Jardins de Roberto Burle Marx em um sítio histórico: uma perfeita integração do antigo com o moderno

Joelmir Marques da Silva [1]

SILVA, Joelmir Marques da. Jardins de Roberto Burle Marx em um sítio histórico: uma perfeita integração do antigo com o moderno. 19&20, Rio de Janeiro, v. XI, n. 1, jan./jun. 2016. Disponível em: <http://www.dezenovevinte.net/arte%20decorativa/rbm_jardimpe.htm>.

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Introdução

                     1.            Ao aceitar o convite do governador de Pernambuco Carlos de Lima Cavalcanti (1935-1937), Roberto Burle Marx assume o cargo de Diretor do Setor de Parques e Jardins da então Diretoria de Arquitetura e Urbanismo em 1935, que tinha por diretor o arquiteto Luiz Nunes, e elabora um plano de aformoseamento, também chamado de “plano de jardins uniformizado” (DIARIO DA TARDE, 1935, p.6) que tinha por objetivo tornar o Recife uma cidade apta a figurar como um centro de civilização mediante um novo aspecto urbanístico, e dá às praças, largos e parques do Recife um caráter autóctone, integrando-os a paisagem local. Nas palavras do paisagista no artigo “A vida na cidade: a reforma dos jardins públicos do Recife,” publicada em 22 de maio de 1935 no Diario da Tarde:

                     2.                                                  O nosso paiz possue evidentemente uma flora riquíssima e, desse modo, não nos será difficil encontrarmos em qualquer cidade elementos que solucionem essa necessidade. Até então, não tem sido assim o que, entre nós se tem feito nesse sentido. As ruas arborizadas quasi que exclusivamente com fícus benjamim, além de resolver mal os problemas de arborização urbana, deixam uma impressão de pobreza de nossa flora, o que não é verdadeiro [...] a variedade immensa de plantas que nos offerecem nossas matas magnificas [...] urge que se comece, desde já, a semear, nos nossos parques e jardins, a alma brasileira. 

                     3.            Naquele momento, os jardins do Recife estavam em situação de abandono por parte tanto do poder público como da população e, diante de tal situação, reivindicações por melhorias nesses espaços públicos tornaram-se constantes. Os artigos “A vida na cidade: Praças e jardins” (DIARIO DE PERNAMBUCO, 12 mai. 1936) e “A vida na cidade: a reforma dos jardins publicos do Recife” (DIARIO DATARDE, 22 mai. 1935) retratam bem a situação em que estavam alguns de nossos jardins:

                     4.                                                  [...] Os jardins do Recife, como é sabido, são geralmente abandonados pela população. Urge que se lhes dê feição nova, moderna, interessante, capaz de attrahir os recifenses. A remodelação do parque Amorim, que irá perder aquelle monótono aspecto de floresta erma e resequida pelo sol. [...] varresse da nossa vista, [...], a feiúra da praça Coração de Jesus e o mattagal cerrado do parque do Entroncamento (DIARIO DE TARDE, 1935, p.6).

                     5.                                                  [...] reformar algumas de nossas velhas e tristes praças e mesmo de criar novas, com jardins que não semelhem capoeirões (DIARIO DE PERNAMBUCO, 1936, p. 6). 

                     6.            Uma das grandes preocupações de Burle Marx ao projetar os jardins no Recife era dar à população um amplo serviço de ajardinamento público, onde, pelo menos houvesse ar puro e relativa liberdade para passeios e repouso, uma vez que, o Recife era uma cidade pobre e com a maioria da população morando em casas estreitas, sem ar, sem luz e sem conforto (MARX, 1987). Burle Marx empregou nos jardins uma condição racional, regional e moderna levando em conta a higiene, a educação e a arte como princípios e deu a cidade, como bem ressaltou Joaquim Cardo (DIARIO DA TARDE, 1937), um caráter próprio e incomparável e que certamente nunca teve anteriormente.

                     7.            Referindo-se ao Recife, Burle Marx relata que a cada passo descobria o encontro de uma cidade ainda com características coloniais, onde a erudição arquitetônica sentia-se em cada esquina. “Cidade de contrastes, cheia de mocambos, mas com grandes casas que também me impressionavam profundamente, semeadas numa paisagem dominada pelas mangueiras e jaqueiras, entremeadas de coqueiros” (MARX in MIRANDA, 1992, p. 72). Ele ainda expõe:

                     8.                                                  [...] minha experiência no Recife foi fundamental para o rumo que, posteriormente, tomou minha atividade profissional. Hoje, depois de 50 anos, sinto que essas experiências foram válidas e determinaram minha maneira de construir jardins. Sobretudo elas ensinaram-me o valor de observar, de ver. [...] não tenho dúvidas que em Pernambuco começou tudo (MARX in MIRANDA, 1992, p. 70-73; Grifos nossos).

                     9.            A diversidade de espécies vegetais usada por Burle Marx em seus projetos paisagísticos no Recife é tratada por Odilon Ribeiro Coutinho no Seminário de Tropicologia na Fundação Joaquim Nabuco, em 1985, como sendo “a forma de devolver o civilizado ao seu meio natural, às árvores, aos matos, de restaurar a virgindade primitiva no civilizado” (MIRANDA, 1992, p.84). Nessa perspectiva, a arquiteta Janete Costa, grande amiga de Burle Marx, relata que o paisagista ao projetar seus jardins “estabelece diálogos com a paisagem, criando um pano de fundo para os jardins como se dissesse: isto, aqui, eu estou fazendo, a natureza está ali. Mas o que ocorre é a ligação do jardim com a paisagem local” (MIRANDA, 1992, p.73).

                  10.            Diante do exposto nos parágrafos anteriores, é lícito afirmar que Burle Marx concebeu os projetos paisagísticos dos jardins nos mesmos princípios da Carta de Florença (1981), ou seja, como monumentos vivos nos quais a vegetação é o principal elemento de uma composição artística, ecológica e educativa.

                  11.            O botânico-paisagista francês Arnaud Maurières, ao tratar de Burle Marx inserido na história da paisagem moderna, afirma: “o que é verdadeiramente importante na obra de Burle Marx é que ele foi o único capaz de traduzir o movimento moderno artístico no campo da paisagem. Se devemos atualmente buscar uma referência de jardim moderno, é no Brasil que nos cumpre buscá-la” (in LEENHARDT, 2006, p. 89 e 90).

                  12.            Do conjunto de dezesseis jardins públicos de Burle Marx, seis foram selecionados como mais representativos, inventariados pela equipe Laboratório da Paisagem da Universidade Federal de Pernambuco e solicitado o tombamento no ano de 2008 ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como patrimônio cultural nacional. São eles: a Praça de Casa Forte, a Praça Euclides da Cunha, a Praça do Derby, a Praça da República e o Jardim do Palácio do Campo das Princesas, a Praça Salgado Filho e a Praça Faria Neves, referidos nos ‘Processo n.º 1.563-T-2008’ e ‘Processo n.º 01498.000892/2008-22’.

                  13.            Contudo, é em 20 de novembro de 2014 - ou seja,  seis anos e cinco meses depois da solicitação de tombamento - que o IPHAN oficializa o tombamento em razão do elevado valor histórico, artístico e paisagístico a ser inscrito no Livro do Tombo Histórico, no Livro do Tombo de Belas Artes e no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico.

                  14.            A oficialização do tombamento dos jardins de Burle Marx nos leva a reflexão de que eles são capazes de falar muitas e diversas linguagens, desde diferentes pontos de vista. A cultura a qual muitos estão acostumando é a de contemplar o jardim como um lugar onde se cultivam plantas, sejam elas bonitas ou não; como um lugar de sombra e frescura; como uma base de discussão de problemas ecológicos. Mas, um jardim é algo muito mais rico e profundo: ele é o reflexo da cultura e tradição de um povo e de uma sociedade que o produziu. Nas palavras de Carmen Añón Feliú, o jardim é a “sínteses de estilo, obra maestra de um gênio creador, el jardín há sido y es, a través de la história, uma reserva de arte y de beleza” (1996, s/p).

Praça da República e Jardim do Palácio do Campo das Princesas           

                  15.            A Praça da República e o Jardim do palácio do Campo das Princesas sempre foram entendidos como um conjunto, que podemos também chamar de unidade de paisagem. Contudo, antes de adentrar no nosso principal objeto - o projeto paisagístico de Burle Marx para esse conjunto -, se faz necessário recuar um pouco na história, por ser este um sítio de grandes acontecimentos históricos, o que nos leva ao período de ocupação holandês do Recife como ponto de partida.

                  16.            Na administração do Conde Johann Moritz von Nassau-Siegn (Maurício de Nassau), foram construídos, onde hoje se encontram a Praça da República e o Jardim do Palácio do Campo das Princesas, o Palácio e Jardim de Vrijburg. Também, denominado também Parque de Vrijburg, Parque de Nassau e Horto Zoo-Botânico, é considerado o primeiro jardim botânico em colônia americana. As obras do Palácio e do jardim foram iniciadas em 1639 e concluídas em julho de 1642. A área do jardim era banhada pelos rios Capibaribe e Beberibe em sua confluência [Figura 1 e Figura 2].

                  17.            Nassau fez-se acompanhar de uma missão artística e científica que se incumbiu de investigar inúmeros aspectos da natureza e da sociedade dessa parte do Novo Mundo em função do projeto do jardim. Dedicando parte de seu tempo às atividades de construir e plantar, Nassau melhorou as condições do lugar, legislou sobre a agricultura de subsistência, sobre a proteção das matas e edificou sítios. Assim, o jardim incluiu-se dentro de várias ações urbanísticas, arquitetônicas, científicas e artísticas (SILVA, 2009).

                  18.            O fascínio dos holandeses pela diversidade florística local é evidenciado pela organização do Herbarium vivum brasiliensis por Georg Marcgrave, médico, botânico, engenheiro e astrônomo, autor da Historia Naturalis Brasiliae, quando da sua estada em Pernambuco. Junto com Marcgrave, Guilherme William Piso, naturalista e médico particular de Maurício de Nassau, dedicou-se aos estudos das plantas medicinais e publicou seus achados em De Medicina Brasiliensis. Contribuições importantes também foram dadas pelas pinturas de Frans Post, Albert Eckhout e Zacarias Wagener que retrataram as paisagens brasileiras e, em especial, as pernambucanas. Essas pinturas nos trazem um verdadeiro entendimento de quão rica e diversificada são a nossa flora e fauna.

                  19.            O jardim, também denominado de horto, possibilitou a observação minuciosa da fauna e da flora tornando-se um local de coleta de informações que, posteriormente, foram incorporados às coleções científicas na Europa. Nos escritos de Piso e de Marcgrave, encontram-se descrições de experimentos e dissecações de animais. Assim, o horto, seguindo o modelo do Anfiteatro de Anatomia e do Horto Botânico de Leyden, foi palco de experiências científicas (GESTEIRA, 2004).

                  20.            Com a volta de Maurício de Nassau para a Holanda, em 1644, o local passou a ser utilizado como quartel, durante as lutas contra os holandeses, ficando praticamente destruído na época da chamada Restauração Pernambucana, em 1654. Em 1769, encontrando-se bastante arruinado, foi demolido por ordem do então governador da província, José César de Meneses (1774/1787).

                  21.            Com a demolição do Palácio de Friburgo, o jardim desaparece e surge um grande vazio, restando na área o Convento dos Franciscanos, que, com o passar do tempo, foi chamado de Praça do Palácio Velho, e em seguida Campo do Erário, por consequência da construção do edifício do Erário Régio. Com o correr dos anos, o sítio passou a se chamar, em menção dos lideres republicanos enforcados, Campo da Honra e/ou Praça dos Mártires.

                  22.            Em 1840, inicia-se a obra do Palácio da Presidência da Província, por ocasião da demolição do edifício do Erário Régio, que é concluído em 1843 e, segundo Cavalcanti (1977), reparado em 1893 [Figura 3]. Com o Palácio erguido o sítio passa a se chamar de Campo, Pátio ou Praça do Palácio (SILVA, 2010), bem como Pátio do Palácio Novo. Porém, a chegada do Imperador Dom Pedro II com a Família Imperial ao Recife em 22de novembro de1859, por motivo de comemorações dos seus 34 anos e hospedando-se todos no palácio, marcou a sociedade da época. Em homenagem a esse feito, a municipalidade resolveu denominar o sítio de Campo das Princesas.

                  23.            Seguindo com o processo de remodelação, em 1841 foi aprovado pelo presidente da província de Pernambuco, Francisco do Rego Barros (1837-1844), o orçamento para a construção do Teatro Santa Isabel [Figura 4], projeto de Louis-Léger Vauthier, cujas obras iniciaram em abril do mesmo ano e foi inaugurado em 18 de maio de 1850. Em 1852, foi criada a Biblioteca Pública Provincial [Figura 5], que, de 1875 a 1930, ficou instalada no Palacete da Câmara Municipal. Anos mais tarde, foram construídos os prédios da Escola de Engenharia - mas que funcionou como sede do Tesouro Estadual e do Liceu de Artes e Ofícios -, que teve suas obras iniciadas em 1871 e concluídas em 1880 (SILVA, 2010); além disso, já existia na área o Quartel da Força Policial.  

                  24.            Até então, a história do Campo das Princesas girou em torno das ações de construção de edifícios memoráveis por sua arquitetura. É só em 1871 que as ações da Assembleia Legislativa da Província, tendo como presidente da província Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque (1870-1871), são direcionadas para a criação de um espaço ajardinado. Segundo Arrais (2004) em 1871 foi expedido pela Repartição de Obras Públicas ao governo provincial um orçamento para a compra de um gradil, quatro portões em ferro, oito bancos de dois tipos e ornatos (quatro figuras com lampiões globulares; quatro estátuas representando a Justiça, a Fidelidade, a Amazona e a Concórdia; e quatro estátuas representando o Inverno, o Estio, a Primavera e o Verão).

                  25.            Oficialmente em 1º de março de 1872, João José de Oliveira Junqueira informava na Assembleia Legislativa o andamento do ajardinamento do Campo das Princesas (SILVA, 2010). Em 20 de abril de 1872 chega ao Recife o restante do mobiliário que iria compor o jardim. Tal fato mereceu uma nota publicada no Jornal do Recife de 24 de abril de 1872, onde consta: “Para o Jardim do Campo das Princesas trouxe a barca francesa Saint André, chegada no sabbado, mas uma estatua e todos os lampeões. Só falta agora chegar o gradeamento que vem de Inglaterra.” As estatuas referem-se às divindades da mitologia, que ao todo foram oito, a saber: Ceres, Diana, Diana de Gabies (Flora), Juno, Minerva, Níobe, Vesta e Têmis, até hoje presentes no jardim. Conforme Silva (2010), o jardim é oficialmente entregue à população em 20 de outubro de 1872, porém restando ainda fazer alguns melhoramentos, que foram realizados no início de 1873.

                  26.            Tomando por base as fotografias de época [Figura 6a e 6b, Figura 7], pode-se ver que as edificações do entorno foram importante para a definição do traçado do jardim, em forma de cruz, e que foi demarcado por aleias de Roystonea oleracea (Palmeira-imperial), tendo ao centro um coreto e dessa forma a praça ficou dividida em quatro partes. Cada parte da praça possuía uma grande quantidade de canteiros e tabuleiros de forma irregular, alguns delimitados por um pequeno gradil, e que foram constituídos por espécies arbustivas, herbáceas, arbóreas e palmeiras. Algumas dessas espécies são: Araucaria columnaris (pinheiro), Licania tomentosa (oiti), Epipremnum pinnatum (jiboia), Livistona Chinensis (palmeira-leque-da-china), Dypsis lutescens (areca), Ficus benjamina (fícus-benjamina), Delonix regia (flamboyant), Paspalum notatum (grama-papuã), Adansonia digitata (Baobá), Sysygium malaccense (jambeiro), Sabal palmetto (palmeira-sabal), Casuarina equisetifolia (casuarina), Mangifera indica (mangueira), syzygium jambolanum (azeitoneira), Tamarindus indica (tamarindo), Caesalpinia echinata (pau-brasil), Phoenix sylvestris (palmeira-fenix-gigante) e Tabebuia sp. (Ipê)

                  27.            No início dos anos de 1920, o jardim - agora denominado de Praça da República - sofreu mais uma remodelação que seguiu as especificações de um projeto de 1918 de autoria desconhecida. Com o projeto implementado a área do jardim se amplia, uma vez que englobou a área do Teatro Santa Isabel e da Escola de Engenharia, onde funcionava o Tesouro Estadual. As modificações se deram no traçado, que passou a ser mais orgânico, porém, permanecendo o eixo em forma de cruz, na retirada do gradil, na colocação de um quiosque e do busto de Telles Júnior cerca do prédio da Escola de Engenharia, bem como o plantio de Ficus benjamina (fícus-benjamina) nas três partes da praça (teatro, em frente ao palácio e na Escola de Engenharia). Porém, não só a praça passou por transformação, o prédio que abrigava o Quartel da Força Policial foi demolido e deu-se início a construção do Palácio da Justiça, inaugurado em 7 de novembro de 1930.

                  28.            Até esse momento, tudo girou em torno da Praça da República e a área ajardinada que fica por atrás da edificação do Palácio da Presidência só é destacada em um projeto assinado por Emile Beringer com data de 05 de setembro de 1875 [Figura 8]. O Jardim do Palácio da Presidência possuía uma correspondência com o traçado orgânico da Praça da República, dividido em três partes, sendo a do meio possuidora de um eixo em forma de cruz, em uma correlação direta com a parte central da Praça da República. A partir de um ponto da ala direita do jardim, Beringer traça três linhas visuais, uma no sentido de Olinda, outra para a Assembleia Provincial e a ultima para a Praça da Repúblia.

                  29.            Outro projeto de 1905, assinado por Augusto de Almeida Castro, apresenta o traçado modificado unindo todo o jardim por caminhos sinuosos com canteiros e um eixo no sentido Palácio-Rio Capibaribe [Figura 9], o que divide o jardim em duas alas. O traçado desse novo projeto assemelha-se com o dos projetos de Auguste François-Marie Glaziou, no Rio de Janeiro.

                  30.            Ainda consta na história desse jardim um terceiro projeto, sem autoria nem data [Figura 10]. Nele, nota-se a semelhança, em relação ao eixo Palácio-Rio Capibaribe, com o projeto de Emile Beringer, porém se aproximando de uma simetria e dividido em duas alas, assim como o projeto de Augusto de Almeida Castro.

                  31.            Entre aos anos de 1936 e 1937, mais um projeto é destinado ao conjunto Praça da República e Jardim do Palácio do Campo das Princesas, agora proposto por Roberto Burle Marx [Figura 11a e 11b]. Ele tinha em mãos não apenas uma área para remodelar, mas sim, - diante do que já se sabe da história desse sítio -, uma paisagem consolidada [Figura 12]. Segundo Joaquim Cardoso (1937, p. 2), o paisagista iria imprimir “sentido novo e mais vasto” e considera a remodelação da Praça da República “a obra mais importante confiada a Burle Marx e se configuraria como uma obra de incontestável valor.

                  32.            A primeira ação de Burle Marx para a Praça da República foi a retira do quiosque que se encontrava defronte ao Palácio da Justiça em finais de 1936. O próximo alvo foi a demolição do edifício da Escola de Engenharia, onde funcionou o Tesouro Estatual e que naquele momento abrigava a Secretaria de Obras públicas, para dar lugar a um “aquário que manterá peixes de 20 espécies (dagua salgada e doce), um dancing publico e um restaurante” (MARX, 1937, p. 1) - que, porém, não foram construídos. Esta parte da praça se estenderia até o cais para que se pudesse aproveitar a paisagem do Rio Beberibe. Com a demolição da edificação, surge um novo traçado que se assemelha ao da parte central da praça.

                  33.            Por sua vez, essa parte central da praça teve o desenho de seu traçado ajustado, passando a ser mais linear; os vários canteiros e tabuleiros desaparecem, dando lugar a um passeio mais sinuoso e interligado. Porém, conservou-se os eixos em cruz que, de dentro para fora da praça, direcionam o observador às edificações históricas e que, de fora para dentro, direcionam a uma fonte luminosa. De igual modo às outras duas partes da praça, a que abriga o Teatro Santa Isabel também passou por modificações no traçado e foi acrescentado um estacionamento.

                  34.            Tais transformações foram evidenciadas de forma positiva por Joaquim Cardoso em depoimento ao Diario da Tarde de 14 de junho de 1937. Em suas palavras o projeto apresentado por Burle Marx “abrange, alem de trabalhos de valor, a remodelação integral da physionomia daquele logradouro, sem contudo, fugir á orientação racional que é a do aproveitamento, para fins decorativos, dos principaes elementos naturaes que constituem o seu feitio primitivo [...] entretanto, sem destruir a obra antiga” (p. 2).

                  35.            Da Praça da República, Burle Marx aproveita as esculturas de divindades mitológicas, que segundo ele representam algo interessante (MARX, 1937) porque integravam-se na concepção artística do projeto. Os bancos, tipo venezianos, foram substituídos por bancos de granito polido e sem encosto, como já existiam na Praça de Casa Forte e na Praça Euclides da Cunha.

                  36.            Em grande parte, a vegetação foi considerada no projeto, houve porém o plantio novas espécies como: a Acrocomia intumescens (macaibeira), Cocos nucifera (coqueiro), Anacardium occidentale (cajueiro), Syagrus Oleracea (catolé), Pritchardia pacifica (palmeira-leque-de-fiji) e Hancornia speciosa (mangabeira). Uma matéria do Diario da Tarde de 16 de junho de 1937 ainda relata que comporiam a praça plantas da flora amazônica. Também realizou-se o plantio de Roystonea oleracea (palmeira-imperial) por trás do Teatro Santa Isabel e na parte central da praça para completar as aleias dos eixos em cruz [Figura 13, Figura 14 e Figura 15]. Alguns exemplares foram plantados juntos de indivíduos adultos, possivelmente por estarem em idade avançada, o que demostra que Burle Marx realizou um estudo minucioso de fitossanidade, garantindo assim a integridade do projeto.

                  37.            Ações semelhantes às da Praça da República ocorreram na remodelação do Jardim do Palácio do Campo das Princesas, que já possuía um traçado e uma arborização estabelecida, decorrentes de no mínimo duas intervenções, porém tendo uma aproximação com o traçado presente no projeto de Emile Beringer de 1875. Por se tratar de um jardim palaciano, possivelmente, cada gestor remodelava o jardim ao seu gosto.

                  38.            Com base em fotografias de época [Figura 16 e Figura 17], é possível conhecer algumas espécies que faziam parte do jardim, como, por exemplo: Sysygium malaccense (jambeiro), Cassia fistula (chuva-de-ouro), Roystonea oleracea (palmeira-imperial), Mangifera indica (mangueira), Eucalyptus cf. camaldulensis (eucalipto), Adenanthera pavonina (olho-de-pombo), Licania tomentosa (oiti), Delonix regia (flamboyant), Canna indica (cana-da-india), Ficus benjamina (ficus-benjamina), e Opuntia sp. (palma).

                  39.            Com o novo traçado, o jardim passa a ter duas alas, e adquire simetria [Figura 18]. Os caminhos curvos constituídos por blocos de pedras com rejunte de grama (como também foi usado na Praça Euclides da Cunha) tem a função de direcionar o observador a pontos estratégico de contemplação de paisagens, seja do interior do jardim, com canteiros circulares [Figura 19a] ornamentados com cana-da-índia e lagos que abrigam uma diversidade de plantas das mais variadas texturas, portes e colorações, seja do exterior, apresentando paisagem histórica do centro do Recife até as colinas de Olinda.

                  40.            No projeto paisagístico, não consta a especificação das espécies, porém todos os indivíduos receberam uma ‘letra’ (para espécies herbáceas e arbustivas) ou um ‘número’ (para espécies arbóreas e palmeiras) e, sendo as letras ou os números iguais, pertenciam a mesma espécie. O pergolado e a vegetação herbácea que faziam parte do eixo que liga o palácio ao Rio Capibaribe, que se constituíam como um barreira visual, foram removidos e margeando cada lado do eixo foram propostos canteiros retangulares com cana-da-índia, que porém não foram construídos [Figura 19b].

                  41.            Burle Marx idealizou duas possibilidades de composição para os lagos [Figura 20a e 20b]. Na primeira, Burle Marx utiliza as Roystonea oleracea (palmeiras-imperiais), já existentes, como pano de fundo, em uma correlação direta com a Praça da República, e acrescenta quatro indivíduos de Sabal palmetto (sabal-palmeto),  pontuando cada ângulo do lago. Circundando o lago existe um passeio que possibilita o observador a contemplar mais de perto as Ninfaea sp. (Ninfeias), ao centro do lago, e as Typha domingensis (Taboa) e as Montrichardia linifera (Aninga), em casa ângulo. Para a segunda possibilidade, o paisagista cria um recinto mais isolado, uma zona de calma. Descarta as palmeiras-imperiais existentes e utiliza espécies dos mais variados estrados e cores favorecendo um jogo de escala, de movimento e de percepção. São espécies como, Caladium bicolor (caladium), Anthurium amnicola (antúrio), Ravenala madagascariensis (ravenala) e Licuala grandis (licuala). Para o lago, Burle Marx toma como partido a composição dos lagos retangulares da Praça de Casa Forte e o circunda com jardineiras de plantas herbáceas terrestres, como, por exemplo, Zantedeschia aethiopica (copo-de-leite). Entre as duas áreas densamente vegetadas existe um estreito passeio para contemplação. Complementando a composição do lago Burle Marx agrega ao projeto esculturas clássicas, por se harmonizarem com o caráter do jardim do Palácio.

                  42.            Porém, ao observarmos os detalhes da hidráulica dos tanques e as caixas para o plantio das espécies, presentes no projeto paisagístico, bem como uma fotografia publicada no jornal A Noite Ilustrada de 1938 [Figura 21a e 21b] contata-se que a composição do lago que foi acatada é a primeira que acima descrevemos, mesmo sendo a segunda  semelhante à da Praça de Casa Forte.

                  43.            Constam no projeto de Burle Marx, ainda, alguns indivíduos de árvores e palmeiras marcados com um ‘X’ e representados pelos números 4, 10, 11, 14 e 15, cada número correspondendo a uma espécie [Figura 22a e 22b]. Ao comparar as fotografias da época com a localização destes indivíduos no projeto identificamos três das cinco espécies, são elas: Delonix regia (flamboyant, nº. 10), Mangifera indica (mangeira, nº. 14) e Roystonea oleracea (palmeira-imperial, nº.15).

                  44.            Analisando espacialmente onde cada indivíduo se localiza, constatou-se que a retirada da vegetação arbórea foi indicada por três rações: i) sombreamento permanente nos canteiros de Canna indica (cana-da-índia): quatro indivíduos de Mangifera indica (mangueiras); ii) estar próximo ou no meio dos caminhos em pedra, com rejunte de grama, uma vez que suas raízes poderiam ocasionar no futuro a perda do traçado: um indivíduo de Mangifera indica (mangueira), um de Roystonea oleracea (palmeira-imperial), 9 da espécie não identificada nº. 11 e 2 da espécie não identificada nº. 4; e iii) configurava-se como uma barreira visual: um indivíduo Delonix regia (flamboyant).

                  45.            Em suma, com a implementação do projeto da Praça da República e do Jardim do Palácio do Campo das Princesas, Burle Marx deu ao Recife mais dois jardins com um alto cunho de perfeição artística, chamando a atenção de todos especialmente pela beleza da natureza brasileira.

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[1] Biólogo. Doutorando e Mestre em Desenvolvimento Urbano pela Universidade Federal de Pernambuco (Universidade Federal de Pernambuco/Brasil). Mestre em Diseño, Planificación y Conservación de Paisaje y Jardín pela Universidad Autónoma Metropolitana plantel Azcapotzalco (México). Pesquisador do Laboratório da Paisagem/UFPE. Bolsista da CAPES e do CNPq (Doutorado Sanduíche).