raphael, como o quadro de Pedro Americo, quem poderá aceitar a opinião dos materialistas, segundo a qual todas essas divinas creações são apenas simples e variaveis productos da secreção do cerebro, ou resultados da vida vegetativa?

...................................................................................................................................................

<< A Batalha de Avahy é um estupendo modelo, de que não se admirão mais do que tres ou quatro exemplos em todas as galerias da Europa. Assim, quer consideremos esse grandioso quadro como producto extraordinario do espirito humano, quer como fructo de acuradissimo estudo, devemos desejar que semelhantes obras se reproduzão em todas as nações, porque ellas são como um hymno perenne de gratidão, entoado em louvor daquelle que no dia da creação deu ao homem em partilha a intelligencia (vide Illustrazione del quadro la Bataglia di Avahy; Florença, Fevereiro de 1877). Seja, pois, que as grandes dimensões do quadro abrissem largos horizontes á sua fecunda imaginação, diz um illustre autor Milanez - seja que no arduo labor quizesse o artista exceder-se e mostrar-se superior á sua fama, o facto é que a Batalha de Avahy é uma creação tão gande, um tal prodigio de pintura, que offusca os sectarios de qualquer escola, de qualquer seita. Elevação de pensamento, correcção de desenho, sublimidade de expressão, verdade e potencia de colorido, luz admiravel, vida, movimento, tudo quanto se póde desejar, emfim, n’uma pintura para que se lhe possa applicar o nome de primor (di capolavoro) ahi se acha reunido.

<< Inegavelmente é necessario ter-se uma não commum potencia de imaginação para abalançar-se a representar semelhantes tragedias!

<< Diante daquelle quadro, quasi por intuição comprehende-se o caracter e vive-se da vida daquelle povo ardente e enthusiasta. Alli o furor do heroismo, o terror, a compaixão, o odio, a vingança, a dignidade, a coragem; aqui os contrastes da idade, a variedade das attitudes, a gradação dos affectos, tudo concorre para dar á composição uma belleza tal, que domina o espectador e o enche de admiração.

<< Eu creio que jámais um assumpto bellicoso foi representado de modo mais verdadeiro e mais sublime; eu creio que jámais houve união mais estreita e mais feliz entre a verdade historica e a arte ideal.

<< Por mais, porém, que eu me cansasse em vos explicar, nunca poderia fazer-vos conceber senão uma idéa incompleta dessa maravilhosa téla: é preciso vê-la para julga-la. >> (Vide Studi sulle Belle arti, com observações sobre a vida e as obras do grande pintor brazileiro Dr. Pedro Americo, Milão 1877.)

Srs. deputados, a Gazeta de Italia, isto é, o periodico politico mais conceituado da peninsula, sob o titulo de Vida de um grande artista, dedica a Pedro Americo um grande e eloquente folhetim de duas paginas, das quaes a primeira é consagrada á biographia, a segunda ás obras do nosso compatriota. Entre estas estão analysados os seus opusculos scientificos, dos quaes mais particularmente occupa o autor do folhetim precitado um livro inedito de Pedro Americo já em parte traduzido em italiano.

Depois de citar uma parte dessa obra, toda relativa á Italia, << eis, exclama, como escreve este pintor! >> (Gazeta de Italia de 25 de Março de 1877, supplemento.) É de observar que no dia em que foi publicado este folhetim, a Gazeta de Italia, cujo preço ordinario era de 40 rs., foi vendida, como consta do proprio jornal, a 100 rs.

<< As nosssas primeiras notabilidades, assim artisticas como litterarias, diz o Stafetta de Napoles de 10 de Janeiro, reconhecem no illustre commendador Pedro Americo o verdadeiro typo da erudição. >>

Iriamos longe senhores, se continuassemos a citar os escriptores e os periodicos que nos fallão do autor da Batalha de Avahy, quadro cuja exposição foi saudada na Italia como um verdadeiro acontecimento, um vero avrenimento, segundo affirma a Perseveranza de Milão (11 de Março), o Direito de Roma, e o Renascimento de Veneza (10 e 13 de Março), bastando o que acabo de transcrever para prova de quanto merece aquelle que os Italianos chamão <<benemerito de sua patria, divino artista, etc. >> (vide Illustrazione del quadro la Bataglia di Avahy, p. 4), e que, segundo escreve uma das mais bem talhadas pennas da Italia, << desde verdissimos annos sentia-se chamado a dotar o mundo inteiro das suas idéas; a recomeçar a obra interrompida dos seculos passados, tentando augmentar-lhe a grandeza. >> (Studii sulle belle arti, etc., etc., p. 11.)

Sr. Presidente, se, além dessa solemne manifestação de apreço da imprensa italiana, fossem necessarias maiores provas para nos convencerem do quanto, longe da patria, é admirado o pintor da Carioca e da Batalha do Campo-grande, bastaria considerarmos o facto de ter-lhe mandado pedir o retrato a direcção geral das galerias e museus reais, e depois de lh’o entregar o artista colloca-lo ella, e por ordem do ministro da instrucção publica, na galeria real degli Uffizi, onde figura entre os retratos autographos do Ingres[35] e do Flandrin[36], antigos mestres do artista brazileiro.

<< O abaixo assignado, diz-lhe em officio de 27 de Junho o director das reaes galerias e museus de Florença, sente o dever de agradecer-lhe o retrato autographo que se dignou de remetter-me depois das repetidas instancias desta direcção, e pelos cuidados da qual será brevemente collocado na insigne collecção dos retratos dos antigos mestres da pintura, que se admirão na Real Galeria dos Officios.

<< É-me grato apresentar-lhe um distincto artista que honra o Brazil, disse em carta de 10 de Abril o Sr. Peruzzi, ex-ministro da instrucção publica na Italia, ao syndico de Napoles, e que entre nós acaba de encontar o applauso universal com aquella sua obra, que attrahio a attenção e despertou a admiração de todos. >>

Não é, pois, injusta, immerecida esta solemne prova de admiração áquelle que << no meio de tantos triumphos sabe conservar-se simples e chão, não se desprezando na magnanimidade da sua alma por apertar a mão e tratar affavelmente a quem quer que o procure, com aquella modestia propria do verdadeiro talento, e que parece pedir conselho e approvação, ao passo que revela uma grandeza de animo que sorprende e fascina. >> (Monitore dei Teatri, Milão, 26 de Janeiro).

<< Fazer que ao esplendor do genio, diz sob um modesto pseudonymo a Sra. marqueza E. Cantú, ás creações da imaginação associem-se a verdade e a nobreza da concepção; tanger as mais delicadas fibras do coração; educar o povo no sentimento do bello, do sublime; eleva-lo ás nobres aspirações patrioticas, tal é o maior triumpho do artista.

<< Nenhum quadro poderá ser saudado pelo Brazil com maior affecto do que este, que com tamanha verdade reproduz os gestos, o caracter, os costumes, a physionomia do seu povo, immortalisando assim uma das mais esplendidas paginas da historia brazileira, um dos factos mais gloriosos daquella grande nação.

<< O governo brazileiro está preparando ao illustre artista uma esplendida recompensa adequada ao seu merito... como o reconhecimento dos seus compatriotas prepara-lhe larga e merecida recompensa pelos sacrificios de todo o genero que elle tem soffrido pela gloria de sua cara patria. >>

<< Ainda poucos dias, e Pedro Americo partirá em direcção ao Brazil.

<< Salve artista philosopho! Que a tua viagem seja prospera e feliz... tal é o nosso augurio; que prestes voltes para entre nós... este é o desejo de todos os Italianos que tiverão a fortuna de conhecer-te!

<< Em uma idade em que tantos outros limitão-se a sonhar os successos do porvir, tu, Pedro Americo, chegaste ao apogêo da gloria. Tu és um daquelles artistas que imprimem na face de um seculo o seu nome indelevel... um daquelles homens, cujas obras gloriosas fazem meditar os philosophos, cantarem os poetas e scismarem os povos (favolleggiare i popoli). Quaes novos triumphos posso eu augurar ao teu merito? >> Vide Studi sulle arti, Milano 1877, pag. 26 e seguintes.

Tal é o juizo dos Italianos sobre o nosso compatriota.

Sr. presidente, não posso, no limitado espaço de que disponho, apresentar todos os elogios que por muitos outros jornaes italianos forão tecidos ao Dr. Pedro Americo.

O Sr. Anisio da Cunha: - Elogios muito merecidos. (Apoiados.)

O Sr. Fernando Osorio: - Peço permissão para ler agora:

O juizo da imprensa européa a respeito de Pedro Americo e da batalha de Avahy.

A grande reputação de Pedro Americo, senhores, reputação de que, como vimos, nos dá tão unanime e lisongeiro testemunho a imprensa italiana, não se acha encerrada nos limites da privilegiada peninsula; fóra della, e podemos dizer por toda a Europa, nós a achamos grande, brilhante, e venerada como no berço dos mais illustres pintores.

Com effeito, desde Napoles até S. Petersburgo, desde Madrid até Vienna, toda a imprensa tem sido unanime em reconhecer na ultima creação do nosso compatriota uma obra extraordinaria, e digna dos maiores genios da pintura.

Importantissimos orgãos vão mais longe: comparando Pedro Americo com os mais reputados pintores modernissimos, como Morelli[37], Kaulbach[38], Yvon[39] e Horacio Vernet[40], attribuem-lhe qualidades verdadeiramente superiores; o que de certo deve lisongear o patriotismo de quem quer que sinta algum orgulho em ser filho desta nobre terra.

<< A batalha de Avahy, diz o Golos, primeiro orgão politico da Russia, é um quadro onde á grandeza de concepção, á elevação da idéa e á força do desenho, corresponde uma execução a que só achamos igual na escola veneziana. As posições das figuras são as vezes difficilimas, porém o artista não as quiz forçar: fê-las naturaes, espontaneas, cousa bem rara nas obras de tal força de concebimento. Todas as grandes qualidades da arte achão-se reunidas nessa vasta composição, com maestria completa e extraordinario talento. Ha muito tempo, dizem os jornaes italianos, não se via em Italia cousa semelhante. Pedro Americo já era conhecido tanto pelos seus opusculos scientificos como pelos seus talentos litterarios; mas a obra que o tornou devéras universalmente celebre foi a batalha de Avahy. >>

(Vide a Voz de S. Petersburgo de 16 de Março de 1877.)

<< A batalha de Avahy, diz a Estrella, de Stockolmo, da mesma data, marcou uma época na historia da arte moderna: ella representa a reacção triumphante do espirito philosophico contra as escolas realistas que tanto tem alluido os grandes principios da arte em nossos dias. Sob esse ponto de vista é uma creação sem rival neste ultimo quarto de seculo. >>

<< O autor deste quadro, diz o Londoner Zeitung, é actualmente considerado o chefe da escola idealista na Europa. Toda a imprensa italiana está cheia de elogios a seu respeito, e não cessão de repetir que a grande obra, pelos muitos meritos que encerra, recorda, sem que se queira, o mestre dos mestres: Miguel Angelo.

<< É o maior quadro de batalha que existe, e quiça mesmo o mais bello; composição, colorido, verdade dos typos, execução, tudo é obtido com singular maestria e explica-se com uma clareza admiravel. >>

(Citado pelo Diario de Noticias da Bahia de 5 de Abril ultimo)

<< Além dos dotes artisticos que distinguem este quadro, diz La Escola, de Madrid, achamos-lhe ainda o merito de representar com extraordinaria evidencia os horrores da guerra; e sem duvida influirá em quem o contemplar para que aquilate devidamente os triumphos obtidos á custa de tamanhos sacrificios. >>

<< Pedro Americo, diz o Imparcial, de Barcelona, de 14 de Março ultimo, é um compositor de primeira ordem, e de que só offerecem exemplo hoje em dia as sabias e profundas escolas germanicas. Mas não se póde dizer que seja sómente compositor; que outros dotes, e sobretudo o de colorista e desenhista escrupuloso, distinguem-o dos representantes dessas escolas, em que a profundeza philosophica suffoca ou desconhece todos os mais requisitos, como a delicadeza e a côr, indispensaveis ás artes figurativas da fórma. >>

O Daily News, consagrando a Pedro Americo um longo artigo em que, sob uma luz sympathica ao Brazil, o autor estuda a nossa ultima questão com o Paraguay, declara que o quadro apresenta << qualidades novas, incidentes inteiramente originaes, que não se observão nos quadros do mesmo genero. >> Depois, analysando o trabalho, diz que não só pela sua grandeza como pelo merito que revela << atrahirá sempre, e onde quer que seja exhibido, a attenção geral e o universal applauso. >> (Vide o Daily News de 16 de Março. ) Um periodico justamente reputado pela justeza das suas apreciações, o Touriste d’Italie, resume do seguinte modo as qualidades assim do quadro como do seu autor:

<< Este painel é obra do Dr. Pedro Americo, pintor brazileiro de um grande talento e que não é sómente artista, senão tambem litterato, naturalista, orador e philosopho. A Batalha de Avahy é uma composição vasta e grandiosa, admiravelmente desenhada, bem pintada, de um colorido veneziano, e lembrando muito Miguel Angelo, tanto pelo ardor espontaneo com que parece ser feita, quanto pela grandeza da concepção, e pela força dos escorços.

<< Mais de 400 figuras, das quaes umas 20 no primeiro plano, meio nuas, nas posições as mais difficeis, porém sempre naturaes e sem violencia, sem contorsões inuteis, attestão os conhecimentos do pintor, quer como physionomista, quer como desenhador de grupos e de movimentos.

<< Além disso vêem-se no seu quadro carretas, cavallos, bois, mulheres e crianças; differentes retratos de generaes brazileiros e paraguayos, um vasto e delicioso campo, em parte inundado pelas aguas do rio Paraguay, e meio encoberto pelos vapores da manhã, pela chuva que cahe ao longe e pelo fumo dos canhões; a lama sob os pés dos combatentes; moribundos, cadaveres, soldados trigueiros, negros e bronzeados; typos do mais puro sangue americano; contrastes de luz, de sombras, e de côres; todas as circumstancias, finalmente, que podião influir para augmentar a belleza de uma obra destinada a immortalizar uma luta entre dous povos meridionaes, naquellas longinquas regiões, alli se achão reunidas com o maior talento e do modo o mais victorioso.

<< Desde muito tempo não se via mais na Italia um trabalho tão notavel. Pedro Americo é ainda muito moço; todavia sua vida é tão cheia de factos interessantes, tão fecunda em obras notaveis, e accidentada de luctas e triumphos de toda a sorte, que excita um estudo e uma curiosidade tanto maiores, que trata-se de um mestre na idade de 33 annos apenas, e cujo nome, illustre nas sciencias, na litteratura e nas bellas artes, tornou-se verdadeiramente universal, depois de subscrever aquella grande pagina, uma das mais admiraveis da pintura moderna. >>

Tal é igualmente, em substancia, a critica da Independecia e da Estrella do Norte.

Mas, Sr. presidente, é principalmente na Allemanha, naquelle centro de actividade intellectual, naquella nação profunda, que hoje em dia se sabe aquilatar devidamente o talento e a instrucção de Pedro Americo. Sem os enlevos que caracterisão as raças meridionaes, a imaginação enthusiastica dos povos latinos, os seus criticos analysão entretanto, fria e conscienciosamente, como quem teme offender a razão divina, ou irritar a sensatez dos justos; e só exprimem o seu juizo depois de terem meditado profundamente.

Os elogios que prodigalizão ao autor da batalha de Avahy são tanto mais dignos de admiração, quanto é certo que, sciente do seu grande papel no desenvolvimento e trabalho da civilisação moderna, aquelle povo grave e meditado custa muito e com razão a reconhecer em um estranho qualidades superiores ás dos illustres representantes do seu genio nacional.

É por isso, por essa prudente e bem entendida parcimonia de louvores a quem não os merece plenamente, que os louros ganhos na Allemanha devem encher de orgulho o nosso compatriota.

Ora, não ha provincia na Allemanha, não o ha quasi na Austria, aonde o nome de Pedro Americo não tenha sido repetido, quer nos periodicos especiaes, quer em folhetos, e nos orgãos politicos mais importantes, do modo o mais lisongeiro e honroso para o artista brazileiro e para a sua patria.

<< A batalha de Avahy, diz o Salão, de Leipzig, é uma composição grandiosa e fascinante pela incomparavel belleza do colorido.

<< A Imperatriz dos Francezes sustentava, contemplando-o, que jámais vira quadro em que a unidade de acção fosse com tanta excellencia observada. Demais é opinião que o governo brazileiro, para quem é feito, como se sabe, mostrar-se-ha reconhecido, correspondendo generosamente ao desempenho de tão pesado encargo. >> (Vide Der Salon, Leipzig, caderno n. 5.)

<< De todas as creações modernas que attrahem a nossa attenção, diz a Gazeta de Vilsbaden de 6 de Março, a batalha de Avahy é incontestavelmente a mais notavel, a mais original. O autor dessa gigantesca creação é o Dr. Pedro Americo, chefe actual da escola idealistica na Europa. A batalha de Avahy é talvez o mais bello quadro de batalha conhecido, pois a todos os respeitos é uma obra completa e magistral. Quem o contempla vê logo o que ha nelle essencial.

<< Como um verdadeiro quadro historico, é elle claro e simples, não obstante a grande quantidade de objectos que enchem a tela. Os grupos são desenhados com uma energia tal, que recordão Miguel Angelo. >>

<< Diante dessa tela, diz o Quellvasser furs deutsche haus, de 25 de Fevereiro, pergunta-se involuntariamente como é possivel que pudesse a jovem escola americana attingir em tão pouco tempo a tão alta perfeição.

<< Até agora é opinião geral que esse trabalho póde ser posto ao lado das mais celebres creações dos grandes pintores antigos da Italia.

<< Esse quadro foi avaliado quanto ao seu valor pecuniario; mas é de crer que o governo brazileiro seja muito mais generoso com o grande artista. >>

<< A batalha de Avahy, diz o Bromberger Zeitung, de 10 de Maio é um painel que grangeou ao autor um nome universal. Em mais de 300 periodicos de todos os paizes apparecérão artigos sobre aquella obra colossal. Na Allemanha apreciárão-o especialmente o Illustrirte Zeitung, o Leipziger Vissenschaft Beilage, o Hausfreund, o Uber Land und Meer, o Salon, o Frankfurler Museum, o Quellvasser, e muitos grandes periodicos berlinenses, com as criticas as mais judiciosas. Além de dar-lhe o titulo de barão, deverá o governo brazileiro remunerar generosamente o autor do quadro. >>

<< Estamos á espera de saber o que fará o governo brazileiro com o autor desse quadro incomparavel - diz o Litterarische Dilettanten Schule, n. 4 de Dresda. O Dr. Americo é indubitavelmente o mais dotado e importante pintor dos nossos tempos, e sobre isto todos os criticos estão de accordo. >>

<< A execução do painel é magistral - diz o Gegenvart, de Berlim, de 26 de Maio ultimo, a impressão que causa a grandiosidade da composição, a vida e os movimentos dos exercitos que combatem, e sobretudo a expressão indomita dos selvagens paraguayos é extraordinaria. Igual impressão causa o acabamento artistico, a admiravel luz do quadro, o esplendido colorido. E pois não é para admirar que não se cansem os periodicos da Italia em tecer elogios ao grande brazileiro, nem que partilhem a opinião italiana a imprensa allemã, franceza e russa. >>

<< Antes de continuar a minha viagem até Napoles, diz o correspondente do Bromberg Zeitung (21 de Abril), quiz vêr em Florença o celebre quadro de Pedro Americo.

<< O aspecto desse trabalho fascinou-me. Diante delle esqueci-me dos thesouros da arte, que eu havia admirado nas galerias de Versailles, Roma, Dresda, Madrid e Vienna. As creações de Ivon, de Vernet, de Kaulbach desapparecérão ante essa imponente pintura, na qual parecia-me estar admirando todos os dotes de Corregio[41], Raphael e Miguel Angelo.

<< Tornei-me enthusiasta de Pedro Americo, e com prazer vi a minha opinião partilhada pelos melhores orgãos da imprensa austriaca, allemã, americana e russa. Os criticos do Times, do Daily News, da Independencia, do Golos, e um grande numero de orgãos hespanhóes, francezes, e americanos concordárão em igual enthusiasmo. Algumas pessoas disserão-me, entretanto, que eu fosse a Napoles, aonde talvez encontrasse cousa melhor. E eu fui a Napoles: Pedro Americo appareceu-me então como um inattingivel mestre, um incomparavel talento. >>

Sob o expressivo titulo Um moderno Raphael, publica o Hausfreund um artigo igualmente honroso para o artista brazileiro. (Vide os ns. 17 e 19, pags. 263, 303 e 304.)

Sob o titulo Um principe dos pintores actuaes, traz o Neue Vestpreuuszische Miiltheilunger, de 25 e 27 de Setembro de 1876, dous longos e bem pensados artigos sobre o nosso compatriota e a sua obra capital, a qual é proclamada uma das primeiras deste seculo.

Finalmente, em muitos e importantes jornaes que temos á vista, como por exemplo: o Neues Berliner Tageblatt de 13 de Maio, o Elberfelder Zeitung de 7 de Fevereiro, o Berliner Borsen Zeitung de 6 de Março e outros, o Litterarische Dilettanten de 30 de Março e outros, o Publicistische Blatter de 11 de Março e outros, o Gegenvart de 26 de Maio, o Journal fur Redacture, etc., etc.; em todos esses periodicos, dos quaes alguns são orgãos do governo, é Pedro Americo proclamado o cabeça actual da grande escola idealistica européa.

<< Nas suas composições, diz o Dr. von den Borne[42], isto é, o critico o mais abalisado da Allemanha em materia de bellas-artes: ha mais unidade do que nos quadros de Kaulbach, mais precisão nas circumstancias, mais fidelidade na verdade. O genio de Pedro Americo é, pois, mais vasto, mais profundo, mais harmonico, do que o do nosso mestre allemão. >> (Vide o Publicistischer Blatter, de Vienna, e o Museum, de Frankfort, de 6 a 11 de Março.)

<< No dominio da litteratura philosophica, diz o Vestpreuzische Mittheilungen de 2 de Setembro de 1876: ganhou o Dr. Pedro Americo um grande nome por uma serie de obras profundamente pensadas e distinctas. Seu livro sobre as sciencias e os systemas, publicado em 1869, contém n’um estylo claro, e por assim dizer pratico, grande cópia de conhecimentos d’arte; nelle o autor flagella com eloquencia os erros de algumas escolas, estabelecendo em melhores bases os principios da sciencia.

<< Este trabalho póde e com razão ser chamado uma obra prima da sciencia philosophica.

<< E pois não é de admirar que um homem que tem realizado taes obras no dominio da arte e da sabedoria, goze hoje de um nome universal. >>

Longe porém de orgulhar-se com as manifestações de um apreço, poderiamos dizer de uma veneração tão universal, o artista philosopho conservou-se sempre moderado na apreciação de proprio merito.

<< Eu o vi em Florença, tão festejado nos circulos artisticos como na alta nobreza, diz o seu illustre biographo da Neue Vestpreuszischen Mitthilungen; no meio de tudo isto, porém, e como todos os homens verdadeiramente grandes, é elle extraordinariamente modesto; cala-se quando a sua opinião é victoriosa, e só se explica quando é sollicitado. Sua linguagem é nobre, viva e justa como o seu pincel. Na idade em que tantos outros principião apenas, já as suas creações elevárão-o tanto, já é tão grande o seu nome, que de certo hombreará com os mais altos mestres, com os mais audazes pensadores. Pelo progresso da arte, devemos desejar que Pedro Americo viva ainda por muito tempo. >>

Tal é, Srs. deputados, o juizo universal a respeito do nosso illustre compatriota, cujos trabalhos, cujo ultimo quadro, sobretudo, despertando a curiosidade e o estudo dos europeus, concorrérão poderosamente para dar-nos a conhecer melhor entre as nações mais cultas, e assim desvanecer certos preconceitos que existião na Europa desfavoraveis ao nome brazileiro.

Sr. Presidente, talvez que muita gente julgasse ocioso o trabalho que tive de fazer, no parlamento, a leitura de tantos documentos. (Não apoiados.)

O Sr. Pinto de Campos: - Pelo contrario; é um serviço importante o que o nobre deputado está prestando ao paiz. (Apoiados.)

O Sr. Fernando Osorio: - Mas por que assim procedi? É justificaado o meu procedimento. Como todos sabem, o Dr. Pedro Americo fez um contrato com o governo; este tem naturalmente o dever de pagar ao pintor a importancia de sua primorosa obra, mas não poderia jámais fazê-lo, sem que a camara dos Srs. deputados, que tem de approvar a verba, tivesse satisfactorio conhecimento do merito daquella obra.

Era mesmo conveniente que o paiz inteiro soubesse que a quantia pecuniaria que se tem de dar a Pedro Americo, não é um esbanjamento, não é um favor, não é um patronato. O governo recompensando ao excelso pintor, com toda a justiça, procede com patriotismo. (Apoiados.) Patriotismo que, quando se trata de tão elevado assumpto, não posso desconhecer no honrado Sr. ministro do imperio, e em todos os seus dignos companheiros de gabinete, para deixarem que o merecimento não tenha seu verdadeiro, generoso e justo galardão. (Apoiados.)

Demais, Sr. presidente, é preciso que nos annaes do nosso parlamento, para honra e gloria de nossa patria, fiquem archivados documentos que não podem encher-nos se não de orgulho e de prazer (apoiados); para que mais tarde, a posteridade, folheando as paginas da nossa historia, reconheça que soubemos fazer justiça ao talento do pintor immortal. (Apoiados.)

Devo, entretanto, ainda declarar, Sr. presidente, que se dei-me ao trabalho de lêr estes documentos, abusando largamente da attenção da casa (não apoiados), foi para destruir certas falsidades com que se entretinha uma pequena caterva de invejosos, desses, que caminhão na esteira de luz que os grandes homens deixão atrás de si, no intuito sómente de marcar-lhes o brilho, improvisando com relação a Pedro Americo, que as opiniões da Europa lhe erão avêssas. (Muito bem.)

Convinha destruir este mal, este ligeiro boato, que uma vez atirado na praça publica, assemelha-se á gotta do azeite que cahido na madeira, alarga-se, toma proporções vastas e suja o que devêra estar limpo. (Muito bem.)

A muitas pessoas, ouvi eu censurar o Sr. ministro do imperio por mandar edificar um ligeiro barracão para nelle ser depositado o quadro da Batalha do Avahy; quando é sabido que não ha nesta cidade um edificio apropriado, isto é, uma sala capaz de conter esse grande quadro, esse monumento, até que fique prompto o salão que deve recebê-lo na academia das bellas artes!

É uma censura sem razão.

O Sr. ministro praticou o que devia (apoiados); não podia deixar ao desamparo o pintor que elevou tão alto o nome brazileiro. (Apoiados.)

Sim, senhores, se os nossos valentes soldados compatriotas que se batérão no Paraguay, engrandecérão a patria; Pedro Americo immotalizou-a. (Muito bem.)

O Sr. ministro do imperio, repito, procedeu bem: não sou suspeito, sou deputado liberal e membro da opposição; desta mesma tribuna tenho com fraqueza combatido os esbanjamentos que se tem feito dos dinheiros publicos, mas agora, digo-o sinceramente que não houve esbanjamento. (Apoiados.)

O Sr. Diogo de Vasconcellos[43]: - Tem sido censurado o modo por que se ffez o barracão.

O Sr. Fernando Osorio: - Ainda assim, não tem razão os censores; posso affirmar a V. Ex. que o Dr. Pedro Americo está satisfeito, e que elle prefere o barracão ao lugar em que está presentemente o seu quadro, estendido como tapete em uma das salas do paço imperial, sujeito a estragar-se.

O Sr. Franklin Doria[44]: - E a ser devorada pelas baratas.

O Sr. Fernando Osorio: - No Brazil, estranhou-se o acto do governo; entretanto, Sr. presidente, quer V. Ex. saber o que na Europa se fez com o pintor, quando chegou alli para começar o quadro?

Pedro Americo, chegando a Florença, para encetar o seu trabalho, foi recebido pela municipalidade com toda a distincção possivel, deu-lhe ella a vasta bibliotheca da Santissima Annunciação (Convento); mandou remover 40 mil volumes, abrir porta e fazer nova escada, uma grande claraboia, pôr cortinas e adornar convenientemente o recinto para servir de estudo (atelier) ao pintor.

Esse acolhimento foi tão significativo, que o Imperador do Brazil achou acertado agradecer por carta authographa dirigida ao Sr. Peruzzi presidente da camara municipal, deputado, ex-ministro da instrucção publica, nos termos seguintes:

<< - Agradeço-lhe muitissimo o acolhimento feito a Pedro Americo, nome florentino e grato a este continente; e espero que o seu talento brilhará sob a inspiração de André del Sarto[45]. >>

(André era o pintor que tinha decorado a bibliotheca.)

Eis ainda um facto que patentêa o grande apreço em que foi tido Pedro Americo na Italia.

O rei de Italia encommendára ao primeiro pintor de batalhas, da Toscana, actual director da Academia Real de Lucca, Luigi Norfini, um quadro historico, representando a batalha de San Martino na Lombardia. Depois de seis annos de trabalho, o pintor apresentou o quadro que foi mal recebido pela imprensa e pelo publico, como uma obra fria e inferior á expectativa; pedio por ella 75 mil francos o seu autor, e o rei não queria dar mais de 45, visto o quadro não agradar geralmente. Então recorreu o professor Norfini ao juizo de Pedro americo, e o governo real declarou aceitar a arbitragem.

Pedro Americo confirmou a pretenção do pintor: e o rei logo mandou pagar; em seguida nomeou a Norfini director da academia de Lucca, deu-lhe uma pensão correspondente, a commenda de S. Mauricio e S. Lazaro com que era condecorado o pintor, e fez mais outra encommenda de um novo quadro.

Devo concluir agora, Sr. presidente, porque o tempo me falta; mas para que a camara dos senhores deputados e todo o paiz fique bem conhecendo a Pedro Americo, apresentarei, por fim, um ligeiro esboço de sua biographia.

Pedro Americo nasceu em 1843, de parentes pobres e honrados, os quaes contão na camara alguns amigos, como por exemplo o conselheiro Diogo Velho[46], etc.

Na idade de 10 a 11 annos acompanhou o naturalista francez Brunet em uma commissão exploradora, a titulo de desenhador gratuito.

Dous annos depois veio para o Rio de Janeiro; foi hospedado no Collegio de Pedro II, onde estudou algumas materias de bacharelado.

Matriculou-se na academia das Bellas Artes, onde, em menos de tres annos, tirou 15 medalhas, e obteve plenas approvações nas materias theoricas do curso.

Em fins de 1859 o Imperador deu-lhe uma pensão, com a qual foi aperfeiçoar-se em Pariz, donde regressou no fim de tres annos, trazendo comsigo muitas medalhas ganhas na academia de Pariz, o seu quadro da Carioca, e os seus Estudos Philosophicos sobre as bellas artes, que forão publicados no Correio Mercantil.

Apenas chegou ao rio, pintou outros quadros, escreveu sobre as bellas artes e concorreu para professor de desenho da nossa academia.

Guerreado pelos officiaes do mesmo officio, desgostou-se e partio de novo para a Europa, como passageiro de prôa, por lhe faltarem os meios de viajar de outro modo.

Chegando a Pariz, pintou o S. Marcos (que offertou á Caixa de Soccorros de D. Pedro V), o S. Jeronymo e alguns retratos.

Faltando-lhe os meios, pegou nas suas preciosas medalhas, attestados dos seus triumphos, e foi vendê-las a um pequeno comprador de ouro, porque naquelle dia não tinha com que pagasse o seu jantar! O dono da loja ficou maravilhado de vêr uma collecção de 18 medalhas de ouro e prata; desconfiou do vendedor e chamou um policial, que o levou preso á presença do commissario de policia (!) o qual pô-lo em liberdade logo que soube que tratava-se de um professor da Imperial Academia Brazileira!!!

Mandou então pedir a um amigo no Rio de Janeiro que vendesse a medalha que ganhára na exposição da academia em que figurára a Carioca. O amigo vendeu a medalha, mandou-lhe a importancia, e elle com esse dinheiro foi concluir na Belgica os seus estudos de sciencias naturaes.

Grandes forão os seus apertos na capital de Belgica, onde, para comer, foi obrigado a vender até os centesimos de nickel que guardava n’uma pequena collecção de numismatica que tinha na sua modesta bibliotheca.

Em menos de dous annos e meio tirou a carta de doutor em sciencias naturaes, e foi nomeado (depois de sustentar para isto uma these notavel) professor adjunto da universidade livre das sciencias de Bruxellas.

Escreveu ao ministro do imperio, pedindo-lhe uma passagem para o Rio de Janeiro; o ministro lh’a negou. Não obstante, o artista partio para Lisboa, á custa do seu antigo mestre Porto-Alegre, com cuja filha casou-se, partindo depois para o Brazil, onde foi nomeado lente de historia, esthetica e archeologia da academia.

Pintou em 1869 a batalha do Campo-Grande, que jaz na Praia-Vermelha. Ao mesmo tempo escreveu diversos discursos que forão pronunciados em presença do Imperador, por occasião de solemnidades academicas.

Em 19 de Agosto de 1872 firmou um contrato com o governo imperial para a feitura do quatro da batalha do Avahy. O governo concedeu-lhe (por motivo de molestia) seis mezes de licença com ordenado de professor da academia (isto é, 100$ mensaes) e seis mezes com metade desse ordenado.

Antes de partir do Rio de Janeiro o artista requereu á camara dos deputados dous annos de licença com ordenado. A camara concedeu-lhe sómente um com ordenado, sendo outro sem elle; mas a lei não passou no senado e o artista teve de lutar durante tres annos com immensas difficuldades, fazendo face ás despezas necessarias á manutenção de sua familia, etc., etc., sem desfrutar ordenado nem pensão alguma, não obstante estar em commissão do governo e glorificando a sua patria.

Voltou e pagou o transporte do seu quadro collossal, a asseguração da téla a bordo, etc., etc., tudo á sua custa.

É, pois, digno da protecção da camara e do governo imperial.

Tenho dito. Agradeço á camara a benevolencia com que ouvio-me.

Vozes: - Muito bem, muito bem.

(O orador é felicitado.)

O Sr. Pinto de Campos: - Felicito ao nobre deputado por ter proporcionado ao conhecimento do paiz, manifestações tão honrosas, não só ao artista como ao genio brazileiro. (Apoiados.)

QUADRO DO DR. PEDRO AMERICO.

Vem á mesa, é lido, apoiado, entra em discussão e fica adiado por ter pedido a palavra o Sr. ministro do imperio, o requerimento que se acha no Jornal de 31 do corrente.

III-

Publicado em: Jornal do Commercio, dia 4 de setembro de 1877, pag.3.

Título: Pedro Americo

Autor: não consta

Pedro Americo

É digno da maior nota o discurso que na camara dos deputados pronunciou, em sessão de 30 de Agosto, o illustre deputado Dr. Fernando Osorio, sobre a Batalha do Avahy, quadro do pintor Dr. Pedro Americo.

Todo o Brazileiro deve ler o discurso do Dr. Osorio, principalmente todo aquelle cujo espirito ainda não foi apoderado do indifferentismo, do egoismo e do materialismo insulso.

Começa para Pedro Americo a recompensa de seus concidadãos.

E foi o Dr. Osorio, o moço deputado, dotado de vasta intelligencia, quem na tribuna do parlamento, deixando de parte as questiunculas politicas, sem proveito para o paiz, o primeiro a dar a mão ao artista Brazileiro, honra e gloria da patria.

Já não é o unico facto benemerito na recente vida politica do Dr. Osorio. Hontem subia elle á tribuna do parlamento para defender o constructor naval Trajano de Carvalho dos golpes dos seus invejosos.

Logo depois subia elle ainda á tribuna para fallar em favor do operario Albuquerque, inventor de um canhão que estava no olvido.

Isto é que é representar o povo, é honrar o trabalho, é glorificar os trabalhadores pobres.

IV-

Publicado em: Jornal do Commercio, dia 6 de setembro de 1877, pag.3.

Título: A Batalha de Avahy - artigo editorial da "Firenz Artística" de 16 de novembro de 1876.

Autor: A. Cecovi.

A Batalha do Avahy

Artigo editorial da <<Firenz Artistica>> de 16 de novembro de 1875.

Os quadros que representão batalhas offerecem ordinariamente grandissima semelhança entre si. Ora, o quadro de Pedro Americo, representando a batalha de Avahy, uma das principaes da guerra de 1868 entre o Brazil e o Paraguay, afasta-se, entretanto, do commum; e, seja isso devido á physionomia especial dos combatentes, ou seja que o animo altivo, ardente e audaz do povo americano désse a essa luta um caracter mais espantoso, o facto é que o espectador que observa aquelle quadro acha-se preso na contemplação delle, cujo complexo parece-lhe diverso daquelle que lhe offerecem taes assumptos até agora representados.

Comprehende-se que o artista escolheu o momento de um ataque geral, e em toda a immensa tela torna-se evidente o encarniçamento da luta, tanto pelo arrojo dos Brazileiros, quanto pela desesperada defesa dos Paraguayos.Os rostos incendiados pela colera, a sede de sangue, o desdem pelo perigo que sob mil fórmas os cerca; o terreno semeado de armas de toda a sorte, de cadaveres, de feridos, os quaes ainda que profundamente abatidos, ainda fazem um supremo appello ás quasi extinctas forças, para descarregarem no inimigo o ultimo golpe; tudo em summa denota uma luta encarniçada, uma batalha tremenda.

Dous grupos, sobre todos os outros, impressionão: o primeiro fica á esquerda de quem observa a pintura, e é formado de um cavalleiro, é sobre todas digna de louvor, pela sua mascula belleza, e pelo seu semblante animado de verdadeira expressão de odio profundo.

O outro grupo está á direita, e é consituido por um carro meio revirado, e no qual jazem um velho, uma mulher e umas crianças. Para melhor visar o inimigo, um dos combatentes trepa sobre uma das rodas desse carro e, alçado nas pontas dos pés, dispara o arcabuz por cima delle.

Aquelle velho, aquella mulher, que com tanta afan e cheia de terror aperta ao seio os pobres filhinhos lançados no meio da catastrophe, formão, com o resto do drama, um admiravel contraste que torna ainda mais evidentes os horrores da batalha.

O terreno é por toda parte semeado de mortos e feridos; aqui e alli sobre as rodas dos canhões, sobre as armas despedaçadas, largas marcas de sangue dão ao todo da composição um caracter de verdade (um verismo) que faz arripiar os cabellos. No fundo vê-se a cavallaria paraguaya que retira-se desordenada, e grande cópia de assaltados que lutão desesperadamente, posto que arrebatados pelos cavallos. Alguns procurão salvar as peças de artilharia, e ás dezenas se cosem ás carretas, que conseguem arrastar, uns levantando-lhes as rodas, outros procurando afrontar o inimigo que os persegue.

Muito, porém, ser-me-hia necessario para descrever circumstanciadamente os multiformes episodios que apresenta no seu conjuncto a tela colossal de Pedro Americo.

O desenho correcto, o colorido vigoroso e largamente impresso, os effeitos de luz perfeitamente achados, e a perspectiva bem comprehendida, permitirão o desenvolvimento de muitas figuras sem confusão nenhuma. Taes são os principaes merecimentos desse quadro. O atrevido escorso, perfeitamente executado, do cadaver de um negro que alli jaz por terra, attesta a franca pericia da mão do artista no desenhar; o nú é tratado com extremo talento; a exactidão dos costumes, das divisas, das armas, etc., chega até ao escrupulo.

Aquelle trabalho é destinado ao governo do Brazil. Pedro Americo póde ufanar-se da sua obra; ella é digna de um verdadeiro artista, e não haverá ninguém que, contemplando o quadro da Batalha de Avahy, possa deixar de admirar a originalidade da composição e o seu perfeito acabamento artistico? - A. Cecovi.

V-

Publicado em: Jornal do Commercio, 28 de setembro de 1877, pag.4.

Título: Notícias Várias - Quadro Historico da Batalha do Avahy

Notícias Várias - Quadro Historico da Batalha do Avahy

Hoje, depois do cortejo, será inaugurada a exposição publica do quadro historico, feito pelo Dr. Pedro Americo, a qual effectuar-se-ha no chalet que para esse fim se construio na praça de D. Pedro II, em frente á secretaria da agricultura.

De amanhã em diante as pessoas que quizerem visitar esta exposição daráo á entrada uma pequena esportula, que será applicada em favor das victimas da secca da provincia da Parahyba e das orphãs do collegio da Imperial Sociedade Amante da Instrucção, offerecimento este que mereceu do governo imperial um agradecimento ao Dr. Pedro Americo.

VI-

Publicado em: Jornal do Commercio, 29 de setembro de 1877, pag.4.

Título: Noticias Varias - Quadro Historico da Batalha do Avahy

Autor: É uma nota

Noticias Varias - Quadro Historico da Batalha do Avahy

Todos os dias, das 10 horas da manhã ás 4 da tarde, encontra-se aberta a exposição do quadro histórico da batalha de Avahy, no pavilhão construído junto ao edifício do ministério da agricultura.

Preço de entrada por pessoa, 500 rs., nos dias de semana, e 200 rs. nos domingos.

O produto liquido desta exposição é destinado aos Parahybanos flagellados pela sêcca e ás orphãs da Imperial Sociedade Amante da Instrucção.

VII-

Publicado em: Jornal do Commercio, 29 de setembro de 1877, pag.4.

Título: Gazetilha

Autor: é uma nota

O quadro da batalha de Avahy

Finalmente poderão os Fluminenses apreciar o, na Europa já muito apreciado, quadro historico do nosso talentoso compatriota Dr. Pedro Americo, artista vantajosamente conceituado e professor laureado da nossa Academia das Bellas-Artes.

O que dizer a respeito do celebrisado trabalho do pintor historico, quando tanto se escreveu laudatoriamente na Italia - berço da pintura por excellencia - e nos outros paizes, em que forão transcriptas as chronicas artisticas de que tivemos conhecimento?

Ahi está o quadro, ahi está o trabalho, que por alguns annos, foi o sonho constante de um esplendido talento, a pyra em que arderão tantos desejos de gloria, tantos sentimentos patrioticos, que procuravão escrever em uma tela de poucos metros os fastos heroicos de um punhado de bravos que engrandecerão a patria.

Vão admira-lo, principalmente nos seus episodios (detalhes), que fazem a sua maior belleza; vão contemplar o relevo de certos grupos que se destacão, formando, por assim dizer, pequenos quadros, que, só por si, darião nome ao pincel que os creasse e lhes désse vida.

Nesses pormenores, nesses episodios, indubitavelmente o eximio pintor mostrou a sua mestria.

Se o quadro do Dr. Pedro Americo tem senões, tem defeitos, que uma critica rigorosa poderá quiçá apontar ou pedir conta delles ao artista, não cabe a nós, e sim aos entendidos, manifesta-los, para a verdade da arte.

VIII-

Publicado em: Jornal do Commercio, dia 2 de outubro de 1877, pag.2.

Título: A Batalha do Avahy (quadro histórico do Dr. Pedro Americo) I

Autor: Luiz Corrêa

A BATALHA DE AVAHY

(QUADRO HISTORICO DO DR. PEDRO AMERICO)

I

Das tremendas commoções do patriotismo do povo brazileiro, após epopéas de bravura e coragem, era preciso surgirem os monumentos em que as artes illustres commemorassem os feitos grandiosos dos melhores filhos da patria.

Da guerra brutal e medonha dos campos do Paraguay nascera o astro que eleva ao infinito, como se fosse alma nacional destinada a viver na immortalidade.

O talento, o genio reunidos á piedade patriotica acenderão no cerebro de Pedro Americo a chamma da concepção; e ei-lo, investigador das estrophes com que se escreveu o poema epico da guerra, a misturar na palheta as cores e lançando á tela as harmonias, os echos, os claros escuros, as ancias e os estertores do combater horrivel, no qual se medião, de um lado offensores e do outro os que a dignidade convencera á desaffronta.

Nos desertos banhados e cercanias daquella terra de pantanos, numerosos de legiões selvagens, cujas leis oppressoras forão escriptas com a lama de uma liberdade amortalhada, travára o Brazil a luta immensa para vingar seus brios.

Aos gritos estridentes da selvageria guarany, ás imprecações brutaes do fanatismo boçal, juntavão-se as acclamações da victoria e as exhortações christãs e heroicas dos filhos do Brazil.

E Pedro Americo, grande na arte de sentir e de imaginar, no catre de sua alcova, onde a modestia retem o merito humilde e o obreiro que espera, em seus vôos de condor, despedaçava as algemas da vida limitada do cidadão e arremessava-se em sonhos sublimes ao meio da multidão dos combatentes, cercados de fumo, de pó e de sangue, e em seu pezadello magestoso de genio convolvia-se na inspiração fecunda e assentou dar vida a todo esse quadro imaginativo, de colossaes dimensões, apenas pallidamente narrado nas lendas diarias.

Ergueu-se acima da hombridade... Foi gigante um dia e titan sempre a esboçar em mente escaldada tudo quanto o palpitante desejo lhe mandava á tela, de grandes e epilepticas fórmas que sua phantazia debuchava a sonhar.

Na luta interna do moço pintor redomoinhava o vendaval da batalha porfiada das hostes combatentes. Era a febre do genio em pulsação de patriotismo a delirar as sublimidades da verdade na arte.

De um lado carretas arrebentadas, mortos os cavallos, despedaçados os membros dos heroes, canhões a vomitar esturgindo estilhaços medonhos, fumo, fogo e sangue por toda a parte a cobrir esse inferno humano, onde a honra sacando a espada não a repõe senão vingado o ultrage e glorificado o nome.

Céo e terra, homens e animaes, aguas e montes, cadaveres e destroços ensanguentados, tudo era um scenario commovente, grandioso, horrivel e de venerandas recordações no alcaçar da patria.

Elle quiz arrancar á muda e rasa téla o grito, a vozeria, as blasphemias inimigas, os estouros, as agonias e os suspiros derradeiros dos combatentes; não bastava vê-los, quiz que o pincel creador désse áquelle que contemplasse obra tão ingente, os sons, os roncos, os silvos e os estertores da morte ao lado das exclamações da vida.

A natureza potente que vive em sua alma quiz crear horizontes revestidos de serras, de campos, de aguas e tudo coberto por um céo pesado, delle pendendo nuvens negras e densas de tempestade, de rôlos de fumo dos canhões, com alguns clarões de sol a romper daquella massa compacta de negrume.

E para que tudo fosse completo deu eloquencia a cada traço de phisyonomia, a cada musculo a mover-se e a todo esse conjuncto de acção dos que se empenhavão na luta.

Roupas e armas, cabellos e barbas, arreios e mais accessorios desse tremendo scenario, tudo, emfim, devia dizer a verdade a soletrar-se, como quem lê nas paginas de uma chronica as passagens narradas por mão de mestre.

A batalha de Avahy nasceu desse sonho prolongado em que o patriotismo invocava a immortalidade de Miguel Angelo e do Titiano, abrazileirando a palheta e dando á publica admiração producto classico, original e custoso.

Pedro Americo consorciou-se desse momento supremo a todos os grandes que produzirão monumentos historicos, em que se admira como a immortalidade salva seus filhos predilectos do esquecimento das gerações.

II

Aquelle quadro gigantesco que esta cidade admira e que o mundo illustre e provecto ha julgado ser já de um mestre, como nos recorda aquella singularissima natureza sul americana, aquelles horizontes anuviados, aquellas cordilheiras longas e azuladas ao longe. E em baixo serpenteia o rio, estendem-se os banhados, cresce isolada arvore aqui, mais longe outra arvore como esta melancolica e solitaria!

É alli o campo da batalha, longo, vasto, horrendo, apinhado, confundindo tudo entre fumaça, fogo, pó, lama, ameaças, armas e a morte por toda a parte!

É um largo cemiterio onde as cruzes não forão plantadas porque a inquietação da vida não deu lugar ainda ao silencio da morte, e á solemnidade do tumulo!

Olhai! tudo é movimento: tudo é movimento, é esforço, é violencia, é suor!

No primeiro plano uma carreta paraguaya cujo animal fora morto cobre-a um couro roto: dentro uma mulher, em ancias crueis de medo e desespero com mão erguida e violentada pelo amor materno parece querer subtrahir o filhinho áquelles perigos: abaixo e ao lado della um velho cego tateia o perigo que ouve e seu semblante annoso mostrando ancia e terror: ao outro lado da mulher e por detrás uma menina no auge do susto e do terror agarra-se aos vestidos da mãi - dão áquella minuciosidade um aspecto lugubre.

Cá fora um rapaz a picar com ancia e esforço um boi que parece estatico de medo ante os ruidos que ouve. Esse rapaz está saliente; a luz que o cerca dá-lhe vulto e relevo.

E ahi está, montando soberbo cavallo, o Marquez do Herval, Osorio, o Bayardo[47] Brazileiro, o homem da tempera dos velhos gardingos, impavido, braço erguido a mandar esses valentes que surgem e matão em sua passagem tudo quanto o inimigo lhes oppõe em sua marcha. Ao contemplar-se aquella physionomia calma, vigorosa, mal se póde comprehender que já estava ferido no rosto e que o sangue lhe tingia parte das barbas respeitaveis.

Mais longe avançando e destacando-se dos outros vultos vê-se o legendario Barão do Triumpho, o general Camara e tantos outros cobertos de gloria.

De costas voltadas, a cavallo, um official brazileiro sustenta sobraçando duas bandeiras paraguayas, como um Hercules[48], seus musculos concorrem todos a sustentar-lhe aquella posição difficil, tendo apenas um braço livre, evitando no meio da terrivel refega os golpes que lhe vêm de toda a parte, sobretudo daquella satanica figura de paraguayo semi-nu, a um cavallo preto, que segura grosseiro e pesado alfange com ambas as mãos e está prestes a descarregar golpe tremendo.

Este commettimento e seus accessorios todos são pintados com tão eloquente vigor que por si só valerião uma reputação artistica.

Mais á parte está o jovem cadete de cavallaria, o famoso Serafim[49], montado em uma peça. A sua attitude é formidavel parece gritar e animar aos que vem chegando, desprezando a passagem perigosa em que se acha.

Pedro Americo deu áquelle menino glorioso alli o berço da immortalidade, para que um dia as lagrimas maternas tivessem um altar sublime que as colhesse e consagrasse. Como comprehende um coração de artista o coração materno agonisando de saudades.

Em uma eminencia, mais longe, vê-se atraves de tenuissimo véo de fumo o vitorioso general em chefe de tão briosas phalanges, cercado dos seus ajudantes, e em frente delles os officiaes paraguayos prisioneiros em posição humilde de vencidos.

III

Todo aquelle scenario faz lembrar as terras sul-americanas. A natureza e os homens forão representados com a sua cor local e caracteristica.

Parece que o artista, pintando na Italia, transportara em mente a sua officina para o meio daquelles banhados inospitos, e aquelles horrores em scena palpitante.

A attenção demorada perante a magestosa téla de Pedro Americo observa surgirem a cada instante cabeças e braços armados, destroços e minudecencias locaes, e aqui e alli manchas de sangue humano, como se á falta do viço e das flôres calcadas aos pés fosse necessario áquelle cruento encarnado, como gottas de sacrificio em terra de gemidos.

Do intimo do mais sagrado reconhecimento deve-se saudar o grande artista brazileiro que os mestres do velho mundo denominão - mestre. Deve-se estreita-lo ao coração beijar-lhe as faces por tanto e por tal inspiração sublime.

A patria agradecida no coração de cada um de seus admiradores abençoa a sua reputação, o seu nome, o seu genio e dá-lhe em cada aperto de mão um signal de veneração.

O Prometeu[50] da pintura agrilhoado e preso á dureza dos seus annos passados, arrebentou as suas cadeas e elevou-se ás alturas magestosas da arte.

A Batalha de Campo Grande tornára-o pintor e laureado, a Batalha de Avahy dá-lhe os fôros de summo sacerdote da arte, entôa-lhe hymnos sagrados a seu brilhante talento, torna-o commensal dos immortaes.

Quando se tem com tanta ousadia e maestria arrancado aos factos toda a sua magnifica possibilidade, narrando-os com tanta eloquencia e primor; quando um homem em poucos annos consegue ser o que é Pedro Americo, a sua sociedade, seus admiradores e seus amigos lhe dão a carta de grande cidadão, de benemerito da patria e da humanidade.

Rendendo este preito a quem tanto merece, annunciando ao mundo que sente e crê o monumento magestoso - A batalha de Avahy - por Pedro Americo, cheio de enthusiasmo perante aquella tella trannscendente, conjuncto de grandes bellezas da arte e da verdade, curvo-me cheio de respeito e admiração perante esse homem distincto, esse bom amigo, brazileiro insigne, que sabe honrar o paiz laureando seu nome no sanctuario das bellas artes do velho mundo.

Luiz Corrêa

29 de Setembro de 1877.

IX-

Publicado em: Jornal do Commercio, dia 5 de outubro de 1877, pag.3.

Título: Folhetim do Jornal do Commercio: Cartas de um caipira (carta 276)

Autor: Felipe (destinada ao Mano Chico)

FOLHETIM DO JORNAL DO COMMERCIO

De 5 de Outubro de 1877

CARTAS DE UM CAIPIRA

CARTA 276

Mano Chico

Acabo de sahir do barracão que o Dr. Pedro Americo mandou construir para a exposição da sua vasta tela, representando um dos maiores embates de armas, se não o maior que houve na guerra de Paraguay.

Digo o maior, porque no entender das pessoas mais competentes foi essa talvez a unica batalha, na verdadeira accepção da palavra, que se travou durante os cinco annos da tão porfiada luta.

Entrárão nella, de parte a parte, os tres terriveis elementos de guerra - infantaria, artilharia e cavallaria.

Todas as forças brazileiras dessas tres armas arremessárão-se com denodo incrivel contra o grosso do exercito inimigo, que se achava estendido em linha de batalha esperando o ataque.

Até então nunca houvera na guerra do Paraguay tão propicio ensejo para um desenvolvimento geral de forças assim.

Ferirão-se muitos combates sanguinolentos antes desse memoravel dia 11 de Dezembro de 1868, é certo, os dous exercitos tiverão occasião, um cento de vezes, de mostrar quanto erão terriveis no acommettimento, inabalaveis no mais encarniçado da pugna e heroicos nas mesmas derrotas que soffrião.

Mas em todos esses embates, foi-lhes sempre adverso o proprio terreno em que lutárão, cheio de apertadas gargantas, facilmente varridas pela artilharia ou cobertos de pantanos que não os deixavão manobrar convenientemente.

Alem disso essa mesma natureza do terreno dera á primeira e segunda phases da guerra um caracter especial: era, por assim dizer, uma luta toda de sorprezas, em que um exercito, protegido pelas matas, cahia de sopetão sobre o outro, travando-se então uma como luta de soldado contra soldado e official contra official, sem plano estrategico, sem manobra de massas de gente, porque no terreno não havia espaço para tanto.

Quando não era isso o que se dava, dava-se então algum ataque desesperado contra uma fortaleza ou uma trincheira, bem defendida por numerosas bocas de fogo, como se já não lhe fossem protecção sufficiente os extensos e fundos banhados, que os assaltantes tinhão de atravessar a descoberto.

Foi nas margens do Avahy que os dous generaes e os dous exercitos puderão pela primeira vez medir verdadeiramente as suas forças, achando-se em circumstancias iguaes.

A planicie, extensa e quasi plana, tinha espaço sufficiente para as manobras, campos excellente para o desenvolvimento estrategico.

Não houve sorpreza alli.

Um exercito preparou-se para atacar, pondo em campo todos os recursos bellicos de que podia então dispor; o outro esperou-o a pé firme e tão bem preparado como o aggressor.

A luta não podia deixar de ser terrivel.

Era uma questão de vida ou morte para as duas forças que se ião enfrentar, pois que, nas circumstancias em que se achavão os antagonistas, resultado natural dos repetidos encontros havidos anteriormente e todos conducentes a um embate geral e decisivo, o resultado da luta naquelle dia podia e devia ser um como desfecho da guerra, pela impossibilidade, em que ficaria o exercito paraguayo, de continuar a luta, caso fosse derrotado.

Foi o final dessa pugna tremenda, quando o solo já estava juncado de cadaveres, e a cavallaria do exercito de Caballero começava a debandar, deixando no campo da batalha muitos valentes infantes que se defendião ainda com um arrojo inaudito; foi esse ultimo e mais terrivel esforço heroico daquelle dia tão memoravel, que o Dr. Pedro Americo representou na sua vasta tela, e representou magistralmente, digamo-lo com franqueza, em que peze aos tantos criticos que por ahi andão apontando-lhe senões, á meia voz.

A Batalha de Avahy é, no meu fraco entender, uma obra de mestre.

Achem-lhe embora defeitos, os que a vêm só pelo lado historico; queirão embora alguns que o generao Osorio devêra estar no segundo plano e o Barão do Triumpho no primeiro; eu não vou por ahi.

Entendo que nunca o ideal da arte deve ser sacrificado de todo á verdade da historia, nem mesmo n’um quadro de batalha, e muito menos quando esse sacrificio não importa desmerecimento para o vulto que o artista passa do 1º para o 2º plano.

Na batalha do Riachuelo, do nosso Victor Meirelles, o valente Barroso, que foi alli o primus inter pares, tambem está no segundo plano, e nem podia ser posto no primeiro, sob pena de ficar prejudicada toda a belleza e até a logica natural do painel.

Pedro Americo deu ao Barão do Triumpho um lugar distincto no segundo plano, porque é alli que justamente se está ferindo a mais renhida luta, emquanto que para o primeiro reservou apenas alguns episodios da sua brilhante epopéa.

Demais, esse escrupulo excessivo na distribuição das figuras, attendendo-se mais á rigorosa verdade dos factos do que ás exigencias do bello, parece-me antes assumpto de estrategia do que de esthetica, muito principalmente porque nenhum dos proprios censores é capaz de jurar onde estava este ou aquelle general na occasião em que a luta chegou ao ponto em que a reproduzio a maravilhosa palheta de Pedro Americo.

Vão, entretanto, dicutindo esse assumpto marcial os que entendem que n’uma tela como a batalha de Avahy é isso ponto que mereça discussão, porque eu não attentarei senão na parte artistica, em que acho campo vastissimo para entoar um hymno de louvor ao inspirado pintor.

Com effeito, por esse lado nada deixa a desejar o magnifico quadro do Dr. Pedro Americo.

O assumpto era difficilimo, mas os talentos como o Dr. Pedro Americo não conhecem obras insuperaveis para elles as maiores difficuldades que se vão apresentando não são senão felizes ensejos para irem dando cada vez melhor cópia de si.

A Batalha de Avahy é uma prova disso.

Nessa belissima tela, de proporções tão grandes, revelou o jovem pintor todos os predicados de um artista de merecimento pouco commum.

Vê-se nella quanto é vigorosa a sua imaginação e quanto são profundos os seus conhecimentos no desenho e no colorido.

As figuras do primeiro plano e de parte do segundo parecem mais estatuas do que pintura, tanto relevo apresentão; accrescendo que nellas o Dr. Pedro Americo caprichou em mostrar quanto é senhor dos segredos da sua sublime arte pelas posições sobremodo difficeis de reproduzir, que escolheu para ellas.

Quasi todas apresentão-se ou de escorço, ou correndo, curvadas e contrahidas, para o lado do espectador. Estas ultimas são desenhadas e coloridas com tanta verdade, que parecem destacar-se da tela, e ao aproximar-se della, o espectador sente vontade de desviar-se para deixar passar o miseravel Paraguayo que vem fugindo com a carteira que acaba de roubar a um official brazileiro, morto no campo de honra.

É nesse primeiro plano que se acha a carreta com a familia paraguaya, de que tanto se tem fallado. Que bellissimos effeitos de luz! Que agrupamento feliz o daquellas tres figuras: uma criança de 4 para 5 annos de idade, agarrando-se no vestido da mãi; esta, aterrada, erguendo nos braços um objecto que se não vê, mas que se advinha que é um filhinho recem-nascido; e ao lado destas duas figuras, imagens vivas do terror, um velho, estendendo adiante de si convulsivas mãos, como quem procura um apoio; um pobre ancião, que ouve o estampido dos canhões, o sibyllo das balas e o tinir das espadas; que conhece a que perigos estão expostos a sua querida filha e os seus idolatrados netinhos, mas que não sabe para onde ha de fugir com elles, porque é cego!

Que expressão tão verdadeira em cada uma daquellas tres physionomias, que desenho tão correcto e que vigor no colorido!

No segundo e no terceiro planos nota-se um movimento extraordinario, mas perfeitamente desenvolvido.

Aqui, a valente cavallaria brazileira, commandada pelo Barão do Triumpho, levando tudo de vencida; alli, o embate de nossa infantaria com a paraguaya, que ainda teima em disputar o terreno palmo a palmo; á esquerda, o primeiro grupo de inimigos que se entregou ao general vencedor; além um corpo de exercito brazileiro movendo-se para cortar a cavallaria inimiga que foge em debandada e cuja guarnição começa a atravessar desordenadamente um banhado.

Por toda parte cadaveres, carretas quebradas, cavallos mortos ou movendo-se, armas perdidas, mostrando-se por entre uma infinidade de incidentes, muitos dos quaes inteiramente originaes e em que bem se revela a pujante imaginação e o espirito observador do artista.

E além, muito longe, depois de uma extensa planicie, cortada por alguns esteros e corregos, divisa-se o céo limpido, com uma transparencia de ar lindissima.

Em toda a vasta tela a luz é admiravel, e os effeitos de fumaça muito bem estudados.

Já dissemos que pouco cabedal fazemos das censuras sob o ponto de vista da verdade historica; não assistimos á batalha, e nem cremos mesmo que os que expuzerão a sua vida naquelle descampado, em tão memoravel dia, possão dar-nos noticia senão dos episodios, dos incidentes parciaes que se passárão diante dos seus olhos.

Além disso um quadro de batalha é como um poema, e dá-se aos poetas certa liberdade de exposição, para belleza do seu canto, que não se deve negar aos pintores.

Na sua parte puramente artistica, o quadro do Dr. Pedro Americo tem alguns senões, nem ha trabalho humano que não os tenha; porém esses senões são raros e as bellezas abundão tanto e são de tal quilate, que, sem o menor peso de consciencia nem receio de contestação, se póde afoutamente dizer, como dissemos no começo deste escripto: << é uma obra de mestre! >>

Entre as censuras que tenho ouvido fazer, as que parecem, prima facie, mais bem fundadas são estas:

1º O horizonte está muito alto: em vez de achar-se a um terço da tela, está a dous, o que não deixa o olhar do espectador abranger o conjuncto da acção;

2º Não se comprehende aquellas linhas de azuladas montanhas e aquelle céo tão sereno em um dia de chuva como o foi o da batalha de Avahy;

3º Ha muita poeira no quadro, o que não é natural em um dia chuvoso.

Estes tres reparos são terriveis, porque apresentão-se com o severo sobresenho da critica, apparentemente baseada no profundo conhecimento da arte.

Mas vejamos:

1º é certo que o horizonte fica um tanto alto no trabalho do Dr. Pedro Americo, dando ao terreno um tal ou qual aspecto de plano inclinado, em que se desenvolve a batalha; mas quem attenta na complexidade do assumpto, na multiplicidade de incidentes que foi mister desenhar para reproduzir com verdade um tão importante feito d’armas, e nas grandes massas de tropas que o pintor tinha necessariamente de pôr na téla, chega a esta conclusão: era impossivel dar conta da mão por outro modo...

Quanto ao segundo reparo, não é exacto que fosse um dia chuvoso o de 11 de Dezembro de 1868; chuveu, é certo, durante a batalha, e chuveu muito, mas os raios do sol ainda apparecerão a tempo de illuminar as armas dos nossos valentes soldados, quando a victoria se pronunciou a nosso favor.

Além disso, quando mesmo fosse chuvoso todo o dia, o horizonte da tela fica tão distancte do lugar da acção no quadro do Dr. Pedro Americo, que bem poderia despenhar-se um temporal tremendo aqui e conservar-se, no emtanto, um céo azul e transparente no extremo do horizonte.

Quanto á poeira...

É preciso muito boa vontade para confundir a fumaça com a poeira.

E aqui estão os reparos que ouvi muita gente entendida estar fazendo.

Em compensação ahi vai um, que é de leigo, e leigo ainda imberbe, e que talvez seja mais procedente do que do que os taes tres, a que me referi supra.

- Que menino é aquelle papai?

- Qual?

- O que está a cavallo n’uma peça, com o boné na mão e soltando um grito tão cheio de enthusiasmo?

- Aquelle foi um verdadeiro heróe, meu filho. Poucos mais annos contava do que tu, e vê com que denodo zomba da morte. Lutou como um homem, e como um homem morreu!

- Ora qual!

- Duvidas?

- Só se morreu depois.

- Por que dizes isso?

- Papai não me disse que esta batalha deu-se ha quasi nove annos?

- Disse.

- Pois então? Não vê a pontinha do lenço apparecendo no bolso do peito do tal mocinho?

- Vejo; mas que tem isso, patetinha?

- Ha nove annos ainda não se usava o lenço assim... no bolso do peito.... com a pontinha de fóra...ora, ahi está! Portanto não presta o quadro.

E assim são as criticas.

Já disse que as obras perfeitas só sahem das mãos do Creador; das dos homens, nunca.

A Batalha de Avahy tem defeitos, mas quizeramos que as pessoas competentes os apontassem francamente, n’uma discussão leal, para vergonha eterna dos professores da Academia Real das Bellas-Artes de Florença e de tantos outros mestres italianos (entre os quaes figura o Sr. Luigi Norfini, especialista em pintura de batalhas e director da Real Academia de Lucca), que todos achárão excellente o quadro do Dr. Pedro Americo.

Para que essa como guerra surda, que se levanta contra uma obra tão conscienciosamente acabada?

É tão facil não sympathisar com o autor e morrer de amores pelo quadro!

Demais, o Templo da Gloria tem espaço sufficente para todos os que se tornão dignos de figurar nelle; e a entrada alli de um eleito, não importa exclusão dos outros. Ha lugar para todos.

Ao lado das nossas duas maiores notabilidades artisticas Pedro Americo e Victor Meirelles (iguaes no brilho) podem vir postar-se muitos outros, como já delles vai-se aproximando a passos largos o tambem nosso João Zeferino.

Venhão mais outros, e quantos mais, melhor.

Assim fosse a nossa Academia das Bellas-Artes capaz de nos dar, de cinco em cinco annos, ou mesmo de dez em dez, um artista da polpa de qualquer desses tres, supra referidos... ou ainda um tanto inferior a qualquer delles.

Mas não lhe vemos geito; e se fossemos a proseguir hoje nesta ordem de idéas, descendo ao estado em que se acha a dita academia, ao numero de discipulos que a frequentão com aproveitamento, e ao das aulas que não funccionão por falta de discipulos ou de professores, chegariamos a esta infelicissima conclusão.

Uma de duas: ou acabe-se com a academia ou dê-se-lhe uma volta em regra. Mas isto de tirar conclusões destas, que sempre gerão descontentamentos, é muito perigoso.

Passa a gente por um demolidor de reputações, e, pelos modos, nos tempos que correm, não é prudente demolir nada, e para prova ahi está ainda inteirinho da Silva, um dos arcos levantados na rua Primeiro de Março para festejar a chegada de SS. MM. Imperiaes.

O que vale é que a mencionada rua é uma das mais retiradas do centro da cidade, não tem movimento nenhum, nem de gente a pé, nem de vehiculos.

A conservação alli do celebre monumento de panninho sarapintado é, pois, um verdadeiro beneficio para o publico; e conseguintemente quando alguem lembrar-se de arria-lo, não haverá a menor razão para soltarem-se foguetes, em signal de regozijo.

Tanto mais que agora já não se atacão foguetes assim tão impunemente; e muitas vezes até paga o innocente pelo peccador, como aconteceu ultimamente com os quatro negociantes lá das proximidades do arsenal da marinha, de que fallámos na ultima missiva.

Verdade seja que o desembargador chefe de policia, logo que leu a nossa reclamação, tomou conhecimento do facto muito pelo miudo (o que lhe agradecemos com a maior abundancia de coração) e quiz punir o urbano intimador; mas infelizmente já o sujeitinho se achava desligado do corpo.

Em todo caso isto sempre servirá para pôr os outros urbanos de sobreaviso.

Assim pudessemos dizer o mesmo dos empregados da Companhia Ferry no tocante a objectos esquecidos nas barcas. Bem sabemos que andão de lá para cá alguns passageiros pouco escrupulosos; mas nos bonds tambem andão, e nem por isso considera alma perdida o que se deixa ficar, por esquecimento, nesses vehiculos.

Mas nas barcas?!

Pois olhem, não é porque os marinheiros percão muito tempo com o asseio do chão e dos bancos; e tanto, que já se trata de correr uma subscrição entre os passageiros para a compra de um espanador e aluguel de um homem para passa-lo por cima dos bancos no fim de cada viagem.

Para acabar:

Recomeça a lavrar a terrivel epidemia das conferencias, Santo Breve da Marca!

Quem me mandou voltar da China?

Se o Capanema ainda estiver na repartição telegraphica a esta hora, volta já, já para o Celeste Imperio.

Adeus.

Teu do coração

FELIPE.

XI-

Publicado em: Jornal do Commercio, dia 6 de outubro de 1877, pag. 4.

Título: Avisos - Batalha de Avahy

Batalha de Avahy, grande quadro histórico do Dr. Pedro Americo

- O Imperial Instituto Artístico, editor da Illustração Brazileira, adquirio para si unicamente o direito de reprodução e publicação desta grande obra, tanto em photographia como em gravura. Vai abrir immediatamente a assignatura para as pessoas que desejão possuir cópias do painel que consagra este facto heroico das armas brasileiras.

XII-

Publicado em: Jornal do Commercio, dia 6 de outubro de 1877, pag. 2.

Título: O quadro do Sr. Pedro Americo

Autor: Affonso de Albuquerque Mello

O quadro do Sr. Pedro Americo

Oh! quanto estou arrependido!... porque não é um quadro, não é uma pintura o que vi: é uma acção, um campo de batalha com todos os seus horrores, para quem nunca vio o campo, para quem só tem lido as descripções militares desses episodios tremendos da historia humana.

Oh! sim!... Tenho visto, nos livros, batalhas, combates sem contas, muitas vezes com as descripções mais vivas, que se tem dado desde os primeiros dias da humanidade até hoje, mas nunca vira o sangue vivo a correr os olhos chammejantes, o ferro brandindo e cortando, as faces contrahidas, os peitos arquejantes, por cima dos feridos os cadaveres, as contorsões da morte abrigadas pelo desprezo ou pelas patas dos cavallos... nunca vira tudo isto vivo, como desta vez!

Horror! E lá está em um carro uma familia fugitiva envolvida entre os combatentes; a mãi, que aperta em seus braços a tenra criancinha a quem uma bala devorou a vida; outra ainda de mais idade, face angelica a quem o terror não diminue a belleza, estreitando-se espavorida á pobre mãi, que, no auge da dor, só se occupa daquella a quem não póde mais servir de amparo!

E a peleja é ardente e furiosa, o homem mata o homem como raivosas féras se estrangulão.

O que mata aqui recebe ao mesmo tempo a morte de outra mão, que outro tiro certeiro á queima roupa não dá talvez tempo de executar a sua acção.

E em toda a tremenda confusão mais que tudo se distingue o sangue e a morte; e o fogo que corre em todas as linhas, entre o fumo que é continuo, o fogo que de todos os pontos rebenta do vasto campo da immensa e bellissima paisagem....

Quanto contrasta com taes horrores a sublimidade dessa natureza, que não fôra creada por certo para theatro e testemunha dessas tragicas scenas!

Basta levantar a vista um pouco acima das cabeças dos ultimos combatentes, e descortina-se um campo immenso, limitado por um horisonte sem fim.

É a planicie mais bella que tenho contemplado.

E a calma dessa belleza tão doce, tão cheia de encantos, e ainda mais pelas aguas do largo rio que sorprendeu na immensa planicie, vêm quebrar-se contra o horrivel mil vezes variado movimento do furor dos homens e das armas, que só podem escrever e proclamar com o sangue do adversario o triumpho da verdade que cada um proclama.

Em uns pontos já se pronuncia a retirada do inimigo, se guindando pelas comorras; mas ainda sustenta com tal violencia a contenda, que não parece decidido a deixa-la; não obstante, n’outra parte um quadrado do nosso parece não ter esperança de ver-se livre tão cedo dos terriveis embates da cavallaria inimiga.

O que é, porém, mais doloroso é o primeiro plano do quadro, não só por se manifestar mais claramente os detalhes, como pelo desespero com que se vê uns arcarem ante as garras de outros leões.

Ahi o inimigo não cede o campo: parece decidido a junca-lo todo com os seus cadaveres.

Bem proximo está em uma pequena elevação Caxias, com o estado-maior, a quem não attingem as balas só porque ahi os inimigos estão apertados e envolvidos pelos nossos, combatendo peito a peito; mas uma bomba vem quebrar-se aos pés dos cavallos que elles montão... é como quem assiste a uma corrida de touros.

Sim, mais que isto: uma luta de touros...

Em falta das armas naturaes dos touros, os homens applicão a intelligencia que lhes foi dada para dominar a natureza em proveito da humanidade, ao fabrico das machinas de destruição do homem. Os capitaes que se destroem em uma batalha, que poderão, como instrumento de producção, multiplicar a riqueza social, são o producto de muito tempo de trabalhos de um povo inteiro, que digo, de dous povos.

Até quando serão os homens touros, até quando serão brutos?

Até quando será uma utopia o congresso universal para fazer reparar os aggravos entre as nações?

Ha nada mais grosseiro do que o sophisma de ser impossivel acabar-se a guerra, porque será sempre a guerra o meio de constranger o povo offensor a reparar a injuria?

Não ha nada de absoluto na terra; toda a questão humana é de quantidade.

E que nação ousaria, diante da imposição de todas as nações, resistir a seu decreto?

Antes do Evangelho pudera-se justificar a guerra, mas entre povos christãos como se póde ella explicar?

É que o Evangelho ainda não civilisou a humanidade; elle é a base da civilisação moderna, que só se póde desenvolver pela illustração do povo, mas aquelles a quem é dada a guarda do Evangelho são inimigos da civilisação, o seu intuito é a volta do paganismo...

Mas isto terá um termo; a humanidade não será sempre bruta; o homem não será sempre féra.

Não ha nada mais facil do que decretar-se a guerra, tão acostumados estamos com ella desde os primeiros dias da humanidade.

Não ha nada mais facil do que, na acção, se excitarem os instinctos ferozes do homem; que ainda é bruto nesta civilisação tão atrazada e imperfeita; mas todo o horror, o supremo horror de um batalha, só inspira a sua vista aos que a contemplão sem entrar nella.

O que trouxe o Sr. Pedro Americo?

A dôr, a angustia, a insonnia a quem vio, a quem attentou, não ao seu quadro, mas ao que está nelle vivo, patente, presente, com acção e movimento, embora apparentes - batalha do Avahy.

Na verdade, (nem sou, nem seria preciso dizê-lo; artista nem poeta; mas soffro de todos estes soffrimentos e vi commigo soffrer muita gente), na verdade deve ser grande a gloria do artista que teve o poder de produzir tão dolorosas impressões com a sua pintura tão viva como a realidade; mas o bem que tantos desejão que dahi resultasse não será effeito ainda daqui a muitas gerações.

A que vem, porém, esta tirada?

Um aviso aos leitores:

- Quem não quizer soffrer como eu, não veja o quadro do Sr. Pedro Americo.

Affonso de Albuquerque Mello[51].

Rio, 4 de Outubro de 1877.

XIII-

Publicado em: Jornal do Commercio, dia 7 de outubro de 1877, pag. 2.

Título: Errata do artigo do dia 6 de outubro (O quadro do Sr. Pedro Américo)

O quadro do Sr. Pedro Americo

No artigo publicado hoje sob este título, lêa-se:

No 10§, em lugar de -largo rio que sorprendeu na immensa planice, lêa-se - serpentea. Em vez de -que cada um proclama, lea-se - sustenta.

No 11§ - Pelas comorras - lea-se - Pelos comorros.

No 14§, depois da reticencia lêa-se - Osório no meio dos combatentes, ferido na bocca.

No 16§ em vez de - em falta das armas naturaes dos touros - lêa-se - dos brutos.

No 17§ - Trabalhos de um povo lea-se - trabalho.

XIV-

Publicado em: Jornal do Commercio, dia 7 de outubro de 1877, pag.3.

Título: Folhetim do Jornal do Commercio - Revista Semanal

Autor: JLLE

FOLHETIM DO JORNAL DO COMMERCIO

De 7 de Outubro de 1877

REVISTA SEMANAL

O Brasil que ainda hontem largando as faxas infantis, mal articulava a palavra - independencia; dotado pela natureza para altos destinos, está já hoje no convivio das nações livres, não nos promettendo uma esperança que porventura venha ser fallaz, mas offerencendo-nos uma realidade que é mais do que uma honra, que já é uma gloria para o paiz que não conta em sua historia tradições de seculos.

Não faltão espiritos acanhados, animos covardes, almas ingratas a esta grande patria, que, todos os dias, por uma maledicendia que não pode qualificar-se, não digão que é o Brazil uma nação perdida, nação aviltada pelos vicios, corrompida pela torpeza, rebaixada pela ignominia, nação onde não ha nem o sentimento da dignidade e de honra, nem a inspiração do grande e do bello.

E como é erronea, como é mentirosa, como é falaz esta opinião que ahi corre no mundo politico, no mundo litterario e artistico, na sociedade culta e entre o povo ignaro, nas altas regiões e entre a plebe baixa e humilde.

Ao contrario do que suppõe essa malquerença filha do erro, da ignorancia, do despeito ou da má fé, o Brasil ahi nos está dando exemplos grandiosos de sua vitalidade, provas incontestaveis de sua marcha progressiva, eloquentissimo testemunho do seu já grande e incontestavel valor não só como a primeira das nações da America do Sul, mas como uma das que no velho e novo mundo mais se empenhão na regeneração futura da sociedade.

É certo que a cultura de um povo, e seu grao de adiantamento moral, o seu progresso, tudo quanto vale o seu presente, tudo quanto poderá valer o seu futuro, não póde deixar de aquilatar-se pelos productos da intelligencia, que se nos offereção em qualquer das manifestações da actividade humana.

Um povo que não estaciona, um povo que tem como sua mais alta concepção o grande ideal do futuro, manifesta sempre as suas nobres aspirações revelando-nos o seu intimo sentir no constante progresso das sciencias, das letras ou das artes.

Pois para nós chegou o momento de uma dessas grandes revelações com que ás vezes um poder invisivel parece querer assignalar o glorioso porvir de um povo que tem a cumprir uma alta missão.

Se não temos nas sciencias caminhado com a velocidade dos grandes motores do progresso, se nas letras é pouco pressuroso o nosso passo, nas artes acabamos de patentear a toda a luz da evidencia, que ninguem vai mais avante na vanguarda do que nós, para a luta incessante do trabalho, em que se revela mais do que a energia da vontade, em que se manifesta o poder da intelligencia, a valentia do talento, a profunda inspiração do genio.

É duplo o argumento que justifica a profunda inspiração do genio.

É duplo o argumento que justifica a proposição que temos enunciado. Sim, que florescemos, que triumphamos nas artes provão-no neste momento a grande opera de Carlos Gomes, O Guarany, e a formosa tela de Pedro Americo - A Batalha de Avahy.

São mais que dous triumphos, são duas glorias nacionaes.

...

O Guarany revelou-se nos agora em toda a sua grandeza, em toda a sua magestade.

Comquanto fosse a opera mais popular do nosso maestro, ella não se nos apresentara ainda em toda a sua opulencia, em todo o seu vigor artistico, com esse segredo das harmonias que se occultarão na bella partitura, e que nos acabão de descobrir os notaveis artistas a quem foi confiada a sua interpretação.

Desta opinião foi o publico que assistiu á primeira e segunda representação da opera de Carlos Gomes. Foi unanime o applauso nas passagens mais difficeis, e cujo desempenho foi mais deslumbrante.

Os que, desdenhando das glorias nacionaes, não querião aceitar como obra prima do genio a notavel composição do maestro brazileiro, forão agora obrigados a reconhecer o alto merito do grande compositor, que assim tem conquistado o seu lugar de honra ao lado dos que mais se illustrão entre a pleiade dos maestros, cujas producções diariamente se repetem em todos os theatros do mundo.

A musica do Guarany é com effeito de uma viva energia, tão doce e agradavel nas melodias como potente, vibrante e arrebatadora nos grandes effeitos de instrumentação.

Foi ahi que, devida ao maestro Bassi, a opera teve o seu mais completo desempenho.

Tambem por parte de Bohs a interpretação foi completa, e na segunda representação sobretudo inexcedivel. E se no papel de Cacique alguma cousa nos deixou a desejar o Sr. Castel Mory, se a Sra. Vanda Miller não esteve verdadeiramente á altura da situação, e se o Sr. Mendioros bastantemente enfermo não pôde dar todo o relevo ao seu papel, o conjunto de todos estes personagens, accrescendo ainda o dos que desempenhárão os papeis immediatos e secundarios, foi sufficiente para o exito brilhante que obteve a partitura.

E se o Guarany agora nos revelou os profundos mysterios da arte, que nelle se encerravão, e que nos havião sido até hoje desconhecidos, que é licito suppor de todo o seu valor intrinseco quando o seu desempenho for confiado a artistas, dignos todos de se collocarem ao lado do distinctissimo tenor, que tem na presente temporada feito as delicias do publico fluminense?

Nós folgamos sinceramente com este brilhante resultado, não só porque se firma a gloria um pouco empanada de um filho do Brazil que honra e nobilita a sua patria, mas tambem porque este facto diz bem alto que a arte não é entre nós uma palavra vã, e que, ao contrario, tem uma existencia real em eximios cultores e admiradores numerosos que sentem em seu espirito a verdadeira intuição do bello.

Depois de obtido um tão completo triumpho permittão-nos que, acompanhando a manifestação do enthusiasmo publico, como interprete da verdadeira opinião revelemos tambem ao autor do Guarany o nosso sentimento de jubilo e admiração nesta só palavra, tão simples e innocente como sincera e verdadeira - parabens!

...

A batalha de Avahy é, como dissemos, outro prodigio de arte, outra gloria nacional.

É ainda um filho do Brazil que longe da patria, mas não tirando os olhos della, recolhendo-se no seu gabinete de estudo e de trabalho, com louvavel e generoso empenho de honrar o nome do seu paiz, honrando o seu proprio nome, concebeu e executou o formidavel plano dessa tela gigantesca que ahi tem attrahido milhares de pessoas que a tem contemplado, admirando-a em suas numerosas perfeições.

Não faltão Aristarchos[52] procurando com um critica severa e implacavel offuscar o brilho dessa grande luz que veio illuminar-nos a solidão da arte, onde os matagaes erão tão espessos como as nossas mattas virgens que, sobrepujadas de parasitas, não permittem que illuminem e aqueção um solo humido e em treva os raios de um sol vivificador, que esparge o calor e a luz.

O quadro de Pedro Americo não está destinado só a resistir mas a triumphar desses rudes ataques com que tem procurado derrubar-lhe o edificio de sua gloria.

É obra humana, será por isso sujeita á lei das imperfeições, que é universal e eterna.

Mas qual tem sido o producto do homem que haja escapado a esse fatal destino que amesquinha o nosso ser ante a perfectibilidade da obra da creação?

Nem Homero[53], nem Shakspeare, os dous maiores genios que tem fulgurado no mundo, podem dizer-se excepção a essa lei implacavel que nos confunde e nos abysma em nossa vaidade, em nosso orgulho.

E se na pintura não forão impecaveis Raphael e Miguel Angelo, que é de estranhar que em obra de tão grande folego se reconheça que está ahi um producto humano, sujeito, portanto, ao erro?

Mas haverá na prodigiosa téla que temos admirado falta tão sensivel ou defeito tão essencial que o quadro desmereça do seu grande valor artistico, e deva por isso o seu autor inscrever-se no numero das mediocridades?

Ousamos affoutamente responder pela negativa. É certo que o pintor, como o dramaturgo, como o poeta, como todo o homem de genio, só póde ser bem julgado pela posteridade quando o involucro mortal se occulta na obscuridade do tumulo e na mudez do sepulcro.

Para que negar porém na vida a justiça aos que a merecem pelos seus talentos ou por suas virtudes, imitando a criminosa indifferença das idades passadas? Porque nos não havemos de mostrar homens do nosso seculo superiores ás paixões mesquinhas? Porque Não havemos de reconhecer o talento e exaltar o genio quando elle tão esplendidamente se manifesta, aguardando o voto da consciencia publica com a firmeza das grandes convicções, e na certeza de que se não fôr no presente será no futuro tão grande a sua gloria como a que se representa para as armas brazileiras na sua tela immortal?

A Pedro Americo, pois, como a Carlos Gomes, ainda esta só palavra, que é a synthese de todo o nosso sentimento: parabens!

...

Emquanto assim florescem as artes liberaes no seu maior esplendor, parece declinar o sentimento publico em todas as outras relações sociaes.

O crime toma proporções grandiosas, tremendas, assustadoras! Elle já invade as corporações destinadas á repressão dos attentados! é no lugar em que se reunem os homens da paz que já se vibrão as armas da guerra, mas na traição perfida e vil, no maior desacato da lei! O militar, que cinge a banda e tem no braço honrado a divisa do commando, já cahe aos golpes do sicario que lhe deve obediencia, respeito e até amor!

Que significa esta negação da ordem social? Esta aberração do dever, da dignidade, da honra? Esse crime hediondo, que lança a perturbação no seio da sociedade ao ver a propriedade e a vida entregues a mão polluidas no sangue do seu proprio chefe?

Ha certamente..........(continua tratando de outros assuntos)

JLLE

XV-

Publicado em: Jornal do Commercio, dia 16 de outubro de 1877. pag.5.

Título: Visitas Imperiaes

Autor: desconehcido

Visitas Imperiaes

S. M. o Imperador, acompanhado dos seus semmanarios, visitou hontem a Academia das Bellas-Artes, onde se demorou perto de uma hora, examinando a bibliotheca, os quadros que estão sendo restaurados pelo Sr. Professor Vasco José da Costa e Silva, e assistindo ás aulas de desenho e pintura.

[...]

Finalmente Sua Magestade visitou na rua do Areal o quadro da Batalha dos Guararapes, que esta sendo pintado pelo professor da academia, o Sr. Commendador Victor Meirelles.

XVI-

Publicado em: Jornal do Commercio, dia 27 de outubro de 1877, p.2 ?

Título: Bellas Artes - O quadro historico da batalha do Avahy.

Autor: Pedro Americo

BELLAS ARTES

O quadro historico da batalha do Avahy

A persistência de certas opiniões menos fundadas, que vão correndo a respeito do trabalho que acabo de offerecer á apreciação publica no meu paiz, depois de tê-lo exhibido á consideração dos europeos, obriga-me a vir á imprensa, para dar algumas explicações que creio uteis.

Começarei destruindo o pequenino e falsissimo boato que já achou echo em acreditados jornaes, relativo a uma observação que se diz ter-me feito o Exm. Sr. Duque de Caxias ao ver o seu retrato com a farda desabotoada: cousa tão contraria á verdade, que o proprio Sr. duque pedio-me que a confutasse.

É facto que S. Ex. costuma trazer abotoada a farda; mas esta particularidade individual pesa bem pouco na composição de um quadro, e podia ser desprezada naquella conjunctura, em que era necessario prolongar, por assim dizer, as côres claras da parte inferior do cavalleiro, para não a separar da superior, que ficaria toda escura sem o recurso do collete branco, que tambem faz parte do uniforme.

Esta razão apreciar-se-hia melhor diante do painel.

O facto de desabotoar-se a meio a farda de um general, que está absorto no exito de uma grande batalha, e que figura n’um quadro de tantos pormenores, não constitue attentado contra a integridade dos seus costumes, não fere os seus brios militares, não attinge ao seu caracter; e, se o fizesse, era em bom sentido, mostrando-o despreoccupado de si proprio, e todo entregue aos seus terriveis e solemnes deveres. Bem o sabe o Sr. duque, o qual rio-se muito, quando lhe perguntei se queria que eu retocasse a pintura para satisfazer aos inventores de boatos.

A prova, porém, de que o costume do general em chefe era todo individual, que não tinha esse alcance que se lhe quer attribuir, que não era propriamente para dar o exemplo - como já se disse - é que o chefe do seu estado-maior na mesma batalha trazia << a farda abotoada sómente pela parte superior, por três botões >>, segundo me escreveu em papel que ainda conservo.

Mas quando mesmo o fosse, era facto que teria muita significação no terreno da disciplina militar, mas nenhuma em um conjuncto esthetico tão complexo, aonde primeiro que tudo é necessario attender-se ás mil exigencias da arte, ess’outra disciplina do gosto, que muitas vezes exclue a propria realidade naquillo que não é puramente essencial e caracteristico.

Se fosse illicito ao artista desabotoar tres botões de uma farda, para augmentar a belleza do personagem que a veste, muito peior seria substituir o chapéo de palha de um outro e illustre personagem - que de facto o trazia - pelo bonet do uniforme, muito mais consentaneo com o aspecto militar de um general de tal tempera.

Outro ponto para o qual se tem chamado a attenção é o que toca á posição e ao gesto do general em chefe, julgado frio por algumas pessoas. A semelhante respeito cuidará cada qual como entender: eu julgo que um velho general acostumado ás batalhas e ás victorias póde, sem quebra da verosimilhança, ser representado assim, e que, em tão arriscada situação, a serenidade da physionomia e a inalterabilidade do gesto sempre exprimirão a impertubabilidade do animo, primeira condição de quem commanda um exercito em campanha.

<< A figura do Duque de Caxias - diz um dos melhores criticos da Allemanha - , attrahe particular attenção. A sua postura calma e imponente e a sua expressão grave e severa revelão um animo decidido e heroico, que não recúa diante do mais eminente perigo. Com effeito, na sua longa carreira aquelle general jámais perdera uma batalha. >> (1)

 

Quanto a semelhança - que já foi contestada - direi que não sou eu o peior juiz nesta materia; porquanto, logo depois da guerra do Paraguay pintei um retrato equestre do Exm. Sr. duque, do tamanho natural, retrato que o Exm. Sr. Barão da Penha[54], parente de S. Ex., julgou ser o melhor de quantos se tinhão tirado até então.

O retrato do Sr. Marquez do herval foi pintado segundo quatro boas photographias tiradas antes do ferimento, de que resultou ficar S. Ex. com os contornos da face muito modificados, e até diversa a expressão do rosto; se, pois, não está bastante parecido com o que é actualmente o illustre marquez, quem mais do que a photographia poderá contestar a semelhança com o que foi ha nove annos?

Costumo ser fidelissimo nos retratos; mas devo dizer que se a absoluta semelhança é condição secundaria nos quadros historicos em geral, ella é por assim dizer impossivel nos assumptos da historia contemporanea, nos quaes não póde a imagem individual ir acompanhando as modificações que a idade e as occurrencias da vida vão imprimindo na physionomia e no aspecto dos personagens, representados em um unico momento de sua existencia.

As photographias do Sr. Barão da Penha tiradas ha nove annos, em quasi nada se parecem com a que S. Ex. se dignou mandar-me ha pouco mais de quinze mezes. O mesmo acontece com os retratos de outros officaes que figurárão na batalha.

Objecção muito mais importante seria a que põe em duvida a situação real dos personagens, se, todavia, de leves alterações nas distancias relativas dos personagens representados n’um quadro resultassem grandes perturbações para a historia, ou grandes desaires para a esthetica. No caso a que se applica esta observação, direi que, tanto quanto pude, fui fiel á verdade. O general Barão do Triumpho não podia estar collocado no primeiro plano sem grande desprezo das informações que colhi da fonte a mais autorisada e competente.

<< No momento em que se deu o episodio acima - diz o Sr. Duque de Caxias, alludindo ao ferimento do Sr. Marquez do Herval, n’um documento expressamente escripto para guiar-me na composição do quadro - apparecião ao longe, pelos flancos do inimigo, duas columnas de cavallaria brazileira que o cercavão, e das quaes uma era commandada pelo general Barão do Triumpho. >>

Ora, eu aproximei a tanto, essa columna, quanto, sem violar a historia, podia fazê-lo no interesse da arte e da semelhança individual.

Sob esse ponto de vista, se ha em mim algum pezar é o de não ter podido collocar mais proximo o Sr. Visconde de Pelotas[55] << o qual, como official de cavallaria, foi - segundo o Sr. Duque de Caxias - o que mais fez nessa batalha, pelo que foi elevado a general nesse dia. >>

As informações do Exm. Sr. duque, além de serem da maior competência, provão uma grande imparcialidade, bem digna da attenção do artista que se inspira na confiança dos testemunhos, muitas vezes astuciosos, dos contemporaneos.

Mas o tributo de admiração que devo, como pintor de historia, a cada um dos generaes de per si, não póde ser pago de uma só vez e com uma téla unica. Se o Sr. Visconde de Pelotas distinguio-se em Avahy, foi nessa batalha que correu o sangue do Marquez do Herval, infausto successo em que o venerando general pareceu offerecer-se em holocausto aos triumphos de sua cara patria.

Alli e em Tuyuty[56] foi elle igualmente grande, ao passo que o general Camara encheu-se de maiores glorias no recontro de Aquidaban; porque foi alli que elle decapitou a tyrannia contumaz, e depois, com sua espada invencivel, mostrou o caminho do lar ás numerosas phalanges brazileiras, cançadas da luta e já enfastiadas de tantas e tão caras victorias.

Lomas Valentinas, Itororó, o reconhecimento de Humaitá, Tuyuty, Aquidaban, e muitas outras paginas da nossa ultima guerra com o Paraguay, carecem da consagração fulgurante das bellas-artes.

Ha deveres para a civilização como os ha para os obreiros della. Estes, quando desapparecem, deixão após si o vacuo da saudade e o reconhecimento da patria. É por isso que ella os evoca nos seus sonhos de gratidão, e não podendo dar-lhes existencia real e palpavel, expõe as suas venerandas imagens á admiração da posteridade, donde nasce o contagio dos grandes exemplos.

Mas é necessario continuar.

Já houve quem achasse que o boi era europêo. A este respeito ha engano: a figura do animal que está no quadro foi copiada de um touro de Montevidéo, mandado buscar de Florença pelo Sr. Marquez Carlos Griffoni para cruzamento de raça. O gado que existe em quasi toda a peninsula, e que resultou do antiquissimo cruzamento do bufalo italico com o gado germanico e suisso, é geralmente cinzento ou negro, com grandes chifres desgraciosos, ossudo e de aspecto muito mais selvagem do que os bois paraguayos, em tudo semelhantes aos que se encontrão no norte do Brazil.

Talvez desde Bolonha até Napoles não se encontre um unico boi malhado, de tres[57] côres, que não tenha sido recentemente importado.

Contesto a fidelidade das descripções dos positivistas postas no tocante á ideal belleza dos cavallos dos pampas. Quando pintei a batalha do Campo-Grande, vi e estudei muitos desses animaes no picadeiro do Sr. L. Jacome, aonde acabavão de chegar em companhia de homens do paiz, que sabião trata-los e lidar com elles, e convenci-me de que não differem tanto quanto se pensa dos quartãos ordinarios da provincia do Rio-grande do Sul, que procurei imitar em diversas posições no meu quadro.

Se, pintando na Italia, consegui dar ás physionomias sul-americanas o seu verdadeiro caracter, de modo que não se vê no painel a menor semelhança com as caras que me rodeavão, como poderia eu cahir na inadvertencia de pintar cavallos italianos montados por cavalleiros e rodeados de infantes, cujo aspecto e physionomia tanto impressionárão aos europêos?

A falta de chuva torrencial em todo o quadro foi considerada como uma omissão anti-historica. Vejamos.

<< Principiou o combate ás 10 horas da manhã, pouco mais ou menos, diz o Exm. Sr. Duque de Caxias no documento supracitado.

<< O dia estava escuro e chuvoso ao principiar o fogo: de repente desfizerão-se as nuvens e appareceu o sol radiante. >>

Não fui, pois, inexacto em representar a chuva já ao longe, e cessada nos primeiros planos, quando é evidente que pintei a batalha proxima ao seu desenlace.

A fidelidade da paizagem tem sido contestada com alguma apparencia de razão, e sobre este assumpto os realistas, ou materialistas da arte, têm - muito de industria - raciocinado á priori, isto é, contrariamente ao seu modo systematico de raciocinar, que é todo inductivo, o raciocinio é este:

<< Quem nunca foi a um paiz não o póde retratar. Ora, o autor do quadro não foi ao Paraguay, ao lugar da acção, logo, a pintura é inexata. >>

Neste caso, em vez de estamparmos a negar ou a affirmar aquillo que nós não sabemos ao certo, recorramos ao testemunho insuspeito dos que lá estiverão. Foi o que fiz, já ha dias, perguntando por carta a diversos officaes que estiverão no Paraguay, << qual a impressão que lhes causára o fundo do quadro. >>

Eis o que me respondêrão:

<< ... Honrado pois com o seu conhecimento pessoal em uma das occasiões que fôra saciar o espirito naquella fonte de sobrenatural inspiração, abstive-me, com cuidado, de articular uma palavra sequer em referencia ao que já fôra julgado pelos competentes, mas não pude conter-me quanto a propriedade com que V. S. soube transplantar para a sua téla esses campos e esteiros caracteristicos do Paraguay, essa paizagem á que me acostumara durante três annos, e que agora ahi vi-a desenvolvida diante de mim, tão fiel em todos os seus detalhes, tão verdadeira em todos os seus accidentes como se realmente me houvesse transportado repentinamente a esse paiz de dolorosas recordações para tantas familias brazileiras.

<< Foi sem duvida em virtude desta minha exclamação, ao reconhecer aquellas regiões de physionomia sómente peculiar ao Baixo-Paraguay, que V. S. me honrou com sua carta de hoje, pedindo o meu parecer sobre o seu sublime quadro.....................................

<< Seu, etc. - Barão de Teffé[58]. - Outubro 4 de 1877. >>

Bastava este testemunho, mas vamos a outro: é o do official que está no quadro á direita do Sr. Duque de Caxias.

<< Rio de Janeiro, 13 de Outubro de 1877. - Illm. Sr. Dr. Pedro Americo de Figueiredo. - Respondendo á pergunta que V. S. me dirigio em sua carta de 14 do corrente, a saber: << Qual a impressão que me causou a paizagem representada no quadro da batalha de Abahy[59]? >> vou cumprir esse dever, repetindo as mesmas palavras, pouco mais ou menos, que lhe dirigi por occasião de ir ver o dito quadro..

<< Não me admira a reproducção da configuração de todo o terreno, sua ondulação, o rio, brejos e montanhas pouca[60] elevadas que se avistão lá ao longe no fundo do quadro, porque para isso V. S. poderia ter sido soccorrido por photographias e esboços que tivesse obtido do campo do Avahy; o que me admira e sorprende de fórma a me suppôr transportado áquelles lugares é a natureza do Paraguay em toda a paizagem, e sobretudo na côr da vegetação, do campo e do arvoredo. Seu, etc. - Barão da Penha. >>

Ha, porém, cousa porventura mais grave do que errar na pintura panoramica do lugar em que se deu a batalha, e vem ser, errar na representação historica do facto. A este respeito tambem escrevi a dous officiaes distinctos e insuspeitos pouco mais ou menos nos seguintes termos:

<< Desejára que V. Ex. me communicasse as suas impressões ácerca do quadro da batalha do Avahy, que pintei na Europa e acabo de exhibir á apreciação publica nesta cidade. >>

O primeiro que me honrou com uma resposta foi o Exm. Sr. brigadeiro Severiano[61], sob cujo commando estava, quando morreu, aquelle menino representado sobre a peça. Eis a resposta:

<< Rio de Janeiro, 6 de Outubro de 1877. - Illm. Sr. Dr. Pedro americo de Figueiredo.

<< Respondendo á carta de V. S. de hontem dátada[62], relativamente ao quadro da batalha do Avahy, nascido do seu habilissimo pincel, tenho a dizer a V. S. que, com quanto não tomasse parte nessa batalha, porquanto, quando ella se ferio eu fazia parte das forças que pelo lado do Pikiciry devião atacar Angustura, ponto objectivo do nosso exercito; todavia, pela semelhança dos factos em todas as pelejas que se derão no Paraguay, conhecedor da topographia desse paiz, conhecedor dos typos, systemas e movimentos tacticos dos contendores, declaro a V. S. que admirei a perfeição do seu trabalho, que me recorda com a maior perfeição a historia da guerra do Paraguay. Sou etc. - Severiano M. da Fonseca. >>

Poderão taxar este testemunho como não tendo mais do que um valor generico, por isso que o illustre official que o presta não esteve na batalha. Pois bem, leiamos o depoimento de um que esteve, e até foi gravemente ferido:

<< Illm. Sr. Dr. Pedro Americo. - Côrte, 8 de Outubro de 1877. - Respondo á sua carta de 4 do corrente. Tive a satisfação de examinar cuidadosamente oseu[63] bello quadro. É uma obra d’arte admiravel, e penso que muito justos forão os elogios que lhe fizerão os celebres pintores da Italia.

<< Quanto á parte historica o que posso dizer é que, apreciado no todo o seu quadro dá uma perfeita idéa da batalha do Avahy; se, porém, nos detalhes apresenta algum senão, eu não descubro; poderá elle existir, mas o que afianço é que nem ao proprio soldado que assistio á batalha é dado descreve-la minuciosa e completamente.

<< Sou, etc. - Marquez do Herval. >>

Ora ahi tem como é o meu idealismo: muito mais positivo do que o positivismo dos que negão e criticão sem saber; idealismo que basêa-se nos factos essenciaes e só despreza ou transforma aquillo que póde ser alterado ou omittido sem offensa dos grandes principios da arte ou da dignidade da historia.

Agora vejamos se as affirmações dos que não forão ao Paraguay, e só nesta circumstancia se lembrárão delle, serão mais valiosas do que a do artista que meditou sobre o assumpto durante mais de 4 annos, que foi guiado pelas informações, partes officiaes, diário de campanha, etc., etc., a elle mandados de proposito pelo general em chefe, e que depois de tantos sacrificos para realizar uma obra digna do seu paiz, tem a satisfação de vê-la sanccionada pelos proprios generaes que assistirão á batalha.

Dr. Pedro Americo.

Rio, 24 de Outubro de 1877.

(1) Publicistische Blatter, de Viena, de 11 de Março de 1877.

XVII-

Publicado em: Jornal do Commercio, 30 de outubro de 1877, pag.2.

Título: A batalha de Avahy

Autor: publicado em Die Segenwart

A batalha de Avahy

O Die Segenwart, de Berlim, diz o Novo Mundo, publicou recentemente um artigo tão honroso para o distincto artista nacional Pedro Americo e para o Brazil, que não podemos forrar-nos ao prazer de da-lo nestas columnas.

Eis o artigo

<< A America parece ser o paiz predestinado a sobrepujar as outras partes do mundo, não só em actividade commercial, mas tambem no terreno das artes.

<< A escola de pintura americana, que até ao presente apenas conheciamos de nome, pouca attenção tem merecido até agora; e a causa disso tem sido o exagerado materialismo que sempre caracterisou ás suas producções, A[64] tão gabada liberdade de que se jacta o Novo Mundo, infelizmente não encontrou applicação no dominio das artes. Ainda hoje, depois dos triumphos alcançados pelo Dr. Pedro Americo, existem no Brazil muitos artistas avessos a uma nova ordem de idéa.

<< Fòra reservado ao festejado Brazileiro o Dr. Pedro Americo, cuja educação se completára em Pariz e Bruxellas, romper afinal o marasmo. O seu genio despertou a escola brazileira, á cuja frente elle hoje se acha, e por um bom numero de composições imponentes mostrou elle o caminho para novas e melhores composições. Ha annos obteve o seu pincel um triumpho em Pariz, e a sua Carioca foi por todos reconhecida como uma obra notavel. Alcançára elle na Universidade de Bruxellas o diploma de doutor em philosophia e uma posição no corpo docente; e em uma importante discussão scientifica em que foi envolvido soube mostrar que tambem no terreno da sciencia a sua longinqua patria estava apta para entrar em concurso com as nações europeas. Numerosas condecorações, as sympathias de seu monarcha, amante das artes, e os applausos unanimes da imprensa europea recompensárão os seus trabalhos pelo adiantamento das bellas-artes.

<< Tal é o artista que agora nos apresentou uma nova composição sua. Ha cerca de cinco annos aceitou elle a honrosa incumbencia do seu governo, de compõr um quadro colossal sobre um assumpto da historia patria. Afim de melhor executar o seu trabalho, ou talvez mesmo pára escapar á inimizade de invejosos, mudou elle a sua residencia do Rio de Janeiro para Florença. Alli, no convento da S. S. Annunciata nasceu a sua ultima e maior pintura, A batalha de Avahy, uma obra de arte de primeira ordem.

<< É um dos maiores quadros que se conhece. O artista ahi reproduzio de uma maneira imponente o combate de Avahy, que teve lugar a 11 de Dezembro de 1868 entre os Brazileiros e os Paraguayos. A execução é realmente magistral; a grandeza da composição, a vida e o movimento dos exercitos empenhados na peleja, a força dos corpos robustos e a expressão selvagem dos rostos produzem um effeito extraordinario.

<< Os dous exercitos, animados de enthusiasmo guerreiro, e lançando-se um contra o outro nas margens do Avahy, fazem lembrar as ondas encapelladas do mar açoutadas pelo temporal, que, ora levantão a sua crista coberta de espuma, para logo sumirem-se no immenso bárathro[65]. Os rostos contrahidos dos Paraguayos, semi-nus, denotão a valentia selvagem, os dos seus antagonistas civilisados a energia viril. A victoria inclina-se para o lado dos ultimos. Columnas inteiras vão sendo por elles destroçadas, sob as vistas inteiras vão sendo por elles destroçadas, sob as vistas do seu brioso general, o Barão do Triumpho. No primeiro plano vê-se o general em chefe, o Duque de Caxias, perante o qual alguns Paraguayos prisioneiros implorão piedade. No rosto do marechal brilha já o jubilo pelo victoria alcançada. O seu sequito no meio do qual estão o Barão da Penha e o capitão de fragata Pereira da Cunha, segue com vivo interesse o desenvolvimento da batalha.

<< Uma granada despedaça o cavallo de um ordenança, que se approxima á toda brida. Mais adiante vê-se o Marquez do Herval, e junto delle um alferes brazileiro é atacado e morto pelo inimigo. Em torno delle trava-se luta encarniçada. No mesmo plano avança á frente da reserva o general Camara, o mesmo que dous annos depois matou o general Lopes a tiro, e decide a sorte da batalha. Á direita, no fundo, avista-se uma pobre mulher que casualmente foi envolvida no tumulto. O filhinho no collo foi morto por uma bala, e outro mais velho procura fugir, e ella extorce-se em desespero. Sob as rodas dos canhões jazem promiscuamente os cadaveres de negros, paraguayos, brazileiros e cavallos mortos. Tal é a impresão externa que produz a pintura.

<< Mais notavel, porém, ainda é a perfeição das particularidades, a admiravel distribuição de luz e o magnifico colorido.

<< Á vista de um resultado tão brilhante não é de admirar-se que o distincto Brazileiro tenha sido o alvo dos mais lisongeiros encomios por parte da imprensa italiana. A imprensa allemã, franceza e russa tambem não tardárão em pronunciar o seu juizo a respeito delle. Diversas academias, entre as quaes a de Napoles, enviárão-lhe diplomas de honra. >>

XVIII-

Publicado em: Jornal do Commercio, 31 de outubro de 1877, pag.2.

Título: A batalha do Avahy.

Autor: s/assinatura. - Lê-se no Daily News de 16 de Março de 1877.

A batalha do Avahy

Lê-se no Daily News de 16 de Março de 1877:

<< Um nosso correspondente, escrevendo de Florença, diz: No 1º de Março, que era 7º anniversario da morte de Francisco Solano Lopez, ultimo presidente da republica do Paraguay, Sua Magestade Imperial D. Pedro II, imperador do Brazil, presidio á inauguração da exposição publica de um grandissimo quadro recentemente executado em Florença pelo artista brazileiro commendador Pedro Americo para o governo do seu paiz.

<< O quadro é de immensa grandeza: tem nada menos de dez metros e meio de longo sobre cinco e meio de alto; e não só pelas suas dimensões, como pelo não commum e interessante caracter do assumpto, attrahirá seguramente grande attenção em qualquer parte onde fôr exposto, fornecendo sempre copioso material para pasto da boa critica.

<< Quando o Dr. Americo recebeu a encommenda, encontrou difficuldades em achar um estudo[66] adaptado, não sendo muito facil encontrar um salão bastante vasto para executar um quadro de tal grandeza. Entretanto, graças á gentileza da municipalidade de Florença, a espaçosa bibliotheca do antigo convento da Annunziata foi posta á sua disposição, e esta vasta sala pareceu commoda ao pintor para alli trabalhar convenientemente, e depositar a grande collecção de armas e vestimentas, - reliquias do campo de batalha, - necessarias para fazer os estudos da composição.

<< O assumpto desta é a Batalha do avahy, combatida enre os Paraguayos, sob Caballeros, e os Brazileiros, sob o commando do marechal Duque de Caxias, em 11 de Dezembro de 1868, a qual foi uma das mais desastrosas para os Paraguayos, pois que, além de quebrar-lhes o nervo de sua força, abrio caminho a novos e decisivos triumphos do exercito imperial.

<< Quem quer que observe esse quadro percebe uma serie de novos e terriveis incidentes, totalmente differentes do que se vêm ordinariamente nos quadros de batalha. A primeira impressão é a de uma horda de homens de barbaro aspecto, vestidos de camisas vermelhas, como os Garibaldinos, ou mais frequentemente semi-nus, mal armados, e encontrando diante de si as bem equipadas forças brazileiras, bem determinadas, e combatendo com disciplina contra aquelles desesperados. Não é só a expressão absolutamente resoluta e terrivel dos Paraguayos que impressiona o espectador; elle nota que, ao passo que os Brazileiros têm em geral o cabello preto, o dos Paraguayos tornou-se avermelhado por causa da exposição ao sol do campo. Os seus emmaranhados cabellos augmentão a selvageria dos seus semblantes, e a sua geralmente mal equipada apparencia, contrastando com a bem ordenada dos Brazileiros, leva-o a perguntar quem são estes homens aguerridos, e qual a sua historia.

<< Observando-os no quadro, qualquer póde imaginar como os Paraguayos levárão esta guerra a cutello até o extremo, e como um Estado, que em 1865 era um dos mais florescentes e prosperos da America do Sul, com uma população, naquelle tempo, de 1.300.000 habitantes, se tenha reduzido a menos de 500,000 no fim de uma contenda de cinco annos. O exercito existente no principio da guerra contava 60,000 homens; e quando Lopez morreu em Aquidaban, em 1 de Março de 1870, deixou-o totalmente anniquillado.

<< Para comprehender bem o quadro é necessario saber-se alguma cousa sobre a guerra da qual elle representa um facto. Talvez no presente seculo não tenha havido contenda tão feroz e destruidora. Contão-se alguns factos incomparaveis para mostrar a horrivel desesperação e crueldade com que Lopes executava as suas operações militares, acarretando incriveis desgraças para o seu proprio povo em suas selvagens resoluções para retardar a todo o custo a marcha do exercito de invasão.

<< Por exemplo, depois que os alliados expulsárão-o de Humaytá, Lopes, retirando-se, decidio converter em deserto as provincias que ficavão na frente dos inimigos.

<< Ordenou então que toda a população, sem excepção, se retirasse com os seus animaes e haveres para o interior, e que o seguisse na Cordilheira, 250 milhas a leste de Assumpção. O resultado foi uma fuga terrivel do povo, em massa; a retaguarda paraguaya destruindo detrás de si tudo quanto podia offerecer abrigo ou subsistencia ao inimigo. E como a noticia era dada apenas em 24 horas, os desobedientes erão cruelmente massacrados com golpes de lanças ou cutilados, sem excepção; mulheres, crianças e velhos indistinctamente. Não havendo provisão para sustentar a multidão faminta que invadio a Cordilheira, milhares daquelles pobres espatriados perecérão á fome! Não sendo possivel obter senão laranjas selvagens e raizes, davão-se repetidos exemplos de canibalismo. As poucas mulheres, ainda das mais altas familias, que sobrevivérão, voltárão ás suas casas quasi despidas.

<< Os soldados argentinos tomárão comsigo centenares de crianças tornadas orphãos pela guerra, e as quaes hoje vivem no seio de suas familias. Keith Johnston, o geographo, que visitou aquellas localidades em 1874, diz que << a marcha do exercito paraguayo na sua ultima retirada poderia ser traçada por montões de ossos humanos, que ainda jazem debaixo de qualquer pequena sombra d’arvore, por toda a parte e a pequenos intervallos >>.

Uma guerra de caracter tão terrivel offerece naturalmente um assumpto de extraordinario ardimento a um pintor de batalhas, e certamente o Dr. Americo reproduzio alguns dos incidentes da batalha do Avahy, com terrivel vigor, e executou um quadro que tem direito a considerar-se uma producção notabilissima.

<< As figuras do primeiro plano são do tamanho natural. A attenção é logo chamada para o grupo principal, que ahi está quasi no centro do quadro, representando o episodio da morte do tenente Pereira Alves.

<< O tenente brazileiro é visto de costas montado em um bello e vigoros baio, coberto de espuma e suor. Leva como trophéo duas bandeiras paraguayas. Dous Paraguayos sahem-lhe ao encontro. O da sua esquerda - um robusto homem semi-nú - ,com uma face feroz e selvagem, agarra-lhe o freio do cavallo, e está prestes a traspassar-lhe inteiramente o corpo com uma lança de ponta de ferro, mas não consegue-o livremente o seu braço levantado por causa da resistencia que lhe oppõe um official da marinha brazileira, que jáz em terra ferido e tenta desviar o golpe.

<< O cavallo tenta empinar-se em razão de sua bocca ser tão grosseiramente sofreada pelo paraguayo ferido, o o[67] qual, na sua agonia, agarra freneticamente em uma das patas anteriores do animal.

<< Está este para cahir desastrosamente, porquanto um outro inimigo, cavalgando um cavallo preto, em osso, arroja-se sobre elle pelo outro lado, e, agarrando com ambas as mãos um immenso cutello enferrujado, descarrega toda a sua energia em um golpe, que, seguramente será fatal ao infeliz official. Este paraguayo é de aspecto ainda mais feroz e terrivel do que o outro que tem o cavallo pela frente. Uma clavina pendurada nas suas costas núas, e o sangue proveniente da ferida que tem no pé tornão-o uma figura de singular aspecto! Quasi debaixo das patas posteriores do cavallo está por terra um paraguayo ferido, o qual é naquelle momento apontado, á queima-roupa, pela vanguarda da infantaria brazileira, que carrega sobre o declive da collina.

<< Á esquerda do primeiro plano, um menino brazileiro, cadete, de 16 annos, acaba de tomar uma peça, debaixo da qual jaz o cadaver de um official estrangeiro, que servia como coronel no exercito paraguayo e notavel pela sua extraordinaria semelhança com Carlos Dickens; perto delle jaz ferido o secretario do general Caballeros; o qual dispara uma pistola contra o tenente acima mencionado.

<< Atraz, a pouca distancia, vê-se o duque de Caxias com o seu estado-maior, a maior parte do qual é posta em confusão por uma bomba que arrebenta em baixo do cavallo de um official, que procura libertar-se elle proprio do seu cavallo, mortalmente ferido.

<< Um outro official esforça-se para impedir que o seu cavallo espantado se empine descuidado sobre a borda da eminencia onde o estado-maior está estacionado. Na frente do commandante em chefe brazileiro e na rectaguarda da linha das tropas que avanção está um grupo de prisioneiros paraguayos.

<< No fundo do quadro vê-se o arroio Avahy, transbordando da sua margem, com uma linha de montanhas azues ao longe. Voltando mais para a direita, o espectador depára uma grandiosa massa de combatentes a cavallo e a pé, e os Paraguayos que se retirão para os seus entrincheiramentos. Á mão direita de quem olha para o quadro, no canto, está um outro episodio muito impressionavel e muito habilmente concebido. Um carro de campo, coberto, passava no meio do combate e foi sorprendido pelos exercitos. Dentro vê-se uma mulher aterrada, abraçando uma criança, e junto della um velho cégo. O cavallo que puchava o carro foi naquelle momento morto por uma bomba, e junto do cadaver está um menino, que procura afugentar um furioso touro, que arroja se no meio dos combatentes; emquanto um carneiro embaraça-se nos arreios do cavallo morto, e um cesto de espigas e leranjas cahe do carro e derrama-se por terra. Um paraguayo de bruços sobre a tolda do carro, nas pontas dos pés, faz pontaria no general brazileiro Osorio, um dos generaes mais populares do Brazil. O paraguayo é visado, a seu turno, por um major, que galopa em um cavallo ruço queimado, e acaba de arrancar o kepi do seu adversario com uma bala do seu revolwer. Quasi debaixo do alazão está o cadaver de um negro, cuja cabeça foi rachada por um golpe de espada.

<< O resto do quadro póde descrever-se como uma mistura de cavallaria e infantaria por demais complicada e vasta para ser circumstanciada, porém abundante em episodios, dos quaes não é o menos terrivel um cavallo com uma baioneta espetada através da sua garganta, na articulação do pescoço com a cabeça. Quanto aos meritos do quadro, como uma obra d’arte, elle é excellente de côr, e o desenho é bom e vigoroso.

<< Este quadro deve ser exposto provavelmente na proxima exposição de Pariz, depois em Londres, não obstante a Real Academia accommoda-lo difficilmente, por causa da sua desmedida grandeza.

<< O Dr. Americo o expoz, entretanto, no seu estudo, exigindo meio franco de entrada, com o louvavel fim de preparar um cabedal para a educação artistica de um menino florentino, cujo talento em decorar as calçadas e muros de Florença attrahio a attenção do celebre pintor.

XIX-

Publicado em: Jornal do Commercio, 1 de novembro de 1877, pag.2.

Título: A Batalha de Avahy.

Autor: s/assinatura - Artigo Editorial do Golos de S. Petersburgo.

A Batalha de Avahy

Artigo editorial do Golos de S. Petersburgo, de 17 de Março de 1877:

<< Desde o começo do corrente mez acha-se exposto em Florença um quadro de proporções colossaes, que tem sido visitado diariamente por uma multidão de gente. O assumpto deste quadro é inspirado da ultima guerra entre o Imperio do Brazil e a Republica do Paraguay.

<< Esse grandioso trabalho é devido ao pincel de um pintor brazileiro de grandissima reputação: o Dr. Pedro Americo de Figueiredo. Representa a batalha de Avahy, e é uma obra na qual á magestade da concepção, á nobreza da idéa e á força do desenho corresponde um colorido que só achamos igual na escola veneziana.

<< As posições das figuras, muitas das quaes estão quasi nuas e tém o tamanho natural, são algumas vezes difficilimas; o artista porém não as quiz forçar: fê-las naturaes e por assim dizer espontaneas, cousa bem rara nas obras de tal força de concebimento, tornando assim evidente a sua grande pericia como pintor, como desenhador e physionomista. Tanto pelo arrojo da idéa, quanto pela força da execução, esse trabalho recorda o mestre dos mestres, Miguel Angelo.

<< No campo ao longe, avistão-se carros, cavallos, bois, fileiras de soldados; mais perto, e no primeiro plano, estão alguns retratos dos principaes generaes brasileiros, e de alguns paraguayos. No extremo fundo chama a attenção do espectador uma brilhante e vasta campina, em alguns logares innundada pela enchente do rio Paraguay, e meia[68] enfumaçada do halito das armas, encoberta pela chuva, e tambem pelos vapores matinaes.

<< Os combatentes, ora achão sob os pés o sólo reduzido á lama, ora acervos de cadaveres e moribundos e diante de si bem equipados adversarios de todos os typos, os quaes contrastão entre si pela côr da tez, pela luz que os illumina, pelas sombras e claros que os occultão ou os poem em evidencia. Todas as grandes qualidades da arte achão-se reunidas naquella vasta composição com maestria completa e extraordinario talento. << Ha muito tempo - dizem os jornaes italianos - não se via em Italia cousa semelhante. >>

<< Segundo as informações que acabamos de receber do nosso correspondente, o Dr. Pedro Americo é ainda muito moço: sua idade attinge apenas 33 annos. Já era assaz conhecido de nome, tanto pelas suas obras scientificas, quanto pelos seus fragmentos litterarios. A obra porém que o tornou universalmente celebre foi o quadro historico da Batalha de Avahy. >>

XX-

Publicado em: Jornal do Commercio, 2 de novembro de 1877, pag.3.

Título: A batalha de Avahy. - Artigo editorial da <<Gazetta delle belle arti>> de 7 de março de 1877.

Autor: artigo editorial - não tem assinatura.

A batalha de Avahy

Artigo Editorial da << Gazetta Delle Belle Arti >> De 7 de Março de 1877.

<< O insigne pintor e naturalista (sceuziato) Dr. Pedro Americo, de quem em outra occasião tivemos a honra de offerecer o retrato aos nossos leitores na Galeria dos contemporaneos illustres, acaba de expôr ao publico o seu vastissimo quadro historico da batalha que ferio-se em Dezembro de 1868, nas margens do arroio Avahy, entre as forças brazileiras, commandadas pelo marechal Duque de Caxias, e o exercito paraguayo.

<< Já tivemos occasião de explicar como foi este facto historiado no quadro pelo notavel pintor: agora, para admirar-se a excellencia da pintura, convém considerar esta parcialmente, e nas suas principaes particularidades artisticas.

<< Representar na téla, e com escrupulosa fidelidade, uma concepção tão atrevida, foi incontestavelmente uma empreza difficillima. Encerrar no animo, e ao mesmo tempo, o recontro de tantas paixões discordes; tornar harmonicas e introduzir tantas vozes diversas no mesmo concerto, variar em tantos vultos humanos a mesma paixão, e dar a mobilidade da physionomia áquella semelhança dissemelhante, de que resulta a variedade, a diversidade, o multiforme na unidade; tão arrojada concepção, dizemos, não podia deixar de exigir grande potencia de engenho, e grande conhecimento dos mais reconditos segredos da arte.

<< Era necessario desenvolver a acção com a indispensavel multiplicidade de episodios, com a indispensavel riqueza de accessorios, para que se lhe désse vida, e tornasse sublime, commovente, o sanguinolento drama que se tinha de exhibir aos olhos do espectador. E o illustre Pedro Americo conseguio maravilhosamente reproduzir ao vivo os maiores e mais oppostos effeitos da ira, do furor, do medo, da coragem. Com effeito, cada vulto, cada physionomia, cada expressão, está alli bem representada e corresponde ao assumpto. Semblantes commovidos, lineamentos correctissimos, posições bem imaginadas, movimentos energicos, olhares espantados, crispação de musculos, vida e fogo nos accionados, tudo é admiravelmente expressivo e animado!

<< Á direita distingue-se um carro cahido. A tenda que o abrigava está perfurada em mais de um ponto pelos projectis do inimigo; debaixo della acha-se um grupo de camponezes, composto de um cego, uma mulher e duas crianças, As[69] roupas que elles vestem attestão o particular conhecimento que tem o pintor assim dos usos como dos trajes daquelle paiz. Nisto porém não se limita a consonancia dos tons, a robustez do colorido, a disciplina do traço, a maestria da luz, a precisão das linhas, e antes achão-se estas qualidades mais evidentes, no cuidado com que o artista fez sobresahir as diversas attitudes, ou os gestos reflexos, resultantes das differentes impressões do medo, que ressumbra naquelles vultos. Vêde aquelle ancião tomado de susto pela explosão repentina da fuzilaria, estender os braços como cercando um refugio nas trevas da sua cecidade; vêde aquella mãi apertar contra si o tenro filhinho, como para que sirva-lhe de escudo o proprio seio! Mais á quem vê-se um touro enfurecido, procurando escapar ao trovejar estranho da artilharia, no chão um cesto de fructos meio revirado, pouco distante delle um cavallo immovel, com as ventas feridas, os olhos empanejados, e a boca banhada em sangue. Ainda porém nada dissemos ácerca daquelle vastissimo campo, no qual se póde distinguir todo o desenvolvimento da batalha, ainda não fallámos do movimento daquella multidão de guerreiros que cerrão-se, comprimem-se, debatem-se, onde mais ferve a pugna, do atropellamento daquelles grupos, da bravura dos capitãoes... E como fallar de tudo isso com a mesma clareza, e a mesma flamma, que tanto animão aquelle quadro?

As expressões daquelles vultos encerrão tanta arte, que despertão outros tantos conceitos no espirito de quem as observa attentamente. Diante de semelhante epopéa de sangue, fica-se mudo, immovel; sente-se a alma como presa n’uma anciedade cheia de temor por uma avidez insaciavel, diante daquelle drama sublime!

<< Segui com o olhar aquellas grandes massas de fumo, que, pelas suas clareiras, deixão avistar extensas fileiras de soldados prestes a se encontrarem longas e rarefeitas, condensão-se outras vezes em espessas massas englobadas...

<< Não se ouvem os gritos dos vencedores, nem os gemidos dos feridos e dos moribundos; ha porém em todo o quadro uma sombra de dôr, um véo funebre e sinistro, que o espectador não sabe onde esteja, mas sente-o como envolver-lhe o coração. No primeiro plano da pintura, aquelle desventurado negro estendido no chão, nú e maltratado, inspira-vos piedade. Á esquerda observa-se o secretario do general Caballeros, o qual, mortalmente ferido, dispara a pistola no adversario, um dos officiaes que estão á direita do Marquez do Herval, igualmente ferido por uma bala inimiga. Em todas essas figuras, nos seus vultos, nota-se tamanha energia muscular, tal confrangimento de physionomia, que no aspecto delles estão patentes a ira, o odio, o furor. Muitas e muitas serião porém nesse quadro as bellezas dignas de admiração que eu poderia fazer-vos observar, se o espaço m’o consentisse.

<< Naquella téla agitão-se e circulão a alma e a vida; nella não se encontra incertezas, nem flacidez, nem durezas, nem difficuldades na execução e no estudo dos modelos; porém um estylo grandioso, lineamentos resolutos, toques arrojados, aquella flamma finalmente, aquella vida que transcende de cada toque, e de cada pincelada do grande artista!

<< Possa o exemplo de Pedro Americo servir de incentivo aos cultores da nobre arte da pintura, para que abandonem os quadrinhos de genero que hoje em dia invadem as nossas galerias[70], e escolhão assumptos mais grandiosos para terem occasião de elevar a alma á perfeição do bello artistico.>>

XXI-

Publicado em: Jornal do Commercio, 7 de novembro de 1877, pag.2.

Título: A batalha do Avahy.

Autor: José Leandro

A batalha do Avahy

Protegido pelos elogios da imprensa da Europa, acaba de chegar a esta côrte o gigantesco quadro de Pedro Americo, representando a batalha do Avahy, ganha pelo exercito brasileiro nos campos do Paraguay.

Desta vez o illustre doutor-pintor de batalhas desprezou a galeria Moncada, e em um barracão na praça de D. Pedro II pôz o seu quadro em exposição.

Innumeros são os elogios que tem o distincto artista recebido, e era tal o ardor com que ouviamos fallar da grandiosa téla que não nos pudemos furtar ao desejo de tambem admira-la.

Fomos, pois, ao barracão.

Antes, porém, de emittirmos o nosso juizo, aliás incompetente e que nenhum valor de certo tem, julgamos dever de cortezia declarar que somos Brazileiro e amigo do glorioso artista.

Assim, nem nos move o despeito, nem a inveja, e nem tão pouco o desejo de amesquinhar producções nacionaes.

A téla é immensa e o pintor quiz alli representar a batalha do Avahy.

E haverá com effeito uma batalha? A idéa estará bem representada? A sensação que experimenta o observador ao olhar para o quadro faz-lhe comprehender desde logo o que vê?

Duvidamos.

No primeiro plano logo o amalgama, a confusão se manifesta.

Pelo centro e pelos flancos avanção columnas brazileiras, o general Ozorio alli está, o general em chefe de longe tem em mira aquelle ponto, tudo emfim pretende indicar que naquelle lugar se trava uma renhida acção. Mas, perguntamos nós: onde os inimigos? onde está a luta? será contra aquelles quatro ou cinco miseros paraguayos, nús, feridos, que se movem tantas columnas? marchão todas aquellas forças convergindo para um só ponto?

Ao primeiro intuito parece que as forças brazileiras entre si se retalhão; o amalgama, a confusão é tal que nada se deprehende. De todos os lados forças brazileiras, todas marchão com ardor umas contra as outras e dispersos uns seis Paraguayos feridos e mortos.

Assim, pois, no primeiro plano logo o espectador fica confuso e perde-se em um labyrintho.

Menos bem observada foi a proporção dos planos para o prolongamento das linhas e morta por conseguinte ficou a perspectiva.

O general em chefe tem á sua esquerda forças brasileiras, ao que parece; lá se vê a côr verde que acreditamos ser a bandeira nacional. Mas, perguntamos nós, - partindo do centro o olhar do observador não vê alli em vez de forças, de gente, poeira e só poeira? mesmo mirando-se do general em chefe para aquelle ponto, não é dolorosa a impressão que se experimenta? E maior a confusão ainda se torna por causa da côr assaz azulada que o pintor empregou para representar os longes.

Em todo o quadro a luz está mal graduada, principalmente alli. Já na batalha de Campo Grande se nota esse defeito.

Não ha unidade no quadro, é uma téla gigante que poderia ser retalhada em duzentos ou mais pequenos paineis, representando cada um um facto passado na batalha do Avahy.

A idéa principal está morta, a batalha alli não existe.

E não é preciso passarmos do 1º plano para provar que não foi observada a proporção para a perspectiva. Entre o paraguayo que faz fogo sobre a carreta, a mulher que tem a criança nos braços e o paraguayo que alli jaz, morto, que desproporção!!! E no emtanto tudo está no mesmo plano.

A peça tomada pelo cadete é enorme.

Ha corpos de todas as côres, alli ha de tudo, até mesmo do desconhecido.

De que côr será o corpo do soldado que está morto no primeiro plano? será preto? bronzeado? Acreditamos que o autor quiz representar um negro; mas estará alli com effeito um negro?

Deveras abusou o illustre doutor do colorido.

A batalha do Avahy foi ferida de dia, e no quadro vê-se distinctamente clarão da explosão da polvora.

Sob o cavallo que monta um official do estado-maior do general arrebenta uma bomba, e o pintor, receioso talvez de que a fumaça apenas e alguns estilhaços não fizessem comprehender isso, illuminou de côr de rosa vivo a barriga do cavallo; o paraguayo, deitado, dispara uma pistola, e vê-se forte a chamma da polvora, os foguetes no ar; toda explosão, emfim, é visivel.

Não sabemos como explicar semelhante phenomeno physico; é quasi impossivel de dia distinguirem-se as chammas quando arrebenta a explosão; no emtanto vivas, ardentes brilhão ellas no quadro.

Desejo de colorir, ou receio de não ser comprehendido.

No dia 8 de Dezembro de 1866, se bem nos recordamos, houve uma immensa explosão em um acampamento paraguayo que ficava muito perto do nosso exercito; e no entanto nós, que estavamos em um mirante, não vimos uma unica chamma, fumaça e só fumaça toldava o espaço.

A que proposito vem aquelle boi fechando a extremidade esquerda do quadro? e aquelle carneiro?

Difficuldade talvez de bem terminar o quadro, foi uma cunha empregada pelo artista para cobrir o espaço da téla... ella é tamanha...

No centro vemos um paraguayo montado, ardendo em colera, e com ambas as mãos levantando um sabre. Mas permitta-nos o pintor que indaguemos como está aquelle cavallo. Parado? andando? quem o detém alli? que mão invisivel o governa?

Provavelmente o pintor só pinta cavallos ensinados, e tão bem ensinados que nem mesmo se espantão com o barulho infernal de uma batalha, e antes, em vez de fugirem dos grupos e ajuntamentos, delles se aproximão mansos que nem cordeiros.

Foi infeliz ainda o pintor com o general Osorio.

E qual será a força que commanda aquelle general? Está completamente isolado. É um quadro no quadro.

A força paraguaya que passa pelo fundo está mal representada; é impossivel, a uma distancia tal, como quiz figurar o pintor, vêr-se tão ao vivo a musculação de um individuo.

E como explicar o facto de, em uma luta, como o autor pretendeu representar, entre duas forças aguerridas, só serem mortos soldados de uma parte. No quadro só vemos paraguayos feridos, mortos, e apenas cahido um brazileiro.

Insistindo ainda na confusão que se nota, na falta absoluta de perspectiva que faz com que toda aquella massa surja do primeiro plano, queriamos que nos explicassem certas cousas realmente dignas de censura.

O paraguayo que está sobre a carreta faz fogo, mas sobre quem? parece que sobre a força paraguaya que passa por detraz: tal é a confusão. Por mais indulgente que fôr o critico, ha de mencionar esses defeitos.

O official paraguayo que está ferido e dispara uma pistola, para onde faz o alvo? A explosão está feita, a bala partio; em frente existe uma muralha de corpos formada pelo official brazileiro e mais outras figuras; mas, onde foi empregada a bala? O pintor, que tão prodigo foi no colorido, claudicou desta vez, a bala varou uma daquellas figuras, que provavelmente estão anemicas - dahi a falta absoluta de sangue.

A caixa que está na carreta, pintada com as côres da bandeira paraguaya, está realmente monstruosa; a um principiante não seria permittido pintar assim.

Pedimos perdão ao artista por termos ousado notar defeitos no seu quadro, divergindo assim da opinião dos eruditos.

Exigentes em materia de arte, não admittimos meio termo, e principalmente quando tratamos de analysar producção de uma celebridade, e producções que, como essa, se apresentão escudadas por artigos impressos no estrangeiro.

Poderiamos apontar pequenas bellezas que no quadro existem; mas isso reverteria em desabono e não em louvor para o artista, porque teriamos de, como já dissemos, retalhar a grande téla.

Se a unidade não existe, se a idéa principal está morta, se aquillo é tudo menos uma batalha, se ahi não vemos o movimento, a luta, o ardor, emfim a pugna travada, se a perspectiva aerea não existe pela falta absoluta da graduação da luz, do que serve dizer que esta ou aquella figura, este ou aquelle grupo, esta ou aquella expressão, estão bem representados?

O chefe da escola idealista, o sympathico Dr. Pedro Americo, convença-se de uma cousa - a precipitação, como sempre, desta vez o perdeu.

José Leandro.

Novembro de 1877.

XXII-

Publicado em: Jornal do Commercio, 11 de novembro de 1877, pag.3.

Título: A batalha do Avahy.

Autor: José Leandro

A batalha do Avahy

II

No nosso primeiro artigo tratámos unicamente de, com toda a cortezia possivel, apontar os defeitos mais salientes que, julgamos, podem ser notados na téla gigante do illustrado Dr. Pedro Americo - e reservámo-nos o direito de proseguir em outras series de considerações.

Muito de caso pensado só apparecemos na imprensa analysando o quadro depois de termos a certeza de que o governo já o havia comprado.

Incivil e imprudente fôra o nosso procedimento se fizessemos o contrario, porquanto iriamos interromper as ovações esplendidas que o artista recebia, e talvez, quem sabe, offender seus interesses particulares.

Hoje, porém, tal não póde acontecer, - o artista foi victoriado -, o governo é possuidor da téla.

Assim, seja-nos permittido continuar a expôr, timida e receiosamente, as impressões que nos causou a critica estrangeira á vista do contrato que foi celebrado para a execução desse primor d’arte.

Em anno e meio foi calculado o tempo que se consumiria para a execução da téla e em 9:000$, isto é, em 500$ mensaes a quantia de que podia dispôr o artista.

A qualquer nação ou individuo ficava livre o autor o direito de vender a sua producção comtanto que indemnisasse o governo da quantia de 9:000$, e, quando não conseguisse effectuar a venda, o governo compraria o quadro pelo valor em que fosse elle arbitrado.

Luiz XIV, o rei protector das artes e das letras, não fazia contrato mais liberal, e o Exm. Sr. João Alfredo[71] deve ufanar-se de ter assignado semelhante documento.

Os artigos de louvor, impressos no estrangeiro, erão artigos editoriaes; mas, cousa ainda estranha na imprensa, apresentavão-se sempre como da lavra de um correspondente e terminavão avaliando o quadro em contenas[72] de contos de réis.

Nunca vimos em criticas artisticas, quando unica e exclusivamente se trata do bello, baixar-se ao vil interesse da moeda.

Ora, em vista do contrato, que dava ampla liberdade ao artista para vender a sua producção, e attentos os hosannas da imprensa estrangeira, não é para admirar que semelhante prodigio chegasse ao Rio de Janeiro? Porque não ficou essa téla no Louvre? Pois uma obra que deu ao seu autor a palheta e os pinceis de principe da pintura atravessa toda a Europa, onde é em centenas de contos avaliada, e não quem se anime a adquiri-la?

Porque não ficou esse quadro na Europa? Seria porque os entendidos virão nelle uma cópia, mal-executada, de diversos trabalhos de Horacio Vernet?

E porque não foi o quadro aqui avaliado, como preceituava o contrato? Pois o governo, que trata de fazer economias, póde despender sessenta e tantos contos com um quadro, sem usar do direito que lhe assistia de avalia-lo?

Devéras nos confundem estas considerações, ante as quaes o nosso espirito vacillante não sabe que illação possa tirar que seja airosa para o artista.

Parece-nos que de antemão se preparou com todo o ardil e firmeza um successo não artistico, mas pecuniario, se nos é permettida[73] a expressão, e que o quadro do Sr. Dr. Pedro Americo, admirado na Allemanha (onde nunca esteve), veio do convento de Florença directamente para o Brazil, onde causou sensação pelo tamanho.

Ainda essa sensação carece de fundamento, porque, comquanto nada valha em materia de arte a quantidade, o quadro de Horacio Vernet, de que fallámos, é muito maior.

Desculpe-nos o illustre doutor essas impertinencias, mas somos qual a criança travessa, que gosta de decepar o brinquedo para ver como elle é feito. S. S. deu-nos uma tela gigante e lindissima; nós, estupefactos ante o primor d’arte, queremos prescrutar-lhe todos os segredos.

Do quadro já apontamos os defeitos; é justo que tambem manifestemos a impressão que causárão o contrato e a critica estrangeira uniforme e singular. Estavamos no barracão, eis se não quando o illustrado doutor disse a alguem que nenhum artista seria capaz de, em menos de 20 annos, pintar um quadro, igual ao seu em tamanho. Disto estamos nós convencidos, nenhum artista o faria. Mas 10, 15 e ás vezes mais annos gastárão artistas celebres pintando pequenos quadros, obras de cavallete, que vão muito e muito além desta afamada tela da batalha do Avahy, e que trouxerão até nós e levaráõ aos nossos posteros os seus nomes cobertos de gloria.

Em summa, nós possuimos a obra prima do seculo, avaliada em centenas de contos e elogiada pela Europa, mas que a Europa não quiz adquirir.

O governo atirou uma lança em Africa com a sua acquisição, agora cumpre-lhe conceder ao artista, que no estrangeiro só priva com principes e marquezes, o titulo de Barão de Avahy, e a grande dignitaria da ordem da Rosa, afim de que tenha jus ao tratamento de S. Ex.

Esperamos que o governo aproveite a nossa idéa.

José Leandro.

XXIII-

Publicado em: Jornal do Commercio, dia 12 de novembro de 1877. p.1

Título: A Batalha do Avahy.

Autor: José Leandro.

A batalha do Avahy

No artigo sob esta epigraphe, publicado no Jornal do Commercio de 11 do corrente, ha, entre alguns equivocos, um que convem rectificar.

O periodo que começa: << Porque não ficou esse quadro na Europa? Seria porque os entendidos >> etc., etc., deve lêr-se:

Porque não ficou esse quadro na Europa? Seria porque os entendidos virão nelle uma cópia mal executada de diversos trabalhos de Horacio Vernet? principalmente do quadro que representa a batalha de Smalah?

José Leandro.

XXIV-

Publicado em: Jornal do Commercio, 16 de novembro de 1877, pag.2.

Título: A batalha do Avahy.

Autor: José Leandro

A batalha do Avahy

III

Tencionavamos não tratar mais do quadro da batalha do Avahy, nem do seu autor, quando por acaso deparámos em um jornal estrangeiro com a noticia de que o Sr. Pedro Americo, além de não ser protegido pelo governo, era guerreado pelos seus compatriotas!!!

Brazileiro e amante da verdade, não podemos deixar passar ser[74] protesto essa injustiça, e, em breves traços, demonstraremos o quanto é falsa semelhante asserção.

O Sr. Pedro Americo estudou aqui e em Pariz á custo do bolsinho de S. M. o Imperador.

Achava-se o Sr. Pedro Americo na Europa quando na Academia das Bellas-Artes se deu a vaga da cadeira de desenho de figura do corpo humano, e sómente para se lhe dar aquelle emprego foi fixado pela unica vez em seis mezes o prazo para a inscripção do respectivo concurso.

Sem ter concluido o trabalho do thema dado para o concurso, obteve a cadeira e partio o Sr. Pedro Americo outra vez para a Europa, donde regressou com o titulo de doutor concedido por uma universidade livre da Belgica.

Não podemos deixar de fazer aqui neste topico uma reflexão. Pedro Americo que, quando chegou a primeira vez da Europa para o tal concurso se havia inculcado bacharel por uma universidade de França, por que foi tirar o titulo de doutor na Belgica?

Mas, continuemos.

A cadeira de desenho, que funccionava diariamente, consumia-lhe muito tempo, e o habil artista conseguio, sem concurso e apenas por simples pedido, permutar a sua cadeira com a de professor de esthetica, historia e archeologia! até então considerada inutil nas condições vigentes da nossa vida artistica.

Nesta cadeira que apenas duas vezes por semana, se julgava necessario funccionar, e durante uma hora, o Sr. Pedro Americo alterou constantemente as horas da aula, ora leccionava de noite, ora de dia, conforme lhe era mais conveniente, e proprio aos seus interesses pecuniarios.

Regendo a cadeira de esthetica, pintou elle a celebre batalha do Campo Grande.

Extraordinariamente louvado, encarecido e hyper bolicamente elogiado, o governo concedeu-lhe, antes mesmo de estar em exposição o quadro, o officialato da ordem da Rosa e depois de aberta a exposição a commenda da mesma ordem.

Teve, portanto, dous premios pela mesma obra.

Nessa occasião o illustrado doutor, que sabe viver, unio-se aos repulicanos, e, entre mil puffs, conseguio impingir ao governo aquella monstruosidade artistica por 14:000$000.

Pinta depois os retratos de d. Pedro I e D. Pedro II e o governo, unico arrematante dos primores do dilecto artista, deu por um 6:000$ e pelo outro 4:000$!! quando sempre se pagou 1:500$ por obras semelhantes.

De novo vai o Sr. Pedro Americo para a Europa! e de lá envia uma cousa que denominou: Passagem de não sabemos que, onde figurava como uma especie de espia o general Osorio, e ainda o governo despendeu 3:000$ com aquelle aleijão!...

Na Europa pinta, finalmente, a batalha de Avahy, percebendo[75] 500$ mensaes durante anno e meio, segundo o contrato feito com o governo, e isto elém[76] do ordenado de professor da academia.

Ora, á vista do que temos exposto, póde-se dizer que o Sr. Pedro Americo não tem sido protegido pelo seu governo?

Qual foi o artista entre nós que tem merecido iguaes favores? A quem já se concedeu duas condecorações por uma só obra? A quem já se permittio que, sem concurso, sem nenhum titulo que désse presumpção de saber, fosse reger uma cadeira, como o Sr. Pedro Americo, a de esthetica? Qual foi o lente que já alterou, por conveniencia propria, o horario do ensino, marcado por um decreto? Qual o artista que mais obras tem vendido ao governo? Qual o funccionario publico que com tão pouco tempo de exercicio tem gozado de tantas licenças?

Ainda com a decantada téla da batalha de Avahy não foi o governo generoso pagando o transporte, a moldura, o verniz, o quadro e a construcção do barracão?

Que necessidade havia do barrracão, que custou cerca de 7:000$ ao governo, quando estava tão proxima a exposição da academia das Bellas-Artes, e alli ha lugar preparado para o quadro da batalha do Avahy?

Receiou talvez o artista a confrontação do seu trabalho com o de Victor Meirelles?

Na realidade não sabemos que mais desejão os enthusiastas do illustrado doutor. Nos elogios que lhe fazem chegão até á protervia[77] e á calumnia. O governo não protege o artista, e aquelles que ousão notar defeitos na sua producção são uns nescios, porque não entendem da arte, não são pintores!!!

Risum teneatis!

Pois a critica de um quadro só póde ser feita por um pintor?! O espirito critico analytico, o discernimento e o tino serão privilegios dos amigos do Sr. Pedro Americo?

Affirmão elles que os criticos não virão os quadros dos artistas estrangeiros, e que no entanto dizem que o illustrado doutor os imitou?

Será necessario ver-se um quadro para se reconhecer a cópia? Para que servem as gravuras e as photographias fieis e esmeradas?

Se se tratasse do colorido terião elles razão, mas da concepção, do pensamento, da obra emfim, é até ridiculo aventar-se semelhante argumento.

E quem contou a esses senhores que não estivemos no Louvre? Quem lhes disse que não seriamos capazes, se quizessemos, de apontar um por um os quadros de que se servio o artista para pintar a batalha de Avahy?

Elles unicamente são os entendidos, elles todos são pintores, todos estiverão no Louvre, todos conhecem as obras primas da pintura.

Na verdade, nunca vimos maior cegueira, nem maior parcialidade.

O governo que sempre protegeu o Sr. Pedro Americo, que ainda agora mesmo não usou do direito que tinha de avaliar o quadro da batalha de Avahy, que não ouvio a opinião de um só artista para compra-lo pelo excessivo preço de 40:000$, afóra os 9:000$ adiantados e as despezas feitas com moldura, verniz, transporte e barracão, que elevão a cifra a sessenta e tantos contos, que se contentou apenas com a quantia de tres contos e tanto para as victimas da sêcca da Parahyba, quando, pela estatistica publicada nos jornaes, a exposição foi visitada por milhares de individuos - é accusado, e nós que não gostamos do quadro e notamos alguns defeitos - somos ignorantes.

Acreditem os enthusiasthas do Sr. Pedro Americo: não se nullificão argumentos com injurias, e em bellas artes principalmente não se deve discutir com paixão. O Sr. Pedro Americo é um moço de talento, ninguem o contesta, mas entre nós temos talentos superiores ao delle e sem aquelle descommunal orgulho. Victor Meirelles é o attestado vivo do que affirmamos.

Não queremos, nem podemos reconhecer no Sr. Pedro Americo o chefe da escola idealista, apezar dos artigos estrangeiros sempre uniformes e singulares, que parecem da lavra de uma só pessoa. Artigos que avalião pecuniariamente o quadro que dão o titulo de erudito ao artista, e que com pequenas alterações se podião todos refundir em um só.

Não faltão talentos no Brazil. Mesquita, Alencar e muitos outros dão disso testemunho cabal, mas infelizmente tambem ha em excessivo gráo o charlatanismo, a basofia e o orgulho.

José Leandro.

XXV-

Publicado em: Jornal do Commercio, domingo dia 17 de novembro de 1877

Título: Noticias Varias - Quadro historico da Batalha de Avahy

Foi hontem visitada a exposição deste quadro por 430 pessoas.

Encerrar-se-há quinta-feira, às 4 horas.

XXVI-

Publicado em: Jornal do Commercio, sábado dia 17 de novembro de 1877. p.2.

Título: A última crítica - sobre o quadro da Batalha de Avahy

Autor: Cs. Dos S.

Á ultima critica

SOBRE O QUADRO DA BATALHA DE AVAHY

<<Mais vale tarde do que nunca>>, e nada importa que só assim me revele eu e contra... as <<emendas ao soneto>>!...

Os motivos, as razões - ESTÃO NA TÉLA,

......................................................................

<<EM QUE - DO NORTE BRILHA A UFANA ESTRELLA.>>

Vai feichar-se a exposição do quadro historico de Pedro Americo de Figueiredo, e, por certo, satisfeita está a publica espectação com o que nesse quadro vio demonstrado por esse eximio pintor brazileiro.

Não estou eu e nem posso estar contente com o que e por critica pôde exhibir um Sr. L., mais tarde Luiz de Andrade, e antes de tudo com outro nome, embora e sempre sob as vestes do mesmissimo apreciador, mestre, e.... não sei si enthusiasta.

Não posso estar contente porque antipathiso, nunca pactuei com os ... que mordem e soprão! demais a mais estando flagrante em todos os artigos do critico a que tenho a honra de dirigir-me, não só uma bem decidida animosidade contra o pintor brazileiro e outrem; como e principalmente pelo facto de tanto querer o meu antagonista, que amesquinhado fique e da téla em questão, aquillo que mais importaria para a nossa historia patria, e quer antes quer depois da exposição dada, onde a verdade de tudo e dos factos fosse sagrada e respeitada.

Na opposta a isto, porém, mesmo e respeitando-se muito os direito de cada um - pré e contra - depois de conhecida a opinião da Europa civilisada em prol da téla em liça; e da cavalheira, franca e nobre resposta de Pedro Americo aos injustos censores que teve de vir encontrar aqui, é pequenino, por demais impertinente - tudo o que leu-se no n. 303 da Gazeta de Noticias, em 2 do mez de Novembro corrente.

E, a ser exacto <<que um tal critico recebeu do autor da téla um cartão de reconhecimento aos prodigalisados elogios lidos no final do artigo dado á estampa no n. 289 da mesma Gazeta, sóbe de ponto todo o meu desgosto, porque não é assim que se julga e baratêa - o merecimento alheio!...

Não Sr. Luiz de Andrade; não é com ironias, e menos por figuras rhetoricas que se analysa um quadro ou téla em que - bem ou mal - gravados forão e estão - todos os pormenores de um facto marcial estupendo, e no qual o.... encarniçamento dos belligerantes celebrisou a victoria, o momento de triumpho dos vencedores - sem ophensa ao heroismo dos vencidos, e nem á verdade das peripecias dadas, sobre as partes officiaes á compulsar-se....

Se a esthetica de V. S. não foi nem póde estar satisfeita com a de Pedro Americo (que é a de todos os que sem pretensões - confessão o que mais se admira nessa impagavel e colossal téla - em abono da simplicidade ou singeleza do.... levantamento, da justa e perfeita criação dos grupos do primeiro plano e seus accessorios, como e dos demais - em sua correcta perspectiva, acção e natureza) ninguem lhe contestará, e menos eu, - os direitos de melhor fazer o hoje!

Esqueçamos e por um momento, os juizos dados (e tão explicitamente...) dos peritos que na culta Europa conquistou por si e por si mesmo a téla amesquinhada por V. S. De quaes escolas e de que pintores tinha ou devia - no seu querer - de modelar-se um Pedro Americo para os planos e grupos da téla que foi commettida? Medio bem o alcance disto?....

A não ser.... na - da verdade historica - já escripta e a elle inderessada: mas dos que é que vale o sentimento innato do bello, de toda a fé de um coração de artista que se preza e estima com justos titulos: nos .... conselhos da propria consciencia e de um dever sagrado - pela revelação, no materialisar das idéas preconcebidas: como e no congrassamento de um talento legitimo com o que e demais excita uma imaginação ardente, toda enlevada e com pericia no santo amor da patria, e patria tão duramente offendida. Sr. Luiz de Andrade!... ao que vem e no que consistem <<os erros e defeitos>> do quadro em que tanto se respeitou e brilha, e só pelas analyses de V. S.?...

<<Na impressão confusa que aos primeiros visitantes causára o exame da téla>> não; porque o que é exacto - é que V. S. mesmo, e com toda a perspicacia de mais amestrado - nem lhe nega o que vale <<pela concepção e fórma!...>>

Sendo, porém, que nos demais sómente deu-se o que era natural, isto é: que na presença de uma téla immensa em tudo, todos os visitantes sentirão a indeclinavel necessidade de a ella voltarem, mais de uma vez e para a completa satisfação?!...

.........................................................................................................

Não gostou V. S. (quid inde?...) <<do tom democratico (!) com que diz que forão nivelados os grupos do primeiro plano>> sem deixar de asseverar-nos <<que a familia rural... avultou no seu espirito de um modo decisivo e inimitavel!...>> Ganha ou perde com isto - a téla que assim e só assim se dignou de considerar?... Taes e quejandas serião bastantes << para e de braço dado (!!!) levar o seu... delinquente á prisão cellular do Louvre? Coitado do... julgador rigoroso, que... <<condemna porque não vê sombras onde a luz é plena e amplamente distribuida com exactidão...>>

Não quer, e arvora em outro erro ou defeito - o que chama <<semelhança de situações com outras de quadros celebres>> não denunciando-as; mas em troco - satisfaz-se com o ridiculo, senão insulto, e gratuitamente atirado áquelle que só é mao, porque não o fez nem o fará melhor, qualquer que seja a competencia que se arrogue <<e lá pelos museus da maldade, ou, e só dos candieiros de kerosene que o illuminão.>>

Digo-lhe, Sr.... Luiz de Andrade, que se não é esta a mais valiosa razão porque, e depois de tanto - póde V.S. enxergar - <<para individual exame de cada um dos grupos do primeiro plano>> o jovem official que tomma a carreta inimiga <<sem expressão proporcional ao lance>> deste seu proposito e... <<como figura bem pintada>>: o official já morto <<e roubado pelo esquecido paraguayo>> (para quem passou o enthusiasmo da boa acção commemorada!) e até <<o cavallo de carne morta de ha muitos dias (mas no seu, e só seu estado commatoso!....>> tudo isto e para mim são favores de uma velha critica e esta tão lucida ou magistral, que sem ella ou elles - não teria apreciadores o primeiro grupo do primeiro plano da sua sinistra...

Digo-lhe ainda: - que sendo assim, tal e tão justa, como é sinistra - toda a feliz analyse do critico a que respondo; quem mais poderá ver - <<no official que sustenta as bandeiras inimigas, no desdem com que esse brazileiro olha para o paraguayo já rendido e que lhe dispára a pistola, o certeiro tiro, ou do que apoderou-se das camaras do freio do corsel e como que dá costas ao que busca decepar-lhe o braço que não cahe - porque o facão está com a lamina immovel <<parada, a medir a distancia e ageitar o golpe!>> entretanto que sobre todos os accessorios de um tal grupo, não só não vio elle - esse meu antagonista - senão a inercia dos braços do paraguayo que monta o cavallo preto e alçou o facho - tendo já cruzada a cabeça do seu cavallo sobre o pescoço do que é montado pelo valente official do exercito vencedor: como poderia enxergar que este official - ladeado assim e tão sublimemente! - symbolisa até por si só toda a gloria ou victoria da acção dada e encarniçadamente peleada? Quem me contestará isto sem ser... judeu?...

Confesse, como eu e outros, Sr. Critico, que os olhos acostumados a ver construcções bazamentos de pedra e cal, não são os mais competentes para a feitura <<da chave dos sonetos>> e ainda menos para apreciadores do que são e como se representão nas télas as diversas construcções animaes!...

Confesse e creia que para isto, - si nem tivesse V. S. olhado para a naturalidade e fórmas, para todas as atitudes e movimentos das figuras e animaes, como para o irreprehensivel dos desenhos e natural colorido desse 1º plano da téla que tanto se nos recommenda por sua singeleza, V. S. não acharia sómente e no quadro que eu defendo - <<o que é proprio das melhores palhetas e pinceis do mundo civilisado>> - por bons estudos; nem esconderia entre as suas ironias, erros e até invectivas! tudo o que... sobre o bello ideal de um feito d’armas - sahio da consciencia de um grande talento para a sua primeira ou principal téla - sem offensa dos factos capitaes; como e sem duvidas, - dos episodios e peripecias reveladas, e bem criadas em todo esse quadro....

Creia em summa que, extasiando esse quadro áquelles que como competentes o virão uma só vez para nunca mais esquecerem... basta, e por exemplo o que dizem em si e por si sós, a cabeça do paraguayo junto á roda da carreta tomada, a do que fica á sinistra do official que é symbolo da victoria alcançada, a do negro morto e com o craneo aberto despejando sangue e massa cerebral, a do seu boi sem guampas, etc., etc, e não mais os braços que alçárão <<o immovel facão>>, pelo todo da musculação desse homem em desespero de causa e sobre um disparado o [...][78] disparavel animal ingovernado, mas... de mira firmissima no seu infeliz objectivo!

Á generosidade da V.S. entrego o que resta, senão - a de todos o que hoje ainda querem retratos nessa collossal téla, e ato dos soldados oriundos do Paraguay!... esquecidos de que Lopes (mórmente no Avahy, e <<depois das perdas que soffreu em Uruguayana, no ataque á ilha do Cabrito, no Riachuelo, Humaitá e outros), fazia praças de pretos dos seus colonos todos, e punha nas fileiras os nossos proprios prisioneiro!...>> Para censurar tudo serve, menos a verdade dos factos historicos, quando é e fica irreprehensivel - o... idealismo do pintor que tudo commemorou, e bem... a despeito de não ter podido ir photographar todos os originaes das figuras aliás bem collocadas na sua privativa e originalissima téla, da... gigantesca concepção e fórma.

Não sei, não posso e nem quero escrever tambem um livro. Não tenho habilitações para sustentar-me no terreno das bellas-artes ou só bellezas artisticas e nem disso precisa quem sómente defende a verdade dos factos, embora ........ os amigos.

Revoltou-me a injustiça a um delles praticada, e com insistencia por V. S. Sr. Luiz de Andrade (não sei se em troco do cartão recebido). Seja ou não, eu obedeci as minhas impressões por muito longe do menor proposito de offender a quem quer que seja, e porque só vi o quadro uma vez, declaro já que outra não tornarei á questão, assim ficando de V. S. o justo admirador.

Cs. Dos S.

Em 8 de Novembro de 1877.

XXVII-

Publicado em: Jornal do Commerico, dia 18 de novembro de 1877. p.3.

Título: A Batalha do Avahy.

Autor: Leandro José.

O Sr. José Leandro e a batalha de Avahy

V. S. diz que, se quizer, póde apontar um por um os quadros de que se servio Pedro Americo para pintar a batalha de Avahy. Isto é uma accusação gravissima, que só pode ser acreditada por meio de provas. Portanto, rogamos a V. S. , que declare quaes são estes quadros.

Leandro José.

XXVIII-

Publicado em: Jornal do Commercio, dia 19 de novembro de 1877. p.2.

Título: Sr. Leandro José.

Autor: José Leandro.

Sr. Leandro José

O opusculo que breve publicaremos, satizfaz o seu pedido.

José Leandro.

_________________________

[1] Médicis: Poderosa família florentina de banqueiros. Exerceram forte influência sobre a vida política e econômica da República de Florença entre os séculos XV e parte do XVIII. Praticaram o mecenato e foram grandes incentivadores do pensamento humanista e do renascimento artístico na Itália.

[2] Joaquim Pinto de Campos (Pajeú de Flores 4/4/1819 - Lisboa, 5/12/1887): Monsenhor da Igreja Romana, também militou na política do segundo reinado, tendo sido eleito deputado em 5 legislaturas. Foi membro correspondente do IHGB, da Academia Real das Ciências de Lisboa, da Academia das Ciências e Artes dos Ardentes de Viterbo e da Academia Properciana de Assis.

[3] Fellice Francolini (secretário)

[4] O prefeito, assignado: De Rolland

[5] Conselheiro João Alves Loureiro, Barão de Javary (RJ, 1812 - Roma,28/12/1883). Formado em direito pela faculdade de São Paulo em 1834, exerceu o cargo de procurador fiscal da antiga tesouraria da província do Rio de Janeiro antes de seguir carreira diplomática. Foi membro do IHGB, poeta, compositor e jornalista, tendo escrito Correspondencias de Paris e de Londres para o Jornal do Commercio. Entre 1875 e a data de sua morte, foi Ministro Plenipotenciário na corte da Itália. (Sacramento Blake e Rheingantz)

[6] Stefano Ussi (Florença, 1822 - 1901): Fez o curso da Academia de Florença como aluno de Bezzuoli e Palastrini. Interrompeu os estudos para combater como voluntário em Montanara, onde foi feito prisioneiro. Em 1849, venceu o concurso trienal da Academia com sua Ressurreição de Lázaro e depois conquistou o pensionato de Roma com o quadro Boccaccio explicando a Comédia de Dante. Dedicou-se à pintura histórica, ganhando medalha de honra na Exposição Universal de 1867 com a Expulsão de Florença do Duque de Atenas. (Enciclopedia Italiana, Larousse XX Siècle).

[7] Antonio Ciseri (Ronco-Ascona/Canton Ticino, 1821 - Florença, 1891): Pintor italiano, foi aceito na Academia de Desenho de Florença como aluno de Niccola Benvenuti. NO ano de 1843 venceu o prêmio trienal com a tela São João reprovando Herodes. Dono de uma alta capacidade para o desenho, explicava uma certa falsidade em relação às luzes e cores como a necessidade de idealizar o verdadeiro atravéz da consciência mística. Antes de receber o nome de professor acadêmico, começou a receber alunos particulares, e por volta de 1852 fundou uma escola privada de artes. (Enciclopédia Italiana)

[8] Giuseppe Belluci (Florença, 1827 - Florença, 1882): Em Florença foi aluno de Giuseppe Bezzuoli, de Benedetto Servolini e de Enrico Pollastrini. Mopstrou predileção pelo gênero de pintura histórica, no qual alcançou algum sucesso.

[9] Michele Cortegiani (Nápoles, 1857 - Tunisi ?): Mudou-se ainda bem jovem para Palermo. Foi aluno de Francesco Lojacono e se afirmou como pintor de figuras e de marinhas, tendo participado de muitas mostras nacionais. Foi também um hábil decorador, trabalhando no forro do Teatro Massimo di Palermo ao lado de E. de Maria Bergler e R. Lentini. Sabe-se que no fim de sua vida partiu para Tunisi, onde se dedicou ao ensino particular de pintura.

[10] Amos Cassioli (Asciano, 10/8/1832 - Florença, 17/12/1891): De origem humilde, entrou em 1850 para a Academia de Belas Artes em Siena, onde foi aluno de Luigi Mussini. Entre 1856 e 1860, se aperfeiçoou em Roma, após ter vencido o concurso do governo toscano no ano de 1859 com o cartão da Batalha de Legnano. Esta obra só foi concluída em 1870. Pintou um auto-retrato para a Galleria degli Uffizzi.

[11] Cesar Mussini (Berlim, 1804 - Florença, 1879): Irmão mais velho do pintor Luigi Mussini. Estudou sob a orientação de Benvenuti na Academia de Florença, distinguindo-se pela não comum versatilidade na variação técnica. Em 1828 conseguiu o pensionato de Roma com a tela Leonardo da Vinci, velho e mortalmente enfermo, expira nos braços de Francisco I. Fez uma longa viagem à Alemanha e à Rússia, e em seu retorno à Itália, conseguiu o cargo de professor de pintura na Academia de Florença. Em sua pintura, critica-se o fato de nunca ter conseguido se libertar de uma formação acadêmica, ainda que fosse dado a pintura de temas românticos como a Morte de Atala.

[12] Annibale Gatti (Forcì, 1827 - Florença, 1909): Filho de um decorador, mudou-se para Florença aos três anos de idade. Teve pouco sucesso em seus primeiros estudos, mas Gazzarini intuiu seus dotes e obteve os primeiros resultados positivos do discípulo. Estudou também na escola de Bezzuoli. Fez diversas decorações, sobretudo encomendadas pela baronesa Fiorella Favard para seu palácio.

[13] Nicolo Barabino (Sampierdarena, 13/6/1832 - Florença, 1/10/1891): Foi aluno da Academia Ligúrica de Belas Artes. Cultivou o afresco e a decoração. Em seus quadros, sem ceder a inovações, soube conciliar tradição e modernidade. Se dedicava com freqüência a temas históricos.

[14] Luigi Norfini (Pescia, Pistoia, 1825 - Lucca, 1909): Estudou em Lucca e depois em Florença. Participou como voluntário na guerra de 1848 e, dessa experiência, nasceu o seu gosto pela pintura de história. Também foi um hábil retratista, sobretudo em relação a personagens históricos. Recusou o convite para pintar um quadro de batalhas feito pelo Sultão de Constantinopla. De 1869 em diante ensinou na Academia de Florença e de Lucca, dirigindo esta última a partir de 1877. Foi condecorado cavaleiro de S. Maurizio e de Lázaro.

[15] Giuseppe Gherardi (Florença, 1788 - Florença, 1884): É um dos mais precoces paisagistas florentinos da restauração. Copia durante algum tempo as obras de Salvator Rosa na Galeria Florentina. Em 1839 expõe 3 paisagens e só via expor novamente em 1845, ba primeira mostra da Società Promotrice. Reaparece em 1863 com uma Vista da ilha de Elba.

[16] Deputado Martim Francisco Ribeiro de Andrada Sobrinho (1853-?). Advogado e jurista de São Paulo, manteve seu escritório em Santos. Filiado ao partido liberal durante o Império, foi eleito deputado por seu estado. (Artiaga, Jugurtha - Dunshee Abrantes, Vol. II).

[17] Peruzzi, síndico de Floença.

[18] Duque de São Donatti[18], syndico de Napolis

[19] Sr. Giorgio Campani, inspector geral das galerias e museus de Florença, secretario da academia della Crusca, official da Rosa

[20] Manoel de Araújo Porto Alegre, Barão de Santo Angelo (Rio Pardo, 20/11/1806 - Lisboa, 29/12/1879): Pintor, professor de desenho, cenógrafo, escultor, arquiteto, poeta lírico e dramático, crítico de arte e diplomata. Foi um dos primeiros alunos da Missão Artística Francesa, sendo discípulo de Debret. Completou seus estudos na Europa, onde freqüentou o atelier de Gros. Voltando ao Brasil, foi nomeado professor de Pintura Histórica, e em 1854 aceitou o cargo de diretor da mesma academia em que se formou. Terminou a vida em Lisboa, onde foi cônsul. Pedro Américo se casou com sua filha D. Carlota.

[21] Sr. ministro do imperio no Brazil

[22] Assim no original.

[23] Domingos José Gonçalves de Magalhães, Visconde do Araguaia (RJ, 13/8/1811 - Roma, 10/7/1882). Deputado, poeta, conselheiro e comendador. Como diplomata chefiou diversas operações em Madrid, Nápoles, S. Petersburgo, Viena e Washington. Escreveu memórias históricas e livros de poemas, o mais famoso deles é a Confederação dos Tamoyos. Faleceu em Roma. (Dicionário das famílias brasileiras - Argeu Guimarães: Dicionario Bio-Bibliographico Brasileiro)

[24] Conselheiro Lopes Netto, Barão de Lopes Netto (Pernambuco, 6/7/1814 - Forença, 8/11-1895). Advogado, jornalista e deputado. Entrou para a diplomacia em 1866, como plenipotenciário em missão especial na Bolívia, onde negociou e assinou, com prejuízo para o Brasil, um tratado de Amizade, Limites, Navegação, Commercio e Estradição. Em 1903 o Barão do Rio Branco desfez o acordo, recuperando o Acre para o território brasileiro. Foi enviado extraordinário e ministro plenipotenciário do Brasil em Roma. (Dicionário das famílias.- Rheingantz - Argeu Guimarães)

[25] Francisco Inácio de Carvalho Moreira, Barão de Penedo (Alagoas, 25/12/1815 - RJ, 1/4/1906). Formado em direito pelo curso jurídico de São Paulo, fundou com outros ao Instituto da Ordem dos Advogados Brasileiros. Foi também diplomata, representando o Brasil em Washington e Londres. Nos Estados Unidos manteve uma discussão sobre as expedições preparadas pelos norte-americanos com objetivo de explorar o rio Amazonas. (Dicionário das famílias.- Rheingantz - Argeu Guimarães)

[26] Dr. José Ribeiro de Souza Fontes, Visconde de Souza Fontes (RJ, 9/8/1821 - RJ,14/03/1893). Médico, cirurgião-mor do exército, marechal, conselheiro e comendador. Foi professor substituto da seção cirúrgica da faculdade de medicina do Rio de Janeiro, e depois nomeado catedrático de anatomia descritiva. Membro titular da Imperial Academia de Medicina e do IHGB. (Dicionário das famílias.- Rheingantz - Argeu Guimarães)

[27] Rafael Sanzio (Urbino, 28/3 ou 6/4/1483 - 6/4/1520): Filho do pintor e escritor Giovanii Santi, que o introduziu nas idéias iluministas. Perdendo o pai com cerca de 11 anos de idade, a maior influência que recebeu em suas primeiras obras veio de Perugino. Entre 1504 e 1508 trabalhou muito em Florença, e sob a influência de Leonardo e Michelangelo sua obra se tornou mais grandiosa e sofisticada. Datam desse período muitas das representações de Virgem com Menino. Foi chamado a Roma pelo papa Júlio II para a pintura da Stanza della Segnatura. Rafael continuou trabalhando em Roma até sua morte, e um de seus últimos trabalhos foi a Sala de Constantino (1520-1524), do qual a batalha mencionada faz parte. Embora exista a possibilidade de Rafael ter idealizado a concepção em cartões, não há dúvida de que a execução ficou por conta de seus alunos, sobretudo Giulio Romano.

[28] Erro, provavelmente de tipografia.

[29] Assim no original.

[30] Michelangelo Buonarroti (Caprese, 1475- Roma, 1564): Escultor, pintor, arquiteto, desenhista e poeta italiano. Contrariando o desejo de sua família, iniciou um período de treinamento com Domenico Ghirlandaio e logo depois se transferiu para a escola de artes montada no Jardim São Marcos, mantida pela família Médicis e dirigida por Bertoldo di Giovanni. Parte em 1494 para Bolonha e em 1496 para Roma, onde esculpiu o Baco e a Pietá, esta última, sua obra-prima dos primeiros anos. Em 1501 retornou a Florença, onde esculpiu em um único bloco de mármore, o Davi, que logo se tornou símbolo da arte florentina. Em 1505 foi chamado a Roma para que o papa Júlio II lhe encomendasse o projeto de seu túmulo. A execução desse projeto foi tão conturbada que só ficou pronto mais de 30 anos após a morte do encomendador. O mesmo papa lhe encomenda em 1508 a pintura do teto da Capela Sistina, que contribuiu decisivamente para que seu autor fosse considerado o maior artista de seu tempo e um dos maiores de todos os tempos.

[31] Julio Piccini, crítico no primeiro jornal da Itália.

[32] professor Beeccher Ussi, physiologista

[33] Praxitelles (séc. IV a.C.): Escultor grego. Suas obras se perderam, sendo conhecidas apenas por descrições ou cópias romanas. Uma estátua de mármore, no entanto, de Hermes e Dionisio menino, foi encontrada em Olímpia, em 1877, e é considerada por alguns pesquisadores como sendo de sua autoria. Suas obras serviram de modelo para muitos artistas, principalmente no que diz respeito às poses atraentes e sinuosas, mais ligadas às emoções humanas.

[34] Fídias (432 a.C.): Escultor grego, o mais famoso do mundo antigo. Suas obras se perderam, mas é possível ter uma idéia de seu trabalho a partir de cópias, descrições e das esculturas do Partenon de Atenas, que ele supervisionou. Ganhou celebridade por ter feito duas grandes estátuas criselefantinas, uma de Atena e outra de Zeus, esta uma figura sentada com 12 metros de altura. Sua oficina em Olímpia foi descoberta em 1954-8.

[35] Jean Auguste Dominique Ingres (Montauban, 1780 - Paris, 1867): Teve seus primeiros ensinamentos com seu pai, Joseph Ingres, que era pintor, miniaturista, escultor e ornamentador. Entrou para a Academia Real de Toulouse em 1791, e se tornou discípulo de David em 1797, em Paris. Ganha o Prêmio de Roma em 1801 com o quadro Os Enviados de Agamenon, mas devido à situação política e econômica da França, só pode viajar em 1806. Nesse intervalo de tempo pintou muitos retratos, gênero pelo qual é muito reconhecido. Representante dos ideais do Neoclassicismo de David, fez oposição ferrenha aos românticos, sobretudo a Delacroix.

[36] Hyppolyte Flandrin (Lyon, 1809 - Roma, 1864): Pintor francês, defendeu com zelo as idéias de Ingres, de quem foi um dos alunos favoritos. Ganhou o prêmio de Roma em 1830 com o quadro Teseu reconhecido por seu pai. Foi influenciado pela tradição de ornamentação italiana, e em Paris tornou-se um muralista importante. Pintou decorações para as igrejas de St. Vincent-de-Paul e St. Germain-des-Prés, entre outras. Destacou-se também no gênero dos retratos, chegando a ser retratista oficial de Napoleão III. Em 1853 foi eleito membro da Académie des Beaux Arts.

[37] Domenico Morelli (Nápoles 7/7/1826 - Nápoles 13/8/1901): Pintor e professor italiano. Estudou no Instituto de Belas Artes em Nápoles e se tornou amigo de Filippo Palizzi, com quem aprendeu a observar e representar a natureza com efeitos de variação de cores e claro-escuro. Venceu o Concurso Trienal em 1845, que permitiu que admirasse os trabalhos de Rafael e Michelangelo, além de tomar contato com os Nazarenos em Roma. Em 1861, na Primeira Exposição Nacional, em Florença, expôs sua tela Os Iconoclastas, um grande sucesso de público e crítica que o elevou a líder nacional da nova escola chamada Verismo Histórico. No final da década de 1860 seus temas passaram a ser predominantemente religiosos. Em 1897 se tornou diretor do Museu Artístico Industrial de Nápoles, instituição que havia ajudado a fundar em 1880.

[38] Wilhelm von Kaulbach (Arolsen, 15/10/1805 - 1874): Pintor alemão. Em 1822 foi mandado para a Academia de Dusseldorf, onde foi aluno de Cornelius. Não conseguiu muito sucesso em sua época de estudante. Em 1825 seguiu para Munich, onde foi procurado para fazer alguns trabalhos de importância, dentre eles a decoração da sala do trono da Rainha, em que pode mostrar sua originalidade. Nesse período também pintou A Casa dos Loucos nesse período. Em 1837 expôs uma tela parte histórica e parte simbólica, a Casa de Huns, que foi muito admirada e fortemente criticada. Pintou seis grandes composições históricas para o Museu de Berlim, e em 1847 executou a sua obra mais conhecida, A Torre de Babel, que foi enviada à Exposição Universal de 1855.

[39] Adolphe Yvon (Eschewiller, 30/01/1817 - Paris, 11/09/1893): Pintor francês. Entra para o atelier de Paul Delaroche em 1837, após ter concluído seus estudos literários. A princípio se dedica à pintura de retratos, mas a partir de 1845 começa a expôr cenas bíblicas, como Jesus banindo os mercadores do templo, de 1845, e Judas Iscariotes no inferno, de 1846. Em 1855 pinta Marechal Ney na retirada da Rússia, e o Télègue Russe, quadros que lhe valem o título de Cavaleiro da Legião de Honra e a missão de se juntar ao exército francês na criméia para reproduzir os principais episódios da campanha. Esta viagem lhe rende três grandes telas, que são expostas nos salões de 1857 e 1859. Foi professor da Ecole des Beaux Arts e em 1867 publicou um manual de desenho para escolas de arte e liceus.

[40] Emile-Jean-Horace Vernet (Paris, 30/6/1789 - Paris, 17/01/1863): Pintor francês, filho de Carle Vernet, com quem teve suas primeiras lições. Expôs pela primeira vez em um Salão em 1812. Foi condecorado com a Legião de Honra em 1814, e 10 anos depois se tornou Oficial da Legião de Honra. Foi eleito para o Institute de France e foi diretor da Academia da França em Roma. Em 1835 se tornou professor da Escola de Belas Artes de Paris, posto que manteve até o final de sua vida. Dedicou-se ao gênero de pintura de história, pintando muitos quadros de batalhas.

[41] Antonio Allegri Correggio (Correggio, 1489 - Correggio, 1534). Pintor italiano que ficou conhecido pelo nome de sua pequena cidade natal. Sabe-se muito pouco sobre sua vida, mas é possível perceber a influência de Mantegna em suas primeiras obras. Foi o artista mais importante da primeira metade do séc. XVI no norte da Itália, e exerceu uma profunda influência sobre os artistas de Parma. Conquistou fama de bom ilusionista com as pinturas dos domos da Igreja de S. João e da Catedral de Parma.

[42] Dr. von den Borne, isto é, o critico o mais abalisado da Allemanha em materia de bellas-artes

[43] Diogo Luiz de Almeida Pereira de Vasconcelos, Visconde de S. João de Latrão (1843-1927). Bacharel em direito e jornalista. Foi o primeiro presidente constitucional da Câmara Municipal de Ouro Preto. Deputado da Assembléia Geral Legislativa, por MG.

[44] Franklin Americo de Menezes Doria, Barão do Loreto (1836-1906). Deputado, Conselheiro, Ministro de Estado, Presidente das províncias do Piauí, Maranhão e Pernambuco.

[45] Andrea del Sarto (Florença, 1486 - Florença, 1530): Pintor italiano, aluno de Piero di Cosimo. Após a partida de Leonardo, Michelangelo e Rafael, ficou estabelecido como o maior pintor da cidade, ao lado de Fra Bartolommeo. Realizou afrescos, como em S. S. Annunziata, além de pinturas de altar e retratos.

[46] Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque , Visconde de Cavalcanti (1829-1899). Bacharel em Direito pela faculdade de Olinda, deputado provincial e geral em várias legislaturas pela Paraíba e senador pelo Rio Grande do Norte. Foi também Ministro da Fazenda, Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas e Ministro da Justiça, além de ter exercido a presidência das províncias do Ceará, Piauí e Pernambuco. Em 1889, seguiu para a Europa como Comissário Geral do Brasil na exposição daquele ano. Afastou-se da política depois da queda do regime monárquico.

[47] Pedro du Terrail, Senhor de Bayard (1476 - 1524): Militar francês. Tornou-se célebre por sua coragem e lealdade, ficando conhecido como cavaleiro sem medo e sem manchas. Lutou em diversas batalhas, inclusive ao lado de Francisco I em Marignan.

[48] Hércules: Forma latina do nome do semi-deus e herói grego Heraclés. Filho de Zeus e Alcmene, sustentava uma força descomunal. Seus mitos evoluíram de forma ininterrupta, de modo que são muitas as suas aventuras. A mais conhecida delas é a dos Doze Trabalhos, impostos pelo rei Euristeu inspirado por Hera.

[49] Cadete Serafim (? - Lomas Valentinas, 20/12/1868): Jovem militar que tornou-se célebre nos anos posteriores à Guerra do Paraguai como exemplo de coragem.

[50] Prometeu (aquele que pensa antes): Titã da mitologia grega. Foi o grande benfeitor da humanidade, enganando Zeus por duas vezes para o bem dos mortais: uma em relação à parte dos animais que deveriam ser oferecidos aos deuses, e outra quando roubou o fogo da forja de Hefestos para entregá-lo aos homens. Como pena, foi acorrentado a um rochedo. Posteriormente, como se negava a revelar o segredo que faria com que Zeus perdesse o trono, passou a ter suas entranhas devoradas diariamente por uma ave. Foi libertado por Hércules.

[51] Affonso de Albuquerque e Mello (?-?). As únicas informações conseguidas sobre esse personagem foram tiradas do primeiro volume do Dicionário Biobibliographico de Sacramento Blake, que foi escrito em 1883, quando Affonso de Albuquerque e Mello, provavelmente, ainda vivia. Transcrevo na íntegra as poucas informações:

É natural de Pernambuco, onde tem residencia, bacharel em sciencias sociaes e juridicas pela respectiva faculdade, secretario do thesouro provincial, tem sido deputado á Assembléa de Pernambuco em mais de uma Legislatura.

Escreveu:

- A Liberdade do Brazil, seu nascimento, vida, morte e sepultura. Recife, 1864. 216 pags. in 4º - Neste livro se manifestam as idéas republicanas do autor. Sahiram a lume diversas contestações a taes idéas, e a bibliotheca Nacional possue um escripto inedito, com o titulo de - Notas de.. ao pamphleto intitulado Liberdade do Brazil de Affonso de Albuquerque Mello.

[52] Aristarcho de Alexandria (Samotrácia, 160 a.C. - ?): Gramático e crítico grego. Viveu quase toda a vida em Alexandria, onde abriu uma escola de filologia. Foi discípulo de Aristófanes de Bizâncio. Educou Ptolomeu V e Ptolomeu VII. No século XVIII foi descoberto em Veneza o seu Escólios, obra que contém notas e comentários a muitas produções literárias gregas. Seu nome virou sinônimo de crítico severo.

[53] Homero: Mais antigo poeta épico grego. De acordo com Heródoto, viveu aproximadamente em 850 a.C., embora pesquisadores acreditem que tenha vivido entre 1100 e 900 a.C. Escreveu a Ilíada, que narra um episódio lendário do cerco de Tróia, e a Odisséia, que conta as aventuras marítimas de Ulisses após o cerco.

[54] João de Souza da Fonseca Costa, Barão da Penha (Rio de Janeiro, 30/4/1823 - Paris, 9/1/1902): Brigadeiro, Marechal de Campo e Tenente General do Exército Brasileiro.

[55] José Antonio Corrêa da Câmara, Visconde de Pelotas (1824-1893). Brigadeiro, Marechal de Campo, Tenente-General e Marechal do Exército. Foi também Ministro de Estado e Presidente do Rio Grande do Sul. Foi Conselheiro de Guerra a partir de 1877, tendo sido dispensado a pedido em 1888, conservando as honras inerentes.

[56] Tuyuty: Batalha travada no dia 24 de maio de 1866. Foi uma grande batalha campal em que o exército paraguaio surpreendeu o dos brasileiros. O gal. Osório foi ferido por bala e teve que retornar ao Brasil. O gal. Dionísio Cerqueira, em suas Reminiscências da Guerra do Paraguai, narra o momento decisivo:

Havia bem cinco horas que combatíamos sem cessar, e não estávamos fatigados. Não há tempo que corra tão ligeiro como o das batalhas.

De quem seria a vitória?

Surge, no seu belo cavalo de combate, o General Osório, com o largo chapéu de feltro negro, o ponche flutuante deixando ver a gola bordada, a lança de ébano incrustrada de prata na mão larga e robusta, e o olhar fscinante, dominando aquele cenário trágico da glória e da morte. Ouviu-se um viva retumbante. De todos aquêles lábios sêcos, daquelas gargantas roucas, saiu imenso, entusiástico, um viva ao General Osório.

Tudo transformou-se ao tremular mágico da bandeirola da lança legendária. A nossa infantaria avançou galvanizada por aquêle homem, imensamente amado, e levou de vencida, até às profundezas densas da mata, os guerreiros inimigos, que sobreviveram à horrorosa hecatombe.

A batalha estava ganha.

[57] está escrito res cores, mas provavelmente falta um t.

[58] Antonio Luiz von Hoonholtz, Barão de Teffé (1837-?). Fez o curso da Academia da Marinha e passou por diversos cargos antes de ser promovido a Chefe de Divisão. Participou de comissões importantes quer durante a Guerra do Paraguai, quer em outras ocasiões. Foi Diretor Geral da Repartição Hidrográfica.

[59] Assim no microfilme.

[60] Assim no microfilme.

[61] Severiano Martins da Fonseca, Barão de Alagoas (1825-1889). Fez parte do Conselho do Imperador. Participou da Guerra do Paraguai, recebendo as medalhas de Paissandu e as de Mérito e Bravura Militar.

[62] Assim no microfilme.

[63] Assim no microfilme.

[64] Assim no microfilme.

[65] Assim no microfilme.

[66] Assim no microfilme., mas provavelmente estudio seja a palavra correta.

[67] Assim no original.

[68] Assim no microfilme.

[69] Assim no microfilme.

[70] Quadrinhos de gênero que invadem nossas galerias

[71] Trata-se provavelmente de João Alfredo Corrêa de Oliveira (Pernambuco, 1835 - 1919). Doutor em Direito pela Faculdade do Recife, Membro Honorário da Academia Imperial de Bellas Artes, presidente do Lyceu de Artes e Officios, socio do IHGB. Exerceu cargos políticos, como o de Deputado, Senador, Presidente da província do Pará e da de São Paulo, Ministro do Imperio, etc. Foi chefe do partido conservador.

[72] Assim no microfilme. - provavelmente centenas.

[73] Assim no microfilme.

[74] Assim no microfilme.

[75] Assim no microfilme.

[76] Assim no microfilme.

[77] Assim no microfilme.

[78] Palavra ilegívelhttp://visit.geocities.yahoo.com/visit.gif?br1146507788 http://geo.yahoo.com/serv?s=382046070&t=1146507788&f=br-w69