Ecletismo na arquitetura do sudoeste de Goiás (1927-1935)

Rafael Alves Pinto Junior

PINTO JUNIOR, Rafael Alves. Ecletismo na arquitetura do sudoeste de Goiás (1927-1935). 19&20, Rio de Janeiro, v. XIII, n. 2, jul.-dez. 2018. Disponível em: http://www.dezenovevinte.net/arte%20decorativa/rapj_ecletismo_goias.htm

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Sudoeste de Goiás, 1928. O grande “certão do gentio cayapó - nomeado nos mapas no lugar do grande vazio no centro oeste - havia se transformado radicalmente. Ocupado desde a segunda metade do século XIX, não era mais aquele reduto vazio, improdutivo. Ocupado por extensas fazendas, formava um aglomerado contínuo: um polígono que alcançava o Rio Paranaíba ao sul, o rio dos Bois a leste, as cabeceiras dos rios Claro e Verde ao norte e os rios Jacuba e Verde a sudoeste. Uma área imensa no centro do país encravada entre Minas Gerais e Mato Grosso, representando aproximadamente consideráveis 70.000 km2, ou 20% da área do território estadual.

Articulados em torno de núcleos urbanos incipientes, os moradores do sudoeste de Goiás seguiam seus ritmos. Esforçavam-se para manter minimamente coesa sua comunidade, ainda que imaginária.  Mesmo que de forma precária, pretendiam manter uma política de unidade e garantir a posse de um território comum. Sabiam que a base era plural, mas estava fixada em um território conquistado à força e defendido à bala.

Os municípios não podiam ser construídos apenas pela elite. Exatamente por ser elite, esta necessitava conceitualmente ser distinta, de estipular diferenças. As cidades cresciam, a população aumentava e não se tratava mais de um punhado de fazendeiros conquistadores de terras. Não eram mais fazendeiros isolados, mas moradores do sudoeste de Goiás. Esforçavam-se para unir-se. Ainda que, considerando a horizontalidade daquela comunidade, o tempo homogêneo das narrativas sociais[1] seguisse a afirmação condutiva dos poderes estaduais que lutava para não perder aquela parte do território.

A comunidade - formada na origem totalitariamente por imigrantes - esforçou-se, desde sempre, para manter-se coesa. Para isto, construiu paulatinamente suas diferenças. Primeiramente em relação com os índios: os fazendeiros não eram índios; eram partícipes da civilização, vindos de outras partes do Brasil para formar novas famílias. Também não eram aventureiros ou garimpeiros. Não estavam de passagem ou eram bandidos. A menos a seus olhos, as terras devolutas daquela parte do Brasil seriam de quem as tomassem. No caso, deles e de suas famílias e herdeiros. Eles não eram mais como suas famílias de origem, nem como o restante de Goiás e muito menos iguais aos moradores dos outros estados.

Com isto, não quero dizer que algo os condicionava. O jogo social sempre foi muito mais rico que qualquer associação de causa e efeito, maior que qualquer reducionismo. Aparece como um jogo complexo de condicionantes econômicas, sociais e culturais que não são impostos puramente, mas negociados. Filtrados, aceitos ou refugados. Variáveis que criam uma equação dinâmica que põe em ação os sujeitos, em nada passivos.

Como o colocado por pensadores como Homi Bhabha,[2] a ambivalência é a marca destas estratégias narrativas: produzir um deslizamento contínuo de categorias, tais como povo, território, diferenças culturais e identidades. Foi exatamente isso o que aconteceu na ocupação do sudoeste de Goiás.

Evidentemente que não se trata de um processo exclusivo do sudoeste de Goiás. De modo algum, este processo é, praticamente, universal. Os exemplos são inúmeros e a produção acadêmica é muito abundante. Ao longo dos tempos, a diferença cultural sempre marcou estabelecimentos de novas formas de significados. Novas maneiras de significação sempre foram criadas. Por isso não parece correto afirmar serem formas individuais de identidade tidas como únicas. Afinal, sempre e inescapavelmente, cada indivíduo está imerso em outros sistemas simbólicos além dele.[3] É por isso que nenhuma autoridade narrativa pode ser estabelecida sem revelar as suas próprias diferenças.

Neste recorte, creio que três vetores de forças formaram, no período aqui delimitado, a base para a construção da alteridade territorial local - ainda que esta “alteridade territorial” seja entendida como uma licença poética.  No caso, as ligações com Minas Gerais, as tensões com Mato Grosso e a afirmação política do poder estadual no final da década de 1920, formaram estes vetores. Evidentemente que esta separação é puramente acadêmica. Muitas destas forças - senão todas - são sobrepostas e relacionadas. Muitas vezes seguem rumo a um somatório e a um agravamento; outras vezes, atenuam-se. Mudam de rumo, alternam-se, entrecruzam-se. Como forças sociais, raramente seguem rumos determinados. Nisto identificamos a fonte de seu fascínio.

E é neste contexto que olhamos a produção arquitetônica desta região neste período.  

Novas imagens e afirmações políticas

A região sudoeste de Goiás sempre nutriu anseios de ligar-se ao restante do país. Sempre reclamou das precariedades das ligações com as demais regiões produtoras próximas e com a capital, Vila Boa. Desde 1908 a tão esperada ligação com o Sudeste através da estrada de ferro fazia-se anunciada. Em 1909, os trilhos já haviam sido iniciados em Goiás. Em 1911, o primeiro trecho ligando Araguari à estação Engenheiro Bethout, na margem goiana do Paranaíba, estava concluído. Em 1913, foram inauguradas outras estações nos trechos seguintes da ferrovia, interligando Cumari, Goiandira e Ipameri.

Apesar da propaganda, os trilhos não alcançaram - nem nunca alcançariam - a região sudoeste de Goiás. Com a consolidação da estrada de ferro no sudeste e sul, os outros projetos já autorizados pra a região sudoeste não seguiram adiante. A sensação era de frustração. A elite local reclamava do isolamento. O jornal O Jatahy, por exemplo, em 1912 lembrava ao Marechal Hermes da Fonseca que o povo daquelas longínquas paragens havia sido o primeiro a lutar em favor de sua candidatura à Presidência. Era justo que, em “recompensa do esforço,” a região recebesse o beneficio da estrada de ferro. Em troca, o governo poderia contar com os corações amigos dos habitantes locais e o apoio para se sustentar no “alto posto que merecidamente ocupava.”[4]

Para a produção arquitetônica em Goiás, a implantação da estrada de ferro provocou alterações indeléveis. Desde as primeiras edificações - estações ferroviárias, galpões e residências para funcionários -, mostrava novas possibilidades formais e construtivas do que as conhecidas tradicionalmente. Como observou Gustavo Neiva Coelho,[5] as regiões da estrada de ferro passaram a se diferenciar das demais, por uma série de elementos inovadores e modernizantes, assim como passaram a apresentar uma produção inovando em novos materiais, ao mesmo tempo em que apresentava uma nova implantação no terreno.

Enquanto na Europa se discutia o International Style nos Congressos Internacionais da Arquitetura Moderna e em São Paulo Gregori Warchavchik (1896-1972) iniciava a construção daquela que seria considerada a primeira casa modernista do Brasil, nada parecia alterar a produção arquitetônica daquelas paragens de Goiás. As construções seguiam inalteradas com suas estruturas de madeira, fechamento de adobe e simplicidade formal. Os núcleos urbanos de Rio Verde, Caiapônia ou Jataí seguiam com suas ruas de terra, dominadas pela poeira na seca e pela lama no período das chuvas. Ainda que a região representasse um importante ponto de produção pecuária do Estado, a produção arquitetônica seguia os moldes ancestrais desde a primeira metade do século XIX. A influência da estrada de ferro parece ter ficado restrita às imediações da própria estrada, indo de cidade a cidade até alcançar a capital Vila Boa.

Apesar disto a atividade econômica destacava-se e parecia ser, de fato, significativa no contexto estadual. O Censo de 1920 - o primeiro com dados da agropecuária - mostrou Goiás como o 3º produtor de gado nacional, com um rebanho de 3.020.769 cabeças, precedido por Minas, com 7.333.104, e Rio Grande do Sul, com 8.489.496 reses. Depois de Goiás, os estados com maiores rebanhos eram Mato Grosso com 2.831.667 reses; Bahia, com 2.698.104; e São Paulo, com 2.441.989 reses. Não havia como ocultar a pujança da produção do sudoeste goiano: somando os municípios de Rio Verde, Jataí, Mineiros e Rio Bonito, o Censo apontava um rebanho que ultrapassava 488.000 cabeças (16,17% do total estadual). Jataí era o município com maior rebanho bovino (178.720 reses), seguido por Rio Verde (174.800 reses) e Pouso Alto (141.967 reses). Na colocação nacional, entre os maiores produtores, Jataí aparecia na 18º posição e Rio Verde na 20º. Entre os anos de 1920 a 1929 a exportação do gado significou quase a metade de todas as exportações estaduais e 27,69% da arrecadação geral. Entre 1889 e 1932, o estado exportou 3.690.372 reses. Em 1928, ano de maior exportação, este número chegou a 154.229 cabeças.[6] Não eram números desprezíveis.

São, desta maneira, frágeis os argumentos alicerçados em classificar a região sudoeste como engessada por um isolamento asfixiante. Ou, ainda, que ela fosse desconectada da cadeia econômica produtiva. Se isso fosse realidade, pouco importariam as retrações ou incrementos da economia de outras regiões. Ao contrário: não só a região sudoeste de Goiás participava ativamente da vida econômica da região mineira, como era extremamente sensível às suas flutuações. Apesar das consideráveis limitações impostas pelas distâncias, os produtores da região souberam manter a cadeia produtiva funcionando.

Neste contexto, o Estado se esforçava para controlar a produção e arrecadar mais, e os fazendeiros estavam entre os que mais pagavam. Junto aos pontos de arrecadação as rusgas eram diárias. Críticas choviam nas intendências. Os fazendeiros não concordavam, mas de acordo com o governo, os impostos goianos eram “módicos:” em 1925, por exemplo, o Presidente Miguel da Rocha Lima defendeu a taxação fazendária, explicando que ela correspondia a apenas 6% do valor das mercadorias exportadas.[7] Os fazendeiros reclamavam que eram os únicos que pagavam impostos. Era evidente: considerando o quadro econômico da região, eles eram praticamente os únicos que produziam.

Esta análise alicerça a opinião de que, distante do discurso de pobreza, abandono e isolamento, a região sudoeste goiana articulava-se economicamente. Se mais impostos eram cobrados de forma lícita, a conclusão é evidente: mais mercadorias e produtos estavam em circulação. A pecuária provou incontestemente que a economia podia aprumar-se mediante uma atividade menos volúvel que a mineração. Além disto, rompia as barreiras impostas pelas precariedades das circulações.

Com isto, a produção agropecuária seguia conforme as necessidades da época, delimitadas pelas possibilidades de mercado. Isto não significava de modo algum isolamento ou atraso, muito menos, ignorância dos fazendeiros. Ainda que iletrados ou semialfabetizados, eles souberam manter sua produção funcionando, articulando compra e venda de mercadorias em circulação. Isto significava apenas, que a sociedade - assentada na zona rural em torno de núcleos urbanos incipientes - seguia no ritmo que achava conveniente, ainda que este ritmo estivesse descompassado com o que acontecia em Minas e São Paulo.

Desligados da influência da estrada de ferro em Goiás, os moradores da região sudoeste voltaram-se para a única fonte que lhes pareceu disponível: o Triângulo Mineiro. Para Luis Estevam, pelo menos três razões justificam a emergência desta região de Minas como centro mercantil regional. Em primeiro lugar, a posição estratégica evidente em relação ao acesso a São Paulo. Em segundo lugar, a oferta de recursos, tanto próprios quanto oferecidos por Goiás. Por último, a inexistência de resistências culturais ou repulsas entre os grupos sociais vizinhos, como ocorriam nas regiões norte e nordeste do Estado, por exemplo. Parecia haver uma mútua afinidade entre os moradores da região mineira e as limítrofes de Goiás, tanto nas relações econômicas, sócias e culturais. Desfrutavam de uma mesma origem comum, partilhavam os mesmos costumes e o meio sócio-geográfico era praticamente idêntico.[8]

Desde 1918, os automóveis passaram a circular na região e com eles, todo um mundo de consumo que se abria em possibilidades aos abastados fazendeiros. As novidades se sucederam numa velocidade até então desconhecida. Em 1922, iniciaram os trabalhos de uma rede telegráfica entre Jataí e Santa Rita. Em 1926, as ruas e praças de Jataí conheceram a iluminação elétrica, logo em seguida um avião. Periódicos foram criados na região, fazendo eco ao que acontecia em outros locais. O cinema reabriu suas atividades e em pouco tempo os moradores puderam assistir filmes como O Guarani, Inocência, Iracema e Ubirajara. Os proprietários mais abastados não demoraram a adquirir seus próprios veículos.

Ao fim e ao cabo, rapidamente o Triângulo Mineiro se consolidou como referência para as famílias do sudoeste de Goiás. Tornou-se um polo de atração e, além de centro comercial, referência cultural. Era das cidades do Triângulo que vinham diversos professores, músicos e artesãos.

Assumindo a Intendência de Jataí em novembro de 1927, Marcondes de Godoy queria inovar. Mas onde buscar profissionais capazes de traduzir este ideal de progresso e inovação? Não seria na velha capital colonial; tampouco seria na longínqua Cuiabá. O Triângulo Mineiro seria a resposta. Era de lá que haviam chegado a modernidade dos automóveis e da linha telegráfica. Era de lá que viria a modernidade arquitetônica.

Nesse contexto, o edifício da Grupo Escolar Presidente Brasil Caiado [Figura 1] seria um marco. Era o terceiro daquele porte no Estado e quase metade da arrecadação da Intendência estava destinada à sua construção. Os anos de 1925 a 1927 não haviam sido bons para a região: banditismo, pistolagem e a passagem dos revoltosos espalharam medo em todas as cidades do sudoeste de Goiás. Esperava-se que a década de 1920 terminasse melhor.

Inaugurado em dezembro de 1928, a edificação apresenta uma volumetria horizontal dividida em três partes tendo a parte central ligeiramente mais alta. A fachada é marcada por pares de colunas de alvenaria que aparentam sustentar a platibanda decorada. Sobre os vãos das esquadrias, volutas em argamassa marcam certa verticalidade ao conjunto. Sobre a platibanda, a data da conclusão da obra. Urbanisticamente, o edifício foi implantado com um recuo considerável, cotado em um nível mais alto, o que também ressalta a volumetria em relação ao acesso frontal. O interior é mais simples, com menos elementos decorativos. Forro de madeira e pé direito com 4,0 m de altura completava o conjunto.

Tecnologicamente, o edifício inovou. Tijolos cerâmicos substituíram os tradicionais adobes regionais, telhas francesas substituíram as tradicionais de calha e bica e sobretudo as esquadrias de ferro e vidro. Devido às precariedades do transporte, o vidro era um produto praticamente impossível de ser utilizado nas construções. Unanimidade eram as janelas de folhas duplas de tabuas em caixilhos de madeira. Pela primeira vez. os interiores recebiam luz natural filtrada por vidro decorado de amplas janelas basculantes de ferro. Além disto, dotado de energia elétrica e sanitários azulejados, colocava as construções escolares da região em um patamar mais elevado.

Enquanto a construção do colégio seguia seu rumo, os construtores concluíram uma residência. Terminada antes do colégio, a residência que o comerciante Jorge Zaiden [Figura 2] construiu para si e sua família parece ter sido a primeira edificação nos moldes ecléticos da região. Localizada num lote de esquina e sem afastamento, o edifício possuía um programa reduzido com acesso por um alpendre frontal. O interior era sofisticado com forro trabalhado e pintado. Molduras e colunas em argamassa salientavam a volumetria na fachada. Provavelmente, devido ao grande declive do terreno, os construtores optaram por não recuar o edifício, o que aumentaria enormemente o porão. E, ainda que a edificação possuísse um alpendre, sua implantação seguia os moldes tradicionais do alinhamento com as divisas frontais do lote.  

A conclusão destas edificações - uma privada e outra pública - parece ter desatado uma demanda reprimida. Em pouco tempo outros proprietários procuraram os construtores para executar novas obras, como, por exemplo, a residência que o ex-intendente José Pereira Resende construiu para sua família [Figura 3]. Além de cidadão ativo na comunidade, José Pereira Rezende havia se destacado como intendente de 1916 a 1919 e de 1923 a 1927. Comerciante bem-sucedido, como administrador público demonstrou preocupação com a modernização da rede de infraestrutura urbana. Datam de sua gestão as iniciativas para serviço de energia elétrica, melhorias na educação pública, captação e distribuição de água potável. Juntamente com a obra da escola, a residência representou um elemento de distinção para o espaço urbano de sua época. No interior do lote, para que os dormitórios recebessem iluminação e fossem mais bem ventilados, estabeleceu-se o recuo de um ou de ambos os lados da construção; para garantir maior privacidade aos moradores, a casa afastou-se da rua, por meio do estabelecimento do recuo frontal - era ideal para a implantação do jardim em frente à residência como elemento de valorização da arquitetura. A passagem do jardim dos fundos para o jardim lateral ou frontal levou também a alterações na concepção desse espaço livre, que deixou de estar misturado às hortas e pomares, tornando-se fundamentalmente ornamental.[9] A fachada decorada com colunas salientes, cornijas e volutas de argamassa [Figura 4], apresentava-se imponente com a sala no alinhamento frontal. O acesso lateral pelo jardim se fazia mediante uma escada que conduzia a um pequeno alpendre no acesso. Grandes esquadrias de madeira compunham o conjunto. Na platibanda, as iniciais orgulhosas do proprietário “JPR” e a data da conclusão da obra [Figura 5].

Esta produção arquitetônica afirmava-se como representação de uma diferença a apoiar-se numa tradição. Mas não na tradição local, pois esta não servia para representar os ideais de modernidade e progresso que a elite goiana tanto desejava. Fazia-se necessário importar uma tradição reconhecida nos locais mais urbanizados. O Ecletismo servia perfeitamente a esses propósitos: como expressão de uma cultura burguesa, traduzia o que se julgava haver de mais moderno e civilizado.[10] Ainda que tardiamente, fazia-se representar como um processo de modernização, antes que as formas do modernismo alcançassem as lonjuras do sertão. Com isto, ficava exposta a lógica binária através das quais identidades de diferenças são frequentemente construídas. E, ao que parece, não houve estranhamento nem contestações.  Apesar da imprensa sempre ter estado a serviço do Executivo - qualquer que fosse ele -, o novo estilo rapidamente caiu no gosto dos mais abastados. Fosse de oposição ou fosse governista, a nova forma de morar bem encantou.

A modernidade não poderia ser construída com as formas do passado. A partir de meados de 1933, a prefeitura de Jataí proibiu construções com a tradicional estrutura de madeira. Os esteios de aroeira, os barrotes a sustentar os pisos de assoalho e os cachorros dos beirais estavam condenados. As novas edificações deveriam ser construídas dentro dos novos padrões de estética, conforto e higiene. Medidas como esta colocavam um ponto final nas construções tradicionais. Ao mesmo tempo faziam com que construções antes tidas como referência de conforto parecessem arcaicas e obsoletas. Diante de casas como a de José Pereira Rezende, antigas referencias de bom gosto e poder aquisitivo pareciam taperas abandonadas. Além disto, a municipalidade passou a controlar com rigor as construções, demolições e reformas na área urbana. Exigia correções e reformas de fachadas, mandava regularizar invasões de alinhamentos. Os proprietários de imóveis localizados em vias dotadas de sarjetas deveriam fazer os muros e as calçadas. Aquela parte do Brasil ia ser civilizada quer os moradores quisessem, quer não.

Medidas impopulares como estas foram suavizadas com medidas mais amenas, como concurso de jardins, por exemplo. A residência com jardins mais cuidados ganhava isenção fiscal. Com isto a prefeitura procurava “embelezar a cidade” ao mesmo tempo em que trazia a comunidade para perto das iniciativas do Executivo. Batia-se com uma mão, mas acariciava com outra. Ao mesmo tempo, a prefeitura mostrava-se sintonizada com a opinião difundida amplamente nos periódicos de que o jardim era um local tão importante quanto o espaço doméstico. Era o lugar onde a dona de casa encontrava uma pausa nas atividades da casa e uma fonte infinita de satisfação pessoal. Em relação à arquitetura, era a “moldura da casa,” o complemento equilibrado para o espaço construído, considerando que “da natureza brotam as plantas, do homem, a ideia.”

Outras cidades viveram o mesmo fenômeno. Em pouco tempo a nova arquitetura foi ganhando adeptos. Mineiros, Rio Bonito, Santa Rita do Araguaia e Rio Verde não demoraram a desaparecer com os telhados. ocultos por platibandas. e a ter casas mais recuadas da rua. Surgiram novos padrões de intimidade nos quartos e novas disposições das cozinhas, todo um conjunto de novos padrões de gosto em relação ao espaço de morar.            

Espaços públicos: afirmações da modernidade no sertão

Com a revolução de 1930, a queda dos Caiados do governo goiano e a ascensão de Pedro Ludovico Teixeira, o sudoeste de Goiás chegava finalmente ao poder estadual.

Na política da capital, o interventor Pedro Ludovico agia como médico: depois de diagnosticar o mal, de localizar a doença no espaço, o médico tornava o ambiente salubre através da “medicalização”, da higienização da sociedade e do espaço. Estava convicto de que salubridade é um estado das coisas, do meio, transformado e racionalmente preparado de modo que a saúde dos indivíduos possa ser assegurada. Através da higiene pública ele implementaria o controle político-científico do meio, modificando-o para torná-lo salubre.

Fiel seguidor de Pedro Ludovico, o prefeito de Jataí Manoel Balbino logo demonstrou sintonia com as convicções do interventor. O relacionamento entre os dois podia ser descrito como mais que cordial. Balbino não era um homem culto como Pedro Ludovico, mas era um homem viajado. Também não era médico, mas compartilhava de seus ideais higienistas. Conhecia as principais cidades do Brasil e algumas da América Latina. Estava a par do que se fazia no Rio de Janeiro com o intuito de urbanizar a cidade. Como intermediário do comércio de diamantes, conhecia os luxos que a civilização podia oferecer. Nem de longe ele era um “capiau do mato,” um “caipira.” Mantinha os hábitos condizentes com sua região, mas mantinha-se informado da modernidade que ia se construindo no país.

A prefeitura desencadeou medidas de saneamento e um programa de construção. Proibiu a manutenção de vacas, cavalos e suínos dentro do perímetro urbano. Disciplinou o funcionamento do comércio, implantando uma semana inglesa. Instituiu um pedágio para os veículos que transitassem sobre a ponte no Rio Claro. Proibiu o porte de arma e instituiu horário de fechamento de bares e similares. Promoveu a numeração dos imóveis e a identificação das vias públicas. Deu prazo aos proprietários para manter os lotes limpos de mato e proibiu as cisternas nos quintais. Mandou prender os cães perambulando pelas ruas e proibiu correrias a cavalo dentro do perímetro urbano. Nenhuma edificação residencial poderia ser habitada sem que fosse preliminarmente vistoriada pela prefeitura, que deveria atestar a salubridade da edificação.

Muitas destas medidas apenas faziam eco de medidas já tomadas pelas intendências anteriores. O código de Posturas de 1887 da Villa do Jatahy, por exemplo, já trazia limitações no uso das armas de fogo, prescrições referentes a limpeza urbana e das disposições do arruamento.[11] Proibia “os cateretês e outras danças semelhantes com voserias, palmas e bebidas espirituosas dentro da Villa;” proibia também “tiros de arma de fogo, dentro da Villa, excepto nas festividades religiosas ou noites de São João e São Pedro ou para matar qualquer animal feroz ou daninho.”[12] O Código de Posturas de 1893 continha medidas saneadoras e que diziam respeito à urbanidade. O Código de Posturas de 1927, criado na intendência de José Pereira Resende, também continha preocupações sanitárias relativamente severas. Proibia os curtumes e charqueadas, os chiqueiros e a conservação de “cavallares, muares, caprinos, suínos e vaccuns, dentro do perímetro da cidade.”[13] De igual maneira deveriam ser combatidos os insetos nocivos, pernilongos e formigas, e evitadas às doenças contagiosas.[14] A diferença é que a fiscalização, antes de Manoel Balbino, ou não era exercida, ou era exercida languidamente. A partir de 1930 a prefeitura endureceu na aplicação de multas e cobranças. A população iria se modernizar querendo ou não. Não foi implantado o clima de “bota abaixo,” como havia acontecido na reforma urbana de Pereira Passos (1836-1913), prefeito da Capital Federal entre 1902 e 1906, uma vez que não haviam cortiços a serem demolidos. Apesar disto o clima era de reforma e mudança.

Mas uma questão se impunha: como fazer reformas urbanas e obras sem recursos? A arrecadação não era suficiente para fazer frente aos objetivos do executivo. A prefeitura fazia de tudo para aumentar a arrecadação dos impostos, indo atrás dos sonegadores, aumentando prazos e negociando dívidas. A criação de gado ainda era a maior fonte de renda, responsável por aproximadamente 40% da receita. Mas ainda assim as obras demandavam mais recursos. A solução foi pegar 58 contos de Réis emprestados com agiotas locais: a prefeitura não dispunha de dinheiro para realizar as obras, mas poderia pagar as prestações do empréstimo. Com os recursos garantidos as obras tiveram início. O Mercado Público deveria reunir produtores e assim acabar com o comércio de rua: verduras e frutas vendidas em carrinhos de mão não seriam mais toleradas. O Açougue Público deveria colocar um ponto final na falta de higiene no comércio de carnes local. E, finalmente, a Praça 24 de Outubro [Figura 6] - que homenageava à deposição do presidente Washington Luis e inauguração da era Vargas - deveria urbanizar uma área central da cidade.

Localizado numa das extremidades da Praça 24 de Outubro, o edifício do Mercado era relativamente simples: possuía poucos fechamentos laterais e cobertura em quatro águas com telhas francesas. Já Açougue Municipal [Figura 7] era mais elaborado: o pequeno edifício ocupava uma esquina, possuía platibanda de alvenaria, frontão decorado, fachada adornada com colunas em relevo e portas de ferro forjado. O interior mostrava as preocupações com a higiene: paredes revestidas de azulejos, piso de ladrilhos hidráulicos e bancadas de mármore. A Praça 24 de Outubro recebeu ajardinamento, calçamento, pavimentação e iluminação. Em seu ponto central foi construído um coreto [Figura 8] que logo se transformou num ponto de encontro para a comunidade.

As obras foram relativamente rápidas. Em meados de 1932, o Mercado já estava funcionando. A prefeitura precisava de dinheiro e a renda de 5% sobre as vendas diárias do Mercado não podia ser desperdiçada. O Açougue foi inaugurado em maio de 1934. As obras da praça estavam adiantadas e em março de 1933 as lideranças políticas locais criaram uma oportunidade de afirmação de poder. O interventor Pedro Ludovico veio à região para inaugurar as obras da prefeitura. Discursos, bailes, churrascos e jantares se sucederam por três dias. Pedro Ludovico encontrou estradas cascalhadas, pontes refeitas e cidade urbanizada. O cenário para Manoel Balbino dificilmente poderia ser mais positivo.  Ele próprio dizia ter encontrado a Prefeitura com uma renda de cerca de 150 contos e que em dois anos de governo esta renda havia excedido 200 contos. Dizia também que o município possuía um rebanho superior a um milhão de cabeças e que sua administração tinha por preocupação: “Dotá-lo de todos os meios modernos de conforto e aformoseamento. Assim não me descuro do asseio e ajardinamento das praças, construção de açougues, mercado, estradas e, ultimamente, de um jockey para corrida de cavalos.”[15] 

Além das preocupações higienistas e sanitárias, a ação da prefeitura não escondia a missão de “formar o gosto” da população. Como diversos outros, Manoel Balbino estava convicto e que a arquitetura civilizaria a população. Fazia eco às palavras de Olavo Bilac (1865-1918) que havia dito que a melhor educação era a que entrava pelos olhos. Bastaria que, daquele solo onde só existiam taperas, surgissem alguns edifícios decentes para que nas almas mais incultas brotasse de súbito a fina flor do bom gosto. Com isto, as cidades da região viveram uma experiência que era, até aquela data, inédita. Entraram em contato com a premissa de que o espaço urbano moderno, além de moradia e espaço de vivência, era comércio, espetáculo, comunicação e mercado.

Esta produção mostra o quão distante estavam as influências da estrada de ferro e da capital do Estado. Nada vinha da velha Vila Boa, tudo vinha de Uberlândia, Uberaba e Araguari. As relações com a capital limitavam-se aos assuntos formais e governamentais, mas pela arquitetura e pelos costumes a região sudoeste de Goiás estreitava laços com a região de Minas e com São Paulo.

A nova arquitetura que se construía na região desencadeou um momento de articulação de diferenças culturais. Era um “entre-lugar” a fornecer o terreno para a elaboração de estratégias de subjetivação - singular ou coletiva - a iniciar novos signos de identidades, contestações e colaborações no ato de definir a própria ideia de sociedade.[16]

Novos valores passaram a ser colocados para uma comunidade acostumada a outros, mais antigos e já bastante consolidados. Novos parâmetros colocaram em questão as relações entre tradição e modernidade, redefiniram as fronteiras habituais entre o público e o privado bem como recolocaram as perspectivas de desenvolvimento e progresso. Eram questões que já haviam sido enfrentadas em outros locais do país, mas que então alcançaram o território do sudoeste de Goiás.

Referências bibliográficas

ARAGÃO, Solange de. A casa, o jardim e a rua no Brasil do século XIX. Em Tempo de Histórias - Publicação do Programa de Pós-Graduação em História PPG-HIS/UnB, n.12, Brasília, 2008.

BHABHA, H. Nacion e Narracion. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editora, 2010.

_____. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.

CHAUL, N. F. (org.). Coronelismo em Goiás. Goiânia: editora Kelps, 1998.

COELHO, Gustavo N.. Arquitetura em Goiás IV. O Ecletismo na Arquitetura Goiana. Casa Abalcoada, 24 jan. 2015. Disponível em: http://casaabalcoada.blogspot.com/2015/01/arquitetura-em-goias-iii_24.html  Acesso em 08 ago. 2018.

FABRIS, Anna Teresa. Ecletismo na arquitetura brasileira. São Paulo: Nobel, 1987.

MELLO, D. C. Jatahy. Páginas esquecidas. Jatai: Sudográfica, 2001.

MORAES, Maria A. de S; PALACIN, Luis. História de Goiás. Goiânia: UFG, 1975.

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[1] BHABHA, 2010, p. 398.

[2] Idem, p. 386.

[3] Idem, p. 412.

[4] O Jatahy, n. 66, 10 mai 1912, apud FRANÇA, 1979, p. 209-210.

[5] COELHO, Gustavo N.. Arquitetura em Goiás IV. O Ecletismo na Arquitetura Goiana. Casa Abalcoada, 24 jan. 2015. Disponível em: http://casaabalcoada.blogspot.com/2015/01/arquitetura-em-goias-iii_24.html Acesso em 08 ago 2018.

[6] MORAES, 1975, p. 94.

[7] Mensagem Enviada à Câmara dos Deputados de Goyas. Coronel Miguel da Rocha Lima. Ed. 1, 13 mai. 1925, p. 24. Disponível em: http://brazil.crl.edu/bsd/bsd/u197/000521.html Acesso em 20 set 2017

[8] CHAUL, 1998, p. 83.

[9] ARAGÃO, 2008, p. 152.

[10] FABRIS, 1987.

[11] Posturas da Camara Municipal Da Villa do Jatahy, municipio do mesmo nome Approvadas e em execução de conformidade Com a Lei de 1º. de Outubro de 1828, Artº. 72.

[12] Lei n. 119 de 19 de Fevereiro de 1927

[13] Idem, Art. 94, p. 18.

[14] Em casos de suspeita de moléstias contagiosas, como a varíola, a tuberculose ou a febre amarela, a Intendência Municipal deveria ser imediatamente avisada, mesmo se o suspeito estivesse em pensões ou hotéis.

[15] Diário de Notícias, Rio de Janeiro 16 jul. 1933 apud MELLO, 2001, p. 152-153.

[16] BHABHA, 2014, p. 20.