Gonzaga Duque: A arte brasileira, 1888
É um mineiro que possui a verve, a sagacidade de um parisiense bulevardeiro. Na rua, de pé sobre a soleira de uma porta, no Café Inglez ou na Casa Havaneza, o seu tipo pequeno, forte, buliçoso, destaca-se da multidão. Quando solteiro, foi um boêmio desregrado, um perfeito tipo à Murger.
Entre camaradas, na rua do Ouvidor, com o narizinho arrebitado e atrevido farejando os pacatos burgueses para lhes agarrar o ridículo, tinha na cabeça um cento de assuntos para pintar e em casa um cento de quadros para concluir. A sua predileta musa era a que inspirou e imortalizou Daumier e Gavarni e, a bem da verdade, deve-se dizer que, depois de Borgomainerio e Bordalo Pinheiro, ninguém tem feito, no Brasil, melhores caricaturas. Só depois de casado e depois de viajado; depois de ter visto de perto quanto trabalho e quanta dedicação são precisos para o artista conquistar um nome foi que ele abandonou a boemia de uma vez para sempre. A única coisa que ele jamais abandonará é a toilette.
O vestuário é para Belmiro o que foi para Honoré de Balzac e para Alphonse Karr, o que é para Daudet e para Carolus Durand, o que é para Léon Bonnat e Rochegrosse: uma feição artística, um sintoma do bom gosto e do asseio ou, como lhe chama o mestre, o senhor Ramalho Ortigão, a expressão gráfica, pessoal de uma filosofia. Ter toalete, ter saúde e ter dignidade são necessidades de um homem que se preza e possui talento. Um peralta, suinamente estúpido e profundamente canalha, canalha desde a medula dos ossos até os poros da pele, pode vestir-se bem, trajar-se no rigor da moda, mas nunca terá toalete, porque não tem individualidade, porque não tem sentimento artístico.
Entre o vestuário à moda de um homem de talento e o de um sevandija há uma distinção enorme; tão grande como a que existe entre as unhas de uma Lady para as unhas de um carvoeiro. O sevandija de rua e de porta de café, o peralta que vive do jogo e do dinheiro das concubinas, por maior cuidado que desenvolva no seu vestuário, estará sempre mal vestido. O vestuário de Belmiro é o de um homem de talento e de gosto. E existe uma certa relação entre a sua maneira de vestir com a sua maneira de pintar e sentir os assuntos. Ele pinta e vê a natureza de um modo muito diferente pelo qual pintam e vêem outros artistas. Em 1883, por um capricho, pintou uma marinha. Era o naufrágio do Mont-Serrat, que deu à costa próximo da barra do Rio de Janeiro. Não obstante ser a primeira vez que interpretava tal assunto, saiu-se muito bem. A água, o horizonte enegrecido, o barco desarvorado lutando com a fúria das vagas, impressionavam diretamente o espectador. A pintura, mais do que o assunto, acusava uma personalidade. Tinha vigor e franqueza. Mas, pouco vale este quadro para dar nome a um artista e, cônscio desta verdade, Belmiro estudou muito, trabalhou com interesse para concluir uma tela que lhe desse maior merecimento. Este quadro ele acaba de pintar [Arrufos]. É um episódio doméstico, uma rusga entre cônjuges. O marido, um rapaz de fortuna, chega em companhia da esposa à bonita habitação em que viviam até aquele dia como dois anjos. Tudo em redor demonstra que aquele interior é presidido por um fino espírito feminino, educado e honesto. Ela, no encanto desse interior à bric-a-brac, depõe o toucado de palha sobre um mocho coberto por um belo pano de seda e entra em explicações com o esposo. E ele, muito a seu cômodo em um fauteuil de estofo sulferino, soprando o fumo do seu colorado havana, responde-lhe palavra por palavra às explicações pedidas. Há um momento em que ela excede-se, diz uma frase leviana; ele reprova, ela retruca, ele repele; então ela não se pode conter, é subjugada por um acesso de ira, atira-se ao chão, debruça-se ao divã para abafar entre os braços o ímpeto do soluço. É este o momento que o artista escolheu. Da esposa, debruçada sobre o divã, vê-se apenas o perfil, mas ouve-se-lhe os soluços que fazem estremecer o seu corpo.
Debaixo do seu vestido foulard amarelo percebe-se o colete, o volume das saias, os artifícios exteriores que a mulher emprega para dar harmonia à linha do corpo. Na fímbria do vestido, a ponta do sapatinho de pelica inglesa ficou esquecida sobre o tapete do assoalho, como se propositalmente, animada por estranho poder, tomasse aquela atitude para contemplar a rosa que caiu do peito da moça e jaz no chão, melancólica, desfolhada, quase murcha, lembrando a olorente alegria que se despegara do coração da feliz criatura naquele tempestuoso momento de rusga. E o esposo, um guapo rapaz delicado e forte, num gesto de indiferentismo, atende a tênue fumaça que se desprende do charuto, levantando-o entre os dedos em frente do rosto.
Ainda no Rio de Janeiro não se fez um quadro tão importante como é este. Os assuntos históricos têm sido o maior interesse dos nossos pintores que, empreendendo-os, não se ocupam com a época nem com os costumes que devem formar os caracteres aproveitáveis na composição dessas telas. Belmiro é o primeiro, pois, a romper com os precedentes, é o inovador, é o que, compreendendo por uma maneira clara a arte do seu tempo, interpreta um assunto novo. Vai nisto uma questão séria - menos o de uma predileção do que a de uma verdadeira transformação estética. O pintor, desprezando os assuntos históricos para se ocupar de um assunto doméstico, prova exuberantemente que compreende o desideratum das sociedades modernas e conhece que a preocupação dos filósofos de hoje é a humanidade representada por essa única força inacessível aos golpes iconoclastas do ridículo, a mais firme, a mais elevada, a mais admirável das instituições - a família.
É desta arte que o povo necessita, porque é a que lhe fala intimamente das alegrias e das desilusões cujos sulcos ainda permanecem em seu coração. É da arte que a Inglaterra, melhor do que qualquer das atuais nações artistas, empreende e pratica pelo gênio de Millais e Stone, de Walker e Wells, que nós, os filhos de hoje, os trabalhadores de paz e da reconstrução social, precisamos.
As grandes telas históricas, os assuntos militares, os bíblicos, as alegorias, pertencem ao muro dos templos, dos edifícios do Estado, dos aquartelamentos. As pequenas paisagens animadas, paisagens alegres, sítios encantadores em que a inteligência do imigrante levantou a choça e plantou de flores; os pequenos quadros de episódios domésticos; as crianças que brincam na relva viçosa dos jardins, os velhos enrugados que vêm ler os jornais à porta que abre para o pomar de laranjeiras em flor; as mocinhas rosadas que borrifam as violetas, a gravidade elegante da haus-frau que se ocupa nos afazeres da casa, a representação viva, tocante de impressão e de observação, das cenas domésticas, de uma rusga, da alegre chegada de um filho, da partida de um ente estimado; a leitura à noite em torno do lampião, na mesa redonda da sala de jantar; a merenda dos pequenitos, de olhos esgazeados e bocazinha faminta, sentados no regaço de suas mamães que repassam a colher na tigela do caldo; toda essa infinita multidão de episódios e de cenas, são os assuntos que mais comovem, mais impressionam ao homem de hoje. E de fato; um chefe de família, ainda moço e instruído, não irá suspender ao muro do seu gabinete ou da sua sala quadros de assuntos bíblicos ou militares. A casa de família, sendo um alegre santuário de paz, não comporta o peso sanguinolento dessas cenas de guerra, dessas trágicas representações dos suplícios inquisitoriais nem a representação estúpida das solenidades oficiais. Nela, na casa de família, a mobília, como tudo quanto fizer parte da decoração, deve ter um caráter real e firme, deve, antes de tudo, ter um cunho de honestidade e verdade.
Belmiro fez bem em pintar este quadro. A sua pintura, disse eu, tem semelhança com o seu vestuário.
É alegre, é caprichosa, é nova. As tintas são claras e simpáticas, os toques são rápidos, largos e bem lançados. Nenhuma pretensão ao empastamento, nenhuma pretensão à mancha descurada se notam neste trabalho. O toque é sempre apropriado. Os estofos, a carne, os metais têm aí a sua tonalidade justa, exatíssima. O foulard que veste a mulher, a casimira de que é feita a roupa do homem, os panos que estão na parede do fundo, as almofadas do divã, o estofo do fauteuil e o pedaço de seda que cai em dobras da banqueta do primeiro plano são pintados com a máxima precisão e delicadeza.
Belmiro possui, portanto, muita sensibilidade de vista e muita destreza de punho, qualidades estas que se acham reunidas a uma feliz compreensão de seu tempo e do destino da pintura moderna.