Gonzaga Duque: A arte brasileira, 1888
Para quem estuda o desenvolvimento da arte no Brasil, o nome que encima estas linhas é o mais simpático e o mais importante que se lhe apresenta.
Manuel de Araújo Porto-Alegre nasceu na então vila, hoje cidade, do Rio Pardo, na província do Rio Grande do Sul, a 20 de novembro de 1806.
Aos cinco anos de idade perdeu seu pai; tendo sua mãe passado a segundas núpcias, foi seu padrasto quem o mandou educar. Aprendeu as primeiras letras em Porto-Alegre e no Rio de Janeiro, onde estivera por algum tempo em 1816. Já era o primeiro e o mais instruído na escola, quando pela primeira vez gazeou para ir ver pintar a iluminação que a Câmara de Porto Alegre mandara fazer pelo nascimento do Príncipe da Beira. Nas aulas, que então havia nesta cidade, de latim, francês, filosofia, geografia, álgebra e geometria, fez os estudos clássicos com o maior aproveitamento. Desde a infância mostrou sempre muita inclinação para o desenho e as ciências naturais, pois passava as horas vagas a pintar e colher produtos da natureza, dos quais tinha no seu quarto um museuzinho preparado por ele.
Aos dezesseis anos, querendo ter uma profissão, escolheu a de relojoeiro. Já ajudava seu mestre J. Jacques Rousseau e trabalhava na confecção de rodas e carretéis, quando chegou a Porto Alegre um jovem francês, Francisco Ther, que havia estudado alguma coisa de desenho. M. de Araújo ligou-se de amizade com ele, que era hóspede de seu mestre, e começou a pintar; mas, em pouco tempo, o excedeu, porque Ther era apenas um curioso. O seu mestre de relojoaria, vendo aquela vocação tão pronunciada, aconselhou-o a seguir a pintura, avivando-lhe o espírito com a narração que lhe fazia das maravilhas de Paris e da Espanha, onde tinha servido e batalhado no tempo de Napoleão I. Havia então em Porto Alegre um retratista de nome Manuel José Gentil e um pintor de decorações chamado João de Deus; o primeiro não queria ensinar a ninguém, e o segundo era apenas um bom encarnador de imagens. Pelo que observara nas poucas vezes que era admitido a ver trabalhar estes homens, aprendeu o manejo das tintas a óleo e começou por si mesmo a fazer alguns painéis.[...]
Seduzido por José Simeão para ajudá-lo nas pinturas que estava fazendo em uma casa, tomou gosto por esse gênero de trabalho e começou a trabalhar por conta própria; tais progressos fez que o orgulhoso João de Deus não duvidou convidá-lo para o ajudar nas pinturas que estava fazendo em outra casa.
Vendo nesta a gravura de C. S. Pradier, segundo Jean Baptiste Debret, representando o desembarque de Sua Alteza Real a Arquiduquesa D. Carolina Leopoldina, e sabendo que o pintor estava no Rio de Janeiro, concebeu então a idéia de vir para a corte aprender a pintura com J. B. Debret, mas não pôde realizar o seu desejo, não só por não ter ânimo de deixar sua mãe sozinha, mas ainda porque esta se não resignava a separar-se do filho. (Extraído do esboço biográfico publicado nos Anais da Biblioteca Nacional, v. XI, p. 892).
O recrutamento que fez em 1826 o presidente Salvador Maciel, na província, decidiu a mãe a separar-se do extremado filho.
No dia 27 de janeiro de 1827, entrou para a aula de J. B. Debret; logo depois freqüentou os cursos de arquitetura e de escultura da mesma Academia, e com tanto aproveitamento se dedicou a todas estas disciplinas que na Exposição de 1830 obteve três prêmios, um de pintura, um de arquitetura e outro de escultura. Freqüentou os primeiros anos da Escola Militar; a aula de filosofia do padre mestre Fr. José Policarpo de S. Gertrudes Maia; estudou anatomia e fisiologia com o Dr. Cláudio Luís da Costa, a quem deve o gosto que adquiriu pela leitura; e a perspectiva estudou-a com o mestre J. B. Debret e consigo mesmo. Dissecou por dois anos no Hospital da Santa Casa da Misericórdia e assistiu às lições do professor de anatomia, Dr. Domingos José Marques, e às do Dr. Domingos Ribeiro dos Guimarães Peixoto, depois barão de Iguaraçu. (Ob. cit.)
Tendo-lhe Dom Pedro encomendado um retrato seu, para o qual prestou-se a dar uma sessão na Quinta da Boa Vista, disse-lhe, ao ver terminada a obra:
A Imperatriz quer este retrato, porque o acha mais parecido de todos, e logo que o acabares lhe virás entregá-lo; depois me hás de fazer outro, e o dela e de meus filhos, os quais irás tu mesmo levar à minha sogra, em Munique e de lá partirás para a Itália ou onde melhor te convier estudar e pelo tempo que quiseres, contanto que lá não fiques.
A promessa não foi realizada, por ter Porto-Alegre adoecido e logo depois o Imperador abdicado. Pretendia fazer a viagem à sua custa, pois tinha recentemente recebido cinco mil cruzados, parte da herança paterna; ainda desta feita ficou burlado o seu intento à falta de dinheiro, por ter emprestado por dias a um parente e amigo de infância os seus cinco mil cruzados, que nunca mais lhe foram restituídos.
Mediante a benévola proteção de Evaristo Ferreira da Veiga, que lhe entregou 400$000, produto de um subscrição por ele agenciada, de Monsenhor A. V. da Soledade, que lhe deu uma ordem para receber em França a mesada de 20$000 fortes, a de José Bonifácio que do Almirante Grivel lhe obtivera passagem gratuita no navio de guerra francês Durance, pôde, enfim, partir para a França em companhia de seu mestre Debret, a 25 de julho de 1831, chegando a Brest em setembro e a Paris no dia 4 de outubro do mesmo ano. (Ob. cit.)
Matriculou-se na aula do barão Gros, e encetou estudos anatômicos com o professor Emery.
Um dia, Emery foi obrigado a suspender a lição por falta de preparador, Porto-Alegre ofereceu-se para substituí-lo e com tanta mestria e destreza preparou os músculos da coxa, que mereceu público elogio do professor e aplausos de todos os estudantes. Uma infelicidade veio interromper a serena e progressiva marcha de sua existência. Soledade e Ferreira da Veiga morreram, ficou ele desamparado e reduzido à miséria; porém o ministro do Brasil em França, José Joaquim da Rocha, socorreu-o, e Luís de Meneses Vasconcelos Drummond, que chegava a Paris por esse tempo, ofereceu-lhe vinte mil francos para ir à Itália terminar os seus estudos. Do generoso e não vulgar oferecimento o artista só se utilizou de quatro mil francos. Em 1835 a Assembléia Geral lhe tinha concedido uma subvenção anual de 600$000 durante três anos.
Visitou Londres e viajou pela Bélgica e Holanda. Em 1837 voltou para o Brasil.
Logo depois foi nomeado professor de pintura histórica da Academia; em 40, pintor da Imperial Câmara. Em 1848 foi nomeado substituto de desenho da Escola Militar; em 1854 diretor da Academia de Belas Artes, donde retirou-se em 1857. Em 59 partiu para a Prússia na qualidade de cônsul geral do Brasil; em 1867 foi transferido para Portugal, país em que faleceu, em 29 de dezembro de 1879. Foi agraciado pelo senhor Dom Pedro II com diversas condecorações e em 1874 com o título de barão de Santo Ângelo.
Porto-Alegre tinha uma fisionomia simpática: fronte larga, porém pouco longa, cabelo áspero e negro, olhos oblongos cheios de vivacidade e de audácia, a boca grande, incisivamente recortada, barba cerrada e curta contornando o queixo. Era de estatura alta, ombros largos, mãos e pés grandes.
O seu caráter está perfeitamente fotografado nos seguintes tópicos do testamento que deixou:
Nunca provoquei lutas; porém a amizade me levou ao campo muitas vezes e o direito sempre.
Nunca amei os homens pela sua posição; nunca adorei o dinheiro, tendo sempre vivido pobremente e nunca tive outra ambição que não fosse a de um nome sem mancha.
Sofri pela amizade e pela justiça, porque sempre detestei a deslealdade e o despotismo.
E de meus pais, de meu soberano e dos homens honestos fui sempre respeitoso e dedicado amigo.
Ninguém como ele dedicou-se aos amigos e ninguém teve tanta altivez de caráter. Protegido por Dom Pedro I, protegido por Soledade, pelo conde de São Salvador e por Dom Pedro II, pôs a sua gratidão acima de todos os escrúpulos. Teve a fibra da dedicação e, para que fosse um homem extraordinário, um verdadeiro símbolo de virtudes, iluminado pela admiração dos pósteros através da História, bastaria ter tido uma mais nítida compreensão da independência, uma mais firme idéia do destino da humanidade. Foi apenas um homem do seu tempo. Dois poderosos elementos colaboraram juntos para fazê-lo assim. Faltou-lhe ao temperamento imaginoso, porém calmo e operoso, a inflamabilidade dos rebeldes; a proteção imediata que recebeu dos palacianos, a convivência com homens cujas aspirações públicas eram limitadas pelas oportunidades mataram-lhe o interesse pelas lutas partidárias. Viu-se impelido a ser discreto entre a amizade de Dom Pedro, um príncipe português, e a de Evaristo da Veiga, um monarquista extremadamente patriota; e viveu em companhia de ambos, e de ambos foi amigo respeitoso e beneficiado.
Além do mais, ele, que se nos afigura metódico e sensato pela progressão gradual de complexos estudos realizados, traçara, talvez, um itinerário a seguir. Não quis, por conseqüência, proceder levianamente em questões das quais insignificantes resultados poderia fruir. Como artista, um ideal maior antojava-se-lhe à imaginação. O Velho Mundo, com suas maravilhas de arte, despertava-lhe a fantasia; falava-lhe ao coração dessas estranhas criações da Renascença, desses monumentos grandiosos em que sente-se palpitar a alma de um povo na produção artística de um gênio. Era esse o seu ideal, o seu único interesse, a sua preocupação constante. Absteve-se da política com verdadeira sobranceria de ânimo e, em 1835, escrevia de Nápoles a Evaristo da Veiga uma carta em que se destaca o tópico seguinte: “Aborreço a política, porque ela é a causa da minha desgraça; por ela perdi a pensão que me prometeu o senhor Dom Pedro I; e por ela perdi a que o senhor Martim Francisco pediu às Câmaras para mim”. A confissão é irrefragável prova do que deixei dito. Ele cortava os embaraços que antevia no caminho escolhido.
Por esse método seguro de proceder, chegou a sobressair em todas as posições em que esteve. Como estudante da Academia de Belas Artes, ocupou sempre lugar distinto entre os contemporâneos; como estudante de humanidades, completou, de maneira honrosa, um curso que, por si, valia um bacharelado; como funcionário público, desempenhou perfeitamente o cargo de diretor da seção de arqueologia e numismática do Museu Nacional e o de diretor da Academia da qual fora aluno. Neste último cargo, donde se demitiu por causa da nomeação de Lopes Cabral Teive para professor de pintura histórica, nomeação imposta pelo marquês de Olinda, desenvolveu uma atividade digna de todos os elogios.
Reformou o curso da Academia, criando aulas de matemáticas aplicadas, anatomia artística, arqueologia, estética e história das Belas Artes, e fundou uma pinacoteca, concorrendo ao mesmo tempo para a fundação do Conservatório Dramático e da Ópera Nacional.
E, fez mais, com verdadeiro amor à carreira abraçada, foi o primeiro que arrancou do esquecimento os únicos documentos existentes sobre a história da pintura brasileira, o primeiro que, em uma iconografia, falou da maior glória musical da América do Sul, - o padre José Maurício, e ainda o primeiro a se ocupar da crítica de Belas Artes.
* * *
Como escritor, teve Porto-Alegre os defeitos do seu tempo. O tom, as idéias, o estilo, a frase, são perfeitamente daquela época, têm, incontestavelmente, o estigma da última fase do classicismo de Magalhães em Oligiato e da filosofia espiritualista de Montalverne.
Seu estilo é pomposo e longo. Não se lhe notam períodos curtos, frases resumidas, completas, precisas. O pensamento desenvolve-se cheio de fumo entre palavras cobertas de esplendores. A figura era para ele o toque firme e último do lavor:
A musa do senhor doutor Macedo é uma dessas apsaras formosas do Himalaia, que vive fruindo o perfume das flores e que depois de o haver modificado em seu seio apaixonado o derrama sobre a terra, sobre o tálamo delicioso, ou entre os lábios de dois corações que voam ao extremo da ventura; é uma ninfa do deus Indra que adeja musicalmente e em cada zona que perpassa, como um sonho venturoso, se reveste de um novo esmalte. (Revista do Instituto Histórico, 1857).
É esse o tom da sua obra.
Ainda mais uma amostra. Destaco, ao acaso, do prólogo de Colombo, o princípio da descrição que Boabdil faz a D. Fernando:
Mergulhava no mar o limbo
ardente
O sol; suave tarde a primavera
De andaluzas delícias
revestidas
Sobre o bafo de meiga e fresca brisa
De nardo e lume
um oceano etéreo
Vinha os lábios ungir de almos
encantos;
E o astro do Profeta a prumo ao cimo
Desta imensa
guarita das vigias,
Brilhava puro e calmo, como a face
Da Huri
que nectariza eternamente
Os lábios do escolhido. De
repente
O céu se enluta e as cândidas estrelas
Em
verdes flamas se convertem, cruzam,
Trovejando no espaço
ronco horrendo!
E basta. Toda a sua obra é isto.
A sua musa, que às vezes envergou a vestidura da sátira para inspirar os versos do Vasco Gameira e do Ganhador, amava mais a clâmide grega e, temulenta de entusiasmo, abandonava-se aos excessos da forma escultural e severa. Não é preciso ler toda sua obra para se compreender o ardor, a paixão com que ele adorava o estilo acepilhado e acadêmico, a encenação de palavras longas e sônicas, que esfuzilam e estuam em meio de períodos fatigantes.
* * *
A sua carreira literária prejudicou, de alguma forma, os méritos do pintor.
Até hoje, quando se fala entre artistas daquele tempo no nome de Porto-Alegre, gabam-lhe a bondade que o caracterizava, elogiam-lhe o talento e a verbosidade, mas, sempre e sempre chamam-no de - pintor medíocre.
E muitos dentre esses desconhecem completamente as obras que ele deixou!
É verdade, e ninguém o contesta, Porto-Alegre, pelo talento que possuiu, pelos estudos que fez em Paris e em Roma, devia ser um grande artista. Grande não o foi; porém medíocre, no sentido em que o classificam, também não.
O cotejo de sua obra com a dos artistas daquela época nos dá um resultado vantajoso para ela. Há um fato, dependente simplesmente do acaso, que pode favorecer esse exame. Na Casa de Misericórdia da cidade do Rio de Janeiro, entre muitos trabalhos da maior parte de nossos artistas, existem um retrato e uma composição do poeta das Brasilianas. O retrato está colocado ao lado de outros, no saguão do hospital, junto da entrada da farmácia geral. É a benfeitora D. Luísa Rosa. Vê-se-a no meio da tela, em pé, trajada de preto, tendo o braço esquerdo curvado sobre a cinta, uma bolsa de veludo negro pendente do pulso e um maço de apólices do governo entre a mão e o peito; o braço direito exprime um gesto de caridade e de oferecimento e o fundo do quadro representa uma parte do antigo campo de Santana, tendo de um lado a igreja que foi demolida há alguns anos e de outro a entrada da antiga rua de São Pedro, onde ainda existe a casa em que morreu a obscura senhora.
A fama de desenhador incorreto de que gozava Porto-Alegre esmorece diante desse excelente retrato, vivo, palpitante e cuidadosamente concluído. A mão esquerda e a cabeça, emoldurada por um toucado negro, são primorosamente pintadas, mas o ponto em que o artista mostra-se, não original, mas pessoal, é o horizonte onde procurou transmitir ao observador uma imagem da existência da retratada. Conta-se que D. Luísa Rosa não conhecera pai nem mãe, era uma enjeitada, criada em um recolhimento de órfãs no Porto. Aí um indivíduo foi buscá-la para consorte, embarcando-se ambos para o Brasil.
Morto o primeiro marido, D. Luísa recebeu em segundas núpcias um ricaço negociante que depois de longos anos de casado faleceu, legando à exemplar esposa a enorme fortuna que, a rogo de José Clemente Pereira, ofereceu ao Hospital de Misericórdia. Deste fato tirou o artista a nota pessoal de sua obra, procurando concentrar em uma figura a história dessa existência.
Não direi que foi feliz em semelhante intento; adergam com a intenção aqueles que conhecem a vida da afortunada órfã. O horizonte carregado, enegrecido pelos castelos de nuvens tempestuosas que se acumulam e o arco-íris que, segundo o vulgo, é anunciador de bonança, podem despertar no observador a idéia de uma existência ao princípio infeliz, porém, em breve tempo, mudada em venturosos dias de riqueza, alegria e caridade; mas, me parece, e por mim é que falo, demasiado vago e assaz pueril o pretendido alcance de tal figura.
Como quer que seja, isto é a nota mais verdadeira da individualidade de Porto-Alegre, e que em nenhum outro trabalho transparece tão completa e saliente.
Na Ceia (zimbório da Misericórdia) onde o cuidado do artista está exarado nos menores traços, a falta dessa pequenina parte do seu ser é sensível. Não se julga, à primeira vista, que esta obra seja produzida pelos pincéis do cantor de Colombo e das Brasilianas.
A primeira impressão que se recebe diante desta tela é a de estar a gente olhando a obra de um medíocre e pretensioso pintor da Renascença, e só depois de um longo estudo comparativo, e só depois de autênticas asseverações sobre a autoria da obra é que chega-se a descobrir, posto que palidamente, um reflexo do talento do artista errando sobre as vulgares linhas daquela composição, sobre aquele tom antigo, imitado de Ticiano. Aí o toque já não é o mesmo que se observa no retrato de D. Luísa Rosa. Agora é menos justo e mais vagaroso. O pincel lambeu o quadro, lentamente, paulatinamente, da esquerda para a direita, de baixo para cima. A tonalidade é severa, as sombras são extensas, largas, e à proporção que se afastam dos pontos suavemente iluminados pelas chamas de um candelabro de três braços, tornam-se compactas, pesadas, densas. Cristo está de frente para o quadro, tendo a cada lado seis discípulos. A sua figura é a única em que a luz, sem razão de ser, dá de cheio, envolvendo-a numa claridade intensa. A sua fisionomia é trivial; não tem a resignação estóica do mestre que prevê a traição de um dos discípulos, nem a angélica melancolia do apóstolo da paz envaido por Deus ao mundo.
Não é um ideal da filosofia herética, nem da fé cristã; não tem a feição humana das criações de Rembrandt, nem a feição sobrenatural idealizada por Leonardo da Vinci. Como concepção artística, o tipo de Cristo apresentado por Porto-Alegre, de forma alguma satisfaz às exigências da crítica e corresponde não só ao seu talento inventivo como à força de suas crenças religiosas.
No entanto, tudo aí foi concluído com uma paciência enorme, com uma tranqüilidade de espírito posta a toda prova. A expressão dos discípulos, a anatomia das posições e a anatomia das formas, o característico da raça, os costumes, tudo mostra depender de um trabalho lento. Mas, falta-lhe a originalidade, falta-lhe a nota pessoal das obras de um grande artista.
E, enquanto esse quadro, que é o mais acabado de todos os seus trabalhos, peca pela ausência da personalidade, o esboço da Coroação acusa a mão que o fez, indica a cabeça que o concebeu.
Muito falta para ser considerado croquis de um mestre, porém a intensidade da cor, a maneira do conjunto, um quer que seja, que sente-se e não se traduz, denunciam um artista afastado das vulgaridades, mas esterilizado, infecundo, corrompido por ter a cabeça mais adiantada do que a mão, isto é, por ter mais teoria do que prática, mais erudição do que exercício.
A obra de Porto-Alegre, o pintor, não corresponde à fecundidade de Porto-Alegre, o poeta. Julgada imparcialmente, ela não inculca um mestre, denuncia um artista mal orientado.
Não obstante esses defeitos, ele foi para sua época e para o meio em que viveu, um homem superior, um artista digno de confronto com os seus coevos, apesar de vacilar diante da individualidade de alguns.