Jornal do Commercio: Críticas a Batalha do Avahy quando da sua primeira exposição em 1877

 

contribuição de Hugo Garilha

 

Texto disponível no site: http://www.dezenovevinte.net/

 

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Publicado em: Jornal do Commercio, 4 de abril de 1877, pag.1.

 

Título: Folhetim do Jornal do Commercio LIII - Ver, ouvir e Contar

 

Autor: não consta

 

FOLHETIM DO JORNAL DO COMMERCIO LIII

 

VER, OUVIR E CONTAR

Pariz, 7 de Março de 1877

 

 

(...)

- Não quero concluir estes rabiscos sobre litteratura e bellas-artes sem dizer alguma cousa do quadro do Sr. Pedro americo sobre a Batalha de Avahy. O quadro acha-se exposto actualmente, depois de visitado pelo monarcha brasileiro, na ex-bibliotheca do convento da Annunziata em Florença. A imprensa local tem-lhe tecido grandes louvores. Eu, apezar do rifão <<A pintura e a peleja de longe se veja>>, acho-me tão longe que não me atrevo a dar parecer sobre essa vasta obra artistica, fiando-me nos elogios que tem tido por parte dos artistas florentinos. O Sr. Pedro Americo obteve com esta obra fôro de fidalguia artistica na patria dos Medicis[1], e o seu retrato lá foi para a galeria dos Uffizi entre os dos pintores notaveis.

 

Não sei se o autor da Batalha de Avahy tenciona mandar o seu quadro para a exposição annual de Pariz (no proximo mez de maio) ou á exposição internacional de 1878. Este é o unico meio que tem para deixar o publico ajuizar do verdadeiro valor da sua obra. Em Pariz, existem criticos de bellas-artes que possuem renome europeo, e o suffragio de taes apreciadores é que póde distribuir verdadeiros encomios ou dar uteis conselhos.

 

Aqui espero a Batalha de Avahy.

 

 

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 Publicado em: Jornal do Commercio, 2 de setembro de 1877, pags. 3 e 4.

 

Título: O Sr. Fernando Osório (transcrição de um discurso na câmara dos deputados).

 

Autor: Fernando Osório

 

O Sr. Fernando Osório: - Sr. presidente, cumpro com um rigoroso dever agradecendo a esta augusta camara a urgencia que me concedeu, em sessão de ante-hontem, para fundamentar hoje o requerimento de que ella já tem conhecimento; e sem mais preambulo entro em materia.

 

No dia 19 de agosto de 1872 o governo imperial, desejando immortalisar os feitos dos nossos compatriotas na guerra do Paraguay, contratou com o pintor brazileiro Dr. Pedro Americo a pintura de um quadro.

 

O Dr. Pedro Americo partio para a Italia, e dahi, depois de longos e aturados trabalhos, voltou á sua pátria, coberto de immarcesciveis louros conquistados na Europa civilizada, trazendo o seu quadro, que pretende expôr á consideração publica, nesta capital, em breves dias.

 

Como, porém, entendo, Sr. presidente, que é de toda a conveniencia para o paiz, não deixar que fique na obscuridade tudo quanto de grande e de importante se désse em louvor da obra do insigne pintor; como também entendo que os nobres deputados que me ouvem devem ser bastante patriotas para dispensar alguns momentos de attenção na hora em que se trata de render a devida homenagem ao talento de um artista excelso, que honra a patria em que nasceu. (apoiados). Venho sujeitar ao juízo e alto apreço da camara as opiniões sensatas que se manifestárão já a respeito do quadro da Batalha do Avahy.

 

Apresentarei, em primeiro lugar, senhores:

 

 

Um tópico do parecer da Academia Real de Bellas-Artes de Florença, sobre o quadro da Batalha de Avahy.

 

 

<< Academia Real das Bellas-Artes de Florença.- Florença, 14 de fevereiro de 1877.

 

<< Os professores desta congregação academica (secção de pintura historica), depois de haverem cada um de per si examinado o quadro da Batalha de Avahy, pintado pelo Sr. Dr. Pedro Américo, professor de esthetica, historia e archeologia da Imperial Academia das Bellas-Artes do Rio de Janeiro, reunirão-se no salão da presidencia, no dia 12 do corrente mez, com o fim de manifestarem a propria opinião sobre o merito artistico daquela obra.

 

<< E os professores, aberta a discussão a proposito, e ponderada a natureza da questão, acharão-se concordes em formular a seguinte declaração:

 

<< O quadro submettido a exame revela um engenho e uma fantasia não communs, os quaes mais especialmente se manifestão no caracter bem entendido da composição e na evidencia do facto, representado em todas as suas particularidades com plena e terrivel verdade; sendo, além disto, merecedores de não escasso louvor os principaes episodios que se desenvolvem no primeiro plano do painel, onde resalta o talento, que possue o artista, de infundir o movimento e a vida até nas menores circumstancias da propria concepção esthetica. >>

 

O Sr. Pinto de Campos[2]: - Com effeito, não póde ser mais honrosoo ao artista brazileiro!

 

O Sr. Fernando Osório (lendo):

 

<< (Assignado) Emilio de Fabris.

 

<< O secretario (Assignado) Felice Francolini[3]. – Pela legalisação da firma do Sr. Emilio de Fabris, presidente da Academia das Bellas-Artes de Florença. – Florença, 7 de Março de 1877. >>

 

O prefeito, assignado: De Rolland[4].

 

Visto pela legalisação da firma do prefeito De Rolland. – Do ministerio do reino. – Roma, 13 de Abril de 1877. Por ordem do ministro, assignado: E. Noghere.

 

Ministério dos negócios estrangeiros. – Visto pela legalisação da firma supra. Roma, 13 de Abril de 1877. – O encarregado, assignado: A. de Nobili.

 

Reconheço verdadeira a assignatura do Sr. Nobili, do ministério dos negócios estrangeiros deste reino. – Roma, 13 de Abril de 1877. – Barão de Javary[5].

 

___________

 

Sr. presidente, este documento está sellado e carimbado, segundo a legislação das diversas repartições, etc., por que passou, e os professores que votárão unanimes este parecer são os seguintes, dos quaes alguns são membros da nossa academia e condecorados pelo governo brazileiro:

 

1. – Emilio de Fabris, presidente da academia, director da escola de bellas-artes, autor da frontaria de Nossa Senhora das Flôres (cathedral de Florença).

 

2. – Estefano Ussi[6], pintor de historia, commendador da corôa de Italia e da Rosa do Brazil. (Recebeu em Florença a visita de S. M. o Imperador.)

 

3. – Antonio Ciseri[7], ex-director da escola e presidente da academia de Florença. Condecorado com a commenda da Rosa. (Recebeu a visita imperial.)

 

4. – Giuseppe Belluci[8], pintor de historia, official da corôa de Italia, etc. etc.

 

5. – Miguel Cortigiani[9], pintor de historia, commendador da corôa de Italia, etc.

 

6. – Amos Cassioli[10], pintor de historia, ex-director da academia de Siena.

 

7. – Cesar Mussini[11], commendador de varias ordens, ex-presidente da academia de S. Petersburgo e decano dos artistas Toscanos.

 

8. – Annibal Gatti[12], pintor de historia, official da corôa de Italia e cavalleiro de diversas ordens.

 

9. – Nicolo Barabino[13], pintor de historia, cavalleiro de diversas ordens, etc. etc.

 

Quasi todos estes professores, verdadeiras summidades artisticas, têm pintado batalhas.

 

Eis aqui a confirmação do juizo da academia florentina pelo actual director da academia de Lucca, e primeiro pintor de batalhas da Italia:

 

<< Academia real das bellas-artes de Lucca. – Lucca, 24 de Fevereiro de 1877.

 

– Egregio Sr. professor Americo. – Os meus collegas da academia florentina estiverão, no meu conceito, abaixo do justo no juizo que exprimirão ácerca da sua obra insigne.

 

<< Eu creio em consciencia não enganar-me dizendo assim, porque avalio por experiencia propria quanto não deve ter-lhe custado imaginar e levar ao cabo uma obra de tamanha importancia, e sinto que as minhas occupações não me permittissem ir a Florença afim de tomar parte naquelle parecer, que para o senhor foi um verdadeiro triumpho.

 

<< A scena que o senhor soube representar com tão terrivel evidencia offerecia incalculaveis difficuldades; o senhor, porém, sahio tão triumphante de todas ellas, como os heróes daquella memoravel jornada.

 

<< Aceite, pois, os meus sinceros encomios, e creia-os de coração, que são dictados por quem teve a honra de illustrar as principaes batalhas do renascimento italiano. Sou, etc. – Luigi Norfini[14], director da real academia de Lucca. >>

 

O juizo do profesor Giuseppe Gherardi[15] (decano dos pintores italianos, octogenario, condecorado com diversas ordens, etc. etc.) sobre o parecer da Academia.

 

<<Florença, 24 de Abril de 1877.

 

<< Carissimo Sr. commendador.

 

<<O senhor já conhece a minha opinião sobre o seu bello quadro – a Batalha do Avahy, - opinião que não differe em nada do parecer da academia florentina, quer relativamente ao merito, quer ás difficuldades que encontrou para realizar aquella obra preciosa e admiravel. >>

 

O Sr. Martim Francisco[16]: - É pena não haver bastante dinheiro noss cofres para remunerar ao pintor devidamente.

 

O Sr. Fernando Osorio: - Se não ha dinheiro neste momento, confio que em breve o haja.

 

O Sr. Pinto de Campos: - A questão não é só de dinheiro, é de gloria.

 

O Sr. Fernando Osorio: - Sim; a questão não é só de dinheiro, é de gloria. (Muitos apoiados; muito bem.)

 

Eis aqui a carta do Sr. Peruzzi[17]:

 

Carta do Sr. Peruzzi, syndico de Florença, ex-ministro da instrucção publica na Italia, ao Duque de São Donatti[18], syndico de Napolis.

 

Florença, 10 de Maio de 1877.

 

        << Honrado senhor e collega.

 

<<...... É-me agradavel apresentar-lhe um distincto artista que honra o Brazil e que entre nós grangeou o applauso universal por aquella sua obra, que despertou a attenção e admiração de todos. >>

 

Carta do Sr. Giorgio Campani,[19] inspector geral das galerias e museus de Florença, secretario da academia della Crusca, official da Rosa, etc., etc.

 

<< Ao Sr. professor Dr. Pedro Americo.

 

<< Florença, 15 de Junho de 1877.

 

        << Meu caro amigo e illustre mestre.

...................................................................................................................................................

<< .............. Continúa-se a fallar muito do seu quadro nos circulos florentinos. Os Allemães particularmente procurão-me para saber como poderião ver o seu bello trabalho, sem saberem que elle e o seu autor já estão bem longe daqui. >>

 

O Sr. Pinto de Campos: - Estamos anciosos por ver essa maravilha da arte.

 

Carta do Barão de Santo Angelo[20] a respeito do artista

 

<< Amigo e Sr. – Para ahi volta o nosso amigo Americo, laureado e glorificado como nunca foi Brazileiro algum na Italia, e em toda a Europa do Norte.

 

<< As imprensas da Italia, Allemanha, França, Russia e Hespanha o acclamárão o mestre moderno e o productor da maior pagina deste seculo artistico, etc. >>

 

Topico de um officio do actual Sr. ministro do imperio no Brazil[21], ao Dr. Pedro Americo, em 17 de Junho de 1877. Rio de Janeiro.

 

<< ... Quanto ao mais que V. S. pondera, opportunamente, quando V. S. chegar, conversaremos a respeito, cabendo-me agora sómente a grande satisfação de felicita-lo, em nome do paiz, pelo brilhante triumpho por V. S. alcançado com a factura e exhibição publica, na Europa, de sua importante obra artistica, cujo merecimento tive aqui occasião de verificar pelas noticas dos jornaes, transcriptas da imprensa européa. >>

 

Trecho de um officio do Barão de Javary, plenipotenciario brazileiro na Italia, ao Barão de Santo Angelo.

 

<< Communique que ao receber o incluso despacho proporcionou-se-me asado ensejo para officiar ao governo imperial ácerca do particular apreço com que o distincto Brazileiro Dr. Pedro Americo foi acolhido neste paiz, e bem assim do merecido louvor com que as pessoas mais competentes têm ajuizado da sua grandiosa producção artista[22]. >>

 

Topico de uma carta dirigido a Pedro Americo pelo Visconde de Araguaya[23], ministro brazileiro junto á Santa-Sé.

 

<< Roma, 13 de Janeiro de 1877.

 

<< ...... Pelo meu amigo o Exm. Sr. Barão de Javary e pelo Sr. Guimarães tive noticia da justa apreciação que a imprensa fez do reconhecido merito de V. S. Exulto quando vejo assim exaltado um compatriota e amigo, que tanto se esforça para honrar o nosso paiz. Deus lhe dê coragem para prosseguir em seus nobres trabalhos. >>

 

Carta do Sr. conselheiro Lopes Netto[24] ao Sr. Barão de Pendedo[25].

 

Florença, 7 de Abril de 1877.

 

<< Exm. Sr. barão.

 

<< ... O quadro da Batalha do Avahy, exposto ultimamente nesta cidade, obteve geraes e merecidos applausos, que têm repercutido na imprensa de toda a Europa. Os artistas nacionaes e estrangeiros que o examinárão fazem justiça ao grande talento do autor e qualificárão o seu trabalho como um dos melhores dos tempos modernos, etc. >>

 

O Imperador do Brazil, admirando o quadro de Pedro Americo não pôde deixar de exclamar:

 

<< - Bravo! quanto estudo, quanto trabalho! Pedro Americo, tem um talento extraordinario! >>

 

E o Sr. Dr. Souza Fontes[26], medico que acompanha o Imperador na Europa, chegando a Florença, escreveu:

 

<< Afinal vi o trabalho de um pintor brazileiro que rivalisa com a batalha de Constantino, de Raphael[27]. >>

 

Sr. presidente, lerei agora o juizo da imprensa Italiana:

 

Juizo da imprensa italiana a respeito de Pedro Americo e da Batalha de Avahy, que prova o conceito em que é tido no paiz das bellas-artes o referido pintor.

 

No primeiro d’entre oito folhetins publicados no Monitore dei Teatri de Milão, lamentando as convicções materialisticas modernas, tendentes a condemnar os principios que illuminárão os grandes artistas do Renascimento, o autor exclama:

 

<< A arte moderna os condemna?

 

<< Não. Ainda ha quem os siga, quem attinja a sua perfeição sublime; ainda ha quem procure fazer renascer a arte em seus principios, idealmente pura e bella como nos tempos passados. Um novo apostolo apresentou-se na arena dos combates terriveis, para derribar com o seu indomavel engenho os idolos da convenção e os preconceitos do realismo. Este homem, que pela grandeza do seu genio, pela multiplicidade das suas obras, e pela esplendida carreira da sua vida está hoje attrahindo a attenção de toda a Europa e os universaes encomios de quantos amão e aprecião o bello; este artista, que soube levar a arte a uma tão sublime altura, é o Sr. Pedro Americo. (Vide o Monitore dei Teatri di Milano, de 5 de Janeiro e seguintes.)

 

<<A Batalha de Avahy, diz a Arte, de Roma, em seu artigo de fundo de 16 de Março, a Batalha de Ivahy[28] dotou o mundo artistico de uma obra insigne, que a bem poucos é concedida a gloria de realizar, ao mesmo tempo que á constellação dos grandes artistas mais um nome glorioso veio ajuntar-se. >>

 

<< Do que temos dito, diz o orgão official da academia de Urbino de 10 de Março, e no que concordão os nossos mais reputados mestres, parece-me poder concluir que a obra de Pedro Americo corresponde dignamente ao encargo de que se incumbio o artista e ás justas exigencias do bello; e de certo não poderá grangear-lhe menos que uma fama immorredoura, assim como um premio condigno, e daquelles que só são reservados ás obras destinadas a assignalarem uma pégada gloriosa no caminho da arte. >>

 

<< Depois do unanime juizo da imprensa, diz a Italia Artistica em outro enthusiastico artigo de fundo, fôra superfluo qualquer louvor para gloria daquelle potente engenho. De todo o coração nós nos congratulamos com o Dr. Pedro Americo pelo seu triumpho nesta nossa terra, que elle escolheu para realizar a sua grande creação. E dignem-se de acolher os eleitos estas expressões do nosso amor á arte e do nosso profundo respeito por tudo quanto é verdadeira elevação e verdadeira grandeza. >>

 

<< Póssa o exemplo de Pedro Americo, diz outro periodico, servir de incentivo aos cultores da nobre arte da pintura, para que abandonem os quadrinhos de genero que hoje em dia invadem as nossas galerias, e escolhão assumptos mais grandiosos para terem occasião de elevar a alma á perfeição do bello artistico. >> (Firenze Artistica de 7 de Março).

 

<< Fôra quasi impossivel fazer a descripção dessa vastissima tela, diz a Revista Italiana de 18 de Setembro ultimo, a qual, em vez de quadro, poder-se-hia chamar um verdadeiro poema. Sem nenhuma confusão nem incerteza, o espectador pôde abraçar nesse quadro um espaço vastissimo e milhares de combatentes. Os principaes grupos são admiravelmente dispostos. O colorido estupendo e a luz permittem ver tudo gyrar em torno das figuras e das massas, ao passo que todas aquellas figuras marciaes parecem estar se movendo, combatendo realmenteme[29], tal é o corpo e o relevo que têm, tanta vida e alma ha nellas.

 

<< Os effeitos de fumo, os episodios da guerra, os cavallos, os peões, os mortos, os feridos, tudo é obra de um pincel mestre e creador. Se, porém, aquelle gigantesco complexo sorprende e fascina, não maravilha menos a escrupulosa fieldade, o correcto desenho, a verdade minuciosa dos mais pequenos accessorios e instrumentos bellicos, quando, desprendendo-se o olhar do imponente espectaculo geral, começão a attrahir a attenção as peregrinas partes que o compõem. >>

 

Srs. deputados, a opinião expressa nos jornaes politicos é igualmente franca e lisongeira, e tanto mais de admirar, quanto Pedro Americo é na Italia um estrangeiro, de paiz que não goza do menor credito em materia de bellas-artes, accrescendo que expoz-se ao juizo dos orgulhosos Toscanos, os quaes, por terem dado ao mundo os maiores homens do Renascimento, estão persuadidos que cada um delles é um Miguel Angelo[30], e custão muito a admittir que lhes seja superior um estrangeiro.

 

<< Á primeira vista, diz a Nazione, concluindo o segundo dos seus longos artigos sobre o trabalho de Pedro Americo, o espectador não póde abranger todas as scenas varias e complexas daquella batalha e sente a necessidade de deter-se ora em um ponto, ora em outro, vendo succederem-se os diversos momentos da acção, coordenados de tal maneira, que não lhes falta a unidade, principalmente nos pontos mais distantes do primeiro plano. Á direita a confusão da batalha, a esquerda o enthusiasmo dos vencedores, aqui os combatentes enfurecidos, alli os vencidos em desordem, taes são os episodios dessa composição historica, verdadeiramente bella e de uma evidencia extraordinaria.

 

<< Entrando na sala, o visitador sente estancar-se-lhe a imaginação diante daquella immensa tela, na qual, como em vastissimo amphitheatro, offerece-se á contemplação o espectaculo de uma batalha campal.

 

<< O caracter bem comprehendido da composição geral, o movimento e a vida que a animão, até nas menores particularidades, despertão, sem que se queira, um vivo sentimento de admiração. >>

 

<< A Batalha do Avahy, diz o Sr. Julio Piccini[31], critico do primeiro jornal da Italia, esse potentissimo quadro, foi desenhado e colorido em Florença, e admirado por um povo que se póde ter em conta dos mais cultos e eleitos da terra, e que nasce com o exquisito sentimento do bello em todas as artes. (Vide Vita de um grande artista, pag. 21) >>

 

No juizo da imprensa italiana não houve, pois, influencia estranha á que resulta do esplendor das grandes obras.

 

Em um artigo do dia 2 de Março, depois de analysar rapidamente a grandiosa téla, o Corriere, outro diario politico, assim conclue:

 

<< Diante desta vasta composição, pintada com tanta potencia de imaginação, com tanta força de desenho, e com tamanho ardor de colorido, confessemos francamente que, emquanto as bellas-artes vão cahindo na Italia n’uma tão irremediavel e triste decadencia, os estrangeiros que aqui vêm admirar os nossos grandes antepassados caminhão a passos espantosos para a perfeição. >>

 

<< É que o artista, diz o Paise, jornal de Siena, de 31 de Março, não teve sómente a intenção de representar exclusivamente a batalha, porém exornando-a de tantos factos especiaes, uma guerra inteira com todas as suas consequencias de jubilo e dôr, de espanto e coragem, de miserias e afflicções. >>

 

<< Trata-se de uma obra de merito extraordinario, diz o Corriére de 16 de Março, a proposito da batalha de Avahy: de um trabalho de extraordinaria potencia de engenho, de grande talento na composição, no desenho e no colorido. >>

 

<< Só um artista americano, diz a Opinione Nazionale de 8 de Março, nascido e educado sob um céo meridional, só este douto artista, que nós tivemos a honra de hospedar, podia conceber, crear uma tão sublime tragedia.

 

<< Não nos estenderemos mais sobre a execução da maravilhosa téla do Dr. Americo, sobre a verdade dos caracteres e dos costumes, sobre a fidelidade da execução; diremos sómente que a essa grandiosa producção o autor consagrou toda a sua inspirada mente de artista; que a grande riqueza da sua palheta diffundio-se nos esplendores do colorido, emquanto a profundeza do seu genio deixou de si largo testemunho no escrupuloso estudo dos diversos typos, caracteres e expressões. Representando em toda a sua terrivel verdade e belleza um dos factos mais gloriosos da grande nação brazileira, essa atrevida composição é tão sublime, tão admiravel, que de certo tornará immortal o seu autor, e deverá encher de orgulho o paiz que servio-lhe de berço e o inspirou. >>

 

<< A Batalha de Avahy, conclue a Opinião, permanecerá como uma cara memoria legada ás futuras gerações brazileiras, as quaes no readmira-la sentirão em si um nobre orgulho, lisongeadas de terem tido a Pedro Americo por concidadão. >>

 

Sr. presidente, um dos melhores periodicos artisticos da Italia, o Figaro, fallando das peregrinas qualidades, do talento de Pedro Americo, observa que << além dos seus dotes naturaes, influio muito nessas qualidades a educação do artista; tanto, diz o Figaro, que não se poderia recommendar demasiado ás academias de bellas-artes a instrucção como a verdadeira disciplina de quem segue a carreira das artes.

 

<< Pedro Americo, homem que teve por dote natural um robusto engenho, uma prompta e férvida fantasia, reune a todos estes dons ingenitos a fortuna de uma intelligencia educada em fortes e severos estudos. É um homem que concilia em si o douto e o pintor, dualidade que se identificão completamente nelle, quando se trata de crear uma obra como a Batalha de Avahy. Nesta, com effeito, admira-se Pedro Americo como pintor e como poeta, como imaginador e como observador.

 

<< Reduzindo uma batalha a uma epopéa, aquella esplendida téla levará, cheio de seducções e encantos, o facto das margens do Avahy ás gerações futuras. >> (Vide o Figaro de 15 de Março. >>

 

Em um opusculo escripto pelo professor Beeccher Ussi[32], physiologista, a respeito do grandioso trabalho do nosso compatriota, assim se exprime o notavel adversario dos materialistas.

 

<< Lendo a Divina Comedia, admirando as obras de Praxitelles[33], de Phidias[34], de Raphael, como o quadro de Pedro Americo, quem poderá aceitar a opinião dos materialistas, segundo a qual todas essas divinas creações são apenas simples e variaveis productos da secreção do cerebro, ou resultados da vida vegetativa?

...................................................................................................................................................

<< A Batalha de Avahy é um estupendo modelo, de que não se admirão mais do que tres ou quatro exemplos em todas as galerias da Europa. Assim, quer consideremos esse grandioso quadro como producto extraordinario do espirito humano, quer como fructo de acuradissimo estudo, devemos desejar que semelhantes obras se reproduzão em todas as nações, porque ellas são como um hymno perenne de gratidão, entoado em louvor daquelle que no dia da creação deu ao homem em partilha a intelligencia (vide Illustrazione del quadro la Bataglia di Avahy; Florença, Fevereiro de 1877). Seja, pois, que as grandes dimensões do quadro abrissem largos horizontes á sua fecunda imaginação, diz um illustre autor Milanez – seja que no arduo labor quizesse o artista exceder-se e mostrar-se superior á sua fama, o facto é que a Batalha de Avahy é uma creação tão gande, um tal prodigio de pintura, que offusca os sectarios de qualquer escola, de qualquer seita. Elevação de pensamento, correcção de desenho, sublimidade de expressão, verdade e potencia de colorido, luz admiravel, vida, movimento, tudo quanto se póde desejar, emfim, n’uma pintura para que se lhe possa applicar o nome de primor (di capolavoro) ahi se acha reunido.

 

<< Inegavelmente é necessario ter-se uma não commum potencia de imaginação para abalançar-se a representar semelhantes tragedias!

 

<< Diante daquelle quadro, quasi por intuição comprehende-se o caracter e vive-se da vida daquelle povo ardente e enthusiasta. Alli o furor do heroismo, o terror, a compaixão, o odio, a vingança, a dignidade, a coragem; aqui os contrastes da idade, a variedade das attitudes, a gradação dos affectos, tudo concorre para dar á composição uma belleza tal, que domina o espectador e o enche de admiração.

 

<< Eu creio que jámais um assumpto bellicoso foi representado de modo mais verdadeiro e mais sublime; eu creio que jámais houve união mais estreita e mais feliz entre a verdade historica e a arte ideal.

 

<< Por mais, porém, que eu me cansasse em vos explicar, nunca poderia fazer-vos conceber senão uma idéa incompleta dessa maravilhosa téla: é preciso vê-la para julga-la. >> (Vide Studi sulle Belle arti, com observações sobre a vida e as obras do grande pintor brazileiro Dr. Pedro Americo, Milão 1877.)

 

Srs. deputados, a Gazeta de Italia, isto é, o periodico politico mais conceituado da peninsula, sob o titulo de Vida de um grande artista, dedica a Pedro Americo um grande e eloquente folhetim de duas paginas, das quaes a primeira é consagrada á biographia, a segunda ás obras do nosso compatriota. Entre estas estão analysados os seus opusculos scientificos, dos quaes mais particularmente occupa o autor do folhetim precitado um livro inedito de Pedro Americo já em parte traduzido em italiano.

 

Depois de citar uma parte dessa obra, toda relativa á Italia, << eis, exclama, como escreve este pintor! >> (Gazeta de Italia de 25 de Março de 1877, supplemento.) É de observar que no dia em que foi publicado este folhetim, a Gazeta de Italia, cujo preço ordinario era de 40 rs., foi vendida, como consta do proprio jornal, a 100 rs.

<< As nosssas primeiras notabilidades, assim artisticas como litterarias, diz o Stafetta de Napoles de 10 de Janeiro, reconhecem no illustre commendador Pedro Americo o verdadeiro typo da erudição. >>

 

Iriamos longe senhores, se continuassemos a citar os escriptores e os periodicos que nos fallão do autor da Batalha de Avahy, quadro cuja exposição foi saudada na Italia como um verdadeiro acontecimento, um vero avrenimento, segundo affirma a Perseveranza de Milão (11 de Março), o Direito de Roma, e o Renascimento de Veneza (10 e 13 de Março), bastando o que acabo de transcrever para prova de quanto merece aquelle que os Italianos chamão <<benemerito de sua patria, divino artista, etc. >> (vide Illustrazione del quadro la Bataglia di Avahy, p. 4), e que, segundo escreve uma das mais bem talhadas pennas da Italia, << desde verdissimos annos sentia-se chamado a dotar o mundo inteiro das suas idéas; a recomeçar a obra interrompida dos seculos passados, tentando augmentar-lhe a grandeza. >> (Studii sulle belle arti, etc., etc., p. 11.)

 

Sr. Presidente, se, além dessa solemne manifestação de apreço da imprensa italiana, fossem necessarias maiores provas para nos convencerem do quanto, longe da patria, é admirado o pintor da Carioca e da Batalha do Campo-grande, bastaria considerarmos o facto de ter-lhe mandado pedir o retrato a direcção geral das galerias e museus reais, e depois de lh’o entregar o artista colloca-lo ella, e por ordem do ministro da instrucção publica, na galeria real degli Uffizi, onde figura entre os retratos autographos do Ingres[35] e do Flandrin[36], antigos mestres do artista brazileiro.

 

<< O abaixo assignado, diz-lhe em officio de 27 de Junho o director das reaes galerias e museus de Florença, sente o dever de agradecer-lhe o retrato autographo que se dignou de remetter-me depois das repetidas instancias desta direcção, e pelos cuidados da qual será brevemente collocado na insigne collecção dos retratos dos antigos mestres da pintura, que se admirão na Real Galeria dos Officios.

 

<< É-me grato apresentar-lhe um distincto artista que honra o Brazil, disse em carta de 10 de Abril o Sr. Peruzzi, ex-ministro da instrucção publica na Italia, ao syndico de Napoles, e que entre nós acaba de encontar o applauso universal com aquella sua obra, que attrahio a attenção e despertou a admiração de todos. >>

 

Não é, pois, injusta, immerecida esta solemne prova de admiração áquelle que << no meio de tantos triumphos sabe conservar-se simples e chão, não se desprezando na magnanimidade da sua alma por apertar a mão e tratar affavelmente a quem quer que o procure, com aquella modestia propria do verdadeiro talento, e que parece pedir conselho e approvação, ao passo que revela uma grandeza de animo que sorprende e fascina. >> (Monitore dei Teatri, Milão, 26 de Janeiro).

 

<< Fazer que ao esplendor do genio, diz sob um modesto pseudonymo a Sra. marqueza E. Cantú, ás creações da imaginação associem-se a verdade e a nobreza da concepção; tanger as mais delicadas fibras do coração; educar o povo no sentimento do bello, do sublime; eleva-lo ás nobres aspirações patrioticas, tal é o maior triumpho do artista.

 

<< Nenhum quadro poderá ser saudado pelo Brazil com maior affecto do que este, que com tamanha verdade reproduz os gestos, o caracter, os costumes, a physionomia do seu povo, immortalisando assim uma das mais esplendidas paginas da historia brazileira, um dos factos mais gloriosos daquella grande nação.

 

<< O governo brazileiro está preparando ao illustre artista uma esplendida recompensa adequada ao seu merito... como o reconhecimento dos seus compatriotas prepara-lhe larga e merecida recompensa pelos sacrificios de todo o genero que elle tem soffrido pela gloria de sua cara patria. >>

 

<< Ainda poucos dias, e Pedro Americo partirá em direcção ao Brazil.

 

<< Salve artista philosopho! Que a tua viagem seja prospera e feliz... tal é o nosso augurio; que prestes voltes para entre nós... este é o desejo de todos os Italianos que tiverão a fortuna de conhecer-te!

 

<< Em uma idade em que tantos outros limitão-se a sonhar os successos do porvir, tu, Pedro Americo, chegaste ao apogêo da gloria. Tu és um daquelles artistas que imprimem na face de um seculo o seu nome indelevel... um daquelles homens, cujas obras gloriosas fazem meditar os philosophos, cantarem os poetas e scismarem os povos (favolleggiare i popoli). Quaes novos triumphos posso eu augurar ao teu merito? >> Vide Studi sulle arti, Milano 1877, pag. 26 e seguintes.

 

Tal é o juizo dos Italianos sobre o nosso compatriota.

 

Sr. presidente, não posso, no limitado espaço de que disponho, apresentar todos os elogios que por muitos outros jornaes italianos forão tecidos ao Dr. Pedro Americo.

 

O Sr. Anisio da Cunha: - Elogios muito merecidos. (Apoiados.)

 

O Sr. Fernando Osorio: - Peço permissão para ler agora:

 

O juizo da imprensa européa a respeito de Pedro Americo e da batalha de Avahy.

 

A grande reputação de Pedro Americo, senhores, reputação de que, como vimos, nos dá tão unanime e lisongeiro testemunho a imprensa italiana, não se acha encerrada nos limites da privilegiada peninsula; fóra della, e podemos dizer por toda a Europa, nós a achamos grande, brilhante, e venerada como no berço dos mais illustres pintores.

 

Com effeito, desde Napoles até S. Petersburgo, desde Madrid até Vienna, toda a imprensa tem sido unanime em reconhecer na ultima creação do nosso compatriota uma obra extraordinaria, e digna dos maiores genios da pintura.

 

Importantissimos orgãos vão mais longe: comparando Pedro Americo com os mais reputados pintores modernissimos, como Morelli[37], Kaulbach[38], Yvon[39] e Horacio Vernet[40], attribuem-lhe qualidades verdadeiramente superiores; o que de certo deve lisongear o patriotismo de quem quer que sinta algum orgulho em ser filho desta nobre terra.

 

<< A batalha de Avahy, diz o Golos, primeiro orgão politico da Russia, é um quadro onde á grandeza de concepção, á elevação da idéa e á força do desenho, corresponde uma execução a que só achamos igual na escola veneziana. As posições das figuras são as vezes difficilimas, porém o artista não as quiz forçar: fê-las naturaes, espontaneas, cousa bem rara nas obras de tal força de concebimento. Todas as grandes qualidades da arte achão-se reunidas nessa vasta composição, com maestria completa e extraordinario talento. Ha muito tempo, dizem os jornaes italianos, não se via em Italia cousa semelhante. Pedro Americo já era conhecido tanto pelos seus opusculos scientificos como pelos seus talentos litterarios; mas a obra que o tornou devéras universalmente celebre foi a batalha de Avahy. >>

 

(Vide a Voz de S. Petersburgo de 16 de Março de 1877.)

 

<< A batalha de Avahy, diz a Estrella, de Stockolmo, da mesma data, marcou uma época na historia da arte moderna: ella representa a reacção triumphante do espirito philosophico contra as escolas realistas que tanto tem alluido os grandes principios da arte em nossos dias. Sob esse ponto de vista é uma creação sem rival neste ultimo quarto de seculo. >>

<< O autor deste quadro, diz o Londoner Zeitung, é actualmente considerado o chefe da escola idealista na Europa. Toda a imprensa italiana está cheia de elogios a seu respeito, e não cessão de repetir que a grande obra, pelos muitos meritos que encerra, recorda, sem que se queira, o mestre dos mestres: Miguel Angelo.

 

<< É o maior quadro de batalha que existe, e quiça mesmo o mais bello; composição, colorido, verdade dos typos, execução, tudo é obtido com singular maestria e explica-se com uma clareza admiravel. >>

 

(Citado pelo Diario de Noticias da Bahia de 5 de Abril ultimo)

 

<< Além dos dotes artisticos que distinguem este quadro, diz La Escola, de Madrid, achamos-lhe ainda o merito de representar com extraordinaria evidencia os horrores da guerra; e sem duvida influirá em quem o contemplar para que aquilate devidamente os triumphos obtidos á custa de tamanhos sacrificios. >>

 

<< Pedro Americo, diz o Imparcial, de Barcelona, de 14 de Março ultimo, é um compositor de primeira ordem, e de que só offerecem exemplo hoje em dia as sabias e profundas escolas germanicas. Mas não se póde dizer que seja sómente compositor; que outros dotes, e sobretudo o de colorista e desenhista escrupuloso, distinguem-o dos representantes dessas escolas, em que a profundeza philosophica suffoca ou desconhece todos os mais requisitos, como a delicadeza e a côr, indispensaveis ás artes figurativas da fórma. >>

 

O Daily News, consagrando a Pedro Americo um longo artigo em que, sob uma luz sympathica ao Brazil, o autor estuda a nossa ultima questão com o Paraguay, declara que o quadro apresenta << qualidades novas, incidentes inteiramente originaes, que não se observão nos quadros do mesmo genero. >> Depois, analysando o trabalho, diz que não só pela sua grandeza como pelo merito que revela << atrahirá sempre, e onde quer que seja exhibido, a attenção geral e o universal applauso. >> (Vide o Daily News de 16 de Março. ) Um periodico justamente reputado pela justeza das suas apreciações, o Touriste d’Italie, resume do seguinte modo as qualidades assim do quadro como do seu autor:

 

<< Este painel é obra do Dr. Pedro Americo, pintor brazileiro de um grande talento e que não é sómente artista, senão tambem litterato, naturalista, orador e philosopho. A Batalha de Avahy é uma composição vasta e grandiosa, admiravelmente desenhada, bem pintada, de um colorido veneziano, e lembrando muito Miguel Angelo, tanto pelo ardor espontaneo com que parece ser feita, quanto pela grandeza da concepção, e pela força dos escorços.

 

<< Mais de 400 figuras, das quaes umas 20 no primeiro plano, meio nuas, nas posições as mais difficeis, porém sempre naturaes e sem violencia, sem contorsões inuteis, attestão os conhecimentos do pintor, quer como physionomista, quer como desenhador de grupos e de movimentos.

 

<< Além disso vêem-se no seu quadro carretas, cavallos, bois, mulheres e crianças; differentes retratos de generaes brazileiros e paraguayos, um vasto e delicioso campo, em parte inundado pelas aguas do rio Paraguay, e meio encoberto pelos vapores da manhã, pela chuva que cahe ao longe e pelo fumo dos canhões; a lama sob os pés dos combatentes; moribundos, cadaveres, soldados trigueiros, negros e bronzeados; typos do mais puro sangue americano; contrastes de luz, de sombras, e de côres; todas as circumstancias, finalmente, que podião influir para augmentar a belleza de uma obra destinada a immortalizar uma luta entre dous povos meridionaes, naquellas longinquas regiões, alli se achão reunidas com o maior talento e do modo o mais victorioso.

 

<< Desde muito tempo não se via mais na Italia um trabalho tão notavel. Pedro Americo é ainda muito moço; todavia sua vida é tão cheia de factos interessantes, tão fecunda em obras notaveis, e accidentada de luctas e triumphos de toda a sorte, que excita um estudo e uma curiosidade tanto maiores, que trata-se de um mestre na idade de 33 annos apenas, e cujo nome, illustre nas sciencias, na litteratura e nas bellas artes, tornou-se verdadeiramente universal, depois de subscrever aquella grande pagina, uma das mais admiraveis da pintura moderna. >>

 

Tal é igualmente, em substancia, a critica da Independecia e da Estrella do Norte.

 

Mas, Sr. presidente, é principalmente na Allemanha, naquelle centro de actividade intellectual, naquella nação profunda, que hoje em dia se sabe aquilatar devidamente o talento e a instrucção de Pedro Americo. Sem os enlevos que caracterisão as raças meridionaes, a imaginação enthusiastica dos povos latinos, os seus criticos analysão entretanto, fria e conscienciosamente, como quem teme offender a razão divina, ou irritar a sensatez dos justos; e só exprimem o seu juizo depois de terem meditado profundamente.

 

Os elogios que prodigalizão ao autor da batalha de Avahy são tanto mais dignos de admiração, quanto é certo que, sciente do seu grande papel no desenvolvimento e trabalho da civilisação moderna, aquelle povo grave e meditado custa muito e com razão a reconhecer em um estranho qualidades superiores ás dos illustres representantes do seu genio nacional.

 

É por isso, por essa prudente e bem entendida parcimonia de louvores a quem não os merece plenamente, que os louros ganhos na Allemanha devem encher de orgulho o nosso compatriota.

 

Ora, não ha provincia na Allemanha, não o ha quasi na Austria, aonde o nome de Pedro Americo não tenha sido repetido, quer nos periodicos especiaes, quer em folhetos, e nos orgãos politicos mais importantes, do modo o mais lisongeiro e honroso para o artista brazileiro e para a sua patria.

 

<< A batalha de Avahy, diz o Salão, de Leipzig, é uma composição grandiosa e fascinante pela incomparavel belleza do colorido.

 

<< A Imperatriz dos Francezes sustentava, contemplando-o, que jámais vira quadro em que a unidade de acção fosse com tanta excellencia observada. Demais é opinião que o governo brazileiro, para quem é feito, como se sabe, mostrar-se-ha reconhecido, correspondendo generosamente ao desempenho de tão pesado encargo. >> (Vide Der Salon, Leipzig, caderno n. 5.)

 

<< De todas as creações modernas que attrahem a nossa attenção, diz a Gazeta de Vilsbaden de 6 de Março, a batalha de Avahy é incontestavelmente a mais notavel, a mais original. O autor dessa gigantesca creação é o Dr. Pedro Americo, chefe actual da escola idealistica na Europa. A batalha de Avahy é talvez o mais bello quadro de batalha conhecido, pois a todos os respeitos é uma obra completa e magistral. Quem o contempla vê logo o que ha nelle essencial.

 

<< Como um verdadeiro quadro historico, é elle claro e simples, não obstante a grande quantidade de objectos que enchem a tela. Os grupos são desenhados com uma energia tal, que recordão Miguel Angelo. >>

 

<< Diante dessa tela, diz o Quellvasser furs deutsche haus, de 25 de Fevereiro, pergunta-se involuntariamente como é possivel que pudesse a jovem escola americana attingir em tão pouco tempo a tão alta perfeição.

 

<< Até agora é opinião geral que esse trabalho póde ser posto ao lado das mais celebres creações dos grandes pintores antigos da Italia.

 

<< Esse quadro foi avaliado quanto ao seu valor pecuniario; mas é de crer que o governo brazileiro seja muito mais generoso com o grande artista. >>

 

<< A batalha de Avahy, diz o Bromberger Zeitung, de 10 de Maio é um painel que grangeou ao autor um nome universal. Em mais de 300 periodicos de todos os paizes apparecérão artigos sobre aquella obra colossal. Na Allemanha apreciárão-o especialmente o Illustrirte Zeitung, o Leipziger Vissenschaft Beilage, o Hausfreund, o Uber Land und Meer, o Salon, o Frankfurler Museum, o Quellvasser, e muitos grandes periodicos berlinenses, com as criticas as mais judiciosas. Além de dar-lhe o titulo de barão, deverá o governo brazileiro remunerar generosamente o autor do quadro. >>

 

<< Estamos á espera de saber o que fará o governo brazileiro com o autor desse quadro incomparavel – diz o Litterarische Dilettanten Schule, n. 4 de Dresda. O Dr. Americo é indubitavelmente o mais dotado e importante pintor dos nossos tempos, e sobre isto todos os criticos estão de accordo. >>

 

<< A execução do painel é magistral – diz o Gegenvart, de Berlim, de 26 de Maio ultimo, a impressão que causa a grandiosidade da composição, a vida e os movimentos dos exercitos que combatem, e sobretudo a expressão indomita dos selvagens paraguayos é extraordinaria. Igual impressão causa o acabamento artistico, a admiravel luz do quadro, o esplendido colorido. E pois não é para admirar que não se cansem os periodicos da Italia em tecer elogios ao grande brazileiro, nem que partilhem a opinião italiana a imprensa allemã, franceza e russa. >>

 

<< Antes de continuar a minha viagem até Napoles, diz o correspondente do Bromberg Zeitung (21 de Abril), quiz vêr em Florença o celebre quadro de Pedro Americo.

 

<< O aspecto desse trabalho fascinou-me. Diante delle esqueci-me dos thesouros da arte, que eu havia admirado nas galerias de Versailles, Roma, Dresda, Madrid e Vienna. As creações de Ivon, de Vernet, de Kaulbach desapparecérão ante essa imponente pintura, na qual parecia-me estar admirando todos os dotes de Corregio[41], Raphael e Miguel Angelo.

 

<< Tornei-me enthusiasta de Pedro Americo, e com prazer vi a minha opinião partilhada pelos melhores orgãos da imprensa austriaca, allemã, americana e russa. Os criticos do Times, do Daily News, da Independencia, do Golos, e um grande numero de orgãos hespanhóes, francezes, e americanos concordárão em igual enthusiasmo. Algumas pessoas disserão-me, entretanto, que eu fosse a Napoles, aonde talvez encontrasse cousa melhor. E eu fui a Napoles: Pedro Americo appareceu-me então como um inattingivel mestre, um incomparavel talento. >>

 

Sob o expressivo titulo Um moderno Raphael, publica o Hausfreund um artigo igualmente honroso para o artista brazileiro. (Vide os ns. 17 e 19, pags. 263, 303 e 304.)

 

Sob o titulo Um principe dos pintores actuaes, traz o Neue Vestpreuuszische Miiltheilunger, de 25 e 27 de Setembro de 1876, dous longos e bem pensados artigos sobre o nosso compatriota e a sua obra capital, a qual é proclamada uma das primeiras deste seculo.

 

Finalmente, em muitos e importantes jornaes que temos á vista, como por exemplo: o Neues Berliner Tageblatt de 13 de Maio, o Elberfelder Zeitung de 7 de Fevereiro, o Berliner Borsen Zeitung de 6 de Março e outros, o Litterarische Dilettanten de 30 de Março e outros, o Publicistische Blatter de 11 de Março e outros, o Gegenvart de 26 de Maio, o Journal fur Redacture, etc., etc.; em todos esses periodicos, dos quaes alguns são orgãos do governo, é Pedro Americo proclamado o cabeça actual da grande escola idealistica européa.

 

<< Nas suas composições, diz o Dr. von den Borne[42], isto é, o critico o mais abalisado da Allemanha em materia de bellas-artes: ha mais unidade do que nos quadros de Kaulbach, mais precisão nas circumstancias, mais fidelidade na verdade. O genio de Pedro Americo é, pois, mais vasto, mais profundo, mais harmonico, do que o do nosso mestre allemão. >> (Vide o Publicistischer Blatter, de Vienna, e o Museum, de Frankfort, de 6 a 11 de Março.)

 

<< No dominio da litteratura philosophica, diz o Vestpreuzische Mittheilungen de 2 de Setembro de 1876: ganhou o Dr. Pedro Americo um grande nome por uma serie de obras profundamente pensadas e distinctas. Seu livro sobre as sciencias e os systemas, publicado em 1869, contém n’um estylo claro, e por assim dizer pratico, grande cópia de conhecimentos d’arte; nelle o autor flagella com eloquencia os erros de algumas escolas, estabelecendo em melhor